



RECOMEOS

Danielle Steel


Este livro foi digitalizado e corrigido por Katia Oliveira em Junho de 2002.

Se desejar livros no gnero, escreva para katiaoliveira@uol.com.br


Sinopse:

 Oliver Watson tinha tudo o que se podia esperar: era um bom marido, um magnfico pai, aplicado, e um profissional de xito. Porm, isso no era o suficiente para
Sarah, sua mulher, pois ela necessitava ampliar seus horizontes; a vida caseira, que tanto agradava a seu marido, soava-lhe montona e opressiva. Por isso, Sarah
decide abandonar Oliver. Este, completamente abalado, encontra-se sozinho e com o encargo de cuidar de seus trs filhos. Oliver se v obrigado a aprender praticamente
tudo: conquistar o carinho de seus filhos e a ser tocado novamente pelo amor. Recomeos  um romance que fala de sacrifcio e entrega, porm, tambm da luta para
recuperar a felicidade perdida.



Ttulo original: Daddy

Traduo: Aulyde Soares Rodrigues 

Projeto grfico: Noem Reyes 1989 by Danielle Steel

 Distribuidora Record de Servios de Imprensa S. A.

Realizao: Sintagma

Direitos exclusivos de publicao em lngua portuguesa para o Brasil adquiridos pela: DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S. A. Rua Argentina 171  Rio 
de janeiro, RJ - 20921-380 - Tel.: 585-2000

Nmeros atrasados A Editora Record mantm as suas publicaes em estoque por um perodo de at 6 meses aps seu recolhimento das bancas, desde que o produto no 
se esgote.
As edies j recolhidas so vendidas pelo preo da ltima edio colorada em bancas.
Para adquiri-las proceda da seguinte forma: 1. Nas bancas Atravs do jornaleiro ou do distribuidor da sua cidade. 2. Fernando Chinaglia Distribuidora Dirigindo-se 
ou escrevendo para o seguinte endereo: 
DISK BANCA Av. Marginal da Rodovia dos Bandeirantes, 100 - Bairro do Engordadouro, Distrito Industrial de Jundia - SP, CEP
13210-835. Telefone: (11) 4815-5574 e-mail diskbanca@fclogistica.com. br
Distribuio exclusiva para o Brasil Fernando Chinaglia Distribuidora S. A. Rua Teodoro da Silva, 907 - Tel.: (21) 3879-7766 Rio de Janeiro, RJ - CEP 20563-900

ISBN: 85-01-163058 Depsito Legal: B-20090-2001 Impresso em Espanha - Printed in Spain Impresso e encardenao: Cayfosa-Quebecor (Barcelona)
       
PAPAI
       
       Para o melhor dos pais 
       Que conheo... vezes nove! 
       O pai deles... 
       Nosso pai... Meu pai! 
       De todo o meu corao, 
       Com todo o meu amor, 
       Ao papai outra vez, mas agora de todos ns, 
       com todo o meu corao minha e alma, meu amor, 
       de
       Oliver.
       
Papai
       
       Primeiro amor, 
       primeiro filho, 
       ou talvez uma filha preciosa, gil e doce,
       sua mo cheia de segurana, 
       seu amor to puro,
       sua lealdade para eles maravilhosa, 
       sua pacincia vasta
       e seu corao maior do que o cu, 
       o fermento para suas vidas, 
       o sol brilhante no seu cu,
       aquele para quem sempre se voltam, 
       o homem por quem eles vivem,
       a chama do amor to viva, 
       sua sabedoria sempre certa, 
       sua mo to forte raramente errado,
       to doce, to perto, to querido, 
       sempre o centro de tudo,
       e uma vez to alto, 
       seu amor por eles nunca esmaecido, 
       sempre alegre, belo, encantador, 
       ensinando erguendo a mo para as estrelas, 
       dirigindo carros engraados, 
       a mo amorosa e o corao para todas as garotas 
       e todos os garotos, 
       homem adorado, eterno amigo
       como vocs so felizes, filhos amados
       de ter esse homem como seu pai.
       
Captulo 1
       
       A neve caa em grandes flocos brancos, pregados uns aos outros, como um desenho nos livros de contos de fadas que Sarah lia quando criana. Sentada na frente 
da mquina de escrever, olhou pela janela a neve que cobria o gramado, enfeitava as rvores com pingentes de renda e esqueceu por completo a histria que desde aquela 
manh danava em sua mente. Era um espetculo to pitoresco, to bonito. Ali tudo era bonito. Uma vida de contos de fadas numa cidade de contos de fadas, e o povo 
parecia gente de conto de fadas. Eram todos exatamente o que Sarah sempre desejou ser, e agora se tornara um deles, como sempre fora e provavelmente como sempre 
seria. Sarah MacCormick, a rebelde, diretora assistente do Crimson, formada em Radcliffe, em 1969, primeira da classe, sabia que era diferente e agora se tornara 
um deles. Da noite para o dia, ou quase. Na verdade foram precisos quase vinte anos. E agora ela era Sarah Watson. A Sra. Oliver Wendell Watson. Morava em Purchase, 
Nova York, numa bela casa, quase inteiramente paga, depois de 14 anos de luta com a hipoteca. Tinha trs filhos, um cachorro, o ltimo hamster morrera afinal no 
ano anterior. E tinha um marido que ela amava. Querido e doce Ollie. Quando Sarah terminou o curso em Radcliffe, Ollie formou-se em Administrao de Empresas, em 
Harvard, e amavam-se desde o segundo ano da universidade. Mas Ollie era tudo que Sarah no era. Era conservador, e ela contestadora. Ollie acreditava que era certo 
que haviam feito no Vietn e durante um tempo Sarah quase o odiou por isso. Chegou a deixar de v-lo, logo depois da formatura, insistindo em dizer que eram muito 
diferentes. Ela foi ento morar no SoHo, em Nova York, comeou a escrever e estava indo muito bem. Teve dois trabalhos publicados na Atlantic Monthy, e um... incrvel!... 
no New Yorker. Sarah sabia que era boa no que estava fazendo. E Oliver morava com dois amigos num apartamento na Rua 79 Leste, e tinha um bom emprego numa agncia 
de publicidade na Madison Avenue. Sarah queria odi-lo por tudo isso, por seu conformismo, mas no podia. Mesmo nesse tempo, sabia o quanto o amava.
       Oliver falava de coisas como morar no campo, ter cachorros irish setter, dizia que queria quatro filhos, uma mulher que no trabalhasse fora, e Sarah zombava 
dele. Mas Oliver apenas sorria, com aquele largo sorriso de garoto, que fazia o corao dela bater mais forte... mesmo quando ela procurava se convencer de que queria 
um homem com cabelos mais compridos do que os dela... um artista... um escultor... um escritor... um homem "criativo". Oliver era criativo e inteligente. Formara-se 
com distino em Harvard e nunca se deixara influenciar pelos modismos dos anos sessenta. Quando Sarah fazia suas marchas de protesto, ele a tirava da cadeia, quando 
ela brigava, xingando-o inclusive, ele explicava calma e racionalmente no que acreditava. E Oliver era to decente, to bondoso, era seu melhor amigo, mesmo quando 
a deixava furiosa. Encontravam-se na Village, s vezes, ou fora do centro da cidade para um caf, ou drinques, ou almoo, e ele contava o que estava fazendo e queria 
saber tudo sobre o que Sarah escrevia no momento. Oliver reconhecia o talento dela, mas no compreendia por que no era possvel ser "criativa" e casada.
       - ...casamento  para as mulheres que procuram algum para sustent-las. Eu quero tomar conta de mim mesma, Oliver Watson.
       E era capaz disso, ou pelo menos foi, de certo modo. Tinha trabalhado meio expediente numa galeria no SoHo e era ao mesmo tempo escritora free-lance. Ganhava 
dinheiro com isso. s vezes. Mas agora, em certos momentos, Sarah perguntava a si mesma se seria ainda capaz de se cuidar sozinha, preencher o formulrio do imposto 
de renda e no deixar caducar a aplice de seguro. Nos 18 anos de casada havia-se tornado muito dependente dele. Oliver se encarregava de todos os pequenos problemas 
da sua vida, e uma boa parte dos grandes. Era como viver num mundo hermeticamente fechado, com Ollie sempre ali para proteg-la.
       Dependia dele para tudo, e isso muitas vezes a assustava. E se acontecesse alguma coisa a ele? Seria capaz de controlar tudo? Manter a casa, a si mesma e 
s crianas? 
       s vezes tentava falar no assunto com ele, mas Oliver ria, dizendo que ela no precisava se preocupar. No tinham uma fortuna, mas estavam bem e ele era muito 
responsvel. Tinha muitos seguros de vida. A Madison Avenue fora generosa e aos 42 anos era o nmero trs na hierarquia de Hinkley, Burrows e Dawson, uma das maiores 
agncias do pas. Estava encarregado das quatro maiores contas e era valioso para a firma, e respeitado por todos. Fora um dos mais jovens vice-presidentes, e Sarah 
orgulhava-se dele. Mas isso tambm a assustava. o que ela estava fazendo ali, no encantador bairro de Purchase, vendo a neve cair e esperando que as crianas chegassem 
em casa, enquanto fingia escrever uma histria... uma histria que jamais seria escrita, jamais seria terminada, jamais iria a lugar algum, como todas as outras 
que havia tentado escrever nos dois ltimos anos. Na vspera do seu 39 aniversrio, Sarah decidira voltar a escrever. Uma deciso importante para ela. Na verdade, 
completar 39 anos era muito pior do que fazer quarenta. Aos quarenta ela estaria resignada  "desgraa iminente", como a chamava. Ela e Oliver passaram um ms na 
Europa para comemorar seus quarenta anos. Os dois mais velhos ficaram no acampamento de vero, e sua sogra ficou com Sam, que tinha apenas sete anos ento, e foi 
a primeira vez que Sarah o deixou. Sua chegada a Paris foi como se se abrissem as portas do cu... sem os revezamentos de mes no transporte de crianas... sem crianas... 
sem animais de estimao... sem reunies de pais no colgio... nada de jantares beneficentes para a escola ou para os hospitais locais... ningum... nada... s os 
dois, e quatro semanas inesquecveis na Europa. Paris... Roma... atravessar a Toscana de carro, uma parada rpida na Riviera italiana, e depois alguns dias num barco 
alugado, navegando entre Cannes e St. Tropez... de carro outra vez at Eze e Saint-Paul-de-Vence, e jantar no Colombe d'Or. E, para terminar, os movimentados dias 
em Londres. Sarah escreveu constantemente durante a viagem, enchendo sete cadernos de notas. Mas quando chegou em casa... nada. Nada daquilo parecia querer se transformar 
numa histria, num conto, artigo, ou poema. Ela ficou ali, olhando para os cadernos, com uma folha em branco na mquina de escrever. Um ano e meio depois, tudo continuava 
na mesma. Com 41 anos, era como se j tivesse vivido toda a sua vida. E Oliver sempre achava graa quando Sarah dizia isso.
       - Por Deus, Sarrie... voc no mudou nada desde que nos conhecemos.
       E ele estava sendo sincero. Era quase verdade, mas apenas quase. Ela e todos que tivessem olho crtico podiam ver a diferena. O cabelo vermelho-escuro, que 
antes caa pelas costas em camadas de cobre brilhante, era agora castanho-avermelhado. Ela o usava at os ombros e havia muitos fios brancos, que incomodavam mais 
aos filhos do que a ela. Os olhos eram os mesmos, com um azul-escuro e vibrante, e a pele sedosa continuava bonita, quase sem rugas, apenas pequenos traos do tempo 
aqui e ali, mas para Oliver eles davam mais expresso ao rosto. Sarah era uma mulher bonita, e fora uma jovem bonita, longilnea e elegante, corpo bem-feito e mos 
graciosas e um senso de humor que danava nos olhos. Foi o que Oliver amou logo no comeo. Seu riso e sua vivacidade, e sua coragem, e a determinao de ser fiel 
s suas crenas. 
       Quando ela era jovem, muitos a achavam difcil, mas no Ollie. Nunca Ollie. Ele gostava do seu modo de pensar, das coisas que ela dizia e do modo como as 
dizia. Seu relacionamento foi construdo sobre uma base de respeito mtuo e carinho e eram muito bons na cama. Sempre haviam sido. s vezes ele at achava que, depois 
de vinte anos, eram melhores ainda. O que era verdade, de certo modo. Eles se conheciam perfeitamente, como madeira macia tocada e acariciada milhares de vezes por 
mos amorosas com a ternura da unio verdadeira.
       Oliver levou dois anos para convenc-la a se casar com ele, depois do intervalo do SoHo, e aos 23 anos ela se tornou a Sra. Oliver Watson. Protestando sempre, 
como era do seu feitio, no quis um casamento tradicional.
       Casaram-se no jardim dos pais dele, em Pound Ridge, e os pais dela e sua irm mais moa foram de Chicago para a cerimnia. Sarah usou um vestido vermelho 
vivo e um chapu de aba larga. Parecia mais uma figura num quadro do que uma noiva, mas os dois estavam felizes. Passaram a lua-de-mel nas Bermudas.
       O tempo estava horrvel, mas eles no notaram. Riam, brincavam, ficavam na cama at o meio da tarde, aparecendo apenas para um pequeno reconhecimento no restaurante 
do hotel. Voltavam para o quarto, rindo e brincando como duas crianas.
       Trs semanas depois disso, Sarah comeou a achar que o casamento no era to divertido. Moravam num pequeno apartamento na Segunda Avenida, num prdio cheio 
de aeromoas, jovens executivos e "solteiros" que pareciam transformar o prdio inteiro numa festa constante.
       Oliver voltou do trabalho e a encontrou com cara de quem perdeu a melhor amiga. Mas no se tratava de nenhuma amiga, era obra do "coelho". Logo que voltaram 
da lua-de-mel, Sarah estranhou a falta da menstruao, mas como havia usado religiosamente o diafragma, nem pensou que pudesse estar grvida. 0 diafragma fora usado 
quase noite e dia, at voltarem da lua-de-mel, mas alguma coisa tinha sado errada e ela estava grvida. E queria fazer um aborto. Oliver ficou horrorizado com a 
idia. Porm, Sarah estava mais horrorizada com a possibilidade de ter um filho to depressa.
       - No queremos filhos ainda... quero trabalhar outra vez... fazer alguma coisa.
       Pensava em conseguir um emprego de editora numa revista literria. Suas histrias no estavam vendendo muito bem e ela havia se matriculado no curso de graduao 
da Universidade de Columbia para terminar seu mestrado. Quando casou, deixou o emprego na galeria, porque no era conveniente ir ao SoHo todos os dias.
       - Voc pode trabalhar depois! - disse Ollie, procurando convenc-la e ao mesmo tempo consol-la.
       Mas Sarah no se conformou, e todas as noites Oliver voltava para casa aterrorizado... e se ela tivesse feito o aborto... se tivesse procurado algum enquanto 
ele estava trabalhando? Mas Sarah no fez. Em parte porque estava enjoada demais, cansada demais, deprimida demais para fazer qualquer coisa, limitando-se a andar 
pelo apartamento e perguntando a si mesma como havia deixado acontecer. Mas Oliver estava encantado. Sempre dizia que iam ter quatro filhos e mesmo que, naquela 
poca, representassem um peso no oramento, estava disposto a enfrentar as dificuldades. Ele ia bem no trabalho, subia rapidamente na firma, e mesmo que estivessem 
passando fome no permitiria que ela fizesse um aborto. Era o filho dos dois. E ele amou a criana muito antes dela nascer.
       Benjamin Watson chegou com um chumao de cabelo vermelho no alto da cabea, e uma expresso de espanto nos olhos brilhantes, exatamente nove meses e trs 
dias depois do casamento dos pais. Parecia ansioso para descobrir o mundo, chorava muito e, para encanto de Oliver, maravilhado por ser pai, o beb era igualzinho 
 me. Benjamin cresceu rpido e tinha mais do que os traos da me. Tinha sua fora de vontade, sua teimosia e seu gnio esquentado. Havia momentos em que Sarah 
pensava que ia estrangul-lo, antes que Oliver chegasse em casa para acalmar os nimos. Em poucos minutos o beb estava feliz, balbuciando no colo do pai, brincando 
satisfeito, enquanto Sarah deixava-se cair exausta, numa cadeira, com um copo de vinho na mo, imaginando quanto tempo mais ia agentar. Definitivamente ser me 
no era seu forte e o apartamento, pequeno demais, a estava deixando louca. Quando o tempo estava ruim, o que era freqente naquele ano, no podiam sair e os gritos 
do beb ecoavam irritantemente pelas quatro paredes. Oliver queria sair da cidade, comprar uma casa, mas isso era ainda um sonho distante. Sarah falou em arranjar 
um emprego, mas sempre que faziam os clculos verificavam que seria intil, pois o que ela podia ganhar daria apenas para pagar uma bab, no ajudando em nada na 
economia para a compra da casa. Isso seria um motivo para sair de casa, e embora a idia a agradasse, Oliver achava mais importante ela ficar com o filho.
       - Por falar em chauvinismo, Ollie, o que voc quer que eu faa? Que fique o dia inteiro falando sozinha at enlouquecer?
       Em certos dias Sarah tinha a impresso de que no ia agentar e a idia de ter quatro filhos a fazia pensar em suicdio. 
       Seus pais no podiam ajudar porque moravam em Chicago e, apesar de bem-intencionados, no eram muito melhores do que ela. Oliver era filho nico e aparentemente 
sua me havia esquecido o que era cuidar de uma criana. Benjamin a deixava nervosa. Mas no tanto quanto enervava Sarah.
       Finalmente, Benjamin comeou a andar e tudo ficou mais fcil. Tinham atravessado a parte pior. Alugaram uma casa em Long Island para o vero e no ano seguinte 
ele podia entrar para uma creche... mais um ano... Sarah estava quase livre... e logo poderia voltar a escrever. No pensava mais em arranjar um emprego. Queria 
escrever um livro. Quando tudo comeava a melhorar, ela apanhou uma gripe, a mais terrvel de todas as gripes, e depois de um ms estava certa de que ia morrer. 
Nunca estivera to doente em toda a sua vida. o resfriado no passava, tinha uma tosse de tuberculosa e nuseas, de manh at a noite. No fim de um ms de luta inglria, 
resolveu fazer a despesa e procurou um mdico. Sarah estava gripada, mas tinha mais do que isso. Ia ter outro filho. Dessa vez no houve cenas de raiva, nem acessos 
de fria, apenas desespero e choro que, para Oliver, parecia durar horas e horas. Sarah no podia enfrentar tudo outra vez. No podia cuidar de outro filho e Benjamin 
ainda usava fraldas. Agora seriam dois. Foi a nica vez que Sarah viu Oliver deprimido tambm. Ele no sabia o que fazer para anim-la. Como antes, estava entusiasmado 
com a idia de ter outro filho, mas dizer isso a ela s a fazia chorar mais.
       - Eu no posso... simplesmente no posso, Ollie... por favor... no me obrigue.
       Discutiram outra vez sobre aborto, e ela quase o convenceu. Oliver temia que Sarah fosse enlouquecer se no concordasse. Mas finalmente conseguiu que ela 
desistisse da idia e ele conseguiu um aumento que foi todo usado para pagar uma mulher, trs vezes por semana, para ajudar Sarah com Benjamin. Era uma jovem irlandesa 
com 12 irmos e exatamente o que Sarah precisava. De repente ela podia sair, ir s bibliotecas, encontrar com amigas, visitar galerias de arte e museus e seu estado 
de esprito melhorou sensivelmente. Comeou at a sentir prazer na companhia de Benjamin e uma vez ou outra o levava a um museu. E Oliver sabia que, embora no admitisse, 
Sarah esperava ansiosamente pelo segundo filho.
       Quando Melissa nasceu, Benjamin estava com dois anos e Oliver comeou a pensar seriamente em se mudar para o campo. Quase todos os fins de semana iam ver 
casas em Connecticut e finalmente concluram que estava acima das suas possibilidades. Passaram a procurar em Long Island, Westchester e agora era o programa obrigatrio 
de todos os fins de semana. Pound Rudge, Rye, Bronxville, Katonah e finalmente, depois de anos, encontraram o que queriam em Purchase. Era uma antiga casa de fazenda, 
vazia havia vinte anos, que precisava de muitas reformas. A casa era parte de uma grande propriedade que eles compraram por uma pechincha, de um inventrio. Uma 
pechincha que para eles representou muitos anos de economia e de trabalho, mas fazendo eles mesmos quase tudo, depois de um ano tinham uma casa bonita e orgulhavam-se 
dela. "Mas isso no quer dizer que vou ter mais filhos, Oliver Watson!" Para ela, bastava o sacrifcio de morar fora da cidade. Quando eram ainda namorados, Sarah 
havia jurado a si mesma que nunca faria isso. Mas agora tinha de admitir que era mais lgico. No podiam mais morar no apartamento da Segunda Avenida e tudo que 
tinham visto na cidade era pequeno demais e ridiculamente caro. Agora, cada criana tinha o prprio quarto.
       Havia a sala de estar, imensa, mas aconchegante, a biblioteca que eles carinhosamente estavam enchendo de livros, uma cozinha acolhedora com duas paredes 
de tijolos, pesa das vigas de madeira no teto e um fogo antigo, que Sarah fez questo de conservar, depois de uma reforma. A casa tinha enormes janelas francesas 
que davam para o que ela, quase miraculosamente, havia transformado num jardim e ela podia ver as crianas brincando l fora enquanto cozinhava. Com a mudana, Sarah 
perdeu a jovem irlandesa e em parte foi bom, porque no momento no podiam pagar uma empregada.
       Benjamin j estava com trs anos e passava as manhs na escola. Dois anos depois, Melissa tambm entrou para a escola, e Sarah resolveu voltar a escrever. 
Mas de certo modo no tinha mais tempo. Sempre parecia ter algo para fazer. Trabalhava como voluntria no hospital local, uma vez por semana na escola dos filhos, 
levava crianas ao colgio em determinados dias, arrumava a casa, passava as camisas de Ollie e trabalhava no jardim. Era bem diferente do que fazia como editora 
do Crimson. Mas, por mais estranho que parecesse, Sarah no se importava.
       Quando deixaram Nova York foi como se uma parte dela tivesse ficado para trs, a parte que lutava ainda contra as imposies do casamento e da maternidade. 
De repente, sentia se parte daquele mundo pequeno e pacato que a rodeava. Conheceu mulheres que tinham filhos da idade dos seus. Nos fins de semana, ela e Ollie 
jogavam tnis e bridge com outros casais, seu trabalho voluntrio parecia exigir mais dela a cada dia, e a luta e o desespero pareciam ter desaparecido por completo. 
E com eles, seu desejo de escrever. Nem sentia falta agora. Queria apenas o que tinha, uma vida feliz e ocupada com o marido e os filhos.
       Os primeiros meses agitados de Benjamin eram agora uma lembrana distante e ele transformou-se numa criana alegre e simptica, parecido com a me, no apenas 
fisicamente, mas compartilhando seus interesses, paixes e valores. Era como uma pequena, esponja, absorvendo tudo que ela era e, de muitos modos, um espelho fiel 
de Sarah. Oliver percebia isso e comentava, divertido, e embora no admitisse para ningum, Sarah sentia-se lisonjeada. Benjamin era to parecido com ela! Melissa 
era tambm uma criana encantadora, mais fcil do que Benjamin na sua idade e, de certa forma, mais parecida com o pai. Tinha um sorriso descontrado e encarava 
a vida com otimismo e felicidade. No parecia querer muita coisa dos pais. Contentava-se em acompanhar Sarah, levando sempre um livro, uma boneca ou um jogo de armar. 
s vezes Sarah chegava a esquecer que ela estava no quarto ao lado. Era uma menininha pouco exigente, com os cabelos louros e os olhos verdes do pai, mas no se 
parecia com ele. 
       Parecia mais com a me de Oliver. Sarah ficava aborrecida quando os pais do marido chamavam a ateno para esse fato.
       Jamais chegou a ser amiga da me de Oliver. A Sra. Watson, sem se importar com discrio, disse a Oliver exatamente o que ela pensava de Sarah, antes do casamento. 
Sarah era uma moa voluntariosa, difcil, que fazia tudo para conseguir o que queria, do modo que queria e a me tinha medo de que no futuro Oliver viesse a ser 
profundamente magoado por ela. Agora, quando seu marido defendia a nora, tinha de admitir, embora com relutncia, que Sarah era uma boa esposa para Oliver. Porm 
Sarah tinha a impresso de que a sogra estava sempre alerta,  espera de uma falha, um erro, alguma coisa terrvel que, no fim, lhe desse razo. A nica alegria 
que as duas compartilhavam eram as crianas. A Sra. Watson encantava-se com os dois, e Sarah os amava agora como se os tivesse desejado desde o comeo. Mas a sogra 
lembra-se ainda que no fora assim. Oliver jamais disse uma palavra, mas sua me percebeu perfeitamente o que estava acontecendo. Era uma mulher inteligente, observadora 
e sabia muito bem que Sarah no ficara feliz com nenhuma gravidez e que praticamente havia rejeitado Benjamin nos primeiros meses. Na verdade, ele no foi uma criana 
fcil. Ela tambm ficava irritada com aquele choro constante. Mas tudo isso estava esquecido agora, as crianas cresciam rpido, e Sarah e Oliver pareciam felizes, 
sempre ocupados, vivendo muito bem. Finalmente Sarah havia desistido de suas aspiraes literrias, que sempre pareceram um tanto excessivas para a Sra. Watson.
       - Ela  uma boa moa, Phyllis. No seja to severa. Sarah era muito jovem quando se casou. E Oliver  muito feliz com ela. - O pai de Oliver sempre fora mais 
filsofo do que a me.
       - Eu sei... mas tenho sempre a impresso de que ela quer mais alguma coisa, algo fora do seu alcance... e que vai custar muito caro a Oliver.
       Uma observao mais astuta do que ela podia imaginar. Mas George Watson balanou a cabea com um sorriso complacente.
       - Ollie sabe como cuidar dela.
       - No estou muito certa. Acho que ele est pronto para permitir que Sarah faa o que quiser, por mais caro que seja para ele. Oliver  esse tipo de homem. 
- Sorriu suavemente para o marido que ela amava havia quase quarenta anos, anos preciosos demais para serem contados. Havia muito tempo que eram um s corpo e uma 
s alma. Phyllis sequer podia lembrar uma vida sem ele. - Oliver  como o pai. Bom demais. s vezes isso pode ser perigoso nas mos da mulher errada. Mesmo depois 
de todos aqueles anos, ela continuava a se preocupar com o filho e a desconfiar de Sarah. Mas o elogio no passou despercebido ao marido, e ele olhou para a eterna 
namorada com o sorriso que ainda a fazia estremecer.
       - D algum crdito a Sarah, Phyllis. Ela no fez nada para magoar nosso filho, e deu a ele, e a ns, duas belas crianas.
       Belos, sem dvida, e embora nenhum dos dois parecessem com o pai, tinham algo da sua beleza clssica. Oliver era alto e elegante, com a graa do atleta, e 
seus cabelos, louros e lisos, eram a inveja de todas as mes, quando era pequeno e de todas as jovens, na universidade. Embora Sarah raramente admitisse na frente 
dele, para no inflar muito seu ego, vrias vezes ouvira dizer que Oliver Watson era o homem mais bonito de Purchase. Durante seis meses, no ano, sua pele tinha 
um belo tom bronzeado e os olhos verdes pareciam danar, alegres e maliciosos. O fato de Oliver ignorar tudo isso o tornava mais atraente ainda.
       - Voc acha que eles vo ter mais filhos, George? - perguntava Phyllis ao marido, mas nunca ao filho e muito menos a Sarah.
       - No sei, querida. Acho que eles j tm uma vida bem completa agora. E nos dias de hoje nunca se sabe o que pode acontecer. Oliver est num negcio pouco 
seguro. Publicidade no  como trabalhar num banco, na minha mocidade. No se pode contar com coisa alguma hoje. Provavelmente  mais prudente para eles no terem 
mais filhos.
       Havia um ano George Watson vinha dizendo isso. Vivera o suficiente para ver seus investimentos, antes to slidos, comearem a diminuir em quantidade e valor. 
O custo de vi da era espantosamente alto, e ele e Phyllis precisavam dirigir as coisas com muito cuidado. Tinham uma bonita casa em Westchester, comprada havia 15 
anos, quando Oliver estava na universidade. Sabiam que ele ia ficar muito tempo ausente e acharam que seria tolice continuar na velha casa em New London. Mas agora 
George preocupava-se constantemente com as finanas. No estavam numa situao difcil de modo nenhum, mas se vivessem mais 25 anos, o que podia acontecer, e ele 
esperava que acontecesse, uma vez que Phyllis tinha 59 e ele, 62, poderiam chegar ao limite das suas economias. George acabava de se aposentar do banco e recebia 
uma boa penso. Alm disso havia feito bons investimentos, mas, mesmo assim, era preciso ser prudente. Ele sempre dizia isso para Oliver. George havia visto muita 
coisa em sua vida, uma grande guerra e vrias outras menores. Lutou em Guadalcanal e, por sorte, sobreviveu. Tinha 12 anos em 1929, o ano da quebra da bolsa, sabia 
o que era o horror da depresso, e durante aqueles anos vira a economia do pas subir e descer vrias vezes. Queria que o filho fosse precavido.
       - No vejo por que eles iam querer mais filhos. Sarah concordava plenamente com ele. Era uma das poucas coisas em que ela e George Watson combinavam. Quando 
ela e Oliver falavam no assunto, uma vez ou outra, na cama,  noite, ou como naquele dia, num calmo passeio pelos bosques de Purchase, Sarah sempre dizia que era 
tolice pensar em ter mais filhos.
       - Para que queremos mais filhos agora, Ollie? Melissa e Benjamin esto crescendo. So boas crianas tm suas prprias vidas. Mais alguns anos e ns dois podemos 
fazer o que quisermos. Por que nos prendermos outra vez com todos aqueles problemas? - Sarah estremecia s em pensar.
       - No seria a mesma coisa agora. Podemos pagar algum para ajudar. Eu no sei... mas acho que seria bom. Algum dia podemos nos arrepender de no termos tido 
mais filhos, Sarah.
       Mas Sarah fingia no ver aquele olhar que derretia os coraes das mulheres nas reunies de pais no colgio.
       - As crianas no gostariam da idia agora. Benjamin est com sete anos e Melissa com cinco. Um beb seria um intruso em suas vidas. Temos de pensar nisso 
tambm. Devemos alguma coisa a eles.
       Sarah parecia to segura, to decidida. Oliver sorriu e segurou a mo dela, voltando para onde haviam deixado o carro. Oliver acabava de comprar seu primeiro 
Mercedes e para Sarah um casaco de peles, que lhe daria no Natal. J estava reservado na Bergdorf Goodman com as iniciais dela no forro.
       - Parece que j resolveu - observou ele, um tanto desapontado.
       - Isso mesmo.
       Era verdade. De modo algum ele a convenceria a ter outro filho. Estava com 31 anos e gostava da vida que levava. Seus dias eram completamente tomados com 
os comits, passava a metade da vida dirigindo o carro cheio de crianas e o resto do tempo levando Benjamin s reunies de escoteiros e Melissa  escola de bal. 
Tudo tinha um limite. Ele a havia domado tanto quanto Sarah estava disposta a se deixar domar. Tinham a cerca de madeira, os dois filhos e a casa no campo, e no 
ano anterior haviam at comprado um irish setter. Mais do que isso Sarah no podia dar, nem mesmo por Ollie.
       - O que acha de levarmos as crianas para esquiar depois do Natal? - perguntou ele, quando entraram no carro. Oliver gostava de passar o Natal em casa, porque 
era mais divertido e melhor para seus pais. Os pais de Sarah tinham a outra filha e os netos, e todos os anos iam de Grosse Pointe para Chicago, mas os pais de Oliver 
s tinham a ele. E Sarah no tinha nenhuma vontade especial de passar o Natal com os pais ou com a irm. Haviam feito isso uma vez, e ela ficou se queixando durante 
trs anos. A irm a aborrecia, e Sarah nunca se dera bem com a me. Sendo assim, estava tudo perfeito.
       - Seria timo. Onde? Em Vermont?
       - Que tal alguma coisa mais elegante este ano? O que me diz de Aspen?
       - Fala srio? O bnus da semana passada deve ter sido especial.
       Oliver havia conseguido a conta do maior cliente da agncia. Sarah no sabia ainda a importncia do bnus, e fora uma semana to atarefada para os dois que 
esqueceu de perguntar.
       - O bastante para esbanjar um pouco, se voc quiser. Ou podemos ficar por aqui e viajarmos s os dois, quando comearem as aulas. Minha me fica com eles. 
 Ela j ha via ficado antes, e agora que as crianas estavam maiores, era mais fcil. - O que voc acha?
       - Acho que  fantstico. - Ela o abraou e acabaram como dois namorados adolescentes no carro que cheirava a gua-de-colnia e a couro novo.
       No fim, fizeram as duas coisas. Foram a Aspen, com as crianas, entre o Natal e o Ano-Novo, e no ms seguinte passaram uma semana romntica em Round Hill, 
na Jamaica, numa villa, que dava para a baa de Montego. Eles sempre comentavam sua lua-de-mel nas Bermudas, passada quase toda no quarto, quando mal conseguiam 
ficar no restaurante o tempo necessrio para comer. Essa viagem no foi muito diferente. Jogavam tnis, nadavam, passavam a manh deitados na praia, mas no fim da 
tarde estavam fazendo amor na privacidade da sua villa. E quatro das seis noites, jantaram no quarto. Foi a viagem mais romntica dos dois e voltaram sentindo-se 
renascidos. Para Sarah era sempre uma surpresa a intensidade do seu amor por ele. Conhecia Oliver havia 12 anos, estavam casados fazia oito anos e era como se o 
romance estivesse sempre comeando. Era evidente que ele sentia o mesmo. Ele a devorava com a energia de um garoto de 18 anos e, especialmente, gostava de conversar 
com ela durante horas a fio. O sexo entre eles sempre foi perfeito, mas, com o passar dos anos, ambos adquiriram novas idias, novos pontos de vista, novos horizontes, 
no to opostos agora como os de antigamente. Estavam crescendo juntos lentamente e ele zombava, dizendo que Sarah estava ficando mais conservadora, enquanto que 
ele estava mais liberal. Mas na verdade era como se fossem uma s pessoa, uma nica mente, um corao, caminhando na mesma direo.
       Voltaram da Jamaica numa espcie de transe, calmos, num ritmo mais lento, e na manh seguinte Oliver confessou que detestava a idia de deix-la para ir trabalhar. 
       Trocaram um olhar ntimo e secreto, enquanto tomavam caf. Sarah queimou as torradas, deixou caroos enormes no mingau de aveia e serviu o bacon quase cru.
       - Grande caf da manh, mame! - zombou Benjamin. - Vocs devem ter se divertido bastante na Jamaica. Voc at desaprendeu de cozinhar! - Ele riu, divertido.
       Melissa fez o mesmo. Com cinco anos, ela era ainda mais tmida do que Benjamin, e o irmo era seu dolo, depois do pai.
       As crianas saram para a escola, e Oliver para apanhar o trem. Sarah sentiu que no conseguia voltar  rotina de antes. No conseguiu se organizar durante 
todo o dia e na hora de jantar ainda no tinha sado de casa, nem feito coisa alguma. Achou que devia ser o preo de umas frias perfeitas. Mas no melhorou nas 
semanas seguintes. Mal conseguia fazer o trabalho em casa e ficava exausta s de dirigir o carro quando era sua vez de levar as crianas para o colgio. s dez horas 
da noite, Sarah estava dormindo.
       - Deve ser a idade - disse ela para Oliver, no sbado de manh, quando at a atividade de verificar as contas a deixou exausta.
       - Talvez voc esteja anmica.
       No seria a primeira vez e parecia uma explicao simples para o que comeava a se tornar um problema desagradvel. Havia um ms que Sarah no fazia praticamente 
nada e precisava preparar duas festas de caridade para a primavera. De repente tudo parecia trabalhoso demais.
       Na segunda-feira de manh ela foi ao mdico para fazer um exame de sangue e um check-up e, sem nenhum motivo, naquela tarde, quando apanhou as crianas na 
escola, estava sentindo-se melhor.
       - Acho que  s minha cabea - disse ela, quando Oliver telefonou para avisar que ia trabalhar at mais tarde. - Fiz um check-up hoje e j me sinto melhor.
       - O que ele disse? 
       - Pouca coisa.
       No contou que o mdico havia perguntado se ela estava deprimida, ou se estava tendo problemas com Oliver. Aparentemente, um dos primeiros sintomas de depresso 
 o cansao crnico. Independente do que fosse, no era nada srio, disso Sarah tinha certeza. O mdico disse que ela parecia estar bem de sade e havia at engordado 
dois quilos e meio desde as frias na Jamaica. No era de admirar, pois passava o tempo todo sem fazer nada ou dormindo. Abandonara at a leitura e o jogo de tnis 
semanal. No dia seguinte, decidiu recomear o tnis e estava saindo de casa, com a raquete na mo, sentindo-se cansada, mas resolvida a no ceder, quando o mdico 
telefonou.
       - Tudo est timo, Sarah.
       O fato de ele telefonar a preocupou a princpio, mas logo compreendeu que se tratava de uma delicadeza natural depois de tantos anos.
       - Sua sade est tima, nada de anemia, nenhum grande problema.
       Sarah quase podia ver o sorriso dele, mas se sentia to cansada que no conseguiu conter a irritao.
       - Ento, por que estou estupidamente cansada o tempo todo? Mal posso pr um p na frente do outro.
       - Sua memria est falhando, minha querida.
       - Que maravilha. Est dizendo que estou ficando senil? timo.  exatamente o que eu queria ouvir s nove e quinze da manh.
       - Que tal uma boa notcia, ento? - Por exemplo?
       - Um novo beb. - Ele falou como se a estivesse informando de um prmio de um milho de dlares.
       Sarah pensou que ia desmaiar ali mesmo na cozinha, com a raquete de tnis na mo.
       - Est brincando? Nesta casa, isso no  uma piada. Meus filhos esto crescidos... Eu... no posso... droga! Sentou-se na cadeira mais prxima, procurando 
conter as lgrimas. No podia ser verdade. Mas sabia que era. E de repente compreendeu do que ela estava fugindo. Estava tentando esconder a verdade. Sua menstruao 
no tinha faltado por causa de anemia, de excesso de trabalho, ou da idade. Estava grvida. Nem tinha contado para Ollie, procurando se convencer de que no era 
nada.
       Mas desta vez sabia exatamente o que ia fazer. Estavam em 1979. Seus filhos crescidos. Tinha 31 anos. E o aborto era legal. Dessa vez Oliver no ia convenc-la. 
No ia ter outro filho.
       - De quanto tempo?
       Mas ela sabia... tinha de ser... Jamaica... exatamente como na lua-de-mel nas Bermudas, quando concebeu Benjamin... malditas frias.
       - Quando teve sua ltima menstruao?
       Ela calculou rapidamente e disse. Segundo os clculos mdicos, estava grvida de seis semanas. Em "linguagem popular", no chegava a um ms, e ento tinha 
muito tempo para fazer o aborto. Por um momento pensou em no contar nada a Ollie. E no ia dizer nada ao seu clnico geral. Simplesmente marcaria uma hora com o 
ginecologista.
       - Meus parabns, Sarah. Voc  uma moa de sorte. Espero que Oliver fique satisfeito.
       - Tenho certeza de que ele vai ficar. - Sentindo a voz pesada como chumbo, na garganta, ela agradeceu e desligou. Com dedos trmulos discou o nmero do ginecologista 
e marcou uma hora para a manh seguinte. S ento, em pnico, lembrou-se das amigas que a esperavam para o tnis, no Westchester Country Club. Preferia no ir, mas 
no seria justo. Quando ligou o motor da caminhonete, ergueu os olhos e viu o prprio rosto no retrovisor. Isso no podia estar acontecendo com ela... no era possvel... 
no era justo... quando crescesse ia ser escritora... quando... se... ou talvez no. Talvez seu destino fosse ser dona de casa pelo resto da vida. A pior condenao 
para ela, quando estava na universidade. Aquilo que Sarah jamais quis ser e que era agora. Uma dona de casa. Disse a frase em voz alta como se fosse um palavro... 
um beb... Meu Deus!... um beb... no importava que fosse diferente dessa vez, que tivesse ajuda, que tivessem bastante espao em casa para mais um filho. O beb 
ia gritar a noite toda, precisava tomar banho, ser alimentado, cuidado, precisava passear e mais tarde teria de ir ao ortodontista. Ela jamais teria oportunidade 
de fazer o que desejava. Nunca mais. Era como se o simples fato de saber que estava grvida fosse uma ameaa  sua existncia. No ia permitir que isso acontecesse.
       Deu marcha  r, saiu para a rua e dez minutos depois estava na quadra de tnis, plida e nauseada, sabendo agora do que se tratava.
       Com esforo conseguiu manter o ritmo da conversa com as amigas e deu graas a Deus por Oliver no ir jantar em casa naquela noite. Estaria ocupado com um 
novo cliente. Um timo cliente. Mas que importncia tinha isso agora? Sua vida estava destruda.
       Sarah estava dormindo quando Oliver chegou em casa e na manh seguinte mal conseguiu preparar o caf. Ele perguntou o que a estava preocupando, e ela disse 
que era uma terrvel dor de cabea.
       - J soube o resultado dos exames? Aposto que est mesmo anmica.
       Ele parecia preocupado e, em vez de am-lo por isso, Sarah o odiou, pensando no que ele havia plantado dentro dela. - Ainda no. No telefonaram. - Comeou 
a pr os pratos na lavadora, de costas para ele, para que o marido no visse a mentira nos seus olhos.
       Oliver saiu e as crianas tambm. Uma hora depois Sarah estava no consultrio do ginecologista, combinando o aborto, mas o mdico perguntou se Oliver concordava.
       - Eu... ele... bem... - No podia mentir. O mdico a conhecia muito bem e, alm disso, Sarah gostava dele. Com um ar de desafio ela disse: - No contei para 
ele.
       - Sobre o aborto ou sobre o beb? - O mdico parecia surpreso. Sempre pensou que os dois eram muito felizes, com um tipo de casamento baseado em confiana 
mtua.
       - Nenhum dos dois. E no vou contar.
       A expresso do mdico mudou, e ele balanou a cabea lentamente.
       - Acho que est cometendo um erro, Sarah. Ele tem direito de saber.  filho dele tambm. - Ento ele teve uma idia desagradvel. Talvez no soubesse tudo 
sobre eles. Tudo era possvel. -  dele... no ?
       Sarah sorriu.
       - Claro que . Acontece que eu no quero. - Exps todas as razes.
       Quando terminou ele disse outra vez que achava que ela deveria conversar com o marido. Insistiu para que ela pensasse mais no caso e s ento marcar outra 
hora.
       - Voc  ainda muito jovem. Pode perfeitamente ter esse filho.
       - Eu quero a minha liberdade. Daqui a onze anos meu filho estar na universidade e minha filha, dois anos depois. Se eu tiver este filho, vou ficar presa 
por mais vinte anos. No estou preparada para esse tipo de compromisso. - Parecia extremamente egosta, at mesmo para ela, mas era o que sentia. E ningum ia mudar 
seu modo de ver as coisas.
       - Oliver tambm pensa assim?
       Ela no respondeu logo. No queria dizer que Ollie sempre quisera mais filhos.
       - No conversei com ele ainda.
       - Muito bem, acho que deve conversar. Telefone daqui a alguns dias, Sarah. Tem tempo para tomar sua deciso e fazer o que quer, com segurana.
       - O tempo no vai mudar nada.
       Saiu do consultrio zangada e desapontada. Esperava que ele resolvesse seu problema, mas via agora que isso no era possvel.
       Foi para casa, chorou e quando Oliver chegou, s onze horas, ela estava na cama, fingindo outra dor de cabea. As crianas estavam dormindo, e ela havia deixado 
a televiso ligada no quarto, esperando por Oliver, mas certa de que no ia contar nada a ele.
       - Como foi seu dia? Voc parece cansado. - Sarah lanou um olhar para o marido.
       - Foi tudo bem.
       Sentou-se na beirada da cama sorrindo e desfazendo o n da gravata. Com o cabelo louro despenteado pelo vento, parecia cansado, mas, mesmo assim, incrivelmente 
bonito.
       Como era possvel? Para Oliver a vida era to simples! Tudo que tinha de fazer era ir ao escritrio todos os dias e tratar com gente real, num mundo real. 
Uma vida interessante, enquanto ela passava os dias com mulheres e crianas. Certas coisas na vida no eram justas. s vezes Sarah desejava ter nascido homem, sempre 
que ansiava por uma vida diferente, com um emprego, como tinha anos atrs, em vez da vida que havia escolhido, a vida mais fcil. Tinha dois filhos, morava fora 
da cidade e havia desistido dos seus sonhos. Agora ia ter outro filho... no, no ia, corrigiu, rapidamente... ia fazer um aborto.
       - O que h, Sarrie? - Com ar preocupado, inclinou-se para beij-la. Conhecia Sarah muito bem e via a angstia nos olhos dela, no provocada por um sentimento 
de culpa pelo que ia fazer, mas pela revolta contra o que havia acontecido. - Nada. Tambm estou cansada.
       - As crianas deram muito trabalho, hoje? 
       - No... foram timas.
       - Ento, o que aconteceu? - insistiu ele. 
       - Nada - mentiu Sarah.
       - Bobagem. - Tirou o palet, desabotoou a camisa e chegou mais perto dela, na cama. - No tente me enganar. Voc est muito preocupada com alguma coisa. - 
E ento foi assaltado por um verdadeiro terror. Tinha acontecido com um seu conhecido havia alguns meses. Descobriram que a mulher dele estava com cncer, e ela 
morreu quatro meses depois, deixando-o arrasado, com trs filhos. Oliver estava certo de que no poderia viver sem Sarah. Havia tanto tempo que a amava. Sarah representava 
tudo para ele.
       - J soube o resultado dos exames? Alguma coisa que preciso saber?
       Sarah lembrou-se do que o mdico lhe dissera... Deve contar para ele, Sarah... ele tem direito de saber...  filho dele tambm... Mas eu no quero!, exclamou 
alguma coisa dentro dela.
       - Os resultados foram timos. - E ento, levada pela franqueza que existia entre eles, disse uma coisa, da qual sabia que ia se arrepender, mais tarde. - 
Mais ou menos.
       Com uma sensao de dor quase fsica, Oliver segurou a mo dela.
       - O que significa isso? - Mal podia falar e no tirava os olhos dos dela. - O que foi que disseram?
       Sarah compreendeu ento o que ele estava pensando e achou que no tinha direito de faz-lo sofrer assim. No queria mais filhos dele, mas o amava.
       - No  nada do que est pensando. No fique assustado. - Inclinou-se para beij-lo e sentiu o tremor no corpo dele quando a abraou.
       - Ento, o que ?
       Ergueu os olhos para ele e, ainda sem querer contar, disse, num murmrio sado das profundezas do desespero:
       - Estou grvida.
       Por um momento ficaram imveis, e ento o corpo de Oliver relaxou, livre da tenso.
       - Oh, meu Deus... por que voc no me contou? - Afastou-se um pouco e o sorriso desapareceu quando viu os olhos dela. Era como se Sarah preferisse ter cncer.
       - Eu s soube ontem. Burrice minha, eu acho. Deve ter acontecido na Jamaica.
       Oliver no conseguiu conter o sorriso, e Sarah teve vontade de bater nele.
       - Eu nem pensei nisso. Acho que faz tanto tempo, que nem me lembrava mais. - Falou com voz cheia de ternura. Sarah tirou a mo da dele e recostou-se nos travesseiros, 
como se quisesse ficar o mais longe possvel do marido. A culpa era toda de Oliver.
       - Vou fazer um aborto.
       -  mesmo? Quando resolveu isso?
       - Uns trinta segundos depois de receber a notcia, Ollie. No posso ter outro filho.
       - Alguma coisa errada?
       Ela balanou a cabea lentamente, sentindo que ia haver uma luta tremenda entre os dois. Mas no pretendia perder desta vez. No ia ter esse filho.
       - Estou muito velha. E no  justo para as crianas. 
       - Besteira, e voc sabe disso. Provavelmente vo ficar maravilhados quando contarmos.
       - Muito bem, no vamos contar. Dentro de alguns dias tudo estar acabado.
       -  mesmo? - Oliver levantou-se e comeou a andar pelo quarto. - To simples assim, certo? O que h com voc? Cada vez que fica grvida temos de passar por 
toda essa conversa louca de aborto.
       - No  uma conversa louca. Trata-se da minha sanidade mental. No quero outro filho. Voc vai para o escritrio todos os dias, tem sua vida. Eu estou presa 
aqui, levando e apanhando crianas, comparecendo s reunies na escola, e no vou comear a cumprir outra pena de vinte anos. J cumpri dez, estou na metade, e voc 
no vai me convencer do contrrio.
       - E por que vai matar essa criana? Por acaso pretende se especializar em cirurgia cerebral? Pelo amor de Deus, voc est fazendo coisas muito importantes, 
est criando nossos filhos. Ser que  demais para voc fazer o sacrifcio por Deus  e pela ptria? Sei que voc acha que devia estar no SoHo Com, os Grandes Anti-Higinicos, 
escrevendo poemas e o Grande- Romance Americano. Pois para mim isto aqui vale muito mais, e pensei que, a esta altura, voc j devia ter percebido isso. Ora, Sarah, 
trate de crescer!
       - Pois fique sabendo que j cresci. E envelheci e no vou mais jogar fora minha vida por ningum neste mundo. D-me uma chance, droga. Por que no pensa em 
mim? Existem outras coisas alm de crianas, Oliver, ou ser que no notou?
       - O que tenho notado  que voc leva uma vida muito boa aqui. Enquanto eu me mato de trabalhar em Nova York, voc joga tnis com as amigas, faz biscoitos 
com Melissa, e  isso exatamente o que deve fazer. No venha me dizer que  uma vida difcil, Sarah, porque eu no acredito. E outro filho no vai mudar nada disso.
       - Besteira!
       Brigaram acaloradamente at as duas horas da manh e na noite seguinte, e na outra. Continuaram brigando no fim de semana e na semana seguinte, com lgrimas 
dos dois lados, portas batidas violentamente e acusaes mtuas. Por fim, Oliver pediu a Sarah para ter o filho, depois ergueu as duas mos, em desespero, e disse 
para ela fazer o que quisesse.
       Sarah marcou o aborto duas vezes, e at cometeu o erro de telefonar para a irm, em Grosse Pointe, provocando outra briga, porque a irm a chamou de indecente, 
imoral e louca.
       Isso tudo durou semanas, e no fim estavam ambos exaustos, magoados, desiludidos, mas conseguiram refazer as coisas, e Sarah no fez o aborto. Oliver concordou 
que ela ligasse as trompas depois desse filho. Para ele, era uma escolha infeliz, mas estava certo de que seu casamento no sobreviveria a outro ataque s suas bases, 
e Sarah no queria, de modo nenhum, ter outra surpresa desse tipo aos quarenta anos.
       O beb nasceu no dia das eleies, com Oliver na sala de parto, encorajando-a, e Sarah repetindo, a cada contrao, que o odiava. Nos ltimos oito meses, 
ela no se cansava de dizer que no ia dar a menor ateno a esse filho. Oliver disse que o amaria pelos dois e as crianas estavam encantadas. Para Benjamin, com 
oito anos, era uma coisa excitante e diferente e para Melissa, com seis, era como ganhar uma boneca viva. S Sarah no demonstrava nenhum entusiasmo. E quando a 
cabea do beb apareceu, Oliver viu maravilhado Samuel Watson entrando no mundo, com um choro estridente e um olhar espantado. Entregaram o beb para Oliver, e ele 
gentilmente o entregou a Sarah. Com as lgrimas descendo pelo rosto, ela lembrou todas as coisas horrveis que havia dito sobre o beb. Samuel tinha cabelos negros 
e os olhos verdes do pai, pele macia e uma expresso que anunciava grande inteligncia e senso de humor. O tipo da criana pela qual as pessoas se apaixonam  primeira 
vista e, com o mesmo ardor com que o havia rejeitado, Sarah o amou desde o momento em que o viu. Ele era "seu" beb, no era manhoso, no gritava, uma criana fcil, 
calma e feliz. Tornou-se a grande paixo da vida de Sarah e  noite ela contava para o marido os lances de gnio e de realizaes do beb. Samuel era simplesmente 
delicioso, e todos eram loucos por ele, Ollie, Sarah, os irmos, os avs. Embora Ollie tivesse a delicadeza de no chamar a ateno para o fato, ele estava certo 
e ele e Sarah agradeciam agora a chegada de Samuel. Tudo nele era encantador e interessante e no deu nem a metade do trabalho que Sarah esperava.
       Para facilitar as coisas, Ollie contratou uma governanta para ela, uma mulher que havia trabalhado para um bispo durante 15 anos e queria agora uma casa com 
crianas e um pouco de alegria. Ela gostava muito de Melissa e Benjamin e, como todo mundo, apaixonou-se por Sam logo que o viu. Sam tinha um rostinho redondo e 
um sorriso angelical, pernas e braos rolios, todo ele um convite a beijos e abraos. Muitas vezes, Agnes, sua guardi benevolente, e Sarah, sua me dedicada, o 
beijavam ao mesmo tempo e, quando os trs narizes se encontravam, todos riam, felizes. Agnes era exatamente o que Sarah precisava e que devia ter tido quando Benjamin 
era pequeno e berrava de clica no apartamento da Segunda Avenida. Agora, tudo era diferente. E, como Ollie havia dito, muito mais fcil.
       Sarah no precisava mais preparar o caf, de manh. No precisava fazer o jantar. No passava o aspirador, no arrumava a casa nem lavava roupa. Tinham uma 
faxineira duas vezes por semana, e a miraculosa Agnes. O quarto de Agnes era pequeno, construdo ao lado do quarto de hspedes que agora pertencia a Sam. E o dia 
inteiro o beb tinha companhia. Ora era Melissa, para ver se tudo estava em ordem, ora era Benjamin com bolas e luvas de futebol americano, ora era Sarah, Oliver 
ou Agnes. 
       Com tudo isso, Sam no era um menino mimado, mas uma tima criana, a alegria da casa, o raio de sol de todos eles. O pesadelo da criana que ia destruir 
a vida de Sarah jamais se realizou. Sarah no tinha mais desculpas para no fazer o que queria. Ben no precisava de cuidados especiais, no tomava seu tempo, no 
tinha problemas na escola, gostava de brincar, tanto com Melissa, quanto com Agnes, ou com Sarah, ou, especialmente, com Benjamin e Oliver. Sarah no tinha nenhuma 
desculpa agora.
       E ento, de repente Benjamin estava com 17 anos e no ltimo ano do ginsio. Melissa, com 15, sempre grudada num telefone que ela carregava para um guarda-roupa 
no andar superior e, sentada entre as roupas de esqui, falava com rapazes que ningum conhecia. Sam, com nove, gostava de brincar no quarto, ocupado com seus afazeres, 
sem exigir a ateno da me. Por tudo isso, nada a impedia de escrever, agora. No podia culpar os filhos pelas folhas em branco nem pelo silncio da mquina de 
escrever.
       Agora, olhando a neve cair l fora, imaginava o que ia dizer a Ollie. Gostaria que ele no perguntasse como ia o seu trabalho. O interesse sincero que ele 
demonstrava havia quase dois anos a estava deixando louca. No podia dizer que as, idias no vinham, que no estava fazendo nada, que aos quarenta anos via realizado 
seus piores temores. Sua vida estava realmente no fim. Nunca se sentira to ultrapassada, to velha e cansada, e dessa vez sabia que no estava grvida. Como fora 
prometido e combinado, tinha ligado as trompas logo depois do nascimento de Sam. O que sentia agora era algo muito diferente. Era a admisso lenta e gradual de que 
sua vida no estava indo a parte alguma, que jamais seria uma escritora. Aos 35 anos, essa certeza a teria destrudo, aos 39 podia t-la matado. Aos 41, envolvia-a 
numa profunda tristeza. Nada mais havia agora, a no ser a rotina da sua vida, enquanto Ollie galgava os degraus do sucesso. Uma sensao estranha. At seus filhos 
eram agora mais importantes do que ela. Todo mundo tinha uma motivao na vida. Benjamin era um bom atleta e timo aluno. Melissa tinha um incrvel talento artstico 
e, para surpresa de todos, era extremamente bela. s vezes falava em ser atriz, e tanto ela quanto Benjamin falavam em estudar em Harvard. Sam cantava no coro com 
sua voz de anjo, porm, mais do que isso, tinha uma alma to adorvel e cheia de calor humano que todos o adoravam. 
       E Sarah, tinha o qu? Os filhos, Ollie. A casa. O fato de ter estudado em Radcliff havia muitos anos. E da? Quem se importava? Quem sabia? Quem se lembrava? 
Restava uma ltima esperana muito tnue, outra fatia de irrealidade da sua torta de nada. De qualquer modo, no poderia nunca fazer isso. Como? Ela vivia ali. Eles 
precisavam dela. Precisavam mesmo? Tinham Agnes... mas no podia fazer isso com Ollie... Com um sorriso triste, viu Agnes sair da casa com o cachorro que saltava 
e latia, feliz, na neve alta. Eram todos to felizes. Todos. At Agnes. Mas por que Sarah se sentia to vazia? o que estava faltando? o que ela havia perdido? O 
que jamais tivera? O que queria agora? Alguma coisa. Tudo. Ela queria tudo. Fama. Sucesso. Realizao. Coisas grandes. Importantes. E sabia que jamais as teria. 
Ficaria ali sentada para sempre, vendo a neve cair, enquanto a vida passava, e Ollie arranjava novos clientes. Sarah tinha agora um Mercedes novo e dois casacos 
de peles. Tinha trs filhos maravilhosos, graas  persistncia de Ollie, e um marido fantstico, e nada que fosse realmente seu, nenhum talento. Nenhuma realizao. 
Tudo acabado agora. A jovem que ela fora no existia mais.
       - Chegou a correspondncia, Sra. Watson - disse Agnes, suavemente, pondo as cartas na mesa ao lado de Sarah. - Obrigada, Agnes. Alguma coisa interessante?
       - A maior parte  de contas. E acho que uma carta da escola para Benjamin. Mas endereada para a senhora. Benjamin estava preparando seu requerimento para 
Harvard, para o prximo ano, mas nem o havia mandado ainda. No tinham motivo para escrever para ele, muito menos uma carta endereada para Sarah. Era outra coisa, 
e Sarah sabia. Sabia qual ia ser a resposta, mas mesmo assim sua mo tremeu quando Agnes lhe entregou o envelope. Ficou imvel por um momento, olhando para a carta, 
lembrando... de quando as coisas eram diferentes... mas isso tudo estava acabado. Tudo. Pensando nisso, abriu o envelope, de costas para Agnes, e depois caminhou 
devagar para a sala de estar e parou entre os chintzes claros e as fazendas estampadas com flores que traziam para dentro de casa o vero e a primavera, em pleno 
inverno.
       Desdobrou a carta devagar, como quem tira a casca de um ovo, como se estivesse partindo a camada protetora de sua prpria vida... mas procurou no pensar 
nisso. Sentou-se lentamente na cadeira sem ver Agnes que a observava com expresso intrigada e comeou a ler... devagar... quase dolorosamente... e ento conteve 
a respirao, atnita. No podia ser. Era um engano. No tinha lido direito. S podia ser isso. Mas no era. L estavam as palavras. Meu Deus... as palavras estavam 
ali... e foi como se todo seu corpo se enchesse de luz e de msica. No estava mais vazia. Havia algo dentro dela agora. Melhor do que um beb. Era ela mesma... 
Ela estava ali. De volta outra vez. Sarah releu a carta, uma, duas, trs vezes mais.
       ..."Temos o prazer de informar que foi aceita para o programa de mestrado da Universidade de Harvard"... o prazer de informar... o prazer de informar... as 
palavras estavam agora obscurecidas pelas lgrimas que desciam lentamente por seu rosto. Era um sonho, s um sonho. No podia fazer aquilo de modo algum. No podia 
deix-los. No podia voltar a estudar. Mesmo sabendo disso, fizera o requerimento havia alguns meses, em setembro, quando as crianas voltaram para a escola e ela 
estava entediada e sozinha. S para tentar... s para ver se... e agora estavam dizendo que fora aceita. Mas no podia. Ergueu os olhos e viu de novo a neve caindo 
l fora, o cachorro brincando e latindo e Agnes, na porta, observando-a. Sarah compreendeu que tinha de fazer aquilo. Eles compreenderiam... no seria por muito 
tempo... e ento ela seria outra vez uma pessoa. Uma pessoa de verdade. Seria real... Seria Sarah.
       
       
Captulo 2
       
       - Ms notcias nessa carta, Sra. Watson? - Agnes viu Sarah empalidecer, e depois as lgrimas, enquanto ela olhava pela janela. Agnes no podia compreender 
o que ela sentia. A satisfao... a incredulidade... a esperana... e o terror. Ela a deixou com seus pensamentos e s agora, uma hora depois, quando Sarah entrou 
na cozinha, fez a pergunta.
       - No... no... apenas uma surpresa...
       Sarah parecia desligada, quase em estado de choque, nem alegre, nem triste, e comeou a andar pela cozinha, arrumando as coisas sem v-las, empurrando uma 
cadeira para perto da mesa, apanhando um pedacinho de papel do cho. Era como se no soubesse o que devia fazer. Como se estivesse vendo sua casa pela primeira vez, 
ou pela ltima. 
       Que ia fazer, agora? No podia voltar para Harvard. No podia deix-los. Perguntava a si mesma por que tinha mandado o requerimento. Era ridculo, um sonho 
impossvel. 
       Ollie ia zombar dela... porm... naquele momento no parecia engraado. Era assustador, triste e maravilhoso, era uma oportunidade que ela no queria perder, 
nem mesmo por eles. O maior impasse de sua vida. E no podia contar para Ollie. No ainda. Talvez depois das festas. Faltavam duas semanas para o Natal. Podia contar 
depois. Talvez fossem esquiar por alguns dias e ento ela contaria. Mas o que ia dizer?... Quero voltar a estudar, Ollie... vou morar em Boston por um ou dois anos... 
preciso sair daqui... mas seus olhos encheram-se de lgrimas outra vez e por um momento Sarah teve a certeza de que no queria deix-los.
       Agnes olhava para ela, sem acreditar na resposta. Devia haver mais do que uma surpresa naquela carta. Ou, se era uma surpresa, no podia ser boa.
       - A que horas as crianas vo voltar?
       Sarah olhou para a mulher pequena e vigorosa que preparava o jantar. Geralmente, ela agradecia a presena de Agnes, mas agora, de repente, ela a fazia sentir-se 
intil. Agnes arrumava a mesa, com o cabelo branco preso num coque, o rosto srio. As crianas jantavam na cozinha quando ela e Oliver saam e, s vezes, quando 
estavam em casa. Mas era mais comum jantarem na sala. Oliver gostava da cerimnia do jantar em famlia, da tradio de sentarem-se juntos  mesa e conversar sobre 
o que haviam feito durante o dia. Era seu modo de aliviar as presses do trabalho e se manter em dia com a famlia, especialmente com os filhos. Mas nessa noite, 
ela e Ollie iam jantar no Rye, com amigos. O telefone tocou, interrompendo seus pensamentos e, antes que Agnes pudesse atender, Sarah apanhou o fone. Talvez fosse 
Ollie. De repente, queria estar perto dele, ouvir sua voz, ficar com ele. De um momento para o outro, por causa de uma carta, tudo parecia mudado.
       Era sua amiga ao telefone, avisando que teriam de cancelar o jantar daquela noite. Ela estava com a garganta inflamada e o marido ia trabalhar at mais tarde. 
Sarah voltou-se para Agnes com ar pensativo.
       - Acho que vamos ficar em casa e jantar com as crianas. o casal com quem amos sair cancelou o programa. Agnes fez um gesto afirmativo, sem tirar os olhos 
dela e disse:
       - Por que a senhora e o Sr. Watson no saem assim mesmo?
       Sarah parecia precisar de uma distrao, e ela sorriu para Agnes. As duas se conheciam muito bem, mas Agnes mantinha sempre uma distncia respeitosa. No 
tinha medo de dizer o que pensava, nem de chamar a ateno deles quando achava que era preciso, especialmente a favor dos filhos, mas mesmo nesses momentos eram 
sempre Sr. e Sra. Watson.
       - O Sr. Watson no gosta muito de bolo de carne. Sim. Agnes tinha razo, pensou Sarah, sempre sorrindo. Ele no gostava. Talvez fosse melhor jantar fora. 
Mas de repente Sarah no queria ficar sozinha com ele. E enquanto estava decidindo ouviram a porta da frente se abrir e fechar e Benjamin entrou na cozinha aconchegante. 
       Com 17 anos, ele tinha um metro e oitenta e trs centmetros de altura, cabelos vermelhos brilhantes, e os olhos azuis-escuros da me. Estava corado por causa 
do frio e tirou o bon de l, atirando-o sobre a mesa.
       - Que coisa feia! - Agnes sacudiu a colher de pau para ele, zangada mas com os olhos brilhantes de amor. - Tire esse chapu da minha mesa!
       Benjamin riu carinhosamente para ela e enfiou o bon no bolso da jaqueta.
       - Desculpe, Aggie... oi, mame. - Em vez do bon, ps os livros na mesa. - Puxa, est frio l fora. - Suas mos estavam vermelhas. Ele nunca usava luvas e 
pegara carona com um amigo at um quarteiro antes da sua casa. Foi direto para a geladeira  procura de algo para comer, enquanto esperava pelo jantar. Benjamin 
vivia comendo, pores que teriam assustado qualquer outra pessoa, mas era magro, com o corpo elegante e os ombros fortes do pai.
       - Saia da. Vai jantar em menos de uma hora. - Agnes brandiu a colher outra vez e ele riu.
       - S para tapear a fome, Aggie... est tudo bem... Estou faminto.
       Enfiou algumas fatias de salame na boca, desafiando o olhar de Sarah. Benjamin era um homem, e um homem muito bonito. Tinha sua vida, amigos, e dentro de 
poucos meses iria para a escola preparatria. Precisaria ele mesmo dela? Faria alguma diferena para ele? De repente, Sarah no podia imaginar que sua presena significasse 
alguma coisa para o filho. E ento Benjamin voltou-se, notando a expresso dos olhos da me.
       - Alguma coisa errada, mame?
       - No, no. - Balanou a cabea energicamente, como quando Agnes fizera a mesma pergunta. - Estava s tentando decidir se eu e seu pai devemos ou no jantar 
fora. O que voc vai fazer esta noite? Estudar para as provas?
       Ele fez um gesto afirmativo. Era um bom estudante, uma tima pessoa, e Sarah o admirava. Seu primeiro filho, e o que mais se parecia com ela em muita coisa, 
embora menos rebelde do que ela na sua idade.
       - Isso mesmo, termino amanh. Qumica. Vou estudar com Bill na casa dele esta noite. Posso usar o carro?
       Na verdade, era tudo que Benjamin precisava dela, sua geladeira e seu carro.
       Sarah sorriu. Sentiria falta dele. Sentiria falta de todos... especialmente de Sam... oh, Deus... e de Ollie...
       -  claro. Mas dirija com cuidado. Se esfriar mais, essa neve vai virar gelo. Pensando bem, por que Bill no vem estudar aqui?
       Benjamin balanou a cabea rapidamente, sempre decidido, como a me.
       - Ele estudou aqui trs vezes seguidas. Eu disse que iria  casa dele esta noite. Mel tambm no vai estar em casa. Ela telefonou?
       Sarah balanou a cabea.
       - Ainda no.
       Ela nunca telefonava. Sempre esquecia de avisar. Melissa fazia exatamente o que queria, sempre fora assim, sem chamar muita ateno para o fato. Tinha sua 
prpria vida. Com 15 anos, era a prpria independncia.
       - Que negcio  esse de sair hoje?  tera-feira. - Melissa tinha licena para sair desde setembro e s uma noite, no fim de semana, com rapazes conhecidos 
da famlia, sob circunstncias aprovadas pelos pais. - E como  que ela vai voltar para casa?
       - Eu disse que posso apanh-la. - Ele tirou uma ma do cesto de frutas e deu uma mordida. - Ela tem ensaio hoje. Est numa pea do clube de teatro. Est 
tudo bem, mame.
       A porta da frente bateu outra vez e Sarah viu Agnes olhar para o relgio com um sorriso, e depois voltar a ateno para a panela.
       Ouviram o barulho de botas pesadas, como se um homem acabasse de entrar, um latido abafado, alguma coisa caindo, outra batida da porta, mais latidos e de 
repente, Sam e Andy, o setter, explodiram na cozinha. O cachorro deixava marcas de patas por toda a parte, saltando no menino de cabelos escuros e olhos verdes como 
os do pai. Sam sorria feliz, seu cabelo estava molhado e as botas tambm, mas as patas do cachorro deixavam pedaos de neve no cho da cozinha que logo se transformavam 
em pequenas poas d'gua. Andy saltava e apoiava as patas nos ombros de Sam para lamber-lhe o rosto.
       - Oi, gente! Puxa, que cheiro bom. O que tem para o jantar? Bolo de carne?
       Agnes voltou-se com um largo sorriso, e ento viu o que ele estava fazendo na sua cozinha. Sarah e Benjamin comearam a rir. Sam no tinha jeito, era capaz 
de transformar qualquer lugar num monte de lixo em questo de segundos.
       - Saia daqui, seu desordeiro! E onde est seu chapu? Vai morrer, num frio desses! - Brandiu a colher de pau, como havia feito para Benjamin, mas desta vez 
com mais energia, e correu para apanhar uma toalha, resmungando e reclamando.
       - Oi, mame. - Correu para beij-la. Andy balanava a cauda e, brincando com ele, Sam tirou as botas, deixando-as no meio da cozinha, onde Andy as achou e, 
feliz, levou uma delas para o sof da sala, acompanhado pelos gritos ferozes de Agnes.
       - Saiam j daqui! Os dois. Suba e tome um banho! - disse ela, enquanto Sam subia correndo, acompanhado por Andy, depois de deixar o casaco no primeiro degrau 
da escada. - Volte j e apanhe suas coisas! - bradou Sarah.
       Mas ele j estava longe, com Andy latindo atrs dele, e Agnes comeou a enxugar o cho da cozinha. Benjamin subiu tambm para arrumar os livros que ia precisar, 
e Sarah, subindo devagar, atrs dos dois, pensou no quanto ia sentir falta deles.
       O telefone tocou quando ela entrou no quarto. Era Melissa, avisando o que Sarah j sabia. Ia ficar at tarde na escola para ensaiar com o clube de teatro 
e Benjamin podia apanh-la quando voltasse para casa. Ento Ollie telefonou, disse que queria jantar fora, mesmo sem o casal amigo, como Agnes havia sugerido.
       - Vamos jantar sossegados, s ns dois. Ser at melhor. Sarah podia sentir o calor da voz dele l de Nova York e desligou o telefone com lgrimas nos olhos. 
O que ia dizer a ele? Nada. No nessa noite. Precisava esperar. J havia prometido a si mesma no dizer nada at depois do Natal.
       Andou de um lado para o outro no quarto, arrumando, ouvindo os sons das crianas, tocando objetos familiares e pensando no marido. Depois, deitou-se na cama, 
pensando em todos eles, no quanto representavam para ela. Porm, estavam-lhe custando alguma coisa. Sem saber, sem querer, cada um havia tirado alguma coisa e dado 
algo em troca tambm... mas, de repente, o que eles davam no era suficiente, e no era mais o que ela queria. Era terrvel admitir isso. Terrvel dizer isso a eles, 
e Sarah estava certa de que jamais poderia dizer. Mas queria a prpria vida, agora. Estava pronta. Queria ser mais do que Agnes, na cozinha, esperando que todos 
chegassem em casa, todos os dias, e no futuro esperando que eles partissem para sempre. Faltava pouco, agora. Benjamin iria no outono e Melissa dois anos depois, 
e havia Sam... mas ela teria terminado o que queria fazer, muito antes dele sair de casa. Portanto, que diferena fazia? Por que no fazer o que desejava, para variar? 
Mas dizia isso para si mesma com um enorme sentimento de culpa. O telefone tocou. Era seu sogro, e ele parecia preocupado e cansado. Ultimamente estava tendo problemas 
cardacos, e Phyllis tambm no estava bem.
       - Oi, George. O que h?
       - Oliver est? - No era prprio de George ir direto ao assunto.
       - No, no est. - Sarah franziu a testa, preocupada. Gostava do sogro mais do que de Phyllis. - Alguma coisa errada?
       - Eu... no... na verdade, no tenho certeza. Phyllis saiu sozinha, depois do almoo, para fazer compras e no voltou ainda. E com este tempo... bem, estou 
preocupado, e ela no telefonou. No costuma fazer isso.
       Phyllis, com 69 anos, era forte ainda, mas ultimamente todos a achavam um pouco desligada. Depois da recente pneumonia, no parecia a mesma, e Sarah sabia 
que George se preocupava muito com ela. Aos 72 anos parecia mais alertado que a mulher, e, ao mesmo tempo, muito mais frgil. Era bonito ainda, como o filho, alto, 
as costas retas, olhos suaves e um sorriso acolhedor, mas s vezes parecia mais velho do que era, e Oliver preocupava-se com ele.
       - Na certa ela esqueceu das horas. Sabe como so as mulheres quando vo s compras.
       Sarah queria tranqiliz-lo. No era bom para o corao de George preocupar-se demais, e sem dvida logo Phyllis estaria de volta.
       - Talvez fosse melhor eu sair e procurar por ela, pensei que talvez Oliver...
       Ultimamente ele cada vez mais dependia de Oliver, o que no era do seu feitio.
       - Direi a ele para telefonar assim que chegar.
       Isso significava o fim do seu jantar a dois, a no ser que Phyllis chegasse antes. Talvez fosse melhor assim. Na verdade, Sarah no queria ficar a ss com 
o marido.
       George telefonou outra vez, antes de Oliver chegar. Phyllis estava em casa, s e salva. Teve dificuldade para achar um txi e no tinha dinheiro trocado para 
telefonar. 
       No disse que ela parecia nervosa nem que o motorista do txi contou que ela teve dificuldade para lembrar o endereo. George comentou isso com Phyllis e 
com espanto verificou que ela no se lembrava nem do nmero do seu telefone, por isso no tinha ligado.
       - Desculpe o meu telefonema, minha querida.
       - Ora, George, que bobagem. Pode telefonar quando quiser. Sabe disso.
       - Muito obrigado. - Olhou para a mulher que cantarolava baixinho, andando de um lado para o outro, na cozinha. Ultimamente, George estava cozinhando para 
os dois, mas fingiam que era porque ele precisava fazer alguma coisa e George gostava de dizer que cozinhava melhor do que ela. - Quando Oliver chegar, diga que 
mando um abrao e se ele tiver tempo, pea para me telefonar, por favor.
       - Eu digo - prometeu ela, mas esqueceu completamente quando o marido chegou, alguns minutos depois.
       Ele estava com pressa de ir para o chuveiro e vestir-se para sair com ela.
       - Mas Sam vai ficar sozinho esta noite. - Sarah queria desesperadamente ficar em casa para no ter de enfrent-lo. No podia dizer nada agora. E era mais 
fcil ali em casa, escondida atrs dos filhos e na frente da televiso. Qualquer coisa era melhor do que ficar sozinha com ele.
       - Agnes vai sair? - Oliver estava fazendo a barba e ao mesmo tempo vendo o noticirio na televiso. Mal olhou para ela, mas parecia satisfeito com a expectativa 
de sarem pa ra jantar. Tinha uma surpresa para Sarah. Acabava de ganhar uma grande promoo e um aumento. Agora, o degrau mais alto na firma estava prximo. Com 
44 anos, Oliver Watson era a matria-prima das lendas. Sabia que tinha tudo e era grato por isso. Um emprego de que gostava, uma mulher que adorava, trs filhos 
maravilhosos. O que mais havia na vida? Oliver no podia imaginar nada mais.
       - No. Agnes no vai sair, mas eu pensei...
       - Pois ento no pense. V se vestir. - Deu uma leve palmada nela, depois desligou o aparelho de barbear e abraou-a. - Eu a amo, sabia?
       Sim, ela sabia. E o amava tambm, o que dificultava muito mais o que queria fazer agora.
       - Eu tambm o amo. - Seus olhos estavam tristes. Ele a apertou mais nos braos.
       - Pois no parece nem um pouco feliz com isso. Teve um dia difcil?
       - Na verdade, no. - Nada era difcil agora. As crianas estavam sempre ocupadas ou fora de casa. Agnes fazia todo o servio. Nos dois ltimos anos, Sarah 
havia procurado diminuir suas atividades nos comits. Queria tempo para escrever, o que, afinal, nunca fizera. O que podia ser difcil numa vida perfeita? Nada, 
exceto o vazio e o tdio constantes. - S cansada, eu acho... Oh, quase esqueci. Seu pai telefonou. Quer que voc ligue para ele.
       - Est tudo bem? - Oliver preocupava-se muito com os pais. Eles estavam ficando velhos, e o pai parecia muito fraco depois do enfarte. - Ele est bem?
       - Parecia timo. Depois que sua me chegou. Telefonou porque ela saiu para fazer compras esta tarde, e ainda no tinha chegado. Acho que ele estava preocupado 
por causa do tempo.
       - Ele se preocupa muito com quase tudo. Por isso teve o enfarte. Estou sempre dizendo que ela pode se cuidar sozinha. Papai insiste em dizer que mame fica 
confusa, mas acho que ela  muito menos confusa do que ele pensa. Telefono quando voltarmos, se no for muito tarde. Vamos - disse ele, com um sorriso -, apresse-se. 
Temos reserva para as sete horas.
       Antes de sair, beijaram Sam e deixaram o nmero do telefone do restaurante com Agnes. Benjamin j tinha sado sem se despedir. Com as chaves do carro de Sarah, 
saiu logo que acabou de devorar quase metade do bolo de carne, dois pratos de verduras e um pedao da torta de ma de Aggie. Sarah tinha certeza de que, assim que 
chegasse na casa de Bill, ele ia comer outra vez e provavelmente acabaria com a torta, quando voltasse, mais tarde. Sarah, a princpio, tinha medo que ele engordasse, 
mas aparentemente Benjamin no corria esse perigo. Era um poo sem fundo e se no fosse pelos ombros largos, seria magro como um espeto.
       O restaurante era bonitinho, acolhedor, no estilo provenal francs e o fogo crepitava na lareira. A comida era boa, e Oliver pediu um excelente Chardonnay 
da Califrnia. 
       Os dois relaxaram afinal, e Sarah ouviu toda a histria da promoo e do aumento. Era estranho ouvi-lo falar agora. Durante anos ela havia vivido em funo 
dele e, de repente, tinha uma vida s dela. Era como ouvir outra pessoa. Estava satisfeita por ele, mas esse sucesso no era mais uma realizao compartilhada. Era 
s dele. Compreendia isso, agora. Quando terminaram, Oliver se recostou na cadeira e olhou para ela, sentindo que havia alguma coisa diferente. Em geral, ele percebia 
as emoes de Sarah, mas no nessa noite. Havia alguma coisa triste e distante nos olhos dela, e de repente Oliver teve medo. Estaria ela tendo um caso? Mesmo que 
fosse um daqueles romances passageiros... mulher que mora no subrbio tendo um caso com o vendedor de seguros, com o ortodontista, com um dos amigos do casal. Oliver 
no podia acreditar que Sarah fosse capaz disso. Sempre leal, fazia parte da sua natureza ser franca, direta, segura, uma das coisas que ele tanto amava nela.
       No podia ser isso. E ele jamais a enganara. Mas no conseguia adivinhar o que estava acontecendo. Pediu champanhe com a sobremesa e, olhando para ela,  
luz das velas, achou que jamais lhe parecera to bela e to jovem. Com 41 anos, era muito mais bonita do que muitas mulheres de trinta. O cabelo vermelho continuava 
brilhante, o corpo perfeito, a cintura quase to fina quanto antes de ter os filhos.
       - O que a preocupa, meu bem? - Sua voz era uma carcia e Oliver segurou-lhe a mo.
       Oliver era um bom homem, um homem decente e a amava muito, pensou Sarah.
       - Nada. Por qu? Por que acha que estou preocupada? Tudo est maravilhoso esta noite. - Estava mentindo, mas no queria que ele soubesse. No fim, Oliver sempre 
acabava sabendo, porque a conhecia muito bem. Vinte e dois anos era um longo tempo.
       - Numa escala de dez, eu diria que esta noite vale dois pontos para voc. Talvez um. Se contar como zero uma visita ao dentista.
       Ela riu, e Oliver ps mais champanhe no seu copo. - Voc  doido, sabia? - acusou ela.
       - Sei. Doido por voc. Imagine um velho como eu louco pela prpria mulher. Bem engraado, depois de dezoito anos de casamento, no acha?
       - Quer dizer que quarenta e quatro agora  velho? Quando resolveu isso?
       Com voz baixa e ar de conspirador, ele disse:
       - Quando no consegui fazer amor com voc pela terceira vez, no ltimo domingo. Acho que isso me enquadrou na categoria dos velhos para sempre.
       Sarah deu um largo sorriso. O sexo entre eles era quase sempre maravilhoso.
       - Pois para mim, duas vezes em uma hora e meia  muito bom. Alm disso, voc havia tomado muito vinho. No esquea.
       Ele olhou para a garrafa de champanhe vazia e sorriu. - Ento, acho que esta noite tambm no vai ser grande coisa.
       - No sei. Talvez seja melhor voltar para casa para verificar, antes que voc fique fraco demais. - Sarah ria, feliz agora por terem sado s os dois, sentindo 
muito aliviada a tenso daquele dia.
       - Muito obrigado. Mas primeiro quero saber o que a est preocupando.
       - Nada, absolutamente nada. - E, naquele momento, era verdade.
       - Talvez no agora, mas h pouco existia alguma coisa. Quando eu cheguei em casa voc parecia ter perdido sua melhor amiga.
       - No, no perdi. - Mas era quase o que sentia. Ele era seu melhor amigo e se voltasse a estudar, de certo modo ia perd-lo. - No seja tolo, Ol.
       - No tente me enganar. Alguma coisa a preocupa, ou a aborrece.  seu trabalho? - Oliver sabia que fazia dois anos que Sarah no escrevia uma linha, mas isso 
no era importante para ele. S queria que ela fosse feliz.
       - Talvez. No estou conseguindo escrever nada. Talvez no possa mais escrever. Pode ter sido apenas um lampejo da juventude. - Sarah deu de ombros e pela 
primeira vez, em dois anos, isso tambm no era importante para ela.
       - No acredito, Sarah. Voc era boa. Acho que, com o tempo, tudo vai voltar. Talvez ainda no descobriu sobre o que quer escrever. Talvez precise conhecer 
um pouco mais o mundo... fazer alguma coisa diferente...
       Sem saber, Oliver abria a porta para ela, mas Sarah estava morrendo de medo de entrar. No importava o que ia fazer, dizer, nem como, a partir do momento 
em que contasse para ele, suas vidas mudariam para sempre.
       - Eu estive pensando nisso. - Ela avanou com cautela. - E ento? - Oliver esperou.
       - O que quer dizer "e ento"? - Estava com medo dele, e isso era novidade. Pela primeira vez na vida estava morrendo de medo do marido.
       - Voc nunca pensa numa coisa sem chegar a uma espcie de concluso, ou sem agir logo.
       - Voc me conhece muito bem. - Sarah sorriu, tristonha outra vez, desejando desesperadamente no contar nada a ele.
       - O que est escondendo de mim, Sarrie? Estou ficando doido por no saber o que se passa na sua mente.
       - No h nada em minha mente. - Mas no estava convencendo nenhum dos dois, apenas andando em crculos. - Talvez seja uma crise da meia-idade.
       - Outra vez? - disse ele, com um largo sorriso. - Voc j passou por isso h dois anos, e s acontece uma vez. A prxima vez vai ser minha. Vamos, meu bem:.. 
o que h? 
       - Eu no sei, Ollie...
       - Trata-se de ns? - Os olhos dele estavam tristes. 
       - Claro que no. Como podia ser? Voc  maravilhoso... acho que sou s eu. Dores do crescimento. Ou a falta delas. Sinto-me como se estivesse estagnada desde 
que nos casamos.
       Ele esperou, contendo a respirao, esquecendo o champanhe, o jantar, a atmosfera de festa.
       - Eu no fiz nada. E voc j realizou tanta coisa. - No seja bobo. Sou igual a um milho de outros. 
       - No, no  mesmo. Olhe para voc. Pense no que acabou de me contar. Mais cinco anos e ser o chefe da Hinkley e Dawson. Se demorar tanto, o que eu duvido. 
Voc  um dos maiores sucessos na sua profisso.
       - Isso no significa coisa alguma, Sarah. Voc sabe muito bem.  passageiro.  agradvel, mas, e da? Voc criou trs filhos maravilhosos. Isso  muito mais 
importante.
       - Mas que diferena faz agora? Esto praticamente criados. Dentro de um ou dois anos, estaro fora de casa. Pelo menos Mel e Benjamin, e o que acontece depois? 
Fico sentada esperando que Sam saia tambm e depois passo o resto da vida vendo novelas e conversando com Agnes? - Seus olhos encheram-se de lgrimas e ele riu. 
Sarah no era do tipo de ver novela durante o dia. Ler Baudelaire ou Kafka fazia mais o seu estilo.
       - Est pintando um quadro muito trgico, meu bem. Nada a impede de fazer o que deseja. - Oliver falava com sinceridade, mas sem saber o alcance da ambio 
da mulher. 
       Nunca soubera. Sarah queimara seus sonhos havia muito tempo, ou os guardara em algum ba com o diploma de Radcliff. - Voc no fala srio.
       -  claro que falo. Voc pode fazer qualquer trabalho voluntrio, arranjar um emprego de meio expediente, escrever contos outra vez. Pode fazer qualquer coisa.
       Sarah respirou fundo. Essa era a hora, preparada ou no. Tinha de contar.
       - Eu quero voltar a estudar - disse em voz quase inaudvel.
       - Acho que  uma grande idia. - Oliver parecia aliviado. Sarah no estava apaixonada por outro homem. Apenas queria fazer alguns cursos. - Voc pode entrar 
para a universidade estadual, aqui mesmo em Purchase. Ora, se voc estiver disposta a demorar mais algum tempo, pode at fazer o mestrado.
       Sarah no gostou do modo como ele disse aquilo. Ela podia entrar para a universidade local e "estudar por mais tempo". Quanto tempo? Dez anos? Podia acabar 
como uma daquelas avs que faziam cursos de redao criativa e nunca escreviam nada.
       - Eu no estava pensando nisso. - Sua voz agora soava firme e decidida. Oliver era o inimigo, o homem que a havia impedido de fazer tudo que ela desejava.
       - Estava pensando no qu? - Ele parecia confuso. Sarah fechou os olhos por um instante, depois abriu-os e o encarou.
       - Fui aceita para o programa de mestrado em Harvard. O silncio parecia nunca mais acabar, enquanto Oliver olhava para ela, tentando compreender.
       - O que quer dizer isso? - De repente, ele no entendia mais nada. O que Sarah estava dizendo? A mulher que ele pensava conhecer, que havia duas dcadas dormia 
com ele. De um momento para outro estava na frente de uma estranha. - Quando fez o requerimento?
       - No fim de agosto - disse Sarah em voz baixa.
       A determinao que ele lembrava, de quando ela era jovem, ardia nos olhos de Sarah outra vez. Ela se transformava em outra pessoa, ali, na frente dos seus 
olhos.
       - timo. Voc podia ter me contado.  o que pretendia fazer, se fosse aceita?
       - Nunca pensei que seria. S fiz por fazer... Acho que foi quando Benjamin comeou a falar em se inscrever em Harvard.
       - Que comovente! Me e filho! E agora? O que vai fazer? - o corao dele estava disparado e, de repente, Oliver desejou estar em casa para andar de um lado 
para o outro, e no ali, num canto do restaurante, que se tornara claustrofbico. - o que est me dizendo? No est falando srio, est?
       Olhando para os olhos gelados do marido, Sarah balanou a cabea de forma afirmativa.
       - Sim, estou, Ollie.
       - Vai voltar para Cambridge? - Ele tinha morado sete anos em Cambridge, e ela, quatro, mas h uma vida atrs. Nunca ele pensou em voltar para a universidade.
       - Estou pensando em voltar, sim. - Estava fazendo mais do que apenas pensar nisso, mas no tinha coragem de dizer a ele ainda. Era muito brutal.
       - E eu, o que devo fazer? Deixar meu emprego e ir com voc?
       - No sei. No pensei ainda. No espero que voc faa coisa alguma. Esta deciso  minha.
       -  sua?  mesmo? O que me diz de ns? O que espera que faamos enquanto voc brinca de estudante outra vez? Posso lembrar que Melissa estar em casa ainda 
por dois anos, e Sam, por nove anos, ou ser que esqueceu? - Furioso, ele fez um sinal impaciente para o garom trazer a conta. Sarah estava louca. Era isso. Louca. 
Teria preferido que ela tivesse um caso com outro homem. Seria mais fcil de resolver, pelo menos foi o que ele pensou naquele momento.
       - No me esqueci de nada. S preciso pensar no assunto - disse ela, em voz baixa.
       Oliver ps algumas notas na mesa.
       - O que voc precisa  de um bom psicanalista, isso sim. Est agindo como uma dona de casa entediada e neurtica - disse ele, levantando-se.
       Sarah olhou para ele, furiosa, com os vinte anos de frustrao fervendo dentro dela.
       - Voc no sabe nada a meu respeito. - Levantou-se tambm, enquanto os garons mantinham-se delicadamente afastados e os ocupantes das mesas prximas fingiam 
que no estavam ouvindo. - Voc no sabe o que  desistir de todos os sonhos. Voc tem tudo o que sempre quis, uma carreira, uma famlia, uma mulher que o espera 
em casa como um co fiel, para lhe entregar o jornal e os chinelos. Muito bem, e eu? Droga! Quando vou ter o que quero? Quando vou fazer o que sempre desejei? Quando 
voc morrer, quando as crianas no estiverem mais em casa, quando eu tiver noventa anos? Pois no pretendo esperar tanto. Quero fazer isso agora, antes de ficar 
velha demais para realizar algo que valha a pena, antes de ficar velha demais para querer alguma coisa, ou para ter algum prazer na vida. No vou ficar sentada esperando 
que voc comece a telefonar para nossos filhos porque eu sa para fazer compras e estou demorando, ou porque eu estava to cansada da vida que levo que resolvi no 
voltar nunca mais. No vou esperar todo esse tempo, Oliver Watson!
       Uma mulher na mesa ao lado teve vontade de levantar-se e bater palmas. Tinha quatro filhos e havia desistido do sonho de estudar medicina para se casar com 
um homem que a enganava havia vinte anos e achava que ela jamais o abandonaria. Mas Oliver saiu do restaurante e Sarah, apanhando a bolsa e o casaco, saiu atrs 
dele. Ele s falou quando chegaram ao estacionamento e agora havia lgrimas nos seus olhos. Sarah no sabia se eram por causa do frio, da mgoa ou lgrimas de raiva. 
O que ela no compreendia era que estava destruindo tudo aquilo em que ele acreditava. Oliver era bom para ela, a amava e aos filhos, nunca quis que Sarah trabalhasse 
porque queria tomar conta dela, amar, honrar e proteger. E agora ela o odiava por isso e queria voltar a estudar. Pior ainda, se ela voltasse para Harvard, teria 
de deix-los. Oliver no era contra o estudo, mas o lugar em que ela ia estudar, e o que teria de fazer  famlia.
       - Est dizendo que vai me deixar?  disso que se trata? Est nos abandonando? E exatamente h quanto tempo resolveu isso?
       - S recebi a carta esta tarde, Oliver. Nem tive tempo de me acostumar com a idia ainda. E no, no estou abandonando ningum. - Tentou se acalmar. - Posso 
vir para casa nas frias e nos fins de semana.
       - Ora, pelo amor de Deus... e o que ns vamos fazer? o que me diz de Mel e Sam?
       - Eles tm Agnes.
       Estavam no meio da neve, gritando um com o outro, e Sarah desejou ter esperado para contar a ele. Nem tinha pensado direito no assunto ainda.
       - E eu? Eu tambm tenho Agnes? Ela vai ficar muito feliz por saber disso.
       Sarah sorriu. Mesmo com toda aquela angstia, ele era decente e engraado.
       - Ora, vamos, Ollie... vamos deixar a coisa esfriar. Ns dois temos de pensar primeiro.
       - No, no temos. - Ele estava mais srio do que nunca. - No h absolutamente nada para pensar. Voc  uma mulher casada, tem marido e trs filhos. No pode, 
de modo algum, ir para uma universidade que fica a quase trezentos quilmetros de distncia, a no ser que nos abandone, pura e simplesmente.
       - No  to simples. No queira simplificar o problema, Ollie. E se eu precisar realmente fazer isso?
       - Est sendo muito indulgente com voc mesma. - Abriu a porta do carro e entrou. Sarah sentou-se ao lado dele e Oliver perguntou: - Como exatamente voc pretende 
pagar seus estudos, ou espera que eu pague para voc e Benjamin em Harvard?
       Ia ser uma grande despesa para ele, pagar o curso superior de um filho, e logo depois o de Melissa tambm. Parecia absurdo acrescentar os estudos de Sarah 
a esse esforo, mas ela j havia pensando nisso antes.
       - Tenho ainda o dinheiro que vov me deixou. A no ser para pagar o novo telhado da nossa casa, no toquei nele. 
       - Pensei que esse dinheiro estava sendo reservado para as crianas. Concordamos que era sagrado.
       - Talvez signifique mais para eles o fato de a me fazer alguma coisa na vida, como escrever algo que seja importante algum dia, ou conseguir um bom emprego, 
ou fazer qualquer coisa til.
       - Uma bela idia, mas francamente acho que nossos filhos preferem ter me a um exemplo literrio. - Cada vez mais irritado, no saiu do carro quando pararam 
na frente da casa. - Voc j resolveu, no  mesmo, Sarrie? Vai fazer isso, certo? - Havia tanta tristeza na sua voz que dessa vez Sarah sabia que as lgrimas no 
eram provocadas pelo vento. Ela hesitou, com os olhos midos tambm, olhou para a neve, depois voltou-se para ele.
       - Acho que tenho de fazer, Ollie... No sei se posso explicar... mas tenho de fazer. No vai ser por muito tempo, eu prometo... Vou trabalhar duro, para acabar 
o mais depressa possvel. - Mas no estava enganando ningum. Ambos sabiam que era um programa intensivo de dois anos.
       - Como pode fazer isso? - Ele ia dizer, "para mim", mas lhe pareceu egosta demais.
       - Tenho de fazer. - Sua voz era um murmrio.
       Um carro parou atrs deles e os faris iluminaram os rostos dos dois. Sarah viu as lgrimas descendo pelo rosto dele e tudo que desejava naquele momento era 
abra-lo.
       - Eu sinto tanto... No queria dizer agora... Pensei em deixar para depois do Natal.
       - Que diferena faz? - Ele olhou para trs e viu Benjamin e Melissa descendo do carro. Olhou outra vez para Sarah, a mulher que ele ia perder, que os estava 
abandonando para voltar a estudar e que talvez jamais voltasse. Nada mais seria o mesmo, eles sabiam.
       - O que vai dizer a eles?
       Melissa e Benjamin esperaram que os pais sassem do carro, conversando na noite fria, e Sarah olhou para eles com o corao pesado como pedra.
       - Ainda no sei. Vamos deixar passar as festas. Com um gesto afirmativo, Oliver abriu a porta do carro, enxugando as lgrimas com as costas da mo, para que 
os filhos no percebessem.
       - Oi, papai, como foi o jantar?
       Benjamin parecia satisfeito, e Melissa sorria para eles, ainda com a maquiagem do ensaio geral do teatro da escola. - Foi timo - disse Sarah, rapidamente, 
com um largo sorriso. - Num lugar bonitinho.
       Oliver olhou para ela, perguntando-se como Sarah conseguia falar assim com os filhos, como podia fingir, encar-los. Talvez ele no a conhecesse tanto quanto 
pensava, e talvez no quisesse conhecer.
       Ele entrou, disse boa noite aos filhos e subiu lentamente para o quarto, sentindo-se muito velho, cansado e desiludido. Sarah fechou a porta do quarto.
       - Eu sinto muito Ollie... sinto mesmo. 
       - Eu tambm - retrucou ele.
       Oliver ainda no acreditava. Talvez ela mudasse de idia. Talvez fosse uma mudana de idade. Ou um tumor cerebral. Ou sintoma de uma depresso profunda. Talvez 
Sarah estivesse louca, talvez sempre estivera. Mas ele no se importava. Era sua mulher e ele a amava. Queria que ela ficasse, que negasse tudo que havia dito, que 
dissesse que no o deixaria por nada no mundo... a ele, no apenas os filhos... a ele... mas o olhar sombrio de Sarah dizia que isso no ia acontecer. Ela estava 
decidida. 
       Ia voltar para Harvard. Ia deix-los. E com essa certeza torturando seu corao, Oliver pensou no que ia fazer sem ela. Deitado na cama, naquela noite, sentindo 
o calor do corpo de Sarah ao lado do seu, ele queria chorar, queria morrer. Era como se ela j tivesse partido. Ali perto dela, ele quis voltar ao passado e embora 
a desejasse mais do que nunca, deu as costas para a mulher, para que ela no visse as lgrimas nos seus olhos e no a tocou.
       
Captulo 3
       
       Os dias que faltavam para o Natal pareciam se arrastar lentamente, e Oliver agora quase detestava ter de voltar para casa. Os sentimentos se alternavam dentro 
dele, ora odiando-a, ora amando-a mais do que nunca, enquanto tentava descobrir um meio de fazer com que Sarah mudasse de idia. Falavam constantemente no assunto, 
tarde da noite, quando os filhos j estavam dormindo, e Oliver revia na mulher aquela obstinao quase brutal que ele pensava ter desaparecido havia muitos anos. 
Mas para Sarah, ela estava lutando pela prpria vida.
       Prometeu que nada ia mudar, que estaria em casa todas as sextas-feiras  noite, que o amava tanto quanto antes, mas ambos sabiam que ela estava tentando se 
enganar.
       Teria muito trabalho, provas, seria impossvel viajar todos os fins de semana, e ficar em casa estudando seria mais frustrante para os filhos. As coisas tinham 
de mudar quando ela fosse para Harvard. Era inevitvel, quer admitisse ou no. Oliver tentou convenc-la a ir para outra universidade, mais perto de casa. At mesmo 
Columbia seria melhor do que Harvard. Mas Sarah estava resolvida. s vezes ele pensava se ela no estaria tentando recapturar a juventude, atrasar o relgio para 
um tempo mais simples. Porm, ele preferia a vida que levavam agora. No compreendia como Sarah podia deixar os filhos.
       As crianas no sabiam ainda do plano da me. Os mais velhos sentiam uma certa tenso no ar, e mais de uma vez Melissa perguntou se eles tinham brigado, mas 
Sarah negava, procurando aparentar despreocupao. No queria estragar o Natal deles e sabia que a notcia ia perturb-los. Resolveu s contar depois do Natal, e 
Oliver concordou, na esperana de que ela mudasse de idia. Foram ver a pea de Melissa e armaram e decoraram a rvore, num ambiente que parecia de perfeita harmonia, 
cantando canes de Natal, rindo, enquanto Oliver e Benjamin se atrapalhavam com as lmpadas e Sarah e Melissa no paravam de enfiar as pipocas nos cordes porque 
Sam comia todas. 
       Oliver olhou para os filhos e teve a impresso de que seu corao ia explodir. Sarah no podia fazer isso com eles, no era justo, e como ele ia tomar conta 
dos trs? Por melhor e mais querida que fosse, Agnes no passava de uma empregada. E ele trabalhava o dia inteiro em Nova York. Imaginava Benjamin e Melissa sem 
nenhuma disciplina e Sam declinando, enquanto a me brincava de estudante em Harvard.
       Na vspera de Natal, os dois sentaram-se na frente do fogo crepitante da lareira. Oliver pediu a Sarah para desistir daquela idia. Estava decidido a implorar, 
se fosse preciso.
       - Voc no pode fazer isso com eles. - Oliver tinha perdido cinco quilos em duas semanas e a tenso os estava matando.
       Mas Sarah no cedeu. Na semana anterior havia escrito aceitando a matrcula oferecida e devia partir dentro de 15 dias, para procurar um apartamento em Boston. 
As aulas comeavam em 10 de janeiro. Tudo que tinha a fazer era passar o Natal em casa, arrumar as malas e contar aos filhos.
       - Ollie, no vamos mais falar nisso.
       Ele teve vontade de levantar-se e sacudi-la. Mas Sarah parecia distante, como se no pudesse enfrentar a idia da dor que estava causando.
       Naquela noite, bem tarde, Oliver e Sarah levaram para a sala os presentes embrulhados e enfeitados por Sarah e Agnes. Nesse ano ela havia caprichado especialmente, 
como se fosse o ltimo Natal que passavam juntos. Na semana anterior, Ollie havia comprado para ela um anel de esmeralda, no Van Cleef. Era lindo e uma coisa que 
Sarah sempre quis ter. A esmeralda quadrada ficava no centro de pequenas baguetes de brilhante. Pensou em dar o anel naquela noite, mas de repente achou que ia parecer 
mais um suborno do que um presente e arrependeu-se de t-lo comprado.
       Quando foram se deitar, Sarah acertou o despertador para as seis horas. Queria levantar cedo para preparar o peru. Agnes tambm estaria de p para fazer todo 
o trabalho, mas Sarah queria fazer o peru sozinha, outro presente final para eles, e, alm disso, era tradio da famlia.
       Apagaram a luz e ela ficou ali deitada, pensando, ouvindo a respirao de Ollie. Sabia que ele estava acordado e podia imaginar seus pensamentos. Nas duas 
ltimas semanas ele parecia desesperado. Tinham discutido, brigado, conversado, e Sarah continuava convencida de que estava fazendo a coisa certa, pelo menos para 
ela mesma. 
       Agora, tudo que queria era comear a nova vida, afastar-se deles e da dor que estava provocando.
       - Eu gostaria que voc parasse de agir como se eu estivesse indo embora para sempre - falou baixinho, no escuro. 
       - Mas voc est, no est? - Havia uma imensa tristeza na voz dele.
       - Eu j disse. Virei nos fins de semana, sempre que for possvel. E nas frias.
       - E quanto tempo voc acha que isso vai durar? No pode ficar viajando e estudar ao mesmo tempo. Eu no compreendo como voc pode fazer isso.
       Oliver dissera isso umas duzentas vezes naquelas ltimas semanas, enquanto procurava algum motivo, alguma coisa que ele tivesse feito, ou que tivesse deixado 
de fazer. Tinha de ser isso. Sarah no podia simplesmente desejar uma vida longe deles, se o amasse de verdade.
       - Talvez voc compreenda quando tudo estiver terminado. Talvez eu venha a ser alguma coisa, possa fazer alguma coisa que merea seu respeito. Se for assim, 
ento valeu o sacrifcio.
       - Eu a respeito agora, sempre respeitei. - Voltou-se e olhou para ela,  luz da lua que entrava pela janela. Sarah estava to bela quanto sempre, mais talvez 
agora porque a dor de perd-la fazia com que a amasse mais. E j sofrendo pelos filhos, pelo que ele sabia e eles ignoravam, perguntou: - Quando vai contar para 
as crianas?
       - Pensei em dizer tudo amanh  noite, quando seus pais voltarem para casa.
       -  um modo bem triste de acabar o Natal.
       - Acho que no devo esperar mais. Eles sabem que alguma coisa est acontecendo. Mel est desconfiada, e Benjamin praticamente desapareceu. Isso  sinal de 
que sabe que h alguma coisa e est fugindo para no ter de enfrentar.
       - E o que acha que vo sentir quando voc contar-lhes? - Provavelmente o mesmo que ns dois. Assustados, confusos, talvez entusiasmados, por mim. Acho que 
Mel e Benjamin vo entender. Mas Sam me preocupa. - Olhou para Ollie, procurou a mo dele e continuou com voz trmula, pensando no filho mais novo. - Tome bem conta 
dele, Ollie... Sam precisa mais de voc do que de mim...
       - Ele precisa de voc tambm. S o vejo durante poucas horas do dia e s falamos de futebol, beisebol e os deveres de casa.
       - J  um comeo. Talvez vocs todos fiquem mais unidos agora.
       - Sempre pensei que fssemos unidos. - Era uma das coisas que mais o magoavam. Pensava que tinha tudo. Uma famlia perfeita. Uma vida perfeita. Um casamento 
perfeito. 
       - Sempre achei que tudo estava to certo entre ns... nunca compreendi o que voc sentia sobre tudo isso... quero dizer... bem, compreendi quando voc ficou 
grvida, mas sempre pensei que depois disso, mesmo antes de Sam, voc fosse feliz. - A dor maior era pensar que no dera tudo que ela desejava.
       - Eu estava... eu sempre estive... sempre quis uma coisa que voc no podia me dar. Tem de vir de dentro e acho que nunca a encontrei. - Sentia-se culpada 
por dar a impresso de que ele havia falhado. Oliver sempre fora o marido perfeito.
       - E se no encontrar agora? - Acho que desisto.
       Mas ela estava certa de que ia encontrar. J havia encontrado, em parte. S a deciso de ir para Harvard j a fazia sentir-se diferente.
       - Acho que pode encontrar aqui mesmo. Talvez s precise de mais liberdade.
       Sarah chegou mais perto dele, e Oliver a abraou.
       - Eu tinha toda a liberdade que podia desejar. S no sabia o que fazer com ela.
       - Oh, meu bem... - Escondeu o rosto nos cabelos dela com lgrimas nos olhos e sentiu o tremor dos ombros de Sarah e as lgrimas no rosto apoiado no seu peito. 
- Por que est fazendo isto? No podemos atrasar o relgio algumas semanas e esquecer que aconteceu?
       Sarah balanou a cabea e olhou para ele.
       - Acho que no. Eu sempre ia sentir que havia perdido alguma coisa. Vou voltar... eu prometo... eu juro. Eu o amo demais para no voltar.
       Mas algo no corao dele dizia o contrrio. O mais seguro era mant-la em casa, no permitir que se fosse. Uma vez longe deles, qualquer coisa podia acontecer.
       Ficaram assim abraados por um longo tempo, os rostos encostados, os lbios se encontrando uma vez ou outra, e afinal o desejo dele foi maior. Pela primeira 
vez em duas semanas ele a possuiu com a paixo e o desejo que pareciam esquecidos. Havia desespero naquele ato de amor, um desespero que jamais existira, uma sede, 
uma solido, uma fome insacivel. Sarah tambm sentia, alm da culpa e da tristeza que quase a dominaram quando terminaram juntos. Depois, beijaram-se e ela dormiu 
nos braos dele... Oliver... o homem que ela amava desde que eram quase crianas... o homem que ele era agora... o amor que podia terminar em Harvard.
       
Captulo 4
       
       A manh do dia de Natal foi movimentada. A mesa, o peru, os presentes, os telefonemas de Chicago e trs dos Watson. George telefonou para dizer que Phyllis 
no estava muito bem e Oliver no deu muita ateno, atribuindo  mania do pai de se preocupar com pequenas coisas. Os Watson deviam chegar ao meio-dia, mas s apareceram 
s duas horas, com presentes para todos, incluindo um xale de cashmere para Agnes e um enorme osso para Andy. Ao contrrio do que George havia dito, Phyllis parecia 
tima, muito bonita no vestido novo de l lils comprado no dia em que George havia se preocupado com seu atraso.
       Levaram um tempo enorme para abrir todos os presentes, e Sarah estava encantada com o anel de esmeralda que Oliver lhe dera de manh muito cedo, enquanto 
a via preparar o peru, sentando  mesa da cozinha. Sarah deu a ele um casaco de l, algumas fitas que ele queria, gravatas e meias e outras pequenas coisas e uma 
bela pasta de couro preto. E, por brincadeira, Oliver deu a ela uma "mala escolar" pequena e vermelha, querendo dizer que, para ele, Sarah era "apenas uma criana", 
e uma bssola para que ela pudesse encontrar o caminho de volta, com uma gravao que dizia, Volte logo para casa. Eu a amo, Ollie.
       - Para que isso, papai? - perguntou Sam, quando viu a bssola. - Voc e mame vo acampar?  uma bssola muito especial.
       - Sua me  uma mulher muito especial. Achei que pode ser til, se ela se perder, algum dia.
       Ele sorriu, Sam achou graa e Sarah, estendendo a mo, tocou carinhosamente no marido e o beijou. Depois foram os dois para a cozinha, para trinchar o peru.
       A refeio foi tranqila, a no ser por Phyllis que, depois de um certo tempo, pareceu ficar nervosa e a todo momento levantava da mesa para tirar pratos 
que no precisavam ser tirados, trazer coisas da cozinha que no deviam ser trazidas, e perguntando a todos, inmeras vezes, se queriam mais alguma coisa.
       - O que h com a vov? - perguntou Sam ao pai, em voz baixa, quando Phyllis saiu atrs de Agnes, dizendo que ia ajud-la. - Ela nunca ajudou tanto na cozinha.
       Oliver notou tambm, mas pensou que ela devia estar preocupada com alguma coisa. Parecia estranhamente agitada. - Acho que ela s quer ajudar sua me e Agnes. 
Os velhos s vezes ficam assim. Querem que todos saibam que ainda podem ser teis.
       - Oh! - Sam fez um gesto afirmativo, satisfeito com a resposta, mas os outros tambm haviam notado.
       Mel olhava preocupada para a av, Sarah limitou-se a balanar a cabea, procurando evitar perguntas. Ela podia ver que a sogra estava com algum problema.
       Fora isso, tudo correu como sempre. Todos comeram bastante e depois praticamente desmaiaram na sala de estar, enquanto Sarah, Agnes e Phyllis arrumavam a 
cozinha. 
       Melissa as ajudou um pouco, mas depois foi para a sala.
       Sentou-se ao lado do av e perguntou, com ar preocupado:
       - O que h com a vov? Ela parece to nervosa.
       - As vezes ela fica assim, agitada.  difcil acalm-la.  melhor deixar que tudo passe, desde que no esteja fazendo nada perigoso. Ela est bem, l na cozinha?
       - Acho que sim. Est correndo de um lado para o outro como um furaco.
       Mas na verdade Phyllis no estava fazendo coisa alguma, s falando sem parar e levando os pratos sujos de um lugar para outro. Sarah e Agnes notaram aquele 
comportamento estranho, mas no disseram nada e finalmente mandaram Mel voltar para a sala. Quando ouviu o nome da neta, Phyllis parou e olhou fixamente para ela.
       - Mel? Ela est aqui? Oh, eu gostaria de v-la, onde ela est?
       Melissa ficou calada, atnita, e sua me fez sinal para ela sair da cozinha, mas quando se sentou ao lado do av, estava abalada.
       - Ela est to confusa. Eu nunca a vi assim antes. - Est acontecendo cada vez com maior freqncia. - George Watson olhou tristemente para o filho. Era exatamente 
o que estava tentando explicar havia algum tempo. Porm s vezes ela parecia perfeitamente bem, e ele pensava que estava imaginando coisas. No sabia o que pensar. 
Num dia, ela parecia completamente descontrolada, no dia seguinte, estava bem, e s vezes mudava de uma hora para outra. - No sei o que , Mel. Gostaria de saber. 
Velhice, eu acho, mas ela parece muito nova para isso.
       Phyllis Watson tinha apenas 69 anos, e o marido era trs anos mais velho.
       Logo depois, as duas mulheres voltaram para a sala, e Phyllis parecia mais calma. Sentou-se ao.lado de Benjamin e conversou com ele e sobre sua ida para Harvard. 
       Ele ia tentar tambm Princeton e Stanford, na costa oeste, Brown, Duke e Georgetown. Com suas notas e boa atuao nos esportes, podia escolher as melhores 
universidades. 
       Mas queria mesmo era ir para Harvard, como Sarah tambm queria, agora. Seria interessante estudar na mesma universidade que o filho. Talvez assim ele a perdoasse 
por sair de casa oito meses antes dele. Ollie chegou a sugerir que ela esperasse at Benjamin ir para a universidade, mas Sarah no queria adiar nada. Havia muitos 
anos que esperava por isso e no queria atrasar nem mais uma hora. Era o tipo de coisa que Phyllis havia previsto fazia muitos anos, mas agora ela provavelmente 
no se lembrava, nem compreendia.
       - Quando vai ter resposta de todas essas universidades? - George Watson estava to entusiasmado quanto o neto. - Provavelmente no antes do fim de abril.
       -  uma longa espera para um homem da sua idade.
       - Sim,  mesmo. - Benjamin sorriu e olhou para o pai, - Nesta primavera, papai e eu vamos visitar as universidades enquanto eu espero. Conheo quase todas, 
mas nunca estive na Duke, nem na Stanford.
       - Ficam muito longe. Ainda acho que voc devia ir para Princeton.
       Todos sorriram. Princeton era a alma mater de George e ele achava que todo mundo devia estudar l.
       - Talvez eu v, se no for aceito em Harvard. Talvez voc possa conseguir que Mel estude em Princeton algum dia. Mel fez uma careta e jogou um pedao de biscoito 
no'' irmo.
       - Voc sabe que quero ir para a universidade de Los Angeles, para estudar teatro.
       - , se no se casar antes. - Em geral Benjamin dizia se no "engravidar" antes, mas no na frente dos pais. Mel estava namorando um rapaz da turma dele, 
e embora Benjamin achasse que ela no havia "ido at o fim", desconfiava que estava muito perto disso. Mas Mel sabia tambm do novo romance do irmo com uma bonita 
loura de corpo sensacional, Sandra Carter.
       O tempo passou e finalmente George e Phyllis foram para casa. Assim que eles saram, Oliver olhou para Sarah. Fazia meia hora que ela estava estranhamente 
calada, talvez pensando no que ia dizer aos filhos. Na verdade, estavam todos to cansados que seria melhor deixar para outro dia, mas havia tanto tempo que ela 
estava pensando naquele momento que no queria adiar mais.
       Benjamin ia pedir as chaves do carro, Melissa preparava-se para falar ao telefone, e Sam bocejava, cheio de sono, quando Agnes apareceu na porta.
       - Est na hora de Sam ir para a cama. Eu o levo para cima, se a senhora quiser, Sra. Watson. - A cozinha estava arrumada, e ela queria ir para seu quarto 
e ligar a nova televiso, um presente de Natal dos Watson.
       - Eu o levo daqui a pouco. Queremos conversar primeiro. Obrigada, Agnes.
       Sarah sorriu e Agnes teve a impresso de ver algo diferente nos olhos dela, mas apenas fez um gesto afirmativo e desejou feliz Natal a todos. Sam voltou-se 
para a me, com ar cansado.
       - Sobre o que vamos conversar?
       - Mame... eu no posso... eu combinei sair... - Benjamin parecia apressado, consultando o relgio novo, mas Sarah balanou a cabea.
       - Eu gostaria que voc ficasse. Quero conversar com vocs todos.
       - Alguma coisa errada? - Benjamin estava intrigado, Mel parou no meio da escada e olhou para eles.
       Sarah esperou que estivessem todos de novo na sala e sentou-se. Parecia uma conversa muito importante agora. Oliver sentou-se numa cadeira um pouco afastada, 
perto da lareira, imaginando o que ela ia dizer e como eles iam reagir. - No sei como comear. - De repente, Sarah teve a impresso de que lhe faltava o ar, olhando 
para todos eles, Benjamin, alto e bonito, a filha, to crescida, mas ainda uma criana, e Sam, enrodilhado, sonolento no sof, ao lado dela. - H muito tempo que 
eu queria fazer uma coisa e vou fazer agora, mas no vai ser fcil para nenhum de ns.  uma grande mudana. Porm, primeiro quero que saibam o quanto os amo, o 
quanto me importo com vocs... mas nunca deixei de acreditar, e vocs sabem disso, que precisamos ser sinceros para ns mesmos. - Apertou a mo de Sam e evitou olhar 
para Oliver. - Temos de fazer o que achamos que  certo, mesmo que seja difcil. - Respirou fundo, e eles esperaram em silncio.
       Estavam com medo do que iam ouvir. Sarah parecia to sria de repente, e Benjamin notou que o pai estava plido. Talvez estivessem para se divorciar, ou iam 
ter outro filho. Um beb no seria to ruim, mas um divrcio representaria o fim do mundo. Nenhum deles tinha idia do que podia ser. - Vou voltar a estudar - disse 
Sarah, terminando a frase com um suspiro.
       - Voc? - Mel estava atnita. - Onde? - perguntou Benjamin.
       - Por qu? - quis saber Sam. Para ele parecia bobagem. Escola era para crianas e no via a hora de se livrar dela. Imagine, voltar depois de grande. Nunca 
ele faria uma coisa dessas, na idade dela. - Papai tambm vai voltar para a escola?
       Sarah sorriu, mas Oliver continuou srio. Seria mais fcil para todos se ele tambm fosse. Ento, os dois iriam para Cambridge. Mas era ela quem ia sair, 
todos eles continuariam ali, com suas vidas seguras e confortveis. S ela precisava deixar o porto seguro, saindo para o mar desconhecido. Mas a idia a excitava 
mais do que assustava. Algum dia explica. ria tudo para os filhos, mas no agora. Por enquanto eles precisavam saber como seriam afetados por essa deciso. E seriam 
afetados. 
       No havia dvida. Especialmente Sam, que olhava interrogativamente para ela. Sarah olhou para o filho mais novo e sentiu o corao apertado. Mas sabia que 
precisava deix-los.
       - No, papai no vai voltar para a escola. S eu. Irei para Harvard dentro de duas semanas.
       - Harvard? - Benjamin ficou chocado. - Voc? Por qu? - Ele no compreendia. Como a me podia estudar em Boston? Ento, lentamente entendeu. Voltou-se para 
o pai e viu nos olhos dele toda a solido, toda a dor provocada pela me. Mas havia tambm angstia e tristeza nos olhos dela.
       - Eu virei para casa sempre que puder. E vocs tm Agnes e seu pai.
       - Quer dizer que vai nos deixar? - Sam sentou-se ereto no sof com os olhos cheios de terror. - Para sempre? - No, no para sempre - disse ela, depressa. 
- S por algum tempo. Posso voltar nos fins de semana e nas frias. - Resolveu ento dizer toda a verdade. Devia isso a eles. -  um programa de dois anos.
       - Dois anos? - Sam comeou a chorar, e por um momento ningum falou. Sarah tentou abra-lo, mas ele se esquivou e saltou do sof, correndo para o pai. - 
Voc vai embora e vai nos deixar? Por qu? No gosta mais de ns? Sarah levantou-se, com lgrimas nos olhos, e tentou se aproximar dele, mas Sam no permitiu. Ela 
sabia que ia ser difcil, mas no tanto, e de repente sentia a dor que estava causando. Mas tinha de fazer, por seu prprio bem.
       -  claro que gosto de vocs, Sam... de vocs todos... S que preciso fazer isso... por mim... - Tentou explicar, mas Sam, soluando, no a ouvia.
       Agora ele estava abraado com Mel, que comeou a chorar tambm. Os dois juntos, como se estivessem prestes a se afogar, lanavam um olhar acusador para a 
me.
       - Por que, mame?
       Foram as duas palavras mais dolorosas que ela j ouvira, e Sarah olhou para Oliver, pedindo ajuda, mas ele ficou calado. Estava to magoado quanto os filhos.
       -  difcil explicar.  uma coisa que quero fazer h muito tempo.
       - E alguma coisa entre voc e papai? - perguntou Mel, abraada a Sam e com as lgrimas descendo pelo rosto. - Vocs vo se divorciar?
       - No, no vamos. Nada vai mudar. S preciso me afastar por um tempo para fazer algo para mim mesma, para ser eu mesma, sem todos vocs. - No disse que eles 
a estavam puxando para baixo, que a impediam de criar alguma coisa que fosse s dela. Seria injusto, mas era verdade. Via claramente agora. De certo modo, Oliver 
estava certo, como sempre, mas Sarah sabia que ela tambm estava. Iam sobreviver, e ela voltaria para eles como uma pessoa melhor. Morreria se ficasse. Tinha certeza 
disso agora.
       - Voc no pode estudar aqui? - perguntou Benjamin em voz baixa.
       Parecia chocado tambm, mas era crescido demais para chorar. Olhava para ela, procurando entender, certo de que devia haver outro motivo. Talvez fossem se 
divorciar e no queriam contar para os filhos. Mas ento, por que no os levava com ela? No fazia sentido. S sabia que sua famlia estava se desmanchando, mas 
no sabia por qu. Queria acreditar que Sarah tinha uma boa razo. Ele a amava tanto! Queria compreender o lado dela, mas no podia.
       - Acho que no conseguiria fazer nada aqui, Benjamin. Harvard  o lugar certo. - Sorriu tristemente. Os soluos de Sam eram uma dor quase fsica para ela, 
mas no ousava se aproximar dele. Toda vez que tentava, ele a repelia. Oliver tambm estava procurando ficar longe dele. - Talvez ns dois estejamos juntos em Harvard, 
no outono.
       - Seria timo. - Benjamin sorriu. Sempre acreditara na me e nas coisas que ela fazia, mas no ntimo estava extremamente abalado. Era como se toda a sua vida 
tivesse explodido de um momento para outro. Nunca imaginou que o pai ou a me pudessem sair de casa. Estavam ali para ficar... ou talvez no, afinal. Mas nunca podia 
imaginar que ela seria a primeira a partir. Mal conseguia pensar, procurando ficar calmo. Olhou para Oliver, no canto da sala, levantou-se e perguntou: - Papai, 
o que voc acha disso tudo?
       -  a deciso da sua me, meu filho. No podemos impedir. E ela no nos deu muita escolha. Acredita que est fazendo a coisa certa e temos de apoi-la do 
melhor modo possvel. - Seus olhos encontraram os de Sarah e para ele alguma coisa tinha mudado. Agora, ela havia magoado os filhos tambm, no apenas ele, e Oliver 
jamais se esqueceria disso, mesmo sabendo que sempre a amaria. - Vamos sentir sua falta, Sarrie.
       A beleza do Natal estava esquecida, o riso, a tradio, os presentes. Aquela foi a noite mais difcil da vida deles, mas podia ser pior. Podia ter acontecido 
alguma coisa irreparvel. Mas isso era s por algum tempo, como ela dizia. Dois anos. Parecia uma eternidade para eles agora. Sarah tentou aproximar-se novamente 
de Mel e de Sam. Ele comeou a chorar alto, outra vez, e Mel estendeu a mo para evitar que ela se aproximasse, olhando furiosa para a me e para o pai.
       - Eu acho que vocs esto mentindo. Acho que voc vai embora para sempre e no tem coragem de nos dizer. Mas, se  isso, por que no nos leva junto?
       - Porque no  nada disso. E o que vocs iam fazer em Cambridge? Deixar todos os seus amigos? Ir para outra escola? Morar comigo num apartamento pequeno, 
enquanto eu trabalho e estudo para o mestrado? Benjamin est no ltimo ano, e voc no antepenltimo. Gostaria de abandonar tudo isso agora? E eu no poderia cuidar 
de vocs enquanto estivesse estudando. Ficam muito melhor aqui com seu pai e Aggie, na sua casa, nas escolas de que gostam, com amigos de muitos anos, num ambiente 
que j conhecem.
       - Voc est nos abandonando. - A fria e a dor cintilavam como lminas afiadas nos olhos de Mel, e os soluos de Sam continuavam com a mesma intensidade. 
Mel voltou-se para o pai: - Voc deve ter feito alguma coisa horrvel para ela nos abandonar assim. - Ela os odiava, naquele momento, e sentia que ia odi-los para 
sempre.
       Sarah apressou-se em defender o marido.
       - No  verdade, Mel. Seu pai no tem nada a ver com isto.
       - As pessoas no vo embora para estudar, assim sem mais nem menos. No gente grande. Voc deve nos odiar muito.
       Sam comeou a soluar mais alto e.Mel, levantando-se, tomou-o nos braos. Ele olhou outra vez para a me, com o rosto inundado de lgrimas, e Sarah no procurou 
se aproximar dele. Sam no lhe pertencia mais. Era deles agora.
       Ele mal podia falar no meio dos soluos.
       - ...  verdade? Voc... nos... odeia... mame? Sarah balanou a cabea, e seus olhos se encheram de lgrimas.
       - No, no odeio. Eu os amo de todo o meu corao... todos vocs e o papai tambm. - Agora ela estava chorando. Oliver deu as costas aos quatro, que se entreolhavam 
sem saber o que fazer ou dizer. Sua famlia fora destruda com um s golpe. Ento, ele aproximou-se de Mel, abraou Sam e o menino agarrou-se a ele como quando era 
beb.
       - Tudo vai dar certo, meu filho... vamos ficar muito bem.
       Inclinou-se para beijar Mel, mas ela recuou e correu para o quarto. Ouviram a porta bater com fora. Oliver caminhou para a escada com Sam, e Sarah e Benjamin 
ficaram sozinhos. Ainda chocado, ele olhou para a me, sem poder acreditar, mas sabendo que era verdade.
       - Mame... por qu? - Benjamin j tinha idade suficiente para que ela falasse abertamente, como sempre fazia. - No tenho certeza. S sei que no posso continuar 
fazendo isto e que me parece a coisa certa. Quero ser mais do que isto. Mais do que uma pessoa que leva crianas para o colgio em determinados dias e espera que 
Sam chegue da escola todas as tardes.
       Por um momento, Ben teve a impresso de que ela odiava ser me deles.
       - Mas voc no podia esperar? - Outras mes esperavam.
       - No, no posso esperar mais. Tenho de fazer isso agora. - Sarah assoou o nariz, mas as lgrimas continuaram a descer pelo seu rosto. Era horrvel mago-los 
assim, mas eles a estavam magoando tambm. Havia anos que a magoavam, os filhos e Ollie.
       Benjamin fez um gesto afirmativo, querendo compreender. Ele a amava e queria o melhor para ela, mas no ntimo achava que era uma coisa terrvel. No podia 
imaginar algum abandonando um filho. Jamais pensou que Sarah fosse capaz disso. Mas ela estava fazendo e agora tudo era diferente. O que restava? Nada. Um punhado 
de crianas. 
       Um pai que trabalhava o tempo todo. E uma empregada que cozinhava para eles. De repente, sentiu-se ansioso para que o outono chegasse logo, para sair de casa. 
Se pudesse, sairia antes. No tinha mais famlia. S algumas pessoas que moravam na mesma casa. Era quase como se Sarah tivesse morrido, mas pior, porque ela podia 
ficar, se quisesse. E o que mais o machucava era saber que ela no queria. Toda aquela conversa do quanto os amava. Se se importasse com eles, no os estaria abandonando. 
       Essa era a verdade. Benjamin olhou para o cho e depois para a me, sentindo-se culpado por seus pensamentos, desejando sair da casa o mais depressa possvel. 
Sempre acreditara nela, mais do que no pai. E de repente ela estava destruindo a vida de todos eles. Assim, sem mais nem menos. A dele, de Mel, de Sam, at do pai. 
Tinha pena de Oliver, mas no podia fazer nada.
       - Eu no queria pedir agora... mas estava pensando se... acha que papai se importaria se eu usasse o carro por pouco tempo?
       Ela balanou a cabea, tentando adivinhar o que Benjamin estava pensando. Sempre tivera mais afinidade com ele. - Tenho certeza de que ele no se importa.
       Era como se j no tivesse nenhuma autoridade. Havia devolvido suas chaves. Era uma amostra do que seria se voltasse nos fins de semana. Eles no estariam 
mais acostumados com sua presena, muito menos com sua autoridade. No ia ser fcil.
       - Voc est bem? - Preocupava-se com ele. Sabia que Benjamin estava muito abalado. E tinha s 17 anos. Sarah no queria que ele fosse beber em algum lugar 
e voltasse depois, dirigindo o carro, ou qualquer coisa desse tipo. - Aonde voc vai a esta hora?
       Passavam das dez, e era noite de Natal, uma ocasio nada aconselhvel para dirigir nas ruas.
       - Vou visitar um amigo. Volto logo.
       - Tudo bem. - Sarah fez um gesto afirmativo. Benjamin voltou-se para sair, instintivamente ela estendeu o brao e segurou a mo dele.
       - Eu o amo... por favor, lembre-se sempre disso. - Sarah estava chorando outra vez.
       Ele queria dizer alguma coisa, mas no disse. A me o havia ferido profundamente, a todos eles. Apenas acenou com a cabea, apanhou o sobretudo e num instante 
no estava mais ali. A porta da frente bateu, e com um estremecimento Sarah dirigiu-se para a escada. Mel soluava, no quarto. Sarah tentou a porta. Estava trancada, 
e Mel no respondeu quando ela chamou. O. quarto de Sam estava silencioso, e Sarah no quis entrar para no acord-lo. Entrou no seu quarto e sentou-se na beirada 
da cama, sentindo-se como se tivesse sido atropelada por um caminho. Oliver s apareceu uma hora depois. Sarah estava deitada, olhando para a parede com os olhos 
cheios de lgrimas.
       - Como est ele?
       Sarah nem havia tentado ver o filho. Agora ele pertencia a Oliver, no mais a ela. Todos eles. Era como se j tivesse partido e compreendeu que devia sair 
o mais depressa possvel. Talvez fosse melhor para eles, agora que j sabiam.
       - Est dormindo.
       Oliver deixou-se cair na cadeira com um suspiro de cansao. Fora um longo dia, uma noite infindvel, e no estava mais disposto quele jogo. Sarah havia destrudo 
suas vidas, s para ter o que queria. Sua me estava certa. Mas era tarde demais agora. Estavam mergulhados at o pescoo e, para que os filhos pudessem sobreviver, 
ele tinha de comear a nadar rapidamente. J havia comeado com Sam e restavam ainda Mel e Benjamin. Vira nos olhos do filho mais velho o quanto ele estava chocado 
com a deciso da me.
       - No sei se algum deles vai se refazer disto.
       - No diga isso. Basta o que estou sentindo agora. - Talvez no esteja sentindo o bastante para saber que devia desistir. Eles jamais confiaro em pessoa 
alguma, muito menos em mim. Se a prpria me os abandona, o que podem esperar do resto do mundo? E voc pensa que sero pessoas melhores por isso?  claro que no. 
Teremos sorte se conseguirmos sobreviver. Ns todos.
       - E se eu tivesse morrido?
       - Seria mais fcil para eles. Pelo menos no seria sua escolha, embora at mesmo a morte da me faa com que os filhos sintam-se rejeitados.
       - Muito obrigada. Est dizendo que sou a pior pessoa do mundo, no ? - Sarah estava zangada outra vez. Ele tentava faz-la sentir-se mais culpada do que 
j se sentia.
       - Talvez eu esteja dizendo isso, Sarah. Talvez voc seja. Talvez no passe de uma miservel egosta, que no se importa nem um pouco conosco. Isso  possvel, 
no ?
       - Talvez. Est dizendo que no quer que eu volte? - No ponha palavras na minha boca.
       Mas ele estava fazendo isso, e sempre faria, independente do que ela fizesse para as crianas, mas agora ele a odiava. Sam havia se agarrado ao pai como um 
nufrago prestes a se afogar. Ele ia sofrer por muito, muito tempo, e Oliver estava falando srio. Os filhos iam ficar marcados talvez para o resto de suas vidas. 
Pelo menos Sam, se ela no voltasse para ficar, o que era possvel, embora Sarah afirmasse o contrrio agora. Mas, uma vez em Harvard, as coisas mudariam para ela. 
Outras pessoas entrariam em sua vida, e Oliver e os filhos estariam muito longe. No havia garantias para nenhum dos dois.
       - Acho que devo ir antes de duas semanas. Vai ser muito difcil para ns todos se eu ficar mais tempo.
       - Isso  com voc - retrucou ele.
       Oliver entrou no banheiro para se despir. No se sentia mais  vontade com ela. Tinham feito amor na noite anterior, e agora Sarah era uma estranha. Uma estranha 
que havia invadido sua casa e maltratado emocionalmente seus filhos. - Quando pretende ir? - perguntou, sentando-se na beirada da cama.
       - Depois de amanh, talvez. Preciso me organizar. - Acho que seria bom eu levar as crianas para algum lugar, assim no assistiro  sua partida.
       - Talvez seja uma boa idia. - Olhou tristemente para ele e ento no tinha nada mais para dizer. Tudo estava dito, as mgoas, as acusaes, as desculpas, 
as explicaes e agora as lgrimas. - No sei mais o que dizer a voc. - Especialmente depois daquela noite, depois de ver e ouvir o choro das crianas.
       Mesmo assim, no ia desistir.
       - Tambm no sei o que dizer a voc. Sarah parecia exausta e extremamente triste.
       Ficaram deitados em silncio, no escuro, e finalmente, s duas horas da manh, ele conseguiu dormir. Mas Sarah ficou acordada at muito mais tarde e ouviu 
quando Benjamin voltou para casa. No precisava dizer nada a ele. Benjamin era um bom menino e estava sofrendo. Ia ser difcil para ele tambm. Afinal, era ainda 
uma criana, pelo menos era o que Sarah pensava.
       Benjamin tornara-se homem naquela noite e foi uma experincia estranha e maravilhosa para ele. Os pais de Sandra no estavam em casa e eles fizeram amor pela 
primeira vez. Era como receber uma mulher s para ele, em troca da me que havia perdido. Foi uma noite amarga e doce, e depois eles conversaram longamente sobre 
o que estava acontecendo com sua famlia e sobre o que ele estava sentindo. Podia conversar com Sandra como no conversava com mais ningum. Depois, fizeram amor 
outra vez e ele voltou para casa, para sua cama, para pensar naquele novo amor, no que ele significava, e na me que havia perdido. E ento a partida de Sarah pareceu 
menos aterradora, por causa de Sandra.
       Sarah ouvia os sons noturnos da casa, onde todos dormiam, desejando ser um deles outra vez. Mas no era possvel. Sentia-se uma pessoa diferente, e tudo que 
tinha a fazer era seguir sua nova vida. Apesar do sofrimento, a idia a entusiasmava. Enquanto todos dormiam, ela levantou-se e comeou a fazer as malas. Ps tudo 
que precisava em trs malas e quando Oliver acordou, de manh, estava pronta, de banho tomado, vestida, com a passagem de avio reservada. Havia telefonado tambm 
para um hotel em Cambridge que ela conhecia. Resolveu partir at aquela tarde, no mximo.
       - Aonde voc vai a esta hora? - perguntou Oliver, surpreso, compreendendo que muita coisa tinha acontecido enquanto ele dormia.
       - Por enquanto a lugar nenhum. Vou partir esta noite. Direi s crianas quando acordarem. No podem ficar mais perturbados do que esto. Por que no os leva 
a algum lugar, para distrair?
       - Vou tentar. Verei o que posso fazer - falou ele. Oliver saiu do chuveiro, vestiu-se e deu alguns telefonemas. Quando tomavam caf, disseram aos filhos que 
Sarah ia partir antes do que esperava e que ele ia lev-los para esquiar em Vermont. Pediu a Agnes para fazer as malas de Sam, e Benjamin disse que talvez no fosse, 
porque tinha alguns trabalhos da escola para fazer nas frias.
       - Nas frias de Natal? - Oliver achou que devia haver alguma namorada.
       - Quanto tempo vamos ficar em Vermont? - Uns trs ou quatro dias.
       O suficiente para distra-los um pouco, se fosse possvel, e depois voltar para a casa vazia da presena dela. A notcia da partida mais breve chocou a todos, 
mas estavam to abati dos com o golpe da noite anterior que nada mais os surpreendia. Aceitaram em silncio e quase no tocaram na comida. Benjamin falou pouco, 
parecia cansado e quase no comeu, Mel no disse uma palavra, e Sam olhava constantemente para o pai, como para se certificar de que ele ainda estava ali.
       No fim, Benjamin concordou em ir a Vermont e eles saram s quatro horas da tarde, antes de Sarah partir para o aeroporto. As despedidas foram terrveis, 
e Sam partiu chorando. Agnes ficou na porta, atnita, e at Benjamin tinha lgrimas nos olhos. Sarah nem podia falar, e Oliver chorava abertamente. Ele olhou no 
retrovisor apenas uma vez e teve a impresso de que seu corao ia se partir quando a viu na frente da casa, com o brao erguido num adeus. Toda sua vida terminada, 
num momento, perdia a mulher que amava e tudo que havia construdo. Por causa de um capricho insano. Estava certo de que as crianas no achavam estranho v-lo chorar. 
Estava sofrendo tanto quanto eles. Olhou para Sam, sorriu entre as lgrimas e puxou o filho para perto dele, no carro.
       - Vamos, campeo, ns vamos ficar bem, voc sabe. E sua me tambm. - Com lgrimas nos olhos, tentou sorrir para os filhos.
       - Vamos ver mame outra vez? - perguntou Sam. Exatamente o que Ollie temia. Sam no confiava em nada e em ningum agora e talvez o mesmo estivesse acontecendo 
com o pai. Quem podia culp-lo?
       -  claro que sim. E logo no vamos nos sentir to mal. Mas agora, di bastante, certo? - disse com voz trmula. Benjamin, no banco traseiro, assoou o nariz. 
Mel chorava tambm, mas, absorta nos prprios pensamentos, continuava calada.
       Ia ser estranho ser pai e me, estranho fazer as coisas que ela fazia... lev-los ao mdico... ao ortodontista... comprar sapatos para Sam... quando ia achar 
tempo para tudo isso? Como ia se arranjar sem ela? Porm, o mais importante era como ia viver sem a mulher que amava, sua vida, seu conforto e seu riso? Foi uma 
viagem silenciosa at Vermont, e ningum falou at pararem em Massachusetts para jantar.
       Sarah j estava em Boston, a caminho de Cambridge, para comear a nova vida. A vida que tinha escolhido, sem eles.
       
Captulo 5
       
       Afinal, todos se divertiram e depois dos primeiros dias pareciam voltar  vida, uns mais lentamente do que os outros. Sam tinha pesadelos e chorava com facilidade, 
mas ria tambm e divertiu-se muito esquiando com o pai. Benjamin participou de uma corrida, mas quando no estava esquiando, vivia telefonando para amigos, como 
se eles tivessem a soluo para seu problema. S Mel continuava distante, esquiando sem entusiasmo e evitando o pai e os irmos. Era a nica mulher na famlia agora 
e, embora Oliver tentasse anim-la, ela fugia  aproximao do pai. Parecia no ter nada a dizer para eles. Falava s com Sam, mas mesmo com ele parecia sempre triste 
e desanimada.
       Oliver desdobrava-se em cuidados, alugando esquis, carregando e descarregando o carro, organizando as refeies, levando Sam para a cama, tomando conta de 
Mel, verificando se estavam bem agasalhados, e s oito horas da noite estava exausto. Mal conseguia ficar acordado durante o jantar. Estava dormindo com Sam para 
que o filho no se sentisse muito s. Sam molhou a cama duas noites, e Oliver teve de mudar os lenis, virar o colcho e procurar cobertores secos. Sam estava extremamente 
deprimido, como todos eles, mas Olhe estava sempre to ocupado que mal tinha tempo para pensar em Sarah. S  noite, na cama, sentia o corao apertado e de manh, 
quando acordava, a ausncia dela abatia-se sobre ele com o peso de uma montanha. Era como se Sarah estivesse morta, e s no terceiro dia em Vermont Ollie falou nela. 
Quando disse alguma coisa sobre a "mame", todos olharam rapidamente para ele, com os olhos cheios de dor e Ollie arrependeu-se de imediato de ter falado.
       Voltaram no dia do Ano-Novo, todos mais animados e com aparncia saudvel. S quando chegaram em casa, a tristeza voltou. Tudo estava quieto, o cachorro dormia, 
e at Aggie tinha sado. Oliver compreendeu que todos eles, secretamente, esperavam encontrar Sarah  sua espera. Mas ela no estava. Oliver tinha o nmero do telefone 
do hotel em Cambridge, mas no telefonou naquela noite. Levou Sam para acama, depois de ter feito o jantar com a ajuda de Mel. Quando estavam sentados  mesa da 
cozinha, Benjamin apareceu vestido para sair.
       - J? - Ollie sorriu. Ningum tinha desfeito as malas ainda. - Deve ser algum muito especial.
       Benjamin sorriu.
       - Uma amiga. Posso usar seu carro, papai?
       - No volte tarde. E tenha cuidado. Deve haver ainda muitos bbados nas ruas. - Sabia que Benjamin era cauteloso e nunca dirigia depois de beber. Mais de 
uma vez ele havia telefonado pedindo para o pai apanh-lo, depois de uma ou duas cervejas com os amigos. Sarah tinha conseguido isso, isso e muitas outras coisas. 
Sua marca estava em todos eles, e agora ela no estava mais ali, e Oliver se perguntava quando iria passar o fim de semana em casa. Havia seis dias que ela partira, 
e para Oliver parecia uma vida.
       Foi estranho deitar sozinho na cama, naquela noite, e Oliver pensou nela, como havia pensado todas aquelas noites, tentando se enganar, dizendo que era isso 
que estava fazendo. A meia-noite, finalmente acendeu a lmpada e comeou a ler alguns papis que havia levado do escritrio. Conseguira aquelas frias de uma semana, 
de um dia para o outro, e agora sentia-se um pouco melhor, um pouco mais descansado. Estava acordado quando Benjamin chegou  uma hora e parou na porta para dizer 
boa noite. Oliver havia deixado a porta aberta para ouvir Sam, caso ele acordasse, e Benjamin ficou ali por um momento, olhando tristemente para o pai, depois de 
pr as chaves do carro na mesa.
       - Deve ser duro para voc, papai... quero dizer... sem, a mame.
       Oliver fez um gesto afirmativo. No podia dizer muita coisa. Era difcil para todos eles.
       - Acho que vamos nos acostumar, e logo ela estar em casa. - Mas no parecia convencido, e Benjamin apenas balanou a cabea afirmativamente. - Divertiu-se 
esta noite?  um pouco tarde para quem tem aula amanh.
       - ... eu me esqueci das horas. Desculpe, papai. - Sorriu e disse boa noite.
       Uma hora depois Oliver ouviu Sam chorando e foi ao quarto dele. Sam estava dormindo, e o pai sentou-se na beirada da cama, acariciando sua cabea. O cabelo 
escuro estava mido. Depois de algum tempo ele se acalmou. Mas s quatro horas Sam foi para a cama de Oliver e aconchegou-se junto do pai. Oliver pensou em lev-lo 
de volta para o quarto, mas agradecia a presena do filho e, voltando-se para o lado, adormeceu. Pai e filho dormiram tranqilamente.
       Na manh seguinte, o caf foi o caos de sempre. Aggie fez biscoitos e bacon para todos, o que em geral s fazia nos fins de semana, ou em ocasies especiais. 
Certamente ela percebia a necessidade de alguma coisa especial, agora. Fez tambm um lanche caprichado para Sam, com tudo de que ele mais gostava. Era ela quem ia 
dirigir o carro nos dias marcados para Sarah levar as crianas do bairro  escola. Ollie saiu atrasado para tomar o trem, sentindo-se desorganizado, o que no era 
do seu feitio. Demorou-se dando instrues para todos, para que voltassem cedo para casa e fizessem os deveres. Era o que Sarah fazia. Ou no era? Tudo parecia to 
calmo quando ela estava em casa, tudo sob controle, tudo to feliz, quando ele saa para o escritrio. E quando chegou, foi recebido por uma pilha de trabalho acumulado 
durante a semana, decises e projetos para estudar. Saiu s sete horas da noite e chegou em casa quase s nove. Benjamin j tinha sado outra vez. Mel estava ao 
telefone e Sam via televiso na cama do pai. No havia feito o dever de casa, e Aggie no insistiu. Disse para Oliver que no quis pression-lo demais.
       - Posso dormir com voc, papai?
       - No acha que devia dormir na sua cama? - Temia que se tornasse um hbito.
       - S esta noite?... Por favor... Prometo que vou me comportar.
       Oliver sorriu e beijou a cabea do filho.
       - Eu ficaria muito mais satisfeito se voc tivesse feito seu dever de casa.
       - Eu esqueci.
       -  o que parece. - Oliver tirou o palet e a gravata, ps a pasta perto da mesa e sentou-se na beirada da cama, imaginando se Sarah teria telefonado, mas 
com medo de perguntar. - O que voc fez hoje?
       - No muita coisa. Aggie me deixou ver televiso logo que cheguei em casa.
       Ambos sabiam que Sarah no o deixava fazer isso. As coisas estavam mudando depressa demais para Oliver.
       - Onde est Benjamin? 
       - Saiu.
       - Foi o que imaginei. - Teria de se preocupar com isso tambm. Benjamin no tinha ordem para sair  noite durante a semana, nem mesmo no ltimo ano do ginsio. 
Tinha s 17 anos, e Ollie no pretendia deixar que ele comeasse a fazer o que no fazia quando Sarah estava em casa. - Vamos fazer uma coisa, campeo. Pode dormir 
aqui esta noite, mas amanh voc volta para a sua cama, combinado?
       - Combinado. - Sam apertou a mo do pai com um largo sorriso, e Ollie apagou a luz.
       - Vou descer para comer alguma coisa. Trate de dormir. - Boa noite, papai. - Parecia feliz, aninhado na metade da cama que pertencia a Sarah.
       - Durma bem... - Oliver ficou na porta, olhando para o filho, depois murmurou: - Eu o amo. - E foi ver Mel. Ela havia levado o telefone para o quarto, que 
estava numa tremenda desordem com roupas, livros, patins, sapatos por toda a parte. Mel olhou para o pai com expresso curiosa enquanto ele esperava que ela acabasse 
a conversa ao telefone. Finalmente, cobriu o bocal com a mo.
       - Quer alguma coisa, papai?
       - Sim, quero. Um al e um beijo seriam timos. Fez seu dever de casa?
       - Al. Sim, eu fiz. - Parecia aborrecida com a pergunta.
       - Quer me fazer companhia, enquanto eu janto? Depois de uma pequena hesitao, Mel fez um gesto afirmativo, sem nenhum entusiasmo. Certamente preferia ficar 
ao telefone, mas o tom do pai parecia mais uma ordem do que um convite. Na verdade, Oliver no queria jantar sozinho, e ela era a nica candidata disponvel na casa, 
alm de Aggie.
       - Est bem. Deso num minuto.
       Oliver saiu do quarto, abrindo caminho entre a desordem e desceu. Aggie tinha deixado o prato no forno, coberto com papel-alumnio. Oliver tirou o papel e 
no sentiu vontade nenhuma de comer. As costeletas de carneiro estavam muito passadas, a batata estava dura e o brcolis parecia feito havia muitas horas. Nem o 
cheiro da comida abriu-lhe o apetite. Jogou tudo fora e fritou ovos, fez um suco de laranja e esperou por Mel. Finalmente desistiu, e quando ela desceu, ele estava 
acabando de comer.
       - Onde est Benjamin? - Pensou que ela soubesse, mas Mel apenas ergueu os ombros.
       - Com amigos, eu acho.
       - Numa noite de quarta-feira? No me parece muito inteligente.
       Ela deu de ombros outra vez, aborrecida por ter de fazer companhia ao pai.
       - Voc tem passado algum tempo com Sam, quando voltam da escola? - Oliver preocupava-se com Sam o tempo todo, especialmente quando chegava tarde em casa. 
O menino agora precisava de algo mais do que Aggie.
       - Tenho sempre muito dever de casa, papai.
       - No me pareceu que estivesse fazendo o dever, h pouco no quarto.
       - Ele j est na cama, no est?
       - No estava quando cheguei. Ele precisa de voc agora, Mel. Ns todos precisamos - falou com um sorriso. - Agora que a mame se foi, voc  a dona da casa.
       Mas era uma responsabilidade que Mel no queria. Queria liberdade para estar com as amigas, ou pelo menos para falar com elas. A falta da me no era culpa 
sua. Era dele. Se ele no tivesse feito, fosse o que fosse, provavelmente Sarah jamais os teria deixado.
       - Quero que passe algum tempo com Sam. Fale com ele, faa companhia, verifique seu dever de casa.
       - Por qu? Ele tem Aggie.
       - No  a mesma coisa. Ora, vamos, Mel, seja boa para ele. Voc sempre o tratou como se fosse seu beb.
       Mel havia at embalado Sam nos braos na noite em que Sarah disse que ia partir. Mas agora era como se no quisesse saber de nenhum deles. Oliver imaginou 
se Benjamin no estaria reagindo do mesmo modo. Ao que parecia, ele procurava ficar em casa o menor tempo possvel e isso tinha de acabar tambm. Gostaria de ter 
mais tempo para ficar com eles, ajud-los, ouvir seus problemas. O telefone tocou, e Oliver quase suspirou quando ouviu a voz do pai. Estava cansado demais para 
falar com ele agora. Passavam das dez horas e ele queria tomar um banho de chuveiro e cama. Fora um dia cansativo no escritrio, e nada melhorou quando chegou em 
casa.
       - Oi, papai, como vai?
       - Estou bem. - Ele hesitou, e Oliver viu Mel escapar para o quarto. - Mas sua me no est.
       - Ela est doente? - Pela primeira vez sentia-se cansado demais para se preocupar.
       -  uma longa histria, meu filho. - George suspirou, e Oliver esperou. - Ela fez uma tomografia do crebro esta tarde.
       - Meu Deus... para qu?
       - Ela tem estado confusa... e na semana em que voc viajou, ela se perdeu. Depois tropeou na escada e distendeu o tornozelo.
       Oliver sentiu-se culpado por no ter telefonado de Vermont, mas na verdade seu tempo era curto demais.
       - Teve sorte, eu acho, nessa idade, podia ter quebrado o quadril ou coisa pior. - Mas no podia ser pior do que os mdicos haviam dito.
       - Papai, eles no fazem tomografias do crebro por causa de distenso no tornozelo. O que h? - O pai parecia tambm um tanto confuso, e Oliver estava cansado 
demais para ouvir uma histria longa.
       George hesitou outra vez.
       - Eu estava pensando se... eu podia ir v-lo para conversarmos.
       - Agora? - Oliver ficou atnito. - Papai, o que h? 
       - Preciso conversar,  tudo. E nossa vizinha, Margaret Porter, pode cuidar de sua me. Ela tem ajudado muito. O marido teve o mesmo tipo de problema.
       - Que problema? Do que est falando? O que foi que eles descobriram? - Oliver falou com impacincia, o que era raro nele, mas estava cansado demais e, de 
repente, muito preocupado.
       - Nada de tumores, ou coisa assim. Essa era uma possibilidade,  claro. Escute... se  muito tarde... - Mas estava claro que ele precisava conversar com algum, 
e Oliver no teve coragem de negar.
       - No, est tudo bem, venha ento, papai.
       Ligou a cafeteira eltrica e serviu-se de uma xcara, imaginando outra vez onde estaria Benjamin e quando ele voltaria para casa. Era muito tarde para estar 
na rua num dia de semana e era exatamente o que pretendia dizer ao filho. Mas o pai chegou primeiro, plido e abatido. Parecia muito mais velho do que na noite de 
Natal, e Oliver lembrou outra vez do corao fraco. Talvez no fosse prudente ele dirigir  noite, sozinho. Mas no disse nada, para no perturb-lo mais ainda.
       - Entre, papai. - Esperava que a campainha no tivesse acordado Sam. Foram para a cozinha. O pai no aceitou o caf, apenas uma xcara de descafeinado instantneo 
e sentou se lentamente numa das cadeiras ao lado da mesa. - Voc parece exausto - disse Ollie, pensando que no devia ter deixado que o pai sasse quela hora. Mas 
ele precisava conversar com algum e contou a Oliver os resultados do exame de Phyllis.
       - Ela est com a doena de Alzheimer, meu filho. O exame mostra um encolhimento visvel do crebro.  claro que eles no tm certeza ainda, mas, aliado ao 
seu comportamento nos ltimos meses, parece que o diagnstico est certo.
       - Isso  ridculo. - Oliver no queria acreditar. - Procure outro diagnstico.
       Mas George Watson apenas balanou a cabea. Ele sabia do que estava falando.
       - No adianta. Eu sei que esto certos. No pode imaginar o que ela tem feito ultimamente. Ela se perde, fica confusa, esquece como fazer coisas que fez a 
vida inteira, como usar o telefone, os nomes dos amigos. - Seus olhos encheram-se de lgrimas. - s vezes ela no sabe nem quem eu sou. No sabe se sou eu ou voc. 
Passou quase toda a semana me chamando de Oliver, e quando eu a corrigia, ficava furiosa. Usa palavras que eu nunca a ouvi dizer. As vezes fico embaraado na frente 
dos outros. Ela chamou a caixa do banco, que vemos todas as semanas de "cretina de merda". A pobre mulher quase desmaiou.
       Oliver sorriu, mas na verdade no era engraado. Era triste.
       De repente, George olhou em volta interrogativamente. - Onde est Sarah? Deitada?
       Por um momento, Oliver pensou em dizer que Sarah tinha sado, mas era tolice esconder a verdade agora. O pai teria de saber, mais cedo ou mais tarde. O mais 
estranho  que estava com vergonha de dizer, como se tivesse falhado de algum modo, como se tudo fosse sua culpa.
       - Ela se foi, papai.
       - Foi para onde? - O pai no entendeu. - Saiu? 
       - No, voltou para a universidade. Para Harvard. 
       - Ela o deixou? - George ficou atnito.  Quando aconteceu? Ela estava aqui, com vocs, no Natal... - Parecia impossvel de compreender, mas ento ele viu 
o sofrimento nos olhos do filho e compreendeu. - Oh, Ollie... meu Deus, eu sinto muito... Quando foi isso?
       - Ela me contou h trs semanas. Entrou para o programa de mestrado no outono passado, mas acho que  mais do que isso. Ela diz que vai voltar, mas no estou 
to certo. Acho que Sarah est enganando a si prpria mais do que a ns. No sei ainda no que devo acreditar. Temos de esperar para ver o que acontece.
       - E as crianas, como esto reagindo?
       - Aparentemente, muito bem. Eu os levei para esquiar na semana passada e foi timo para todos ns. Por isso no telefonei. Ela nos deixou um dia depois do 
Natal. Mas na verdade acho que estamos ainda em estado de choque. Mel acha que a culpa  minha, Sam tem pesadelos todas as noites e Benjamin parece que procura se 
esconder e sai com os amigos todas as noites. No sei se posso culp-lo. Talvez eu tivesse feito a mesma coisa na idade dele. - Mas a idia de Phyllis abandon-los 
era inconcebvel para os dois, e isso os levou a pensar nela outra vez. - O que voc vai fazer com mame?
       - No sei ao certo o que posso fazer. Disseram que se continuar como est, ela pode degenerar rapidamente. No fim, no vai reconhecer ningum, nem mesmo a 
mim. - Seus olhos encheram-se de lgrimas. Era doloroso demais. Ele a estava perdendo dia a dia, e isso fazia com que sentisse mais a dor de Oliver. Mas ele era 
jovem, e podia encontrar outra pessoa. Phyllis era a nica mulher que George havia amado, e depois de 47 anos no suportava a idia de perd-la. Tirou um leno de 
linho do bolso, limpou o nariz, respirou fundo, e continuou: - Disseram que pode levar seis meses ou um ano, ou muito menos, para ficar completamente ausente. Eles 
no sabem ao certo. Mas acham que vai ser difcil mant-la em casa quando isso acontecer. No sei o que vou fazer... - Sua voz se embargou.
       O corao de Oliver ficou apertado. Segurou a mo do pai. Era difcil acreditar que estavam falando da sua me, aquela mulher sempre to inteligente e to 
forte que agora estava esquecendo tudo que sabia e partindo o corao do seu pai. - Voc no pode se entregar, do contrrio vai ficar doente tambm.
       -  isso que Margaret diz. A vizinha de quem falei. Sempre foi muito boa para ns. O marido sofreu da doena de Alzheimer durante anos e no fim ela teve de 
intern-lo. 
       Margaret teve dois enfartes e no podia cuidar dele. Ele passou seis anos naquele estado e morreu em agosto ltimo. - Voltou os olhos tristes para o filho. 
- Ollie... no suporto a idia de perd-la... dela no lembrar mais nada...  como v-la murchar aos poucos, e est to difcil agora. Ela, que sempre teve um timo 
gnio.
       - No Natal eu a achei um pouco agitada, mas nem pensei numa coisa destas. Acho que estava por demais absorto no meu problema. O que posso fazer para ajudar? 
- Era horrvel. Estava perdendo a me e a mulher, e a filha mal falava com ele. As mulheres da sua vida estavam desaparecendo rapidamente, mas precisava pensar no 
pai, agora. - O que posso fazer por voc, papai?
       - Apenas estar aqui, eu acho. - Seus olhos se encontraram e Oliver sentiu-se mais perto do pai do que se sentia havia anos.
       - Eu o amo, papai. - No tinha vergonha de dizer isso agora, embora, havia alguns anos, sem dvida, o pai se sentiria embaraado com essas palavras. George 
era muito severo quando Oliver era jovem. Mas havia abrandado com os anos e agora precisava desesperadamente do filho, mais do que j havia precisado de algum.
       - Eu tambm o amo, meu filho.
       Estavam chorando abertamente. George limpou o nariz outra vez e Oliver ouviu a porta da frente ser aberta e fechada, em silncio. Benjamin foi direto para 
a escada, e o pai o chamou.
       - No com tanta pressa, rapaz. Onde esteve at onze e meia de uma noite da semana?
       Benjamin voltou-se, corado de frio e de constrangimento, e ficou surpreso ao ver o av.
       - Sa com amigos... desculpe, papai. Pensei que voc no ia se importar. Oi, vov, o que est fazendo aqui? Alguma coisa errada?
       - Sua av no est bem. - Oliver falou com voz firme, sentindo-se forte outra vez. A presena do pai parecia dar-lhe novas foras. Pelo menos algum ainda 
se importava com ele. E o pai precisava dele, bem como seus filhos, mesmo que Sarah no precisasse mais. - Voc sabe muito bem que no pode sair  noite durante 
a semana. Se fizer isso outra vez vai ficar duas semanas sem sair de casa. Entendeu bem?
       - Tudo bem, tudo bem... Eu pedi desculpas - disse Benjamin, fazendo um gesto afirmativo.
       Ele parecia estranho, pensou Oliver. No bbado ou drogado, mas como se tivesse algo diferente. Parecia mais homem e sem nenhuma disposio para discutir.
       - O que a vov tem?
       O av ergueu os olhos tristes, e Oliver disse, rapidamente: - Sua av tem tido alguns problemas.
       - Ela vai ficar boa? - De repente ele parecia um menino assustado, como se no pudesse suportar a idia de perder mais algum. Olhou preocupado para os dois 
homens.
       Oliver bateu de leve no seu ombro.
       - Ela vai ficar boa. Seu av precisa de alguma ajuda, isso  tudo. Talvez voc arranje algum tempo livre para estar com ele, longe desses seus amigos to 
tentadores.
       -  claro, vov. Vou visit-los neste fim de semana. Benjamin gostava do av, e George Watson era louco pelos netos. s vezes Oliver tinha a impresso de 
que gostava mais deles do que do filho, quando era pequeno. George estava menos severo agora e podia dedicar-se mais aos netos. - Sua av e eu vamos gostar disso. 
- Levantou-se, sentindo-se cansado e muito velho e tocou o brao do neto, como se com isso pudesse recuperar um pouco de juventude. - Muito obrigado a vocs dois. 
Acho melhor eu voltar para casa agora. A Sra. Porter est  minha espera. Deixei sua av com ela. - Caminhou devagar para a porta, seguido por Benjamin e Oliver.
       - Voc est bem, papai? - Oliver pensou que talvez ele no devesse dirigir o carro, mas o pai insistiu, dizendo que preferia ser independente. - Ento, telefone 
quando chegar, est bem?
       - No seja tolo! - disse George, irritado. - Estou timo. Quem est doente  sua me. - Mas logo sorriu para o filho. - Obrigado, meu filho... por tudo... 
e... eu sinto muito... - Olhou para Benjamin e depois para Oliver - ...sobre Sarah. Telefone se precisar de alguma coisa. Quando sua me estiver um pouco melhor, 
talvez Sam possa passar um fim de semana conosco. - Mas sabia que ela no ia ficar melhor.
       Pai e filho viram o carro de George se afastar, e Oliver fechou a porta com um suspiro. Nada mais era simples. Para ningum. Era triste pensar no problema 
da me. Ento olhou para Benjamin, pensando o que estaria acontecendo na vida do filho.
       - Ento, por onde voc anda at tarde da noite? - Olhou para ele com ateno, enquanto apagavam as luzes e dirigiam-se para a escada.
       - Por a com amigos. Os de sempre.
       Mas alguma coisa dizia a Oliver que ele estava mentindo.
       - Eu gostaria de acreditar que est dizendo a verdade. Benjamin sobressaltou-se e olhou para o pai.
       - Por que diz isso?
       -  uma namorada, no ?
       Oliver estava sendo mais esperto do que pensava, e Benjamin desviou os olhos com um sorriso.
       - Talvez seja. Nada de importante.
       Mas era. Muito importante. Seu primeiro caso, e ele estava louco por ela. Passavam na cama todo o tempo possvel. Os pais dela estavam sempre fora de casa. 
Os dois trabalhavam, saam muito, e ela era a nica filha que ainda estava em casa. Sabiam muito bem o que fazer com todo o tempo que tinham para ficar juntos. Tinham 
muito tempo para ficar juntos. Sandra era seu primeiro grande amor, uma bela colega da escola. Estavam na mesma turma de qumica e ele a ajudava nos estudos. Ao 
contrrio de Benjamin, ela vivia precisando melhorar as notas e no se importava muito com isso. Estava mais interessada em Benjamin e adorava a sensao das mos 
dele no seu corpo. Benjamin amava tudo nela.
       - Por que no a traz aqui algum dia? Mel a conhece? Eu gostaria de conhec-la.
       - ... talvez... algum dia... Boa noite, papai. - Entrou no quarto rapidamente.
       Oliver, sorrindo, abriu a porta do quarto de Sam quando o telefone tocou. Aproveitando o fio longo mandado instalar por Sarah para poder falar enquanto estava 
na banheira, atendeu com voz baixa, pensando que era o pai. Mas seu corao parou. Era Sarah.
       - Al? -  voc?
       - Sim. - Uma longa pausa, para recobrar a compostura. - Como vai, Sarah?
       - Estou tima. Encontrei um apartamento hoje. Como vo as crianas?
       - Vo indo. - Ele ouviu, desejando-a mais do que nunca e ao mesmo tempo odiando-a. - No est sendo fcil para eles.
       Sarah ignorou a observao. - Como foi o esqui?
       - timo. Eles se divertiram. - Mas no  o mesmo sem voc... era o que queria dizer, mas o que disse foi exatamente o que estava resolvido a no dizer. - 
Quando vem passar o fim de semana em casa?
       - Estou aqui s h uma semana.
       Desaparecia a promessa de voltar todos os fins de semana. Oliver sabia que ia ser assim, mas Sarah havia negado com tanta veemncia. Era difcil acreditar 
que os dois haviam chorado juntos quando ela partiu. Agora ela falava como uma simples conhecida telefonando para dizer ol, no sua mulher havia 18 anos, que acabava 
de se mudar para um hotel em Boston.
       - Achei que devamos dar a todos um tempo para se ajustar. Depois do ltimo fim de semana, precisvamos respirar um pouco.
       Para isso ela os havia deixado, em primeiro lugar, para "respirar".
       - E de quanto tempo precisamos? - Oliver detestava a si mesmo por pressiona-la, mas no podia se conter. - Uma semana? Um ms? Um ano? Acho que as crianas 
precisam ver voc.
       - Eu tambm preciso v-los. Mas acho que devemos esperar algumas semanas, dar a eles uma chance para entrar na nova rotina.
       E eu? Ele queria perguntar, mas no perguntou. - Eles sentem muito sua falta. - E ele tambm.
       - Sinto falta deles. - Sarah parecia pouco  vontade, como se quisesse desligar depressa. No podia suportar o sentimento de culpa, ouvindo a voz dele. - 
S queria dar o endereo do meu novo apartamento. Vou me mudar no sbado e logo que o telefone estiver ligado, eu dou o nmero.
       - E at l? Se houver alguma emergncia com as crianas? - A idia quase o fez entrar em pnico, mas tinha direito de saber onde ela estava. Precisava saber.
       - No sei. Pode deixar recado no hotel. E depois disso, acho que pode telegrafar para o apartamento, se for preciso. Acho que logo terei o telefone.
       O frio da voz dele era s para disfarar a dor. - Acho que  uma coisa ridcula.
       -  o melhor que posso fazer. Escute, preciso desligar agora.
       - Por qu? Tem algum  sua espera? - Mais uma vez detestou a si mesmo por dizer isso, mas a verdade era que, ouvindo a voz de Sarah, sentia um cime enorme.
       - No seja bobo.  tarde, s isso. Escute, ol... estou com saudades de voc... - Era a coisa mais cruel que podia ter dito. No precisava estar em Boston. 
A escolha era dela e por causa disso havia ferido profundamente os que amava, e agora ousava dizer que estava com saudades dele.
       - Precisa ter coragem para dizer isso, Sarah. Ainda no entendi qual  o seu jogo.
       - No  jogo nenhum. Voc sabe exatamente por que estou aqui. Preciso fazer isto.
       - Disse tambm que viria para casa todos os fins de semana. Voc mentiu.
       - No menti. Mas pensei melhor e acho que vai ser mais difcil para todos. Para voc, para mim, para as crianas. - Esse seu descanso ridculo da famlia 
tambm  difcil para todos e o que acha que devo fazer enquanto voc estiver longe? Me trancar no banheiro com a Playboy?
       - Ollie... por favor... no...  difcil para ns dois. - Mas era sua escolha, no dele.
       - Eu no a abandonei. Nunca faria uma coisa dessas. - No tive escolha.
       - Voc tem minhoca na cabea. Minha me estava certa quando nos casamos. Voc  egosta.
       - No vamos comear isso outra vez. Que diabo, Ollie, j passa da meia-noite. - Ento, de repente, ficou curiosa. - Por que voc est falando to baixo? - 
Quando telefonou, pensou que ele devia estar na cama, mas agora havia um eco diferente.
       - Sam est na nossa cama. Estou no banheiro. 
       - Ele est doente?
       A preocupao sincera na voz dela s serviu para irrit-lo. O que ela ia fazer, se ele estivesse doente? Voar de volta para casa? Talvez fosse melhor dizer 
que Sam estava doente. Mas a verdade era pior.
       - Ele tem pesadelos todas as noites. E tem molhado a cama. Quis dormir comigo esta noite.
       No longo silncio que se seguiu, Sarah podia ver os dois na cama que at pouco tempo era sua tambm.
       - Ele tem sorte por ter voc - disse Sarah em voz baixa. - Cuide-se. Eu ligo logo que tiver meu telefone. Oliver queria dizer mais, porm era evidente que 
Sarah no queria.
       - Cuide-se bem.
       Queria dizer que ainda a amava, mas no disse. Sarah estava enganando a si mesma quando dizia que ia voltar, que no ficaria muito tempo longe deles, que 
estaria em casa nos fins de semana e nas frias. Acabava de abandon-los, essa era a verdade. E o pior de tudo era que Oliver sabia que, no importava o que, por 
que, ou como, ele sempre a amaria.
       
Captulo 6
       
       As primeiras semanas sem ela foram muito difceis. O caf da manh parecia sempre um desastre. Os ovos nunca estavam no ponto, o suco de laranja muito espesso, 
a torrada muito clara ou muito escura, e at o caf tinha um gosto diferente. Sabia que era ridculo. Aggie cozinhava para eles havia dez anos e sempre gostaram 
do que ela fazia, mas Oliver estava acostumado com o caf que Sarah preparava. Sam parecia estar sempre choramingando, e mais de uma vez Oliver o viu chutar o cachorro. 
       Mel no dizia uma palavra, e Benjamin nem aparecia. Sempre saa apressado, dizendo que nunca tomava nada de manh. E, de repente, Oliver parecia estar sempre 
discutindo com eles. Mel queria sair duas noites nos fins de semana, Benjamin continuava chegando muito tarde em casa, nos dias de aula, e o sono de Sam continuava 
inquieto e ele sempre acabava na cama do pai, o que, a princpio, era reconfortante, mas agora o irritava. A famlia calma e pacfica tinha desaparecido.
       Sarah s conseguiu o telefone duas semanas depois do que esperava. Telefonou para eles, mas no os visitou. Achava que era muito cedo para isso, e agora as 
conversas eram breves e amargas. Era como se ela tivesse medo dos filhos, como se no tivesse foras para consol-los. Procurava manter a fantasia de que ia voltar 
algum dia, mais inteligente, mais culta, e vitoriosa. Mas Ollie sabia que no passava de um sonho. De um dia para a noite, o casamento reverenciado durante 18 anos 
fora jogado no lixo. E isso afetava seu modo de ver tudo, a casa, os filhos, os amigos, at os clientes do escritrio. Estava zangado com o mundo, com ela,  claro, 
com ele mesmo, convencido no ntimo, como Mel, de que tinha feito alguma coisa errada, e que de tudo era o culpado.
       Os amigos telefonavam e o convidavam para sair. Aos poucos todos ficaram sabendo, quando Agnes comeou a dirigir o carro nos dias de levar as crianas para 
a escola. Mas ele no queria ver ningum. Eram todos curiosos, fofoqueiros e intrometidos. E, no meio de tudo isso, George telefonava noite e dia, com informaes 
terrveis sobre a degenerao da mente de Phyllis. Ela estava perigosamente esquecida e George, arrasado, procurava conforto no filho. Mas Oliver mal estava conseguindo 
manter o ritmo da prpria vida. No era fcil tomar conta das crianas. Pensou em levar os trs a um psicanalista, mas quando telefonou para a professora de Sam 
para falar no assunto, ela disse que o que eles estavam sentindo era perfeitamente normal. Era compreensvel que Sam estivesse difcil, agressivo e manhoso. Suas 
notas estavam baixando, bem como as de Mel. Era mais do que claro que Mel ainda culpava o pai pela desero da me. O psiclogo da escola disse que isso tambm era 
normal. Ela precisava culpar algum, no a si mesma, e Oliver era o bode expiatrio mais lgico. Era normal tambm Benjamin procurar refgio com os amigos, para 
fugir da casa que estava to diferente sem ela. Tudo ia passar com o tempo, diziam os entendidos, todos iam se ajustar. Mas, em certos momentos, Oliver imaginava 
se ele sobreviveria at l.
       Todas as noites chegava em casa exausto e encontrava os filhos infelizes e brigando. No conseguia mais comer seu jantar, coberto com papel-alumnio e guardado 
no forno por tanto tempo. Quando Sarah telefonava, tinha vontade de atirar o telefone na parede e gritar. No queria saber das aulas que ela estava tendo, nem por 
que no podia ir para casa outra vez naquele fim de semana. Queria que ela voltasse para dormir com ele e tomar conta dos filhos. Aggie era tima, mas o que podia 
oferecer nem se comparava com o tratamento especial que Sarah proporcionava.
       Certa tarde, no escritrio, ele olhava a chuva de granizo, tpica do fim de janeiro, em Nova York, imaginando se Sarah ia voltar algum dia. Naquele momento, 
ele se contentaria com um fim de semana. Sarah estava em Boston fazia um ms, e Oliver perguntava a si mesmo se ia agentar aquela terrvel solido.
       - Que cara feliz... posso entrar?
       Era Daphne Hutchinson, vice-presidente da firma. Eles se conheciam havia anos e estavam trabalhando juntos na conta de um novo cliente. Daphne era uma mulher 
bonita, com cabelo preto preso num coque. Vestia-se com elegncia europia e tudo nela era discreto e de bom gosto. Usava sempre um echarpe longo, sapatos simples 
e uma jia bonita e discreta. Oliver gostava dela. Era uma mulher inteligente, eficiente e, por algum motivo, solteira. Tinha 38 anos e seu interesse em alimentar 
uma amizade com Oliver, durante todos aqueles anos, sempre foi platnico. Desde o comeo ela deixara bem claro que um romance com algum da firma no fazia seu gnero 
e, apesar de certas tentativas insistentes, jamais se afastou desse princpio. Oliver a respeitava por isso, o que facilitava seu trabalho em conjunto.
       - Tenho alguns modelos para a semana que vem. - Tinha nas mos uma pasta. Hesitou. - Mas acho que voc no est disposto. Quer que eu volte mais tarde? - 
Daphne sabia da partida de Sarah e vira o desespero no rosto de Oliver durante aquelas semanas, mas nunca falaram no assunto.
       - Tudo bem, Daphne, entre. Acho que agora  um momento to bom quanto outro qualquer.
       Daphne entrou, olhando preocupada para ele. Oliver estava mais magro, plido e parecia extremamente infeliz. Sentou-se e mostrou os modelos, mas ele aparentemente 
no conseguia se concentrar. Afinal, ela sugeriu que deixassem tudo para depois e ofereceu-lhe uma xcara de caf.
       - Posso ajudar? Talvez eu no parea grande coisa - disse com um largo sorriso -, mas tenho ombros enormes. Oliver sorriu. Ela era grande sob muitos aspectos 
e tinha muita classe, e ele quase esquecia o quanto ela era pequena. Era uma mulher formidvel e mais uma vez ele imaginou por que nunca havia se casado. Muito ocupada, 
talvez, ou dedicada demais ao trabalho. Acontecia com muitas mulheres e ento, quando chegavam aos quarenta, entravam em pnico. Daphne parecia satisfeita e muito 
segura. Oliver voltou para a sua cadeira, balanou a cabea e disse:
       - No sei, Daph... voc deve ter ouvido...
       Era to grande a dor nos olhos verdes de Ollie que Daphne teve de se conter para no abra-lo.
       - Sarah partiu no ms passado para estudar... em Boston...
       - Isso no  o fim do mundo, voc sabe. Pensei que fosse alguma coisa muito pior. - No falou sobre os comentrios de que estavam se divorciando.
       - Acho que provavelmente  muito pior do que isso, mas Sarah no tem coragem de admitir. H quase cinco semanas no a vemos, e as crianas esto perdendo 
a pacincia. 
       Eu tambm. Todas as noites penso que vou enlouquecer, com pressa de sair do escritrio, isso s seis ou s sete horas. Chego em casa s oito, e a essa altura 
est tudo fora de controle, meu jantar frio, todos gritando uns com os outros, depois vem o choro, e, na manh seguinte, recomea tudo outra vez.
       - No parece muito divertido. Por que voc no aluga um apartamento em Nova York, por algum tempo? Pelo menos estaria mais perto do seu trabalho e seria uma 
mudana para seus filhos.
       Oliver nem havia pensado nisso, mas agora no via nenhuma vantagem. Ia submeter os filhos ao trauma da mudana de escola e dos amigos. E sabia que eles ainda 
precisavam da segurana do ambiente familiar.
       - Mal estou conseguindo manter nossas cabeas fora d'gua. No  hora de pensar em mudanas. - Falou da fria de Mel contra ele, do desaparecimento constante 
de Benjamin. Contou que Sam molhava a cama uma vez ou outra e que dormia com ele todas as noites.
       - Voc precisa de um descanso. Por que no os leva para algum lugar? Uma semana no Caribe, ou no Hava, um lugar quente, ensolarado e feliz?
       Existiria esse lugar? Algum deles seria feliz outra vez? Parecia impossvel. Oliver sentiu-se embaraado por estar descarregando suas mgoas, mas aparentemente 
Daphne no se importava.
       - Acho que tenho esperana de que ela volte, se ficarmos exatamente onde estamos, e de que poderemos voltar no tempo.
       - Em geral no  assim que funciona.
       - Eu sei. - Ele passou a mo no cabelo. - J notei. Desculpe se a aborreci com meus problemas. Mas s vezes parece demais para mim. No consigo me concentrar 
no trabalho. Mas pelo menos  uma boa desculpa para sair de casa. As noites so to deprimentes, e os fins de semana, piores ainda.  como se tivssemos sido separados 
 fora e no conseguimos mais nos encontrar. No era assim antes... - Mas agora, ele mal se lembrava de como era antes. Era como se sempre tivesse vivido a agonia 
da ausncia de Sarah.
       - Posso fazer alguma coisa? - Gostaria de conhecer os filhos dele. Sempre tinha muito tempo livre nos fins de semana. - Eu gostaria de conhecer seus filhos. 
Talvez fosse bom para eles, ou voc acha que iam pensar que estou tentando roubar voc da me deles?
       - Acho que nem vo notar. - Mas os dois sabiam que isso no era verdade. Oliver sorriu, agradecido. - Talvez voc possa passar um dia conosco, quando as coisas 
estiverem mais calmas, se esse tempo chegar. Vai ser agradvel para ns todos. Minha me est doente tambm.  como se quando alguma coisa sai errada todo o resto 
desmorona. J notou isso?
       Daphne viu o sorriso de garoto que derretia os coraes das mulheres e riu.
       - Est brincando?  a histria da minha vida. Como vai o cachorro?
       - O cachorro? - Olhou para ela, surpreso. - Vai bem. Por qu?
       - Fique de olho nele. Est na hora dele ter diarria e morder uns quatorze vizinhos.
       Os dois riram, e ele suspirou outra vez.
       - Nunca pensei que isso podia nos acontecer, Daph. Ela me pegou completamente de surpresa. Nem eu nem as crianas estvamos preparados. Eu estava certo de 
que nossa vida era perfeita.
       - Isso acontece s vezes. As pessoas ficam doentes, morrem, mudam, apaixonam-se de repente por outras pessoas, ou fazem coisas malucas. No  justo, mas  
assim. Voc tem de fazer o melhor possvel e ento um dia olha para trs e talvez possa compreender o que aconteceu.
       - Acho que fui eu. - Oliver ainda acreditava nisso, s podia ser. - Talvez ela tenha se sentido negligenciada, ou ignorada, ou tida como uma coisa certa, 
que eu no podia perder.
       - Ou abafada, entediada, ou talvez ela no fosse to especial assim. - Estava mais perto da verdade do que pensava, mas Oliver no podia admitir isso ainda. 
- Talvez quisesse uma vida s dela, para variar.  difcil saber por que as pessoas fazem as coisas. Deve ser mais difcil ainda para seus filhos compreender o que 
aconteceu.
       Daphne era uma mulher sensata e estava oferecendo uma amizade slida e valiosa. Fazia anos que ele no tinha uma amiga, desde o seu casamento.
       - Se eu no compreendo, no  de admirar que eles no possam compreender. E ela no est melhorando as coisas passando tanto tempo sem nos ver. Quando partiu, 
prometeu voltar todos os fins de semana.
       - Isso tambm  difcil, mas talvez seja melhor para todos. Quando ela vier, estaro mais calmos.
       Oliver riu com amargura. Isso no parecia nem um pouco provvel.
       - No existe isso em nossa casa. Todo mundo comea a se queixar no caf da manh e quando eu chego,  noite,  muito pior. Nunca pensei que fosse to trabalhoso 
cuidar dos filhos. Sempre foram to bons, to bem-ajustados e felizes. E agora... Eu mal os reconheo quando chego em casa  noite: as queixas, o mau humor, as discusses, 
a choradeira. No vejo a hora de voltar para o escritrio. - E tambm no agentava ficar no escritrio. Talvez ela, estivesse certa. Talvez fosse melhor tirarem 
outras frias.
       - No deixe que sua vida se resuma a isso - disse ela, como se soubesse do que estava falando. - Voc paga um preo por isso, tambm. D uma chance a ela. 
Se ela voltar, timo. Se no voltar, arrume sua vida. Sua vida verdadeira. No esta bobagem. No h um substituto para uma pessoa de verdade. Falo por experincia 
prpria, pode estar certo.
       - Por isso nunca se casou, Daphne? - Agora no parecia indelicado fazer essa pergunta.
       - Mais ou menos. Isso e mais algumas complicaes. Jurei a mim mesma fazer uma carreira antes dos trinta anos, e, depois disso, aconteceram certas coisas 
e resolvi me refugiar outra vez no trabalho. E ento... bem,  uma histria muito longa, mas basta dizer que estou satisfeita. Gosto do meu trabalho, ele me faz 
bem. Mas no  o bastante para a maioria das pessoas. E voc tem filhos. Precisa de mais do que isso, na vida. Seus filhos iro embora algum dia, e essa mesa no 
 grande companhia depois da meia-noite.
       Todos sabiam que Daphne trabalhava s vezes at as dez horas. Por isso, seu trabalho era o melhor. Ela trabalhava arduamente e era brilhante.
       - Voc  uma mulher sensata. - Oliver sorriu e consultou o relgio. - Acha que podemos dar mais uma olhada no que voc trouxe? - Ele estava pensando em ir 
para casa, mas eram s cinco horas, cedo demais.
       - Por que no vai para casa mais cedo, para variar? Pode ser bom para as crianas e para voc tambm. Leve todos para jantar fora.
       A idia o surpreendeu. Nem havia pensado nisso, procurando se agarrar desesperadamente  antiga rotina das crianas. - Uma grande idia. Obrigado. No se 
importa de deixar esse trabalho para amanh?
       - No seja bobo. Tenho muito mais para mostrar. - Ela levantou-se e foi at a porta. Ento olhou para ele: - Agente firme, garoto. As tempestades podem vir 
todas juntas, mas a boa notcia  que no duram para sempre.
       - Voc jura?
       Ela ergueu dois dedos e sorriu. - Palavra de escoteiro.
       Quando ela saiu, Oliver ligou para casa. Aggie atendeu. - Oi, Aggie. - H muito tempo no se sentia to satisfeito. - No precisa fazer a janta. Vou chegar 
mais cedo e levar as crianas para jantar fora. - Uma idia maravilhosa. Daphne era uma mulher muito inteligente.
       - Oh. - Agnes pareceu surpresa.
       - Alguma coisa errada? - A realidade atacava outra vez. Nada era fcil agora. Nem mesmo levar os filhos para jantar fora.
       - Melissa tem ensaio outra vez, e Benjamin tem treino de basquete esta noite. E Sam est de cama, com febre. - Por Deus... tudo bem, no se preocupe. Iremos 
outro dia. - Ento, ele franziu a testa. - Sam est bem? - No  nada. S um resfriado, um comeo de gripe Ontem achei que ele no estava muito bem. Hoje, telefonaram 
logo depois que ele chegou na escola, de manh, e fui apanh-lo.
       E no telefonou para ele. Seu filho estava doente e ele nem sabia. Pobre Sam.
       - Onde ele est?
       - Na sua cama, Sr. Watson. No quis ir para a cama dele, e achei que o senhor no ia se importar.
       - Tudo bem.
       Uma criana doente na cama com ele. No tinha nada a ver com a vida que tinha antes e que estava to longe agora. Oliver desligou, aborrecido, e Daphne apareceu 
outra vez na porta.
       - Oh, oh, est com cara de ms notcias. O cachorro? Ollie riu. Daphne tinha o dom de alegr-lo, quase como uma irm favorita.
       - Ainda no.  Sam. Est com febre. Os outros no esto em casa. Jantar de forno, hoje. - Ento, teve uma idia. - Escute, voc gostaria de nos visitar no 
domingo? Podemos sair com as crianas.
       - Tem certeza de que no vo se importar?
       - Claro que no. Vo adorar. Iremos a um pequeno restaurante italiano que eles gostam. Tem timos pratos de frutos do mar e massas. Que tal?
       - Parece divertido. Vamos fazer um trato. Se a me deles aparecer de surpresa, no fim de semana, cancelamos, sem preocupaes, nem ressentimentos. Certo?
       - Srta. Hutchinson,  uma pessoa de convivncia muito fcil.
       -  minha mercadoria especial. Como pensa que cheguei at aqui? No foi por minha beleza. - Era modesta, alm de inteligente, e tinha senso de humor. - Bobagem.
       Com um aceno de mo, ela saiu da sala e enquanto se preparava para sair, Oliver perguntava a si mesmo por que no se sentia fisicamente atrado por ela. Daphne 
era bonita, tinha um belo corpo, e procurava disfarar o fato de ser pequena usando costumes e vestidos discretos e elegantes. Talvez ainda no estivesse preparado. 
Afinal, estava casado com Sarah. Mas era mais do que isso. Era como se Daphne transmitisse a mensagem, "Serei sua amiga em qualquer tempo, mas no se aproxime muito, 
companheiro. No toque em mim". Oliver imaginava o que podia haver por trs disso, se  que havia alguma coisa. Se era apenas seu comportamento no trabalho, ou outra 
coisa tambm. Algum dia talvez perguntasse.
       Chegou em casa s sete e quinze. Sam dormia profundamente na cama de casal com a cabecinha quente de febre. Os outros dois estavam fora, e Oliver desceu para 
mais uma vez preparar seus ovos fritos. No havia nenhum jantar no forno. Aggie fizera caldo de galinha com torrada para Sam e achou que Ollie podia se arranjar 
sozinho. 
       Foi o que ele fez, e depois resolveu esperar a chegada dos filhos. Foi uma longa espera. Melissa chegou s dez horas, feliz e entusiasmada. Estava adorando 
a pea e tinha um papel importante, mas assim que viu o pai, mudou de expresso e subiu apressadamente para o quarto, sem uma palavra. Oliver sentiu profundamente 
a solido quando ela fechou a porta. Benjamin chegou depois da meia-noite. Oliver esperava, sentado na saleta.
       Ouviu a porta da frente se fechando e foi ao encontro do filho com uma expresso que dizia tudo. Benjamin estava numa encrenca.
       - Onde esteve?
       - Tenho treino de basquete toda tera-feira.
       Seus olhos no diziam nada, mas ele parecia forte e saudvel, envolto numa aura de independncia.
       - At meia-noite? - Ollie no ia acreditar nisso. - Fui comer um hambrguer depois. Grande coisa. 
       - No, no  "uma grande coisa". No sei o que est acontecendo com voc, mas aparentemente pensa que, com sua me ausente, pode fazer o que bem entende. 
Muito bem, no  esse o caso. As normas antigas valem ainda. Nada mudou aqui, apenas ela se foi. Espero que voc venha para casa e fique em casa  noite, durante 
a semana, que faa seu trabalho, conviva com o resto da famlia e esteja aqui quando eu chegar. Falei claro?
       - Falou. Mas que diferena faz? - Benjamin estava furioso.
       - A diferena  que somos ainda uma famlia. Com sua me ou sem ela. Sam e Mel precisam de voc... e eu tambm.. 
       - Isso  bobagem, papai. Sam s quer a mame. E Mel passa a metade do tempo ao telefone, e a outra metade trancada no quarto. Voc nunca chega antes das nove 
horas, cansado demais at para falar. Ento, por que preciso ficar aqui; perdendo tempo?
       O impacto dessas palavras aparecia claramente na expresso de Oliver.
       - Porque voc mora aqui. E no chego em casa s nove horas. Sempre chego no mximo s oito. Fao um esforo tremendo para tomar aquele trem todas as noites 
e quero encontrar voc aqui. Se continuar assim, vai ficar um ms de castigo. 
       - Uma ova que vou.
       A fria de Benjamin foi um choque para Oliver. O filho nunca havia respondido desse modo, nunca havia ousado. E de repente estava desafiando o pai.
       - Isso basta. Voc ganhou o prmio. A partir deste minuto, est de castigo.
       - Besteira, papai! - Por um momento, parecia que Benjamin ia esmurr-lo.
       - No discuta comigo. - Estavam falando alto e no viram Mel descendo a escada em silncio. - Sua me pode no estar aqui, mas eu ainda dou as ordens.
       - Quem disse? - Os dois voltaram-se surpresos com a fria na voz de Melissa. - O que lhe d o direito de mandar em ns? Voc nunca est em casa. No se importa 
nem um pouco conosco. Se se importasse, no teria obrigado mame a ir embora. A culpa  toda sua, e agora quer se redimir. Oliver sentiu vontade de chorar. Eles 
no compreendiam nada. Como podiam compreender?
       - Escutem, quero que vocs dois fiquem sabendo de uma coisa. - Olhou para os filhos, com os olhos cheios de lgrimas: - Eu teria feito qualquer coisa para 
que sua me no sasse de casa, e mesmo me culpando pelo que ela fez, acho que uma parte dela sempre quis isso, voltar a estudar, fugir de ns todos e ter a sua 
vida. Mas, seja ou no minha culpa, eu amo muito vocs todos. - Sua voz tremeu, e Oliver pensou que no poderia continuar. Mas continuou: - E eu a amo tambm. No 
podemos deixar que esta famlia se desfaa agora, ela significa muito para todos ns... eu preciso de vocs... - Comeou a chorar, e de repente Mel ficou horrorizada. 
- Eu preciso muito de vocs... e amo vocs. - Virou o rosto e sentiu a mo de Benjamin no seu ombro. Logo depois, Melissa estava ao seu lado e o abraou.
       - Ns o amamos, papai - murmurou ela, com voz rouca.
       Benjamin no disse nada.
       - Desculpe se fomos to cruis.
       Mel olhou para o irmo e viu as lgrimas nos olhos dele tambm. Porm, por mais que amasse o pai e sentisse por ele, tinha sua vida agora e seus problemas.
       - Desculpem - disse Oliver, depois de alguns minutos. -  difcil para todos ns. E provavelmente, para ela tambm. - Queria ser justo, no fazer com que 
os filhos se voltassem contra Sarah.
       - Por que ela no veio nos fins de semana, como prometeu? Por que quase nunca telefona? - perguntou Melissa, enquanto os trs caminhavam para a cozinha. Sarah 
havia telefonado muito pouco para os filhos.
       - Eu no sei, meu bem. Acho que tem mais trabalho do que pensava. Eu imaginei que isso podia acontecer. - Mas nunca pensou que Sarah podia ficar longe deles 
por cinco semanas seguidas. Era cruel para Sam, para todos eles. Oliver dizia isso sempre ao telefone, mas Sarah repetia que no estava preparada ainda. Por mais 
dolorosa que fosse a separao, agora ela estava livre. - Ela vir um dia destes.
       Com expresso pensativa, Melissa balanou a cabea afirmativamente e sentou-se.
       - Mas no vai mais ser a mesma coisa, vai?
       - Talvez no. Mas acho que algo diferente no vai ser to ruim. Um dia, quando tudo tiver passado, as coisas vo melhorar.
       - Mas tudo estava muito bem antes. - Ela olhou par o pai, e Oliver concordou com um gesto.
       Pelo menos estavam outra vez em contato. Ele olhou pa ra o filho.
       - E voc? O que est acontecendo com voc, Benjamin - Oliver sentia que estava acontecendo muita coisa e tinha certeza de que Benjamin no ia contar. Isso 
tambm era novo para ele. Sempre fora to franco e despreocupado.
       - Nada de mais. - Um pouco embaraado, disse: - Acho melhor eu ir para a cama, agora.
       Quando ele se voltou para sair, Oliver teve vontade de estender o brao e det-lo. Mas disse apenas:
       - Benjamin...
       Ele parou. O pai devia ter percebido.
       - Alguma coisa errada? Quer conversar s comigo, antes de ir para a cama?
       Benjamin hesitou, depois balanou a cabea.
       - No, obrigado, papai. Estou bem. - Depois, com expresso ansiosa, perguntou: - Ainda estou de castigo? Oliver no hesitou um segundo. Era importante que 
compreendessem que ele controlava as coisas agora, do contrrio a desordem seria completa, e para o bem deles, Oliver no podia deixar que isso acontecesse.
       - Sim, est, filho. Sinto muito. Em casa na hora de jantar, todas as noites, incluindo os fins de semana. Durante um ms. Eu avisei antes. Estava sendo inflexvel, 
mas sua expresso dizia ao filho que fazia isso para o bem dele.
       Com um gesto de assentimento, Benjamin saiu da cozinha e ningum podia imaginar seu desespero. Precisava estar com ela  noite... tinha de estar... ela precisava 
dele. E ele dela. No sabia como iam sobreviver aquele ms.
       Oliver olhou para Mel e inclinou-se para beij-la.
       - Eu a amo muito, meu bem, muito mesmo. Acho que precisamos ter pacincia neste momento. As coisas vo melhorar.
       Mel fez um gesto afirmativo, olhando para o pai. Sabia mais sobre Benjamin do que estava disposta a contar. Ela o vira milhares de vezes com Sandra e sabia 
tambm que ele estava faltando s aulas. As notcias corriam depressa na escola, mesmo entre os alunos do segundo e os do ltimo ano. E ela suspeitava que o caso 
era bem srio, o bastante para que Benjamin desafiasse o pai.
       Sam dormiu calmamente a noite toda e de manh estava sem febre. Todos pareciam mais calmos, e Oliver saiu para o trabalho com o corao mais leve. Sentia 
ter imposto o castigo a Benjamin, mas era para o bem dele e tinha certeza de que o filho compreendia isso. A conversa com Mel valia todas as agonias da noite anterior. 
Quando chegou no escritrio e encontrou um recado sobre a mesa, lembrou-se do convite que havia feito a Daphne para visit-los no domingo, e pela primeira vez naquele 
ms pensou com satisfao no prximo fim de semana.
       
Captulo 7
       
       No domingo, Oliver apanhou Daphne na estao e a caminho de casa falaram sobre as crianas. Mel estava mais acessvel havia uma semana, Sam ainda um pouco 
resfriado e Benjamin mal falava com ele. Mas agora respeitava a deciso do pai. Jantava todas as noites em casa e depois subia para o quarto.
       - Quero avisar-lhe que no esto muito fceis ultimamente, mas so boas crianas. - Sorriu, feliz com a presena dela. H dias Sarah no telefonava e todos 
sentiam a tenso desse silncio, especialmente Ollie.
       - Vou tentar fazer com que saibam que no sou uma ameaa. - Daphne estava com uma elegante cala de couro preto e um pequeno casaco de peles.
       - Por que diz isso?
       Porque ela fazia tanta questo de deixar claro que no tinha nenhum interesse romntico nele.
       - Porque gosto das coisas claras e francas.
       - Tem algum motivo especial para no se interessar por nenhum homem? - Tentou falar com naturalidade. Tambm no pensava em romance, mas seria bom sarem 
juntos algum dia. Daphne tinha muito para oferecer, inteligncia, encanto, senso de humor. Gostava muito dela. - Sei que faz questo de nunca sair com ningum do 
escritrio.
       - Isso porque h muito tempo aprendi minha lio. Do modo mais difcil. - Resolveu contar. Queria contar, talvez por achar Oliver atraente. - Estava h trs 
anos no meu primeiro emprego, depois de me formar na Smith, e me apaixonei por um dos diretores da agncia. - Daphne sorriu. Oliver assobiou baixinho, olhando para 
ela. - Voc no se contenta com pouco, no ?
       - Ele era um dos homens mais fantsticos no ramo da publicidade. Ainda . Tinha quarenta e seis anos naquela poca. Casado, dois filhos. Morava em Greenwich. 
E era catlico. - Nada de divrcio.
       - Absolutamente certo. Ganhou duzentos dlares. - No havia amargura em sua voz. Queria que Oliver soubesse a histria que nunca havia contado para ningum. 
Algumas pessoas sabiam, outras no. - Na verdade, a firma era da famlia dele.  um homem fantstico. E eu me apaixonei doidamente, tentando me convencer que no 
importava o fato de ser casado. - Ela parou de falar e observou a paisagem com olhar distante.
       Oliver insistiu para que continuasse. Queria saber o que aquele homem havia feito para que ela tivesse tanto medo dos homens. Era um desperdcio, embora Daphne 
no parecesse infeliz.
       - E ento? Quanto tempo durou? O que aconteceu? - Ns nos divertimos muito. Viajamos bastante. Costumvamos nos encontrar s teras e quintas,  noite, num 
apartamento que ele tinha na cidade. No parece muito bonito, mas acho que pode dizer que eu me tornei sua amante. E, finalmente, ele me despediu da firma.
       - Encantador.
       - Ele disse que algum podia descobrir, e realmente algumas pessoas descobriram. Mas foram poucas, ns ramos muito discretos. E ele sempre foi sincero comigo. 
Amava a mulher e os filhos, ainda pequenos naquele tempo. A mulher dele era pouco mais velha do que eu. Mas ele me amava tambm. E eu o amava, e estava disposta 
a me contentar com o pouco que ele podia me dar.
       Ollie ficou surpreso com a calma na voz dela, sem mgoa nem revolta.
       - Quando foi a ltima vez que voc o viu? Daphne riu e olhou para ele.
       - H trs dias. Ele me arranjou outro emprego. Temos um apartamento. Agora passamos juntos trs noites por semana e nunca mais teremos mais do que isso. Em 
maro vai fazer treze anos e, voc pode no acreditar, mas sou feliz e o amo.
       Oliver estava atnito. Ela parecia perfeitamente satisfeita. Tinha um caso com um homem casado e parecia feliz. - Est falando srio? Voc no se importa, 
Daphne? 
       -  claro que me importo. Os filhos dele esto na universidade agora, e a mulher sempre ocupada com o clube de jardinagem e mais umas dezesseis obras de caridade. 
Acho que h alguma coisa na vida dos dois que o agrada, porque ele jamais teve dvidas. Sei que nunca vai deixar a mulher.
       - Mas  um pssimo negcio. Voc merece mais do que isso.
       - Como voc sabe? Se eu me casasse com outra pessoa, podia acabar divorciada ou muito infeliz. No tenho nenhuma garantia. Eu pensava que queria filhos, mas 
tive um problema h alguns anos e agora no posso. O que tenho  o bastante para mim. Talvez eu seja diferente, ou anormal, mas funciona para ns dois. E essa, meu 
amigo,  a minha histria. Achei que voc deveria saber. - Sorriu. - Porque eu gosto de voc.
       - Eu tambm gosto de voc. - Oliver sorriu. - Acho que acaba de partir meu corao. - Mas, de certo modo, estava satisfeito. Podiam ser amigos sem nenhuma 
presso. 
       - Acha que algum dia ele vai deixar a mulher?
       - Duvido. No tenho nem certeza de que me casaria com ele se a deixasse. Estamos muito bem assim. Tenho minha vida, minha carreira, meus amigos e ele. s 
vezes fica um pouco difcil, nos fins de semana e feriados. Mas talvez o que temos seja mais precioso para ns, porque conhecemos as limitaes. Era mais sensata 
do que ele havia imaginado, e Oliver a admirou por isso, por sua franqueza.
       - Eu gostaria de encarar as coisas com esse tipo de filosofia.
       - Talvez consiga, algum dia.
       Oliver imaginou se ficaria satisfeito com dois dias por semana, com Sarah. No, no ficaria. Queria muito mais do que isso. Queria o que tinham antes, e tudo 
indicava que jamais ia ter.
       Parou o carro na frente da casa e voltou-se para ela. - Obrigado por me contar - disse, com sinceridade. - Confio em voc. - Era um modo de pedir a ele para 
guardar seu segredo, mas Daphne sabia que no precisava dizer isso. - Achei que voc devia saber. No quero que seus filhos se preocupem conosco.
       - timo - disse ele, com um largo sorriso. - O que vou dizer a eles? Oi, meninos, est tudo bem, ela tem um caso com um homem casado e o ama muito. - Ficou 
srio. 
       - Voc  uma mulher formidvel, Daph. Se alguma vez precisar de alguma coisa, de um amigo...  s chamar...
       - No se preocupe, eu chamo. s vezes sinto-me muito s. Mas aprendi a me defender sozinha, a no telefonar para ele no meio da noite, quando penso que estou 
tendo uma crise de apendicite. Telefono para amigos; sei me cuidar. Acho que tem sido bom para mim.
       Ele balanou a cabea.
       - Acho que eu nunca serei to amadurecido.
       Aos 44 anos, queria ainda que Sarah tomasse conta dele quando tinha uma dor de cabea.
       - No se preocupe com isso. Talvez eu seja meio louca. Meus pais acham que sou.
       - Eles sabem? - Oliver espantou-se. Evidentemente eram muito liberais.
       - Contei-lhes h alguns anos. Minha me chorou durante meses seguidos, mas agora esto acostumados. Graas a Deus, meu irmo tem seis filhos. Isso tira o 
peso das minhas costas.
       Rindo, saram do carro, e Andy imediatamente saltou na cala de couro de Daphne.
       Quando entraram, Sam estava vendo televiso e Mel na cozinha, com Agnes. Oliver a apresentou a Sam. Daphne parecia muito  vontade, e o menino a olhou com 
interesse.
       - Voc trabalha com meu pai?
       - Trabalho. E tenho um sobrinho da sua idade. Ele tambm gosta de ver luta livre.
       Aparentemente ela estava a par dos interesses de meninos de nove anos, e Sam aprovou, com um gesto afirmativo. Estava tudo bem.
       - Meu pai me levou para ver uma luta, no ano passado. Foi formidvel.
       - Eu tambm levei Sean uma vez. Ele adorou. Eu achei horrvel.
       Sam riu, e Melissa entrou na sala.
       - Daphne Hutchinson, minha filha, Melissa. - Oliver a apresentou.
       As duas trocaram um aperto de mos formal e Agnes desapareceu da porta em silncio, perguntando-se se ele j estava se envolvendo com outras mulheres. As 
coisas tinham mudado muito, mas depois do que a Sra. Watson havia feito, no podia culp-lo. Ele precisava de uma mulher e se ela era bastante tola para abandonar 
uma boa coisa, na certa outra pessoa merecia essa sorte.
       Enquanto as duas conversavam, Oliver notou que Melissa observava Daphne com cuidado. Aprovou a cala de couro, o cabelo brilhante, a jaqueta de pele e a bolsa 
preta Hermes.
       Daphne era muito elegante fora do escritrio tambm, notou Oliver e agora sabia por qu. Um homem mais velho a presenteava e a ensinava a apreciar coisas 
finas. 
       At suas jias eram caras demais para uma mulher solteira. A histria dela era incrvel. E interessante. Era como se Melissa compreendesse que aquela mulher 
no representava uma ameaa, que no havia nada alm de amizade entre ela e seu pai.
       - Onde est Benjamin? - perguntou Oliver.
       - Saiu, eu acho - disse Mel. - O que voc esperava? - Ergueu os ombros e sorriu para Daphne.
       - Tambm tenho um irmo mais velho. Odiei-o durante mais ou menos dezoito anos. Mas ele melhorou muito com a idade.
       Seu irmo tinha exatamente a idade de Oliver, o que podia ser uma das razes por que gostava dele.
       Os quatro conversaram descontraidamente, depois deram um passeio com Andy, e pouco antes do jantar Benjamin chegou. Disse que estava jogando futebol com os 
amigos, mas claro que tinha acabado na casa de Sandra. Os pais dela estavam tambm separados, agora, o que facilitava as coisas para os dois. A me dela quase nunca 
ficava em casa, e o pai mudara-se para a Filadlfia.
       Logo no princpio, Benjamin tratou Daphne friamente e mal falou no caminho para o restaurante italiano, mas os outros divertiram-se e conversaram alegremente 
e, no fim, at Benjamin se animou um pouco, sempre lanando olhares interrogativos para o pai e para Daphne.
       Voltaram para casa para a sobremesa prometida por Agnes. Com Andy deitado na frente da lareira, comeram a torta e biscoitos feitos em casa. Foi um dia perfeito, 
o primeiro em muito tempo, e todos pareciam felizes.
       Sam estava contando histrias de fantasmas, quando o telefone tocou e Oliver atendeu. Era seu pai. Todos ouviram o que Oliver dizia.
       - Sim... est bem, papai... calma... onde ela est? Voc est bem? ... Vou agora mesmo... No saia da. Eu o apanho. No quero que voc volte para casa dirigindo 
o carro. Deixe o carro onde possa apanhar amanh. - Desligou com ar preocupado e as mos trmulas. Viu que os filhos pareciam assustados, procurou acalm-los.
       Est tudo bem.  sua av. Sofreu um pequeno acidente. Ela saiu sozinha com o carro e atropelou um vizinho. Ningum est seriamente ferido. Ela est abalada, 
e eles resolveram deix-la no hospital esta noite, em observao. Seu av est nervoso. Felizmente o homem que ela atropelou foi rpido e saltou para o cap do carro. 
S fraturou o tornozelo. Podia ter sido muito pior para os dois.
       - Pensei que ela no pudesse mais dirigir - disse Melissa, preocupada.
       - No pode. Seu av estava guardando algumas ferramentas na garagem, e ela resolveu fazer umas compras. - No contou que ela dissera ao mdico que fora apanhar 
o filho na escola, nem que George estava chorando ao telefone. Os mdicos achavam que estava na hora de intern-la numa clnica. - Eu sinto muito, Daphne, mas preciso 
ir buscar papai. Acho que deve estar mais abalado do que ela. Quer que eu a deixe na estao?
       O primeiro trem passaria dentro de uma hora, mas ele no queria deix-la sem conduo.
       - Posso tomar um txi. V sossegado. - Olhou para os trs meninos. - Posso ficar mais um pouco, se eles quiserem.
       Mel e Sam ficaram satisfeitos, e Benjamin no disse nada. - Seria timo. - Oliver sorriu e pediu a Melissa para chamar o txi s nove horas. Assim ela teria 
tempo para tomar o trem das nove e meia. - Benjamin pode lev-la.
       - Um txi ser timo. Tenho certeza que Benjamin tem coisas melhores para fazer do que levar velhas senhoras  estao.
       Percebendo a reserva de Benjamin, ela no queria se impor a ele. Logo que Oliver saiu, Benjamin subiu para o quarto, deixando-a com os dois mais novos.
       Sam foi apanhar mais torta na cozinha, e Mel subiu para apanhar o script da pea, que queria mostrar a Daphne. Agnes j fora para o quarto, como sempre fazia, 
logo que acabava de arrumar a cozinha. Daphne estava sozinha na sala quando o telefone tocou. Olhou em volta, nervosa, depois resolveu atender. Podia ser Ollie, 
e ficaria preocupado se ningum atendesse. Talvez tivesse esquecido alguma coisa. Depois de um silncio no outro lado da linha, uma voz de mulher perguntou por Ollie.
       - Sinto muito, mas ele saiu. Quer deixar recado? Seu tom era profissional, alguma coisa lhe dizia que era Sarah ao telefone. Estava certa.
       - As crianas esto em casa? - Parecia aborrecida. - Sim, esto. Quer que v cham-las?
       - Eu... sim... - E, depois de hesitar: - Desculpe-me, mas quem  voc?
       Mel entrou na sala, e Daphne apressou-se a responder. - A bab. Melissa vai falar com a senhora. - Estendeu o fone para Melissa, com um sorriso, e foi para 
a cozinha. 
       Sam estava destruindo a torta com a faca, enfiando os pedaos na boca. Comeou a cortar um pedao para Daphne.
       - Acho que  sua me ao telefone. Ela est falando com Mel.
       - Est?
       Sobressaltado, ele correu para a sala. Dez minutos depois, os dois voltaram, cabisbaixos, e o corao de Daphne se apertou. Era evidente o quanto sentiam 
falta da me. Sam enxugou os olhos com a manga da camisa.
       - Algum mais quer torta? - Daphne queria distra-los, mas no sabia como. Mel olhou para ela interrogativamente.
       - Por que voc disse que era a bab?
       Daphne olhou para ela, e foi sincera, como fora com Ollie. - Porque no quis aborrec-la. Seu pai e eu somos apenas amigos, Mel. H algum na minha vida que 
eu amo muito, e seu pai e eu nunca seremos mais do que amigos. As coisas j esto muito difceis para vocs e no precisam de mais problemas.
       Mel fez um gesto afirmativo com expresso agradecida. - Ela disse que no vem no prximo fim de semana porque tem de "fazer um trabalho".
       Sam comeou a chorar em silncio. Daphne o abraou com carinho. Falando do homem que amava, Daphne havia afastado qualquer temor que eles pudessem ter e ficou 
satisfeita por ter contado tudo a Ollie. No eram pessoas para serem feridas, mas amadas e protegidas. Revoltava-a a idia de que a me os havia abandonado.
       - Talvez seja muito doloroso para ela voltar agora. - Tentava ser justa, mas Mel parecia zangada.
       - Ento por que no podemos ir visitar nossa me? - perguntou Sam.
       - No sei, Sam. - Daphne enxugou as lgrimas dele e ficaram ali sentados, o apetite perdido, a torta esquecida. - Ela disse que o apartamento ainda no est 
pronto e no tem lugar para a gente dormir, mas isso  bobagem. Ele parou de chorar e conversaram. A hora passou sem que notassem.
       - Oh, meu Deus! - Daphne olhou o relgio. Eram nove e meia. - Tem outro trem?
       Podia tomar um txi at Nova York, se fosse preciso. Melissa fez um gesto afirmativo.
       - s onze.
       - Acho que vou tomar esse, ento.
       - timo. - Sam segurou-lhe a mo, mas os dois pareciam exaustos.
       Logo depois, Daphne levou Sam para a cama e conversou com Mel at pouco depois das dez. Ento sugeriu que a menina fosse se deitar, dizendo que podia se arranjar 
sozinha. Mel subiu para o quarto. Ollie chegou s dez e meia e ficou surpreso quando viu Daphne sentada na sala, lendo.
       - Como est seu pai? - Acho que est bem.
       Ollie parecia cansado. Depois de levar o pai para casa, prometeu voltar no dia seguinte para resolverem o que iam fazer com Phyllis.
       -  uma situao difcil. Minha me est com a doena de Alzheimer e isso est acabando com meu pai.
       - Meu Deus, isso  horrvel. - Daphne lembrou dos seus pais, com 70 e 75 anos, ambos aparentando cinqenta, saudveis e jovens. Ento lembrou-se do telefonema 
de Sarah. - Sua mulher telefonou.
       - Oh, meu Deus... - Ele passou a mo na cabea, imaginando se as crianas haviam dito que Daphne estava ali. - O que eles disseram?
       - No sei. Eu no estava na sala quando falaram com ela. Mas quando o telefone tocou no tinha ningum por perto e atendi e disse que era a bab. - Ela sorriu 
e ele retribuiu o sorriso.
       - Obrigado. - Outra vez preocupado, perguntou: - Como estavam as crianas, depois de falar com ela?
       - Perturbadas. Parece que ela disse que no pode vir no prximo fim de semana e que eles no podem visit-la. Sam chorou. Mas estava bem, quando o levei para 
a cama.
       - Voc  realmente uma mulher fantstica. - Consultou o relgio. -  uma pena, mas acho melhor lev-la agora at a estao. Vamos chegar em cima da hora.
       - Tive um dia maravilhoso, Oliver - disse ela, j no carro, a caminho da estao.
       - Eu tambm. Sinto muito ter precisado sair.
       - No se preocupe. Voc est atravessando uma fase difcil. Mas as coisas vo melhorar.
       - Se eu viver at l - disse ele, com um sorriso cansado.
       Quando o trem chegou, ele a abraou fraternalmente. Daphne acenou quando partiu, e Oliver voltou para casa, desejando que as coisas fossem diferentes. Talvez 
se ela estivesse livre, pensou ele, mas sabia que no era verdade. Por mais livre que ela fosse, mais atraente, mais inteligente, tudo que ele queria era Sarah. 
Telefonou para ela, quando chegou em casa, mas ningum atendeu.
       George Watson ps Phyllis numa casa de repouso especializada em pacientes com a doena de Alzheimer e vrias formas de doenas mentais. Por fora, era alegre 
e agradvel, mas Oliver ficou deprimido quando viu os internados, na sua primeira visita. Phyllis no o reconheceu e pensou que George era seu filho, no seu marido.
       Quando saram para o vento frio e cortante, George enxugou os olhos e Oliver segurou-lhe o brao e o levou para casa.  noite, quando o deixou para voltar 
para os filhos, teve a impresso de o estar abandonando.
       Era estranho pensar que ele e o pai estavam perdendo suas mulheres ao mesmo tempo, embora de modo diferente. Era doloroso para ambos. Mas Oliver tinha os 
filhos e o trabalho. O pai no tinha coisa alguma, a no ser solido e lembranas e as tristonhas visitas a Phyllis, todas as tardes. Ento chegou a grande ocasio. 
No dia dos namorados, Sarah telefonou dizendo que queria ver os filhos em Boston, no prximo fim de semana.
       - Por que voc no vem at aqui?
       Sarah estava em Boston fazia sete semanas e, como as crianas, Oliver queria v-la em casa.
       - Quero que eles vejam onde estou morando.
       Oliver queria pr objeo, mas no o fez. Concordou e depois telefonou para dizer a que horas chegariam em Boston. - Devemos chegar ao seu apartamento no 
sbado, mais ou menos s onze da manh, se tomarmos o avio das nove. - Oliver gostaria de ir na sexta-feira, mas era muito complicado os horrios da escola e do 
seu trabalho, e Sarah havia sugerido o sbado. - Voc tem lugar para ns todos? - Ele sorriu pela primeira vez em muitas semanas, e Sarah ficou em silncio por um 
longo tempo.
       - Eu no estava... Pensei que Mel e Benjamin podiam dormir nos dois sofs velhos da sala. E... Sam ficaria comigo...
       A mo de Oliver crispou-se no telefone e as palavras ecoaram em sua mente. Sam... ficaria comigo... no conosco. - Onde ficamos nisso tudo, ou devo dizer, 
onde eu fico? - Resolveu falar claro. Queria saber, de uma vez por todas, onde ele estava. No podia mais suportar a tortura de no saber.
       - Eu pensei que talvez... - sua voz era pouco mais do que um murmrio - ...voc quisesse ficar num hotel. Ser... mais fcil assim, Ollie. - Quando disse 
isso, Sarah estava com os olhos cheios de lgrimas e o corao de Oliver ficou pesado como chumbo.
       - Mais fcil para quem? Se no me engano, foi voc quem prometeu que nada ia mudar. No faz muito tempo, disse que no estava indo embora para sempre. Ou 
j esqueceu?
       - No esqueci. As coisas mudam quando estamos longe e vemos tudo por outra perspectiva.
       Ento, por que as coisas no haviam mudado para ele? Por que ainda a desejava tanto? Teve vontade de sacudi-la, depois vontade de beij-la at ela pedir para 
fazerem amor. Mas Sarah nunca mais ia fazer isso. Nunca mais.
       - Ento quer dizer que est tudo acabado de verdade.  isso, Sarah? - Falou alto demais, com o corao disparado.
       - S estou pedindo para voc ficar num hotel, Ollie... desta vez...
       - Pare com isso! Que droga, pare de brincar comigo. - Era uma coisa que Oliver no conhecia em Sarah, a crueldade.
       - Desculpe... Estou to confusa quanto voc. - E naquele momento, estava sendo sincera.
       - Est coisa nenhuma, Sarah. Voc sabe exatamente o que est fazendo. Sabia no dia que saiu de casa.
       - S quero ficar sozinha com as crianas, neste fim de semana.
       - timo. - A voz dele estava fria. - Eu os deixo no seu apartamento s onze horas - Oliver desligou antes que ela pudesse tortur-lo mais. Ia ser um fim de 
semana muito solitrio para ele, enquanto ela e as crianas realizavam seu feliz reencontro.
       Podia deixar que viajassem sozinhos, mas no desejava isso. Queria estar com eles, especialmente depois, na viagem de volta. Sabia tambm que queria estar 
perto dela. Preocupava-se especialmente com Sam. Benjamin no demonstrou muito entusiasmo, mas Oliver achava que ele devia ir. Mel estava satisfeita e Sam extasiado. 
Mas Oliver pensava em como estariam na volta.
       A viagem tinha um ar de festa e quando se dirigiam para o apartamento, na rua Bradley, Oliver ficou nervoso. Dissera que ia deixar as crianas, e quando ela 
abriu a porta pensou que seu corao ia parar. O cabelo de Sarah estava solto e mais comprido e vestia uma cala jeans to justa que foi difcil para Oliver manter 
a compostura na frente das crianas. Ela o beijou de leve no rosto, abraou os filhos e os levou para dentro, para o almoo que havia preparado. Oliver partiu no 
mesmo txi, com cada centmetro do seu corpo ansiando por ela.
       O apartamento tinha uma sala confortvel e um quarto pequeno e nos fundos, um jardinzinho. As crianas comeram com apetite, falando todas ao mesmo tempo, 
olhando felizes para ela, com o alvio de quem se liberta de temores e emoes h muito tempo recalcados. Sam ficou o tempo todo grudado na me, e Benjamin parecia 
mais relaxado do que nunca. Todos estavam felizes, menos Oliver, no quarto de hotel.
       Finalmente tinha acontecido. Sarah o estava abandonando. No o amava mais. E essa realidade quase o estava matando. Oliver caminhou durante horas pelo campus 
de Harvard, lembrando o passado, com os olhos cheios de lgrimas. Foi a todos os lugares que eles tinham ido juntos e quando voltou para o hotel estava chorando 
ainda. 
       No podia compreender. Sarah dissera que nada ia mudar entre eles, mas agora o estava afastando da sua vida. Tudo acabado, e eram dois estranhos. Oliver sentiu-se 
como um filho abandonado. E naquela noite telefonou para ela.
       Ouviu a msica, as vozes e o riso no apartamento e sentiu-se mais sozinho do que nunca.
       - Desculpe, Sarah. Eu no queria interromper seus momentos com as crianas.
       - Tudo bem. Eles esto fazendo pipoca na cozinha. Que tal eu telefonar logo mais?
       Ela telefonou depois da meia-noite.
       - O que est acontecendo conosco? - Oliver tinha de perguntar, precisava saber. Depois de dois meses, s pensava nela e a queria de volta. Se Sarah no ia 
mais voltar, ele tinha de saber. - Eu no compreendo. Quando voc partiu, disse que voltaria todos os fins de semana. Agora, depois de quase dois meses, voc me 
afasta e age como se estivssemos divorciados.
       - Eu tambm no sei, Ollie.
       Ele procurava ignorar a carcia da voz dela, mas no podia.
       - As coisas mudaram para mim, depois que cheguei aqui - continuou Sarah. - Compreendi o quanto eu desejava isto e que no podia voltar ao que tinha antes. 
Talvez eu possa, um dia... mas tem de ser diferente.
       - Como? Diga... preciso saber. - Oliver estava chorando outra vez. Havia acontecido uma coisa terrvel naquele fim de semana. Sarah tinha nas mos tudo que 
ele amava e desejava, e ele no podia fazer nada para lev-la de volta para casa.
       - Eu tambm no tenho as respostas. S sei que preciso estar aqui - disse ela.
       - E ns? Por que isto? Por que no posso ficar com vocs? - Estava abdicando de todo seu orgulho. Amava-a demais e a queria de volta.
       - Acho que tenho medo de ver voc.
       - Mas isso  loucura. Por qu?
       - No sei. Talvez voc queira muita coisa de mim, Oliver.  quase como se eu fosse outra pessoa agora. A pessoa que eu era antes e que eu ia ser. Algum que 
esteve adormeci da durante muito tempo, guardada num canto, esquecida, mas agora viva outra vez. E no quero desistir disso. Por ningum. Nem mesmo por voc.
       - E as pessoas com quem convivamos? J as esqueceu to depressa? - S sete semanas, e ela falava como se fosse uma vida.
       - No sou mais a mesma pessoa. Acho que nunca mais serei. Por isso, tenho medo de ver voc. No quero desapont-lo. Mas no sou mais a mesma pessoa, Ollie. 
Creio que no sou h muito tempo, mas apenas no sabia.
       Com esforo, Oliver perguntou:
       - Existe outra pessoa? - J? To depressa? Mas era possvel. E ela estava linda. Era como se tivesse deixado alguns anos em Purchase, e ele a achava linda 
ento, mas agora estava muito mais.
       - No, no h. - Mas ela hesitou e depois disse: - Ainda no. Mas quero ter liberdade para sair com outras pessoas. Por Deus! Ele no podia acreditar que 
ela estivesse dizendo aquilo. Mas era verdade. Tudo acabado.
       - Acho que isso diz tudo, no  mesmo? Voc quer o divrcio? - A mo dele tremeu no telefone.
       - Ainda no. No sei o que quero.
       "Ainda no." Ele queria ouvi-la negar apavorada, mas era evidente que estava pensando no assunto. E era evidente tambm que sua vida com ela estava acabada.
       - Avise-me quando descobrir. Acho que voc  uma grande tola, Sarah. Tivemos um relacionamento maravilhoso durante dezoito anos e voc est jogando tudo pela 
janela. - Ele falou com amargura e tristeza, enxugando as lgrimas, com um misto de mgoa e fria.
       - Ollie... - Ela chorava tambm. - Eu ainda o amo. 
       - No quero ouvir isso. - Era muito doloroso agora, demais para ele. - Apanho as crianas amanh s quatro horas, na porta do prdio. Estarei esperando no 
txi. - De repente, no queria mais v-la. Quando desligou o telefone, foi como se estivesse desligando tambm seu corao. A mulher que ele havia amado, a Sarah 
Watson que ele conhecia, no existia mais. Estava morta. Se  que tinha existido algum dia.
       
Captulo 9
       
       Na tarde seguinte, Oliver mandou o txi esperar, e desceu com o corao disparado. Tocou a campainha e voltou para o carro. Estava ansioso para v-los novamente, 
para t-los de novo ao seu lado, para no ficar nem mais um minuto sozinho. O domingo, em Boston, sem eles, foi terrvel. Jamais se esqueceria daquele fim de semana.
       Melissa foi a primeira a aparecer, com um ar confiante e amadurecido, muito bonita. Acenou para o pai e ele viu, com alvio, que ela estava de bom humor. 
Foi bom para ela ver a me. Benjamin, srio e compenetrado, mas estava sempre assim ultimamente. Sofrera uma mudana drstica naqueles dois meses. Talvez estivesse 
apenas crescendo. 
       Oliver no tinha certeza e preocupava-se com ele. Ento, Sam apareceu, arrastando uma coisa grande e desajeitada. Sarah dera a ele um urso de pelcia, sem 
saber ao certo se ele ia gostar, mas Sam tinha dormido com ele naquela noite e agora o segurava como se fosse um tesouro secreto.
       Benjamin sentou-se no banco da frente, e Mel j estava no txi quando Sam ergueu para o pai os olhos tristes. Era evidente que tinha chorado.
       - Oi, garoto, o que voc tem a?
       - Mame me deu um urso. S para dar sorte... voc sabe... - No queria admitir o quanto tinha gostado do presente.
       Sarah, instintivamente, escolheu a coisa certa. Ela os conhecia muito bem, e Oliver sentiu seu perfume no filho, quando o abraou. Seu corao parecia querer 
se partir, de saudade e desejo. E ento, quando Sam passou por cima dele, batendo com a mochila nas pernas do pai, ele a viu de p na porta, acenando. Por um instante, 
Oliver teve vontade de saltar do carro e carreg-la com eles. Talvez ainda a fizesse mudar de idia, mas se no fosse possvel, pelo menos poderia toc-la outra 
vez e aspirar seu perfume. Mas desviou os olhos e com voz rouca mandou o motorista lev-los para o aeroporto. Porm, no resistiu e olhou para trs. Ela continuava 
acenando, linda e jovem, e ento Melissa ps alguma coisa na mo dele. Era uma bolsinha branca de seda. Dentro dela estava o anel de esmeralda que ele havia dado 
a Sarah no Natal. Um bilhete pedia que ele o guardasse para Melissa. Uma afirmao definitiva. Aquele fim de semana fora brutal para ele. Oliver guardou o anel no 
bolso e olhou pela janela sem dizer uma palavra, com os msculos tensos e os olhos frios.
       Durante um longo tempo, Oliver ouviu em silncio a conversa dos filhos, falando sobre o jantar feito pela me, as pipocas e o quanto tinham gostado do apartamento. 
       At Sam parecia mais descontrado agora. Era bvio que a visita fora tima para ele. Todos estavam bem-arrumados e o cabelo de Sam penteado exatamente como 
Oliver gostava. Era doloroso v-los assim, como que renascidos pelo toque das mos dela. No queria ouvir o quanto tudo fora maravilhoso, como ela estava bonita, 
como era belo o jardinzinho, nem como era difcil o curso que ela estava fazendo. S queria saber do quanto ela sentia falta de todos, especialmente dele, quando 
ela ia voltar, o quanto ela detestava Boston, e que fora um erro ter ido para l. Mas sabia que no ia ouvir nada disso.
       As crianas nem notaram a turbulncia no vo de volta. Chegaram em casa s oito da noite. Aggie os esperava e ofereceu-se para fazer o jantar. Ento, eles 
contaram a ela tudo sobre Boston, o que a me tinha feito, o que tinha dito, o que ela pensava, e tudo que estava fazendo. Finalmente, no meio do jantar, Ollie no 
agentou. 
       Levantou-se e jogou o guardanapo na mesa. Os trs olharam para ele, atnitos.
       - Estou farto de ouvir tudo isso! Estou satisfeito porque vocs se divertiram, mas que droga, no podem falar de outra coisa? - Ento, notando o espanto deles, 
ficou embaraado. - Desculpem... eu... esqueam...
       Subiu para o quarto e sentou-se no escuro, olhando para o luar, l fora. Mas era doloroso demais ouvir os filhos falar dela o tempo todo. Eles a haviam reencontrado. 
E ele a havia perdido. No era mais possvel voltar no tempo, nem fugir da realidade. Sarah no o amava mais, no importava o que tinha dito ao telefone. Estava 
tudo acabado. Para sempre.
       Ficou sentado na beirada da cama durante um longo tempo. Ento deitou-se no escuro e olhou para o teto. Depois de muito tempo bateram  porta. Mel espiou 
para dentro do quarto.
       - Desculpe... no queramos aborrecer voc... s que... 
       - Eu sei, meu bem, eu sei. Vocs tm todo direito de estarem entusiasmados. Ela  sua me. Fiquei meio louco por um minuto. At os pais ficam meio doidos 
s vezes.  Sentou-se na cama, sorriu e acendeu a luz, embaraado por ela t-lo encontrado assim, no escuro. - Eu sinto muita falta dela... Como vocs...
       - Ela disse que ainda o ama, papai. - Mel sentiu uma pena imensa dele, daqueles olhos to tristes.
       - Isso  bom, minha querida, eu tambm a amo. s vezes  difcil entender certas mudanas... - quando se perde algum que se ama... quando sentimos que nossa 
vida acabou. - Mas vou me acostumar.
       Melissa fez um gesto afirmativo. Havia prometido  me fazer o possvel para ajudar e ia cumprir a promessa. Naquela noite levou Sam para a cama, com o urso 
de pelcia, e mandou que ele deixasse o pai em paz e dormisse na prpria cama. - Papai est doente? - perguntou Sam, muito preocupado. - Ela balanou a cabea. - 
Ele estava esquisito hoje. - Est s aborrecido, nada mais. Acho que foi duro para ele ver a mame.
       - Eu achei formidvel. - Sorriu, abraando o urso, e Mel sorriu tambm, sentindo-se como se tivesse mil anos. - Eu tambm, mas acho que  mais duro para eles. 
Sam fez um gesto afirmativo, como se compreendesse, mas na verdade no compreendia. E ento, perguntou  irm o que no tinha coragem de perguntar aos pais:
       - Mel... voc acha que ela vai voltar?... Quero dizer, como antes... para c, com papai e tudo o mais?
       Mel hesitou antes de responder, indagando o corao e a mente, mas como o pai, j sabia a resposta.
       - Eu no sei... mas acho que no.
       Sam fez outra vez um gesto afirmativo, mais preparado para aceitar, agora que tinha visitado a me, e com a promessa de que podia repetir a visita dentro 
de algumas semanas. Sarah no falou em visit-los em Purchase.
       - Voc acha que papai est zangado com ela?
       - No. - Mel balanou a cabea. - Acho que ele s est triste. Por isso fez aquilo no jantar.
       Sam acomodou-se na cama.
       - Boa noite, Mel... eu amo voc.
       Ela inclinou-se para beij-lo e acariciou a cabea dele, como Sarah havia acariciado em Boston.
       - Eu tambm amo voc, mas s vezes voc  uma peste. Os dois riram. Ela apagou a luz, fechou a porta e quando chegou no seu quarto, viu Benjamin pulando a 
janela em silncio. Mel no disse nada, nem deixou que ele soubesse que o havia visto. Fechou a cortina e deitou-se. Precisava pensar. Naquela noite, foi o que todos 
fizeram. 
       Ficaram acordados at tarde, pensando em Sarah. No sabia para onde Benjamin tinha ido, mas era problema dele. Podia adivinhar. Apesar do castigo que estava 
ainda em vigor, ele fora se encontrar com Sandra.
       
Captulo 10
       
       Na manh seguinte Daphne entrou no escritrio de Oliver pouco depois das dez horas, e a princpio teve a impresso de que ele estava bem. Sabia que tinha 
levado os filhos a Boston, no fim de semana.
       - Como foi a viagem? - Viu imediatamente a resposta nos olhos dele. Oliver parecia atingido por um raio.
       - No pergunte.
       - Desculpe. - Daphne sentiu sinceramente, por ele e pelas crianas.
       Naquela noite, Oliver chegou em casa s nove horas e depois disso, cada vez mais tarde. Estavam preparando uma apresentao urgente para um novo cliente. 
Porm, as crianas pareciam bem. Trs semanas depois, Sarah convidou os filhos para outra visita a Boston, mas dessa vez Oliver no os acompanhou. Mel foi com Sam. 
Benjamin j havia combinado esquiar com amigos e no quis cancelar o programa.
       Quando Oliver chegou tarde, na sexta-feira, encontrou a casa silenciosa e escura. Aggie estava passando uns dias com a irm em Nova Jersey. Era estranho e 
ao mesmo tempo repousante. Sarah havia partido havia trs meses, trs meses de sofrimento, de preocupao com os filhos, sentindo-se responsvel por cada minuto 
da vida deles, correndo de casa para o escritrio e do escritrio para casa. s vezes, pensava que Daphne tinha razo. Teria sido mais fcil mudar-se para Nova York, 
mas os filhos no estavam prontos para isso. Talvez dentro de um ou dois anos... era estranho fazer planos para o futuro sem Sarah. Sua vida parecia uma terra vazia 
e rida. No sbado jantou com o pai, e domingo  tarde foi visitar a me. Foram momentos deprimentes para Oliver. Ela s falava em voltar para casa e cuidar do jardim. 
No sabia onde estava, mas em certos momentos parecia mais lcida.
       - Voc est bem, papai? - perguntou Oliver, na noite que jantaram juntos.
       - Mais ou menos. - George sorriu. - Sinto-me muito s sem ela.
       Ollie suspirou e disse, sorrindo tambm: - Sei o que  isso, papai.
       Parecia irnico que estivessem perdendo suas companheiras ao mesmo tempo. Irnico, trgico e infinitamente doloroso. - Pelo menos voc tem a companhia dos 
seus filhos. 
       - Voc devia visit-los com mais freqncia. Sam est sempre perguntando por voc.
       - Talvez amanh  tarde.
       Mas Oliver disse que eles estavam em Boston, com a me. Mel e Sam voltaram satisfeitos outra vez, mas ela avisou o irmo para no falar muito sobre a visita, 
na frente do pai. E especialmente no mencionar Jean-Pierre, o amigo da me, que havia aparecido para conhec-los no sbado  noite. Mel achava que ele estava apaixonado 
por sua me. Jean-Pierre tinha 25 anos, era formado na Frana e fazia uma pizza tima. Sam achou que ele era legal, mas Mel garantiu que o pai no ia querer saber.
       - Voc acha que ele est saindo com mame? - Sam, sempre curioso, teve a impresso de ver os dois se beijando quando foi apanhar um refrigerante na cozinha.
       Mas Mel foi categrica: - No seja bobo.
       Estavam entusiasmados, porque Sarah havia prometido viajar com eles nas frias.
       - Aonde voc acha que vamos? - perguntou Sam. - No sei, vamos ver.
       Finalmente resolveram passar uma semana esquiando em Massachusetts. Dessa vez Benjamin concordou em ir tambm. Cinco dias antes deles partirem, Oliver recebeu 
um telefonema da escola de Benjamin. H meses ele vinha faltando s aulas e queriam que Oliver soubesse que ele teria de fazer um curso nas frias.
       - Benjamin? - Oliver, que tinha sado de uma reunio para atender ao telefone, ficou atnito. - No posso acreditar. Ele sempre esteve no quadro de honra.
       - No est mais, Sr. Watson - disse o assistente do diretor da escola. - Desde janeiro, mal o vemos na escola e ele est devendo crditos em quase todas as 
matrias deste semestre.
       - Por que no me avisaram antes? Por que esperaram tanto? - Oliver estava chocado e furioso com o filho, com ele mesmo, com a escola, e com Sarah por ter 
comeado tudo aquilo. Era como se os problemas jamais fossem acabar.
       - H trs meses estamos enviando avisos, mas o senhor nunca respondeu.
       - Filho da me... - Oliver compreendeu imediatamente o que tinha acontecido. Benjamin havia interceptado os avisos da escola. - E seus requerimentos para 
as universidades?
       - Eu no sei. Teremos de notificar as universidades para as quais ele escreveu,  claro, mas Benjamin sempre foi um timo aluno. Existem fatores atenuantes. 
Talvez, se ele concordar em fazer o curso de vero... e naturalmente vai depender das suas notas a partir de agora. O ltimo semestre  muito importante.
       - Compreendo. - Oliver fechou os olhos. - Existe algum outro problema na escola que eu devo saber? - Estava quase certo de que havia, e tinha medo de ouvir.
       - Bem, algumas coisas no so exatamente jurisdio... - O que quer dizer?
       - Estava me referindo  jovem Carter. Achamos que ela  parte do problema de Benjamin. Ela teve problemas pessoais este ano, o lar desfeito e ela no ... 
bem, no  to boa aluna quanto Benjamin, ou quanto ele era e achamos que o relacionamento o est afastando dos estudos. Comentam at que ela vai deixar a escola. 
Mas j avisamos a me que ela no vai se formar com a turma...
       Droga. Benjamin... cumprindo o castigo, jantando em casa todas as noites e ao mesmo tempo faltando s aulas para ficar com uma namoradinha ignorante, que 
talvez fosse deixar a escola.
       - Eu tomo conta disso. Ficaria muito grato se pudermos fazer alguma coisa que no prejudique os requerimentos de Benjamin para as universidades. - Benjamin 
devia ter as respostas muito em breve... Harvard... Princeton... Yale... e agora estava em recuperao.
       - Talvez se o senhor pudesse passar mais tempo em casa com ele. Sabemos o quanto  difcil, agora que a Sra. Watson se foi...
       As palavras o atingiram em cheio. Estava fazendo tudo que podia para estar sempre com os filhos. Lembrou-se do que Benjamin havia dito... voc nunca chega 
em casa antes das nove horas...
       - Vou fazer o possvel. E falo com ele esta noite.
       - Muito bem, ns o informaremos sobre a situao dele na escola.
       - Da prxima vez, telefone para o escritrio.
       -  claro.
       Oliver desligou e ficou sentado por algum tempo, de cabea baixa, respirando com dificuldade. Ento, sem saber o que mais podia ser feito, telefonou para 
Sarah. Felizmente, no a encontrou em casa. De qualquer modo, no era problema dela. Sarah os tinha abandonado. O problema era unicamente seu.
       Naquela tarde, saiu do escritrio s quatro horas e chegou em casa antes das seis. Benjamin chegou, com ar satisfeito, carregando os livros, e o pai o chamou.
       - Venha para a saleta, por favor, Benjamin. 
       - Alguma coisa errada?
       A expresso de Oliver era resposta suficiente, mas Benjamin nem podia imaginar do que se tratava. Assim que ele entrou na saleta foi recebido com uma tremenda 
bofetada. 
       Era a primeira vez que Oliver batia num filho, a no ser uma leve palmada quando Benjamin tinha quatro anos e enfiou um garfo na tomada da sala. Naquele dia, 
ele queria causar uma impresso duradoura, e agora tambm. Porm, mais do que isso, foi movido pelo sentimento de culpa e de frustrao. Benjamin cambaleou com a 
violncia da agresso e com a marca vermelha no rosto sentou-se, em silncio. Oliver fechou a porta. Seu pai havia descoberto afinal, ou pelo menos uma parte da 
verdade, e agora ele sabia o que o esperava.
       - Desculpe... eu no queria fazer isso... mas estou me sentindo enganado. O Sr. Young, da sua escola, telefonou hoje... o que voc anda fazendo?
       - Eu... sinto muito papai... - Olhou para o cho, depois para o pai. - Eu apenas no podia... eu no sei.
       - Sabe que est em recuperao? - Benjamin fez um gesto afirmativo. - Sabe que pode no ser aceito em nenhuma universidade decente, depois disso? Ou talvez 
tenha de repetir um ano, ou fazer o curso de vero. E o que aconteceu com todos os avisos que a escola me mandou?
       - Eu joguei fora. - Estava sendo sincero e parecia dez anos mais velho. Ergueu os olhos magoados para o pai. - Pensei que ia conseguir arrumar tudo outra 
vez, sem que voc precisasse saber.
       Oliver deu alguns passos pela sala, depois parou na frente dele.
       - E o que essa menina tem a ver com tudo isso? Se no me engano, o nome dela  Sandra Carter. - Na verdade, o nome estava gravado em sua mente e havia algum 
tempo desconfiava que o romance tinha ido longe demais, mas nem por um momento pensou que pudesse chegar a isso. - Suponho que voc est dormindo com ela. H quanto 
tempo?
       Benjamin olhou para o cho e no disse nada.
       - Responda! O que est acontecendo com ela? Young disse que ela est pensando em deixar a escola. Que tipo de moa ela , e por que ainda no a conheo?
       -  uma boa moa, papai. - Benjamin ergueu os olhos, agora com desafio. - Eu a amo e ela precisa de mim. - Achou melhor no responder a segunda pergunta.
       - Isso  timo. Como outro estudante que abandona a escola?
       - Ela no vai sair... no ainda... acontece que ela teve problemas... o pai abandonou a me e... ora, esquea.  uma longa histria.
       - Muito comovente. E sua me o abandonou, ento vocs dois caminham ao pr-do-sol, de mos dadas e repetem o ano. Depois, o que acontece? Voc vai trabalhar 
num posto de gasolina pelo resto da vida, enquanto ela vai ser garonete? No  exatamente o que espero de voc, nem o que voc quer. Voc merece mais do que isso 
e provavelmente ela tambm. Pelo amor de Deus, Benjamin, procure se controlar. - Era a primeira vez que Benjamin via aquela expresso dura no rosto do pai, mas os 
trs ltimos meses tinham deixado sua marca. - Quero que deixe de ver essa moa. Agora! Est ouvindo? E se no deixar, eu o mando para a escola militar, se for preciso. 
No vou permitir que jogue sua vida fora desse modo, s porque est aborrecido e estamos passando por uma fase difcil. Vai ter muitas dificuldades na vida, meu 
filho. O modo como voc as enfrenta  que vai fazer com que as resolva ou seja derrotado por elas.
       Benjamin ergueu os olhos, to teimoso quanto o pai, ou pior, to obstinado quanto Sarah.
       - Vou conseguir melhorar minhas notas, papai, e no vou mais faltar s aulas. Mas no vou deixar de ver Sandra. 
       -  o que voc pensa. Vai fazer exatamente o que estou mandando. Compreendeu?
       Benjamin levantou-se e olhou furioso para o pai.
       - No vou deixar de v-la. Estou dizendo com toda a franqueza. E voc no pode me obrigar. Eu saio de casa. 
       -  sua ltima palavra?
       Benjamin fez um gesto afirmativo.
       - timo. Est proibido de sair at o fim das aulas, at que suas notas voltem a melhorar, at a escola me informar que voc no perdeu um segundo de nenhuma 
aula, nem para ir ao banheiro, at voc se formar e ser aceito pela universidade, como merece. Ento, veremos sobre Sandra. - Os dois se entreolharam desafiadoramente. 
       - Agora, v para seu quarto. E estou avisando, Benjamin Watson, vou vigi-lo noite e dia, portanto, nada de bobagens. Se for preciso, telefono para a me 
de Sandra.
       - No se d ao trabalho, ela nunca est em casa. Oliver fez um gesto afirmativo, sentindo-se extremamente infeliz e espantado com a devoo do filho.
       - Ela parece encantadora. 
       - Posso ir agora?
       - Por favor... - Quando Benjamin chegou na porta, disse, em voz baixa: - Sinto muito ter batido em voc. Acho que tambm cheguei ao meu limite e essa bobagem 
sua no est ajudando nada.
       Benjamin fez um gesto afirmativo e saiu da sala, fechando a porta. Oliver sentou-se devagar, com o corpo trmulo. Porm, na semana seguinte, depois de pensar 
muito, ele descobriu um meio de pelo menos melhorar a situao. Foi falar com o diretor da escola. A princpio, a diretoria da escola ficou em dvida, mas depois 
disseram que concordariam se Oliver conseguisse passar Benjamin para uma escola do mesmo nvel. Era a nica coisa que ele podia fazer e no comeo ia ser duro para 
as crianas, mas talvez fosse justamente o que todos precisavam. Os trs foram passar os feriados em Boston. Benjamin, primeiro se recusou a ir, mas Oliver o convenceu. 
E enquanto eles estavam fora, Oliver, depois de falar com quatro escolas, encontrou uma disposta a aceitar Benjamin para terminar o semestre. Muito em breve, todos 
iam se mudar para Nova York, logo que ele encontrasse um apartamento e escolas para os dois menores. Isso afastaria Benjamin de Sandra e dos amigos que talvez o 
estivessem distraindo dos estudos. Alm disso, Oliver poderia chegar em casa todos os dias s seis horas. Era o que Daphne havia sugerido havia dois meses, o que 
ele no pretendia fazer antes de alguns anos, mas era agora uma soluo surgida do desespero.
       As duas escolas concordaram com o plano, e a de Purchase ofereceu-se at para permitir que ele se formasse com sua turma, se fosse bem nos estudos em Nova 
York, nos dois meses que faltavam, se passasse em todas as provas e concordasse em fazer o curso de vero em Purchase. Era perfeito. Mel foi aceita sem problemas 
por uma escola feminina no Upper East Side e Collegiate aceitou Sam. Embora um tanto apressada, era uma soluo ideal. Dois dias antes da volta dos filhos, Oliver 
e Daphne andaram pela cidade e finalmente encontraram um bom apartamento. Pertencia a um banqueiro que estava se mudando para Paris com a famlia, e Oliver o alugou 
por um ano. Tinha quatro amplos quartos e uma bela vista, ascensorista, porteiro, uma cozinha grande e bem equipada e uma sute perfeita para Agnes. Ia custar uma 
fortuna, mas Oliver achava que valia. Em dez dias tinha resolvido tudo. S faltava agora dar a notcia aos filhos, quando voltassem das frias com a me.
       Depois que ele assinou o contrato, ele e Daphne sentaram-se na sala de estar. Ela olhou preocupada para Oliver. Para um homem que at dois meses atrs no 
estava disposto a nenhuma mudana, ele estava agindo muito depressa. Isso, desde que teve certeza de que Sarah no ia mais voltar.
       - Acho que vai ser bom para ns todos. - Estava se defendendo, mas no precisava.
       - Eu tambm acho. O que ser que eles vo dizer? - O que podem dizer? No posso controlar Benjamin vindo para Nova York todos os dias. E se at junho verificar 
que foi um desastre, podemos voltar para Purchase e eles para suas escolas, no outono. Talvez eu devesse ter feito isso desde o comeo.
       Ela concordou. Oliver no estava preso a Purchase e era uma boa tentativa de mudar a mar que estava quase afogando Benjamin.
       - No acha que est sendo muito radical?
       - Quer dizer que me acha louco? - Oliver olhou para ela com um sorriso nervoso, imaginando se no estaria realmente assombrado com tudo que havia feito, enquanto 
os filhos estavam em Boston com a me. Temia contar a eles, mas ao mesmo tempo sentia-se ansioso por esse momento. Era uma vida nova para todos, independente dos 
motivos que o haviam levado a isso. E parecia a melhor soluo para os problemas de Benjamin.
       - Acho que fez a coisa certa, se  que minha opinio pode ajudar. Mas acho tambm que, para eles, vai ser outro perodo de adaptao.
       - Talvez um bom perodo, para variar.
       Oliver deu uma volta pela sala. O apartamento era muito bonito e esperava que os filhos gostassem dos novos quartos, especialmente Melissa. Ficava na Rua 
48 Leste, ladeada de rvores e a dois quarteires do Central Park. Era tudo que ele queria, desde o momento em que resolveu se mudar para a cidade.
       - O que voc acha, Daph? Acha mesmo que estou doido? - De repente sentiu medo de dizer s crianas. E se eles se descontrolassem outra vez? Mas quando tomara 
a deciso tinha achado que era a melhor coisa a fazer.
       - No acho que esteja doido, e acredito que tudo vai dar certo. Mas no espere que eles dem pulos de alegria. Vo ficar um pouco assustados, no comeo. D-lhes 
tempo para se adaptar.
       - Eu sei. Estava justamente pensando nisso.
       Mas no estava preparado de modo algum para a violncia da reao. Apanhou os filhos no aeroporto e foi direto para a cidade, dizendo que tinha uma surpresa 
para eles. Os trs estavam alegres, contando tudo que haviam feito e visto, como fora bom esquiar com a me. De repente, Oliver no via a hora de mostrar o que tinha 
para eles em Nova York.
       - Ns vamos visitar Daphne, pai? Perguntou Melissa.
       Oliver limitou-se a balanar a cabea em sinal negativo e continuou a guiar. Naquela manh tinha contado para Agnes. Ela ficou um pouco espantada, mas concordou 
em ir com eles. No se importava de ir para Nova York, desde que pudesse ficar com as crianas. Oliver estacionou na frente do prdio e os fez entrar, os trs curiosos 
e intrigados.
       - Quem mora aqui, papai? - perguntou Sam. Oliver balanou a cabea, entraram no elevador e ele pediu para o ascensorista lev-los ao stimo andar.
       - Sim, senhor - disse o homem, sorrindo.
       O porteiro o reconheceu na entrada e no perguntou aonde eles iam. Sabia que eram os novos moradores do 7H. Oliver tocou a campainha do apartamento e como 
ningum atendeu, deu de ombros e tirou a chave do bolso. Abriu a porta, convidando-os a entrar, com um gesto largo. Olharam para ele, como se o pai estivesse louco.
       - Entrem, entrem.
       - De quem  este apartamento? - indagou Mel em voz baixa, com medo de entrar.
       Sam entrou direto e olhou em volta. No tinha ningum em casa. Fez sinal aos outros, avisando que estava tudo bem. Ento, de repente, Benjamin compreendeu 
e entrou, carrancudo. Mel estava encantada com os objetos antigos do apartamento.
       - Ainda bem que gosta, minha querida. - Ollie sorriu. - Esta  sua casa, em Nova York. Que tal a decorao? 
       - Nossa! - disse ela, extasiada. - Quando vamos usar isto, papai?
       Nunca haviam tido um apartamento em Nova York, e Sam comeou a ficar preocupado.
       - Voc no vai mais voltar para casa durante a semana, papai?
       -  claro que vou. Muito mais cedo do que antes. Ns todos vamos morar aqui at o fim das aulas, e depois, voltaremos em setembro. - Tentava fazer com que 
parecesse uma aventura, mas aos poucos, eles comeavam a compreender e ficaram assustados.
       - Quer dizer que vamos nos mudar para c? - Mel estava apavorada. - E os nossos amigos?
       - Pode v-los nos fins de semana e no vero. E se no gostarmos, no precisamos voltar no ano que vem. Mas acho que devemos pelo menos tentar.
       - Est dizendo que temos de mudar de escola, agora? - Mel no podia acreditar.
       Oliver fez um gesto afirmativo. Sam estava atnito, e Mel sentou-se e comeou a chorar. Benjamin no disse nada, mas seu rosto parecia um bloco de gelo. Sabia 
que aquela mudana era, em parte, por causa dele e nada podia mitigar sua fria. O pai no tinha direito de fazer isso com eles. No bastava a me ter ido embora, 
tinham agora de mudar de escola e morar em Nova York. Tudo ia mudar, de repente. Mas era isso que Oliver queria. Especialmente para ele, Benjamin.
       - Ora vamos, vai ser divertido. Pensem nisso como uma vida nova e interessante.
       - E Aggie? - Sam ficou mais preocupado ainda. No queria perder mais ningum, mas o pai o tranqilizou.
       - Ela vem conosco. - E Andy?
       - Pode vir tambm, desde que se comporte. Se comear a roer os mveis, teremos de deix-lo com seu av e apanh-lo nos fins de semana.
       - Ele vai ser bom, eu juro. - Os olhos de Sam pareciam muito grandes, mas pelo menos no estava chorando. - Posso ver meu quarto?
       - Claro. - Ollie ficou satisfeito. Sam estava tentando ao contrrio dos outros dois. Melissa continuava no seu papel da Dama das Camlias e Benjamin olhava 
pela janela, em silncio. - No est grande coisa agora, mas quando trouxermos algumas das suas coisas, vai ficar perfeito.
       Por sorte, o dono do apartamento tinha dois filhos e uma filha, assim havia dois quartos "masculinos" e um cor-de-rosa. Mas Melissa no quis nem ver. Era 
duas vezes maior do que seu quarto em Purchase, e muito mais sofisticado. Foi o que Sam disse a ela, quando voltou para a sala.
       -  bonito, Mel...  cor-de-rosa... voc vai gostar. 
       - Eu no quero saber. No vou mudar para c. Vou ficar com Carole e Debbie.
       - No vai no - disse Oliver, em voz baixa e firme. - Voc vem conosco. E j arranjei uma tima escola. Sei que  uma mudana difcil, mas neste momento  
a melhor coisa que podemos fazer.  verdade, Mel, acredite.
       Benjamin voltou-se rapidamente, quando o pai terminou de falar.
       - Ele est dizendo que quer me vigiar de perto e me manter longe de Sandra. E os fins de semana, papai? Ela  rea proibida tambm nesses dias? - perguntou 
zangado e com amargura.
       - Ela  rea proibida at voc melhorar suas notas. Eu j disse, no estou brincando. Todas as suas chances de ser aceito por uma boa universidade esto indo 
por gua abaixo. 
       - No me importo. No significa coisa alguma.
       - Significava muito quando mandou seus requerimentos, ou j esqueceu?
       - As coisas mudaram muito desde ento - resmungou ele, voltando para a janela.
       - Muito bem, todos j viram tudo que queriam ver? - Apesar de tudo, Oliver conseguiu falar com animao, mas s Sam estava disposto a acompanhar seu bom humor.
       - Tem quintal? 
       Oliver sorriu.
       - No exatamente. Mas o Central Park fica a dois quarteires. Acho que pode substituir o quintal. - Sam concordou. - Vamos, ento? Melissa correu para a porta 
e Benjamin a seguiu, mais devagar, com ar pensativo. A viagem para Purchase foi silenciosa, todos absortos nos prprios pensamentos, e apenas Sam fez uma ou duas 
perguntas.
       Agnes os esperava com o jantar e Sam contou a ela tudo sobre o apartamento.
       - Eu posso jogar bola no Central Park... e tenho um quarto grande e bonito... e vamos voltar para c nas frias de vero. Como se chama a minha escola, papai?
       - Collegiate.
       - Collegiate - repetiu ele.
       Agnes ouvia atentamente, observando tambm os outros dois. Benjamin e Mel no tinham dito uma palavra.
       - Quando mesmo vamos nos mudar? - perguntou Sam. - Na semana que vem.
       Ouvindo isso, Melissa comeou a chorar outra vez e pouco depois Benjamin saiu da mesa. Apanhou as chaves na mesa do hall e sem uma palavra saiu com o carro. 
Oliver apenas observou.
       Mel subiu para o quarto e no saiu mais naquela noite. Quando Oliver tentou a porta, viu que estava trancada. S Sam se sentia feliz com a mudana. Para ele, 
era uma coisa nova e estimulante. Oliver o levou para a cama e depois desceu para esperar por Benjamin. Iam ter uma conversa muito sria sobre toda aquela sua atitude 
de desafio.
       s duas horas da manh, Benjamin ainda no tinha chegado, e Oliver o esperava, cada vez mais preocupado. Finalmente ouviu as rodas do carro nos cascalhos 
l fora. 
       A porta se abriu em silncio, e Oliver foi ao encontro do filho.
       - Quer vir at a cozinha para conversarmos um pouco? - Uma pergunta puramente retrica.
       - No temos nada para conversar.
       - Pois eu acho que temos, e muito, o bastante para fazer com que voc fique fora de casa at as duas horas da manh, ou ser que isso  outro tipo de conversa? 
       Caminhou para a cozinha, sem esperar resposta e puxou duas cadeiras.
       Benjamin hesitou antes de sentar-se. - O que est acontecendo, Benjamin?
       - Na verdade nada que eu queira comentar com voc.
       De repente, da noite para o dia, eram inimigos, uma situao dolorosa e inesperada para ambos.
       - Por que est to zangado comigo? Por causa de sua me? Ainda acha que eu tive culpa?
       - Isso  assunto seu. O que eu fao  assunto meu. No gosto que voc me diga o que devo fazer. Estou muito crescido para isso.
       - Voc tem dezessete anos, no  adulto ainda, mesmo que queira ser. E no pode andar por a, quebrando todas as regras. Mais cedo ou mais tarde vai pagar 
um alto preo por isso. Sempre temos regras para seguir, durante toda a vida, quer voc goste ou no. Neste momento,  possvel que voc nem consiga ir para a universidade.
       - A universidade que se dane. Ollie ficou chocado.
       - O que est acontecendo?
       - Tenho coisas mais importantes para pensar.
       Por um momento, Oliver imaginou se ele estaria bbado, mas no parecia.
       - Como o qu? Aquela moa?... Sandra Carter? Na sua idade,  coisa passageira, Benjamin. E se no for, vo ter de esperar muito tempo antes de tomar qualquer 
deciso. Voc precisa terminar o ginsio, depois a universidade, arranjar um emprego e ganhar o bastante para manter mulher e filhos. Tem um longo caminho  sua 
frente, e  melhor seguir a linha agora do que se enterrar na merda mais tarde.
       Enquanto o pai falava, Benjamin parecia diminuir de tamanho. Ergueu os olhos para Oliver.
       - No vou para Nova York com voc. No quero mesmo ir.
       - No tem escolha. Vou fechar a casa, e s abrir nos fins de semana. E no vou deixar voc morando aqui sozinho, no  to simples assim. Se quer saber a 
verdade, em parte estamos mudando por sua causa, para que possa entrar na linha antes que seja tarde e para que eu possa passar mais tempo com vocs  noite.
       -  tarde demais para isso. E eu no vou. 
       - Por qu?
       Fez-se um longo silncio, e Oliver esperou. Finalmente, Benjamin respondeu.
       - No posso deixar Sandra.
       - Por que no? Que tal se eu deixar que a veja nos fins de semana?
       - A me dela vai se mudar para a Califrnia e ela no vai ter onde ficar.
       Oliver quase deu um gemido, imaginando o quadro que o filho descrevia.
       - Sandra no vai com ela?
       - Elas no se do bem. E Sandra detesta o pai. Tambm no quer morar com ele, em Filadlfia.
       - Ento, o que ela vai fazer?
       - Deixar a escola, arranjar um emprego e ficar aqui, mas no quero deix-la sozinha.
       - Muito nobre da sua parte. Mas ela me parece bastante independente.
       - No . Ela precisa de mim.
       Era a primeira vez que ele falava de Sandra, e Oliver ficou comovido e ao mesmo tempo assustado. Sandra no parecia o tipo de pessoa com que seu filho devia 
se envolver. 
       Ela anunciava encrenca.
       - No posso deix-la, papai.
       - Vai ter de deixar no outono, quando for para a universidade. Acho melhor tratar disso agora, antes que se torne um problema muito maior.
       Mas Benjamin apenas sorriu da ironia dessas palavras. - No posso ir.
       Ele estava decidido, e Oliver de repente ficou confuso. - Para a universidade, ou para Nova York? - Sem dvida era uma novidade.
       - Para nenhum dos dois. - Benjamin parecia obstinado, quase em desespero.
       - Mas por qu?
       Outro longo silncio e finalmente Benjamin olhou para o pai e resolveu contar tudo. Estava enfrentando sozinho h muito tempo e se o pai queria saber, ento, 
ele ia contar.
       - Porque ela est grvida.
       - Oh, meu Deus... meu Deus!... por que no me contou?
       - No sei... achei que voc no queria saber... e de qualquer modo,  problema meu. - Abaixou a cabea, sentindo todo o peso da situao, como vinha sentindo 
havia meses.
       - Por isso a me a est deixando e se mudando para a Califrnia?
       - Em parte. Mas elas tambm no se do bem, e a me tem um novo namorado.
       - E o que ela acha do fato de a filha estar grvida? 
       - Ela acha que  problema de Sandra, no dela. Mandou que ela fizesse um aborto.
       - E... ela quer?
       Benjamin balanou a cabea e nos seus olhos estava tudo em que ele acreditava, todos os valores do seu pai.
       - Eu no permitiria.
       - Pelo amor de Deus, Benjamin... - Oliver levantou-se e comeou a andar pela cozinha. - Voc no permitiria? Por qu? O que uma menina de dezessete anos vai 
fazer com um filho? Ou ela est disposta a dar para adoo?
       Benjamin balanou outra vez a cabea. - Ela diz que quer ficar com ele.
       - Benjamin, por favor, seja sensato. Vocs esto arruinando trs vidas, no uma s. Convena a menina a fazer o aborto.
       - Ela no pode.
       - Por qu?        
       - Est grvida de quatro meses.
       Oliver sentou-se pesadamente na cadeira.
       - Voc se meteu numa embrulhada. No admira que esteja faltando s aulas e tirando notas baixas, mas vou dizer uma coisa, vamos resolver isso juntos. Mas 
voc vai comigo para Nova York, na prxima semana, independente do que acontecer.
       - Papai, eu j disse. - Benjamin levantou-se, impaciente - No vou deixar Sandra. Ela est sozinha e grvida e  o meu filho. Gosto dela e do beb. - Ento, 
seus olhos se encheram de lgrimas. Estava cansado, esgotado e no queria mais discutir. As coisas j estavam difceis demais. - Papai, eu a amo... por favor, no 
interfira. - No disse que tinha se oferecido para se casar com Sandra, mas ela achava o casamento uma bobagem. No queria acabar divorciada como seus pais.
       Oliver aproximou-se do filho e ps o brao nos seus ombros.
       - Voc tem de ser sensato... precisa fazer as coisas certas... para vocs dois. Arruinar sua vida no vai ajudar ningum. Onde ela est morando agora? . - 
Milhares de possibilidades passavam por sua mente e uma delas era pagar para que Sandra ficasse no lar das mes solteiras.
       - Em casa, mas vai se mudar para um apartamento em Port Chester. Eu estou ajudando a pagar o aluguel.
       -  muito nobre da sua parte, mas logo ela vai precisar muito mais do que isso. Tem idia do quanto custa ter um beb?
       - O que voc sugere, papai? - Havia outra vez amargura na sua voz. - Um aborto, porque  mais barato? Estamos falando do meu filho. Eu amo a criana e amo 
Sandra, e no vou desistir de nenhum dos dois, voc compreende? E no vou para Nova York. Vou me formar aqui, sem ir para outro lugar. Posso ficar com ela, se for 
preciso.
       - No sei mais o que dizer. Tem certeza de que ela est de quatro meses?
       Benjamin fez um gesto afirmativo, e Oliver pensou com amargura que o pequeno "acidente" coincidia com a partida de Sarah. Todos tinham ficado desnorteados 
por algum  tempo, mas a inconseqncia de Benjamin iria acompanh-lo pelo resto da vida.
       - Ela desistiria do beb? Benjamin balanou a cabea.
       - No, no vamos desistir, papai.  engraado, sempre pensei que voc fosse contra o aborto.
       O golpe acertou em cheio. Ele era o homem que havia lutado com Sarah para terem os trs filhos e agora queria que Sandra abortasse o filho de Benjamin. Mas 
isto era to diferente.
       - Na maior parte dos casos, eu sou contra. Mas o que voc est fazendo vai destruir sua vida e eu me preocupo muito mais com voc do que com o beb.
       - Aquele beb  uma parte de mim e parte de voc, de mame... e de Sandra... e no vou deixar que ningum o mate. - Como vai sustentar seu filho?
       - Posso arranjar um emprego depois das aulas, se for preciso. E Sandra pode trabalhar tambm. Ela no est fazendo isto para tirar alguma coisa de mim, papai. 
Apenas aconteceu, e agora estamos tentando fazer o melhor possvel. - O que no era muito, Benjamin sabia.
       - H quanto tempo voc sabe? - Isso explicava seu ar srio nos ltimos meses, e as ausncias, a atitude de desafio. - Faz algum tempo, uns dois meses, eu 
acho. No comeo, ela no tinha certeza, porque nunca foi muito regulada, mas eu a mandei a uma clnica.
       - Isso j  alguma coisa, eu acho. E agora? Ela est com assistncia mdica?
       - Eu a levo ao mdico uma vez por ms.
       Era incrvel... seu filho... seu primognito... ia ser pai. - Isso  bastante, no ? - De repente, Benjamin ficou preocupado outra vez.
       - Por enquanto. Acha que ela aceitaria ir para um lar de mes solteiras? Podem tomar conta dela e depois ajudar a resolver o que fazer com o beb.
       - Fazer o qu? - Benjamin ficou logo desconfiado. - Isso depende dela... e de voc... mas seria um lugar decente, com moas na mesma situao.
       Benjamin fez um gesto afirmativo. Era uma idia. - Vou falar com ela.
       - Quando ela deve ter o filho? 
       - No fim de setembro.
       - Voc vai estar na escola. 
       - Talvez.
       Mas essa era outra luta, e estavam muito cansados naquele momento. Eram mais de quatro horas da manh. - V para a cama. Conversaremos amanh.  Tocou o ombro 
de Benjamin, com um gesto de carinho e pena. - Eu sinto muito, meu filho. Sinto que isso tenha acontecido a vocs dois. Vamos resolver de algum modo.
       - Obrigado, papai.
       Mas nenhum deles parecia convencido. Subiram a escada, com seus pensamentos e seus problemas, e a portas dos quartos fecharam-se em silncio.
       
Captulo 11
       
       Naquela semana, pai e filho conversaram todas as noites, at tarde, mas no resolveram nada. Oliver quis conhecer Sandra e ficou triste quando a viu. Ela 
era bonitinha, no muito inteligente, estava assustada e sozinha. E pertencia a um mundo diferente. Agarrava-se a Benjamin como se ele fosse a nica pessoa capaz 
de salv-la. Alm disso, estava decididamente resolvida a ter o filho.
       No fim, desesperado, Oliver telefonou para Sarah.
       - Voc tem idia do que vai ser a vida do seu filho mais velho? - Mesmo para ele, soava como novela de televiso, mas precisavam fazer alguma coisa. Benjamin 
no podia passar o resto da vida com aquela moa e com o filho dos dois.
       - Ele me telefonou ontem  noite. Acho que voc no deve interferir.
       - Est louca? - Teve vontade de estrangular Sarah. - No compreende o que isso vai fazer com a vida dele?
       - O que voc quer que ele faa? Que mate a moa? - Ora, por favor, no seja cretina. - No podia acreditar que ela estivesse dizendo aquilo. - Ela devia se 
livrar do beb, ou pelo menos d-lo para ser adotado. E Benjamin deve tomar juzo.
       - No parece o Oliver que eu conheo... desde quando se tornou um defensor to ardente do aborto?
       - Desde que meu filho de dezessete anos engravidou a namorada de dezessete anos e est resolvido a arruinar vidas para ser nobre.
       - Voc no tem o direito de interferir com o que ele acha certo.
       - No acredito no que estou ouvindo. O que aconteceu com voc? No se preocupa com os estudos dele? No entende que ele quer desistir da escola agora, deixar 
os estudos e esquecer a universidade?
       - Ele vai pensar melhor. Espere at o beb comear a gritar dia e noite, como ele fazia. Vai implorar sua ajuda para escapar, mas at l ele tem de fazer 
o que acha direito.
       - Voc  to louca quanto ele. Deve ser hereditrio.  esse tipo de conselho que est dando a ele?
       - Eu disse a e ele para fazer aquilo que acredita ser certo.
       - Isso  bobagem.
       - O que foi que voc disse para ele fazer?
       - Endireitar as meias, melhorar as notas, pr o traseiro nos bancos da escola, deixar que a menina v para o lar das mes solteiras e dar o beb para adoo.
       - Pelo menos  bonito e limpo. Uma pena que ele no concorda com voc.
       - Ele no precisa concordar comigo, Sarah. Benjamin  menor de idade. Tem de fazer o que eu mandar.
       - No se ele o mandar para o inferno, o que vai fazer se o pressionar demais.
       - Exatamente como voc fez? - Ficou furioso. Sarah estava brincando com a vida de Benjamin, experimentando suas malditas idias liberais.
       - No estamos falando de ns e sim de Benjamin. - Estamos falando sobre um dos nossos filhos arruinar a prpria vida e voc est falando de lixo.
       - Encare a realidade, Oliver,  o filho dele, a vida dele e ele vai fazer exatamente o que quer, quer voc goste ou no; portanto, no arranje lceras por 
causa disso.
       Era intil falar com ela. Oliver finalmente desligou, mais frustrado do que antes.
       No sbado de manh, Benjamin aproximou-se do pai quando o caminho de mudana parou na frente da casa. Iam levar pouca coisa para Nova York, roupas de cama 
e de uso pessoal.
       - Pronto para ir, meu filho? - Oliver procurou falar naturalmente, como se no houvesse nada de errado e como se isso fizesse diferena e convencesse o filho.
       Mas Benjamin estava decidido.
       - Vim para me despedir de voc, papai. Fez-se um longo silncio.
       - Voc tem de vir conosco, meu filho. Para o seu bem, e talvez para o bem de Sandra.
       - Eu no vou. Vou ficar aqui. J resolvi. No vou mais  escola. Arranjei emprego num restaurante e posso ficar no apartamento de Sandra.
       De certo modo, a mudana para Nova York havia precipitado as coisas e Oliver estava quase arrependido.
       - E se eu deixar que fique na casa? Voc volta para a escola?
       - Estou farto da escola. Quero tomar conta de Sandra. - Benjamin, por favor... pode tomar conta dela muito melhor se estudar.
       - Posso voltar a estudar mais tarde.
        - A escola j sabe?
       O gesto afirmativo do filho apagou a ltima esperana de Oliver.
       - Avisei ontem  tarde. - O que disseram?
       - Eles me desejaram boa sorte. Sandra j tinha contado tudo para sua orientadora.
       - No posso acreditar que voc esteja fazendo isso. - Quero ficar com ela... e com meu filho... papai, voc teria feito a mesma coisa.
       -  possvel, mas no do mesmo modo. Voc est fazendo a coisa certa do modo errado e pelas razes erradas. - Estou fazendo o melhor que posso.
       - Sei que est. Que tal fazer um teste de equivalncia na escola, descansa por um tempo agora e no outono vai para a universidade? Ainda pode fazer isso, 
voc sabe.
       - Sim eu sei, mas no  mais o que quero, papai. Quero viver no mundo de verdade. Tenho responsabilidades e uma mulher que eu amo... e terei um filho em setembro.
       Era ridculo, mas real. Ali no jardim da sua casa, Oliver olhou para os homens que carregavam as caixas, orientados por Agnes e sentiu vontade de chorar. 
Era loucura. 
       Em quatro meses Sarah havia destrudo suas vidas, e, agora, nada mais seria o mesmo. De repente perguntou a si mesmo por que estava se mudando para Nova York, 
se Benjamin no ia com eles. Porm, havia certas coisas que o agradavam na mudana, como chegar mais cedo em casa e passar mais tempo com Mel e Sam. Mel estava mais 
calma, sabendo que s ficariam dois meses em Nova York, assim mesmo, a ttulo de experincia e que voltariam para Purchase nos fins de semana e nas frias de vero. 
O que fazia tudo mais interessante era o fato de suas amigas estarem impressionadas e morrendo de vontade de visit-la na cidade.
       - Papai, tenho de ir. Comeo a trabalhar s duas horas, e Sandra est  minha espera no apartamento.
       - Vai telefonar?
       -  claro. Venha nos visitar quando estiver em Purchase. - Benjamin, eu o amo. Eu o amo de verdade. - Abraou o filho e os dois choraram.
       - Obrigado, papai. Tudo vai dar certo...
       Oliver fez um gesto afirmativo, mas no acreditava. Nada ia dar certo outra vez, pelo menos no por muito tempo. Oliver viu o carro do filho se afastar, com 
as lgrimas descendo pelo rosto, e ento o carro desapareceu e ele entrou em casa. Tinha forado a barra sem querer, e agora Benjamin havia abandonado a escola, 
estava trabalhando num restaurante e morando com uma menina frvola, mas talvez sasse alguma coisa boa de tudo isso, algum dia... num dia muito distante...
       A casa estava um verdadeiro caos. Havia carregadores por toda a parte, o cachorro latia freneticamente e Sam, excitado, corria de um lado para o outro, agarrado 
no urso de pelcia. Mel ficou ao telefone at o ultimo momento, e Aggie insistiu em deixar tudo arrumado. Finalmente saram e, com um olhar para a casa que amavam, 
seguiram o caminho de mudanas, para a aventura em Nova York.
       No apartamento encontraram uma planta, presente de Daphne, frutas e biscoitos para as crianas e uma caixa de biscoitos para Andy. Uma acolhida perfeita. 
Mel gritou de alegria quando viu seu quarto e correu para o telefone.
       Mas enquanto se instalavam, Oliver s pensava em Benjamin e na sua nova vida, uma vida da qual ele ia se arrepender amargamente algum dia, mesmo que levasse 
muito tempo. E Oliver sentia que estava perdendo, uma a uma, as pessoas que ele mais amava.
       
Captulo 12
       
       A mudana para Nova York foi a melhor coisa que Oliver fez para os filhos. Isso ficou claro em poucos dias. Sam adorava a nova escola e fazia amigos com facilidade. 
       Mel tambm estava encantada com a sua, passava muito tempo com Daphne, fazendo compras no Bloomingdale e depois telefonava para as amigas, contando tudo sobre 
sua vida sofisticada em Nova York. O melhor de tudo era que Oliver conseguia chegar em casa antes do jantar e passava com os filhos exatamente o tempo que queriam 
passar com ele. Mel vivia ao telefone, mas sabia que o pai estava ali. Oliver e Sam tinham horas para ler, conversar, jogar e no comeo de maio, quando ficou mais 
quente, s vezes iam jogar bola no parque, depois do jantar. Era uma vida perfeita. Exceto pela falta que sentia de Benjamin, que no lhe saa da lembrana. Tinha 
perdido duas pessoas agora, embora fizesse questo de visitar o filho, nos fins de semana, quando iam a Purchase. Queria que ele os visitasse, mas Benjamin estava 
trabalhando  noite. Oliver certa vez foi at o restaurante e ficou com o corao apertado. Benjamin trabalhava como auxiliar de garom com um salrio ridculo. 
Renovou a oferta de deix-lo morar na casa, por mais que o desagradasse a idia de deix-lo sozinho e mais uma vez pediu que ele voltasse aos estudos. Mas Benjamin 
no queria deixar Sandra agora. E quando Oliver a viu numa tarde de sbado, ficou chocado. Ela parecia estar de mais de sete meses e Oliver imaginou se o beb era 
realmente do seu filho.
       Fez essa pergunta a Benjamin e ele, ofendido, insistiu em afirmar que era seu. Disse que tinha certeza. Oliver no quis pression-lo mais. O pior golpe foi 
quando comearam a chegar as respostas das universidades. Oliver as encontrava em Purchase, nos fins de semana. Benjamin queria que toda sua correspondncia continuasse 
a ser enviada para a casa. A escola no chegou a informar que Benjamin havia abandonado os estudos e ele foi aceito em todas, exceto na Duke. Podia ter ido para 
Harvard, Princeton ou Yale, mas estava limpando pratos num restaurante e ia ser pai aos 18 anos. Oliver sofria muito pensando nisso. Respondeu pessoalmente a todas 
as cartas, explicando que, devido a problemas de famlia, Benjamin no podia aceitar, mas que faria novo requerimento no prximo ano. Oliver esperava ainda convenc-lo 
a terminar o curso em Nova York. Assim, ele perderia apenas um ano de sua vida. No falou mais nisso com o filho. Era um assunto delicado, e ele parecia completamente 
absorto em sua vida com Sandra.
       - Que tal passar alguns dias em Nova York? - Oliver faria qualquer coisa para conseguir isso, mas Benjamin estava encarando seriamente suas novas responsabilidades 
e sempre declinava o convite, explicando que no podia deixar Sandra sozinha. Oliver jamais estendia o convite a ela. Desde que saiu de casa, Benjamin nunca mais 
visitou a me em Boston tambm, mas falava com ela ao telefone, uma vez ou outra. Mel e Sam visitaram-na logo depois de se instalarem no apartamento. Voltaram mais 
quietos dessa vez, e Oliver teve a impresso de que alguma coisa estava preocupando Sam. Perguntou a Mel uma vez, mas ela foi muito vaga, dizendo apenas que a me 
estava muito ocupada com os estudos. Mas para Oliver havia outra razo e certa noite, quando jogava cartas com Sam, ficou sabendo do que se tratava. Era uma noite 
calma e os dois estavam sozinhos. Mel estudava no quarto.
       - O que voc acha dos franceses, papai?
       Era uma pergunta estranha, e Oliver ergueu os olhos com expresso intrigada.
       - Os franceses? So legais. Por qu? - Nada. Eu s estava pensando.
       Mas Oliver percebeu que havia mais e que Sam queria falar, mas estava com medo.
       - Tem algum menino francs na sua escola?
       Sam balanou a cabea, descartou e acariciou a cabea de Andy enquanto esperava que o pai jogasse. Ele gostava daquelas horas que passava com o pai. Comeava 
a gostar realmente da nova vida. Mas ainda sentia falta da me e de Benjamin, como todos sentiam.
       - Mame tem um amigo... - comeou ele, olhando para as cartas.
       Oliver logo ficou interessado. Ento era isso. Sarah tinha um namorado.
       - Que tipo de amigo?
       Sam ergueu os ombros e comprou uma carta. - Eu no sei. Acho ele legal.
       Mel naquele momento passava por eles e parou, tentando chamar a ateno de Sam, mas ele no olhou para ela. Oliver viu a expresso da filha que se aproximou 
dos dois com passos lentos.
       - Quem est ganhando? - perguntou ela, tentando mudar o assunto da conversa. Sabia que no deviam falar naquilo, embora Sarah no tivesse dito nada.
       - Sam. Estvamos conversando um pouco.
       -  - disse Mel, com ar desaprovador. - Eu ouvi. - Sua me tem um novo amigo francs?
       - Oh, ele no  novo - disse Sam, rapidamente. - Ele estava l antes. Ns o conhecemos na outra vez. Mas agora ele est morando com mame. Voc sabe, assim 
como amigo. Ele  da Frana e se chama Jean-Pierre. Tem vinte e cinco anos e est aqui num programa de intercmbio, de dois anos. - Que bom para ele. - Com os lbios 
cerrados, Oliver comprou uma carta, sem ver qual era. - Acho que  bom para sua me tambm. Como  ele? - Detestava interrogar os filhos, mas queria saber. Sarah 
estava vivendo com um homem de 25 anos, expondo os filhos  presena dele. Oliver ficou furioso.
       - No  grande coisa, papai. Ele dormiu no sof da sala, enquanto estivemos l.
       E quando vocs no esto, Oliver queria perguntar, onde ele dorme? Mas eles sabiam. Sam havia comentado com Mel, quando voltaram de Boston, perguntando se 
ela achava que a me estava apaixonada por ele. Mel o fizera prometer, mais uma vez, no contar nada ao pai.
       - Isso  timo - disse Oliver. - Ele  um cara simptico?
       - . - Sam no parecia muito entusiasmado. - Ele paparica muito a mame. Acho que  o jeito dos franceses. Compra flores e coisas assim e nos fez comer croissants. 
Prefiro os muffins ingleses, mas no so ruins. Nada de especial. Exceto para Oliver, que tinha a impresso de estar soltando fumaa pelas orelhas. Mal podia esperar 
que Sam fosse para a cama, e a espera lhe pareceu uma eternidade. Ento, Mel aproximou-se dele, sabendo o que o pai devia estar sentindo. - Ele no devia ter contado. 
Eu sinto muito, papai. Acho que ele  s um amigo da mame. S que foi um pouco esquisito v-lo morando l.
       - Aposto que sim.
       - Ele disse que seu contrato de aluguel venceu, e mame estava deixando que dormisse no sof, at encontrar outro apartamento. Foi muito delicado conosco. 
Acho que no significa nada. - Mel parecia assustada e os dois sabiam que significava muito mais do que ela queria admitir para o pai. Significava que Sarah tinha 
sado de casa e que havia outro homem em sua vida, ao contrrio de Oliver, que no tinha sado com mulher nenhuma e ainda no sentia vontade de sair.
       - No se preocupe com isso, Mel. - Procurou parecer mais calmo do que estava. - Sua me tem direito de fazer o que ela quiser, agora.  uma mulher livre. 
Ns dois somos, eu acho.
       - Mas voc nunca sai, papai. - Olhou para ele com orgulho, e Oliver sorriu.
       Era um motivo estranho para orgulho.
       - Acho que ainda no tive oportunidade. Estou muito ocupado, preocupando-me com vocs.
       - Talvez fosse bom voc sair um pouco. Daphne diz que ia fazer bem.
       - Ela acha? Pois pode dizer a ela para cuidar da prpria vida. J tenho muita confuso por aqui.
       Ento Melissa olhou para ele, como se soubesse a verdade e sentisse pena do pai.
       - Voc ainda ama a mame, no ?
       Oliver hesitou por um longo momento, depois fez um gesto afirmativo e disse, sentindo-se muito tolo:
       - Sim, Mel, eu ainda a amo, e s vezes penso que sempre a amarei. Mas no adianta mais. Est tudo acabado entre ns. Estava na hora dela saber, e Oliver suspeitava 
que eles j sabiam. Cinco meses e nada estava sendo como Sarah havia prometido. Nenhum fim de semana, nada de frias. Ultimamente ela telefonava poucas vezes. Agora 
ele sabia por qu. Ela estava vivendo com um garoto de 25 anos, francs, que se chamava Jean-Pierre.
       - Foi o que pensei - disse Mel, com tristeza. - Vocs vo se divorciar?
       - Qualquer dia destes, eu acho. No estou com pressa. Veremos o que sua me quer fazer.
       Quando Mel foi se deitar, ele telefonou para Sarah, lembrando-se do que Sam havia dito. Foi direto ao assunto. No tinha motivo para rodeios, agora. O tempo 
dos jogos tinha acabado.
       - No acha que  uma falta de gosto ter um homem em casa quando as crianas a visitam? - No falou com raiva, apenas com desprezo. Sarah no era mais a mulher 
que ele conhecia e amava. Era outra pessoa. E pertencia a um garoto chamado Jean-Pierre. Mas era a me dos seus filhos tambm, e isso o preocupava mais.
       - Oh... isso... ele  s um amigo, Ollie. E dormiu na sala. As crianas dormiram no quarto, comigo.
       - Pois voc no enganou ningum. Os dois sabem o que est acontecendo. Pelo menos Mel sabe, pode estar certa e acho que Sam tem uma boa idia tambm. Isso 
no a preocupa? No acha embaraoso estar morando com seu amante? - Agora era uma acusao e o que realmente o enfurecia era a idade do homem. -  como se eu no 
a conhecesse mais. E acho que nem quero conhecer.
       - Isso  assunto seu, agora, Oliver. Como e com quem eu vivo  assunto meu. Seria bom para eles se a sua vida fosse um pouco mais normal.
       - Compreendo. O que voc quer? Que eu traga meninas de dezenove anos para casa, para provar a eles minha masculinidade?
       - No estou querendo provar nada. Somos bons amigos. A idade no importa.
       - Isso no me interessa. Mas me preocupo pelo menos com um pouco de decncia, quando meus filhos esto com voc. Procure fazer isso.
       - No me ameace, Oliver. No sou sua filha. No sou sua empregada. No trabalho mais para voc. E se  isso que quer dizer, quando alega que no me conhece 
mais, est certo. Voc nunca me conheceu. Eu no passava de uma empregada contratada para cuidar dos seus filhos e da sua roupa suja.
       - Est me ofendendo gratuitamente. Tnhamos muito mais, e voc sabe disso. No teramos ficado juntos por quase vinte anos se voc fosse apenas uma empregada.
       - Talvez nenhum de ns tenha notado antes.
       - E o que est diferente agora, a no ser o fato de ter abandonado seus filhos? O que h de muito melhor em sua vida? Quem cozinha? Quem arruma a casa? Quem 
leva o lixo para fora? Algum tem de fazer isso. Eu fazia o meu trabalho. Voc fazia o seu. E juntos construmos uma coisa especial e maravilhosa, at voc a demolir 
e pisar nos escombros e em ns, antes de ir embora. Foi uma sujeira para ns todos, especialmente para mim. Mas pelo menos sei o que ns tnhamos. Era algo muito 
belo, valioso e decente. No queira negar isso s porque foi embora.
       Sarah ficou em silncio por um longo tempo, e Oliver no sabia se ela estava chorando.
       - Desculpe... talvez voc tenha razo... eu... sinto muito, Ollie... eu no podia continuar...
       - Eu sinto muito por isso - disse ele, com voz mais suave, e depois, rouca e carinhosa: - Eu a amava tanto, Sarah. Quando voc partiu, pensei que ia morrer.
       Ela sorriu, entre as lgrimas.
       - Voc  muito bom e muito forte para deixar que qualquer coisa o arrase por muito tempo, Ollie; voc no sabe, mas  um vencedor.
       - Ento, o que aconteceu? - Ele sorriu com amargura. - No me parece que ganhei alguma coisa. Da ltima vez que olhei, voc no estava exatamente andando 
pelo meu quarto.
       - Talvez voc tenha ganhado. Talvez agora consiga alguma coisa melhor. Algum melhor para voc, mais perto do que voc quer. Voc devia ter se casado com 
uma mulher inteligente e alegre, disposta a construir um lar e lhe dar muitos filhos.
       - Era isso que eu tinha com voc.
       - Mas no era real. Eu s fazia porque tinha de fazer. Esse foi o erro. Eu queria estar fazendo isto, levar uma vida bomia, sem ser responsvel por ningum 
a no ser eu mesma. No quero possuir nada e ningum. Nunca quis. S queria ser livre. E agora eu sou.
       - O pior de tudo  que eu nunca desconfiei... nunca compreendi...
       - Eu tambm no, durante muito tempo. Acho que por isso voc no podia notar.
       - Voc est feliz agora? - Ele precisava saber, para sua prpria paz de esprito. Sarah tinha virado sua vida de cabea para baixo, mas se tivesse encontrado 
o que procurava, talvez valesse a pena. Talvez.
       - Acho que estou. Pelo menos, mais feliz. Ficarei muito mais quando realizar alguma coisa de valor.
       - Voc j realizou... s que no sabe. Deu-me vinte anos maravilhosos e trs belos filhos. Talvez eu deva me contentar com isso. No se pode contar com coisa 
alguma para sempre.
       - Com algumas coisas estou certa de que podemos. Da prxima vez voc vai saber o que est procurando e o que voc no quer, e eu tambm.
       - E seu amigo francs?  o que voc estava procurando? - Oliver no entendia como ele podia ser, com apenas 25 anos, mas Sarah era uma mulher estranha. Talvez 
fosse o que ela queria agora.
       - Por enquanto, serve.  um arranjo muito existencial. Oliver sorriu. Ouvira essa palavra havia muito tempo. - Est falando exatamente como quando morava 
no SoHo. Acho bom verificar se no est andando para trs. Voc no pode voltar no tempo, Sarrie. No funciona.
       - Eu sei. Por isso no voltei para casa.
       Agora ele compreendia, com muita tristeza, mas pelo menos compreendia.
       - Quer que eu entre com a ao de divrcio? - Era a primeira vez que ele perguntava diretamente e pela primeira vez no sofria com isso. Talvez ele estivesse 
pronto, finalmente. - Quando voc tiver tempo. No h pressa.
       - Eu sinto muito, minha querida... - Seus olhos encheram-se de lgrimas.
       - No sinta. - Ela disse boa noite.
       Oliver ficou sozinho com suas lembranas, seus remorsos e suas fantasias sobre Jean-Pierre... o filho da me felizardo...
       Naquela noite, Sam voltou para a cama do pai, a primeira vez desde que estavam em Nova York e Oliver no se importou. Era reconfortante ter o filho ao seu 
lado.
       Naquele fim de semana foram a Purchase, mas no viram Benjamin. Mel e Sam passaram o tempo todo com os amigos, o jardim de Sarah estava florido, e Aggie passou 
o tempo escolhendo o que queria levar para a cidade. No sbado, quando Oliver estava ainda na cama, o telefone tocou.
       Era George, e ao ouvir as primeiras palavras do pai, Oliver sentou-se rapidamente na cama. O pai no estava muito coerente. Ele conseguiu entender que Phyllis 
fora atropelada por um nibus e estava em coma. Ela estava no hospital, e George falava com a voz entrecortada por soluos.
       - Estou indo, papai. Quando aconteceu? s oito horas daquela manh.
       Oliver chegou ao hospital em menos de uma hora, despenteado, com a cala cqui e a camisa que tinha usado na vspera. O pai estava chorando discretamente 
e quando o viu lanou-se nos seus braos como uma criana perdida.
       - Meu Deus, papai, o que aconteceu?
       - Foi tudo culpa minha. Ela estava melhor nestes ltimos dias, e eu insisti em traz-la para passar o fim de semana em casa.
       Sentia tanta falta dela, queria senti-la ao seu lado na cama que haviam compartilhado por quase meio sculo e quando ela melhorou, enganando a si mesmo, achou 
que podia lev-la para casa. Os mdicos procuraram fazer com que desistisse da idia, mas George insistiu, dizendo que podia cuidar to bem de Phyllis quanto eles, 
no hospital.
       - Ela se levantou enquanto eu estava dormindo. Quando acordei, j estava vestida. Parecia um pouco confusa e disse que ia preparar o caf. Achei que seria 
bom para ela fazer alguma coisa que sempre havia feito. Levantei, fui para o chuveiro, fiz a barba, vesti-me e desci para a cozinha. Ela no estava. Vi a porta da 
frente aberta e no consegui encontr-la. Procurei por toda a parte, no jardim, no galpo. Peguei o carro e percorri toda a vizinhana e ento... - Comeou a soluar 
outra vez - ...vi a ambulncia... o motorista do nibus disse que ela praticamente se atirou na frente dele. Ele freou rapidamente, mas no conseguiu parar a tempo. 
Ela estava quase morta quando chegou ao hospital, e eles no sabem... Oh, Ollie,  como se eu a tivesse matado. Eu queria tanto voltar no tempo, fingir que ela estava 
bem outra vez, mas na verdade ela no estava, e agora...
       Oliver ficou bastante chocado quando viu a me, na UTI. Ela sofrera vrias contuses na cabea e estava com quase todos os ossos quebrados. Os mdicos garantiram 
que estava in consciente desde o momento do acidente, o que no deixava de ser um consolo.
       Os dois esperaram no corredor, e ao meio-dia Oliver insistiu em levar o pai para almoar na lanchonete. Eles a viam de hora em hora, por alguns momentos, 
e no houve nenhuma mudana no seu estado.  meia-noite convenceram-se de que sua viglia era intil. Os mdicos no alimentavam nenhuma esperana, e de madrugada 
Phyllis sofreu um derrame. George tinha ido para casa, mas Oliver ainda esperava, no hospital, tendo telefonado vrias vezes para Aggie. No queria que ela contasse 
nada para as crianas, ainda. Aggie disse que o pai tivera de voltar  cidade por causa de uma emergncia no escritrio. Oliver no queria perturbar os filhos.
       s seis horas, Oliver cochilava no corredor quando o mdico foi falar com ele. Tinha visto a me fazia duas horas. Na UTI no havia noite nem dia, apenas 
as luzes muito claras e os aparelhos sussurrantes, o bombear dos aspiradores e um ou outro rudo do computador, alm de alguns gemidos tristes e solitrios. Mas 
sua me estava completamente imvel. O mdico tocou no brao dele, e Oliver acordou imediatamente.
       - Sim?
       - Sr. Watson... sua me teve uma hemorragia cerebral. - Ela est... ela... - Era horrvel dizer as palavras. Aos 44 anos, Oliver ainda queria a me. Viva. 
Para sempre. 
       - O corao ainda est funcionando, e a colocamos no respirador. Mas no tem mais ondas cerebrais. A luta terminou. - Legalmente ela estava morta, mas tecnicamente, 
com a ajuda dos aparelhos, respirava ainda. - Podemos mant-la com os aparelhos o tempo que vocs quiserem, mas na verdade  intil. Depende de vocs agora.
       Oliver pensou se o pai queria que ele decidisse, mas de repente, compreendeu que George teria de resolver.
       - O que devemos fazer? - perguntou o mdico. - Podemos esperar, se quiser consultar seu pai.
       Oliver fez um gesto afirmativo, sentindo a solido como uma faca em suas entranhas. A mulher o havia abandonado fazia cinco meses e agora ia perder a me. 
Mas no podia pensar assim. Tinha de pensar em George e no que significava para ele perder a companheira de 47 anos. Ia ser brutal. Mas na verdade Phyllis havia 
partido havia alguns meses, quando sua mente comeou a ser destruda. Muitas vezes ela nem sabia quem ele era. E no ano seguinte ia piorar rapidamente. Talvez esse 
terrvel acidente fosse melhor.
       - Vou telefonar para ele.
       Mas quando se dirigia para o telefone, pensou melhor e, saindo do hospital, caminhou para seu carro na suave manh de primavera. O dia estava lindo, o ar 
limpo, o sol quente e os pssaros cantando. Era difcil acreditar que, para todos os efeitos, ela j estava morta e que agora ele tinha de contar ao pai.
       Entrou na casa dos pais com a chave que tinha, para um caso de emergncia. O quarto dos pais estava como sempre, a no ser pela falta da me na cama com dossel 
que eles usavam desde o dia do casamento.
       - Papai? - murmurou ele. George se mexeu, e Oliver o tocou de leve. - Papai... - Tinha medo de assust-lo. Com 72 anos, George tinha problemas cardacos e 
pulmonares, mas conservava ainda a dignidade e o respeito do filho. Acordou de repente e olhou para Oliver.
       - Ela... ela est...? - Sentou-se na cama, apavorado. - Ainda est l, mas precisamos conversar.
       - Por qu? O que aconteceu?
       - Por que voc no acorda primeiro?
       George tinha ainda a expresso confusa de quem acorda de um sono profundo.
       - Estou acordado. Aconteceu alguma coisa?
       - Mame teve um derrame. - Com um suspiro, Ollie sentou-se na beirada da cama e segurou a mo do pai. - Eles a esto mantendo viva  custa de aparelhos. Mas, 
papai...  tudo que resta... - Era difcil, mas tinha de dizer a verdade. - O crebro dela est morto.
       - O que eles querem que eu faa?
       - Podem desligar os aparelhos, mas isso depende de voc. - E ento, ela morre?
       Ollie fez um gesto afirmativo, e com as lgrimas descendo pelo rosto, George recostou no travesseiro outra vez. - Ela era to bonita, Oliver... to doce quando 
jovem... to encantadora quando nos casamos. Como podem me pedir para mat-la? No  justo. Como posso fazer isso com ela?
       Oliver teve de se conter para no chorar tambm, ouvindo o doloroso soluo do pai.
       - Quer que eu me encarregue disso? Achei que voc devia saber... Eu sinto tanto, papai.
       Os dois estavam chorando, mas a mulher que eles amavam estava morta fazia algum tempo. No restava nada mais agora.
       George sentou-se outra vez, enxugando os olhos. - Eu quero estar l quando acontecer.
       - No - disse Oliver rapidamente. - No quero que faa isso.
       - Isso quem resolve sou eu, no voc. Devo a ela. Durante quase cinqenta anos eu estive presente sempre que ela precisou, e no vou desapont-la agora. - 
Comeou a chorar outra vez. - Oliver, eu a amo.
       - Eu sei. E ela sabia tambm. E o amava. Voc no precisa fazer isso.
       - Tudo aconteceu por minha culpa. Oliver segurou as mos do pai.
       - Agora, escute. No existe nada mais de mame, nada do que conhecemos e amamos. Ela se foi faz muito tempo, e o que aconteceu ontem no foi culpa sua. Talvez, 
de certa for ma, tenha sido melhor assim. Se ela tivesse vivido, ia murchar e morrer, sem conhecer ningum, sem lembrar das coisas de que gostava e das pessoas que 
amava... voc... os netos... eu... os amigos... a casa... o jardim. Seria um vegetal numa casa de repouso e se pudesse saber, teria odiado isso. Ela foi poupada.
       Aceite isso como a mo do destino, vontade de Deus, se quiser, e deixe de se culpar. Voc no controla nada disso. Seja o que for que faa agora, acontea 
o que acontecer,  porque tinha de ser assim. E quando a deixarmos ir, ela estar livre.
       George assentiu, balanando lentamente a cabea, agradecido pelas palavras do filho. Talvez ele estivesse certo. De qualquer modo, nada podia ser mudado agora.
       George Watson vestiu um terno escuro risca de giz, camisa branca engomada e uma gravata azul-marinho que Phyllis havia comprado para ele dez anos atrs. Estava 
elegante e parecia calmo quando saram de casa e ele olhou em volta, como que esperando v-la, depois olhou para o filho e balanou a cabea.
       -  to estranho pensar que ela estava aqui ontem de manh.
       Ollie balanou a cabea tambm.
       - No, no estava, papai. Fazia muito tempo que ela no estava mais aqui e voc sabe muito bem disso. Seguiram para o hospital, em silncio. A manh estava 
linda,  uma bela manh para morrer, pensava Oliver. Tomaram o elevador para o quarto andar e pediram para ver o mdico de planto. Era o mesmo que havia falado com 
Oliver s seis horas. O estado da Sra. Watson continuava inalterado, ela apenas tivera vrias convulses, o que era comum depois da hemorragia. Nada de importncia 
tinha mudado. Seu crebro estava morto e ia ficar morto para sempre e s os aparelhos a mantinham viva no momento.
       - Meu pai fez questo de estar presente - explicou Oliver. - Eu compreendo. - O jovem mdico era delicado e compreensivo.
       - Quero estar l quando vocs... quando... - Sua voz tremeu e ele no pde continuar.
       O mdico fez um gesto afirmativo. Havia passado por aquilo inmeras vezes, mas no conseguia encarar com frieza. Quando eles entraram, uma enfermeira estava 
com ela e os aparelhos pulsavam e apitavam. A linha no monitor era horizontal e lisa, a condenao final. Mas Phyllis parecia adormecida num sono tranqilo. Os olhos 
estavam fechados, os cabelos limpos. George segurou a mo dela, que estava ao lado do corpo, levou-a aos lbios e beijou-a.
       - Eu amo voc, Phyllis... Sempre amarei... e algum dia estaremos juntos de novo.
       Ollie e o mdico desviaram os olhos, os de Oliver marejados de lgrimas e ele desejou que tudo fosse diferente, que ela pudesse ter vivido por muito, muito 
tempo, que nada tivesse mudado, que ela visse Sam crescido e com filhos.
       - Durma em paz, meu amor - disse George pela ltima vez e depois ergueu os olhos para o mdico. Continuou segurando a mo dela e os aparelhos foram desligados. 
E assim, calma e em paz, com o marido segurando-lhe a mo, na morte, como tinha segurado em vida, Phyllis Watson parou de respirar.
       George fechou os olhos por um longo momento, depois inclinou-se para beij-la, soltou a mo dela, tocou-lhe o rosto levemente e olhou para ela por muito, 
muito tempo, como para imprimir aqueles traos para sempre na memria. Ento, saiu para o corredor, com os olhos rasos de lgrimas. Quarenta e sete anos juntos, 
o amor que fazia dos dois uma s pessoa tinha acabado. Mas havia certa beleza naquela morte, por causa das pessoas que eles eram. At o mdico estava comovido quando 
os levou para assinar os papis. Oliver fez o pai sentar-se na sala de espera e depois o levou para casa. Ficou com ele at o meio-dia e depois foi para casa, para 
tomar as providncias necessrias.
       Mel e Sam o esperavam e a menina percebeu imediatamente que tinha acontecido alguma coisa. Oliver parecia exausto e a histria de Aggie era muito estranha 
para ser acreditada. - O que aconteceu, papai?
       - Sua av morreu h pouco, meu bem. Foi muito triste e muito belo ao mesmo tempo. Vai ser difcil para seu av. Mel comeou a chorar, e logo depois Sam, percebendo 
que alguma coisa estava errada, aproximou-se deles. Ollie contou-lhe, e ele chorou tambm. Ia sentir muita falta da av. - Podemos ir visitar o vov?
       - Mais tarde. Preciso fazer umas coisas antes.
       Tinha de tratar dos funerais, dos ltimos detalhes no hospital. E naquela tarde resolveu mand-los de trem, para Nova York, com Agnes. Telefonou para Daphne 
pedindo a ela para passar pelo apartamento. Ela disse que sentia e que no era justo que tanta coisa acontecesse a ele ao mesmo tempo. Oliver agradeceu, comovido.
       Telefonou tambm para Benjamin, sugerindo que ele fosse ver o av quando tivesse tempo. Disse que os funerais talvez fossem na quarta-feira, mas que avisaria 
antes.
       Ento voltou para a casa do pai e ficou satisfeito de encontrar a vizinha, a fiel Sra. Porter, fazendo companhia a George. Ela o tratava com muita delicadeza 
e carinho. 
       Finalmente, quando voltou para casa, sozinho e exausto, Sarah telefonou. Disse que sentia muito, pediu desculpas por no poder comparecer aos funerais porque 
tinha provas.
       - Eu explico ao papai.
       - Diga a ele que eu sinto muito. - Sarah estava chorando. - Obrigado, Sarah. - Pela primeira vez no sentiu nada por ela. S pensava na expresso de amor 
e ternura no rosto do pai quando segurou a mo de Phyllis no hospital. Era isso que Oliver queria em sua vida e esperava encontrar algum dia. Mas sabia agora que 
no ia ser com Sarah.
       Voltou para a casa do pai de manh e todas as providncias j estavam tomadas. Mel e Sam voltaram a Purchase na noite de tera-feira, e o funeral foi na quarta, 
uma cerimnia discreta e simples, com a msica que sua me gostava e muitas flores do jardim dela. O caixo foi descido lentamente, e depois Oliver levou o pai para 
casa, a fim de viver com a dor daquela perda, sozinho, para terminar seus dias sem a mulher que ele amava.
       
Captulo 13
       
       Junho chegou antes que tivessem tempo de parar para pensar. As aulas terminaram e voltaram para o campo, a fim de passar o vero. George os visitava uma vez 
ou outra e parecia cansado, muito mais velho e desesperadamente s, muito mais do que quando Phyllis estava na clnica. Pelo menos, ento, podia v-la, mas agora 
s lhe restava lembrar dela, nas conversas em famlia e com os amigos.
       Oliver estava outra vez viajando de trem todos os dias para o trabalho. Ia fazer isso durante todo o vero. Sentia-se duplamente satisfeito por ter alugado 
o apartamento em Nova York. No vero no era to inconveniente chegar tarde em casa. Nadavam na piscina quando ele chegava, e os filhos deitavam-se mais tarde.
       Ofereceram um churrasco aos amigos para comemorar o quatro de julho e dentro de duas semanas, Mel e Sam iam para Boston, passar o fim das frias com a me. 
Sarah ia lev-los  Frana, onde passariam um ms, na companhia de Jean-Pierre. Sarah telefonou, informando sobre esses planos, e Oliver permitiu que os filhos fossem. 
J estavam com idade para compreender as coisas. Mel tinha 17 anos, e Sam ia fazer dez e estavam entusiasmados com a idia.
       George tambm compareceu ao churrasco, com Margaret Porter, a simptica vizinha que eles j conheciam. Era uma mulher atraente, com cabelos grisalhos e mente 
muito ativa. Fora enfermeira quando jovem, e seu marido, mdico, e ela parecia cuidar muito bem do pai de Oliver. Discretamente fazia com que ele descansasse quando 
precisava, servia a comida para ele, conversava alegremente com George e com os amigos, e ele parecia satisfeito. George falou bastante sobre Phyllis, e Oliver percebeu 
que o pai sentia-se ainda culpado do acidente. Mas parecia estar se recuperando. Todos estavam, cada um a seu modo. O prprio Oliver era mais ele prprio agora. 
Havia entrado com a ao de divrcio em junho e, por insistncia de Daphne, saiu com uma mulher, mas foi um desastre. Ela era do tipo criativo e trabalhava para 
outra agncia de publicidade. Depois, Oliver insistiu em dizer que a mulher era viciada. Insistiu com ele para experimentar cocana e seu esporte favorito era luta 
livre de mulheres. Daphne zombou dele durante muito tempo, mas pelo menos era um comeo.
       Benjamin e Sandra, agora de sete meses, tambm foram ao churrasco. Oliver sentiu pena dela. Sandra no era inteligente, e o rosto infantil parecia ridculo 
naquele corpo imenso. Ela falou muito sobre o beb, e por um momento Oliver ficou apavorado, pensando que eles iam se casar. Mas Benjamin disse que no tinham planos 
para isso ainda. Achava que eram muito jovens.
       Mel tentou falar com ela vrias vezes, mas Sandra aparentemente no tinha nada a dizer, e Mel acabou desistindo e voltou para suas amigas. Daphne tambm foi 
ao churrasco e passou muito tempo conversando com Margaret Porter ao lado da piscina.
       - Eu achei timo - disse Daphne para Oliver, quando se despediram. - Um quatro de julho realmente  moda antiga, com bons amigos. No se pode desejar nada 
melhor do que isso na vida.
       Ambos riram, lembrando os dias passados.
       - Eu posso, mas acho que no vou desejar. Outro encontro como aquele e eu morro. - Riram outra vez, agora lembrando a mulher que gostava de luta livre feminina.
       - Seu pai parece timo e gosto da amiga dele.  uma mulher muito interessante. Ela e o marido viajaram muito pelo Extremo Oriente e durante dois anos tiveram 
uma clnica no Qunia.
       - Ela parece boa companhia para meu pai. Pelo menos  alguma coisa. Eu gostaria que Benjamin se libertasse de algum modo. Aquela moa  boazinha, mas vai 
destruir a sua vida, se ele deixar.
       - D uma chance a ele. Est tentando fazer a coisa certa. S que no sabe ainda o que isso significa.
       -  difcil imaginar Benjamin com um filho. Ele  ainda uma criana e ela parece ter quatorze anos. Alm disso, Daphne, ela  pateticamente burra.
       - Porque est fora do seu elemento e voc tem de admitir, numa situao bastante desvantajosa. Ela sabe o que vocs todos pensam a seu respeito, sabe do que 
Benjamin desistiu, para ficar com ela. Deve ser um peso tremendo. Oliver sorriu.
       - Por falar em peso, parece que ela vai ter trigmeos. - No seja maldoso - censurou ela.
       - Por que no? Ela est arruinando a vida do meu filho. - Talvez no. Talvez tenham um beb maravilhoso. - Mesmo assim, eu gostaria que se desfizessem dele. 
Daphne balanou a cabea. Tinha falado com Benjamin e com Sandra e sabia que isso no ia acontecer.
       - Acho que Benjamin no vai deixar. Ele  muito parecido com voc, com princpios de moral, muito decente, ansioso demais para defender as coisas em que acredita 
e em fazer o que  certo para todos.  um garoto formidvel. Tudo vai dar certo.
       - Por que est to convencida disso?
       - Ele  seu filho, no ? - falou Daphne.
       Ento ela voltou para Nova York e os outros convidados saram logo depois. Oliver ajudou Agnes a arrumar tudo e, depois, deitado ao lado da piscina, tarde 
da noite, pensou em Sarah, imaginando o que ela estaria fazendo naquele momento. 0 quatro de julho sempre foi especial para eles. E naquele vero iam completar 19 
anos de casados. Isso o levou a pensar em outras coisas tambm... seus pais... e seu pai... e Margaret Porter. Imaginou se George estaria interessado nela, ou apenas 
agradecido por sua ajuda, feliz por ter com quem conversar. Talvez um pouco das duas coisas. Era estranho pensar no seu pai interessado em outra pessoa que no fosse 
sua me.
       Era engraado, mas todos eles tinham outra pessoa agora... Sarah tinha Jean-Pierre, seu pai, Margaret, e at Benjamin tinha a jovem que ia lhe dar um filho. 
E Oliver estava sozinho,  espera que algum entrasse em sua vida para torn-la completa outra vez. Imaginou se isso ia acontecer algum dia. - Papai? - Era Mel, 
falando baixinho, no escuro. - Voc est a?
       - Estou na piscina. O que h?
       - Eu s queria saber se voc estava bem.  Aproximou-se e sentou-se ao lado dele.
       - Estou bem, minha querida. - Tocou os longos cabelos louros e sorriu. Mel era um amor, e tudo estava bem entre eles agora. Ela parecia ter crescido muito 
depois da mudana para Nova York e havia se aproximado mais dele. Mais do que de Sarah. - Foi muito bom hoje, no foi?
       - Foi sim. - E ento, como um eco dos pensamentos do pai: - O que voc acha da amiga do vov?
       - Margaret? Eu gosto dela.
       - Acha que vo se casar? - Mel parecia intrigada e Oliver sorriu.
       - Duvido. Ele amava demais sua av. Esse tipo de amor s se encontra uma vez na vida.
       - Eu estava s pensando. - E ento, com ar preocupado, perguntou: - Acha que a mame vai se casar com Jean-Pierre? Ele  moo demais para ela... - Mel jamais 
diria isso para a me.
       - Acho que no, meu bem. Acho que ela est s se divertindo.
       Melissa fez um gesto afirmativo e de alvio. - Meu Deus, a pobre Sandra no  horrvel?
       Oliver concordou, balanando a cabea. Era engraado os dois comentando os convidados, depois da festa, como faziam os casais. Isso aliviava sua solido.
       - Quando vejo Benjamin desperdiando a vida por ela, trabalhando como auxiliar de garom para sustent-la, fico louco de raiva.
       - O que eles vo fazer com o beb?
       - S Deus sabe. Acho que deviam dar para adoo, mas Benjamin insiste em ficar com ele. E depois, o que vai acontecer? De jeito nenhum vou permitir que se 
casem.
       - Acho que ele no quer se casar. S est tentando ser bom para ela. Mas parece bastante aborrecido, quando esto juntos. E Sandra est sempre olhando para 
os outros homens. Para mim, ela no sabe o que quer. Meu Deus, papai... imagine ter dezessete anos e estar esperando um filho!
       - Lembre-se disso, minha querida, se alguma vez sentir o chamado da natureza! - Sacudiu o dedo em riste, e Mel riu, corando, no escuro.
       - No se preocupe. No sou to boba.
       Oliver no sabia ao certo o que ela queria dizer. Se nunca ia fazer aquilo ou se teria cuidado. Anotou mentalmente que precisava pedir a Daphne para ter uma 
conversa com Melissa, antes de ela ir para a Frana, naquele vero.
       - Sam est dormindo?
       - Dormiu assim que chegou na cama.
       - Acho melhor fazermos o mesmo. - Oliver levantou-se, espreguiou-se e os dois entraram em casa, de mos dadas. Depois do belo dia, quente e ensolarado, a 
noite estava fresca. Exatamente como Oliver gostava.
       Beijou a filha na porta do quarto dela e depois, acordado na cama, recordou tudo que havia acontecido naquele ltimo ano. Ele estava mudado, todos estavam. 
Havia um ano, no quatro de julho, tudo fora diferente. Sarah em casa, sua me... Benjamin parecia uma criana. Todos tinham crescido naquele ano, ou pelo menos alguns 
deles. Tinha dvidas quanto a Sarah. Ela parecia estar ainda  procura de alguma coisa, no escuro. Mas Oliver estava finalmente com os ps no cho. Quase dormindo, 
pensou outra vez no pai e em Margaret Porter.
       
Captulo 14
       
       Em julho, Mel e Sam partiram para a Europa com Sarah e Jean-Pierre, e Oliver voltou para o apartamento em Nova York. No fazia sentido voltar para Purchase 
todas as noites, agora. Era mais fcil ficar no escritrio at mais tarde e voltar para a rua 84. Ele e Daphne passavam muito tempo trabalhando juntos, e s segundas 
e sextas-feiras iam comer espaguete. Nos outros dias da semana ela passava as noites com o amigo e uma vez ou outra falava sobre ele com Oliver.
       - Por que faz isso com sua vida? - perguntou ele mais uma vez. - Na sua idade, devia se casar com algum que pudesse lhe dar mais do que trs noites por semana. 
Voc merece isso.
       Ela sempre dava de ombros e ria. Sentia-se feliz assim. Ele era um homem maravilhoso e tudo que ela queria. Era inteligente, bom e generoso e ela o amava. 
Alm disso, o casamento sem filhos no parecia importante.
       - Vai se arrepender algum dia.
       Mas Daphne no concordava. Estava muito bem assim, embora sentisse falta dele, quando no estavam juntos. - Acho que no, Ollie.
       Ele falava do quanto se sentia sozinho, sem os filhos. Queria ter algum com quem conversar  noite e o companheirismo que tivera durante quase vinte anos, 
com Sarah.
       Agora s ia a Purchase para visitar Benjamin e o pai. Sandra parecia crescer de hora em hora, e Oliver notou que Benjamin estava plido, pela primeira vez 
na vida. No tomava mais sol. Vivia trabalhando. Agora tinha dois empregos. Um no posto de gasolina e o outro,  noite, como auxiliar de garom. Queria economizar 
o suficiente para o parto, pagar o apartamento e dar ao beb tudo que fosse preciso. Oliver se ofereceu para ajudar, mas Benjamin recusou.
       - Agora  minha responsabilidade, papai, no sua. - Isso  ridculo. Voc  uma criana. Devia estar na escola, com tudo pago, instruindo-se.
       Mas Benjamin estava aprendendo outras coisas. Como era dura a vida para um homem de 18 anos com uma famlia para sustentar, sem ter sequer terminado o ginsio. 
Sandra no podia mais trabalhar. Seus tornozelos estavam inchados como dois meles, e o mdico temia uma eclampsia. Benjamin ia para casa no meio do dia para preparar 
o almoo, enquanto ela ficava deitada no sof, vendo televiso e reclamando que quase no o via mais. Benjamin chegava em casa,  noite, o mais cedo possvel, mas 
em geral trabalhava at as duas da manh. S de pensar nisso, Oliver ficava possesso. Queria dar algum dinheiro ao filho, para aliviar um pouco a situao, e finalmente 
descobriu um meio. Passou a dar a Sandra que aceitava alegremente. Insistia para que o visitassem em casa, nem que fosse s para usar a piscina, mas Sandra no queria 
ir alugar nenhum, e Benjamin no tinha tempo. Estava muito ocupado trabalhando.
       Em muitas coisas, ele era como a me, pensou Oliver, certo dia, depois de entregar a Sandra um cheque de quinhentos dlares para comprar o que fosse preciso 
para o beb. Sarah no aceitou nem um centavo dele depois que saiu de casa. Estava vivendo com o dinheiro deixado pela av e dizia que no achava direito Oliver 
sustent-la. 
       As coisas no eram fceis para ela, e muitas vezes as crianas falavam sobre o que no podiam fazer quando estavam em Boston porque "mame no podia pagar". 
Mas esse era o tipo de vida que Sarah sempre desejara. O que tinha, com Oliver, durante todos aqueles anos, no a interessava mais. Deu montanhas de roupas para 
Mel e o resto deixou em Purchase. Usava sempre jeans, camiseta e sandlias. Ela e Jean-Pierre orgulhavam-se em dizer que estavam viajando pela Europa com pouco dinheiro. 
       Oliver havia recebido vrios cartes-postais dos filhos, mas eles nunca telefonavam e no podia saber exatamente onde estavam. s vezes isso o deixava nervoso, 
mas Sarah havia dito que iam ficar com parentes de Jean-Pierre, na Frana, e em albergues para jovens, nos outros pases. Seria uma nova experincia para Mel e Sam, 
e sem dvida muito proveitosa. Oliver sabia que Sarah ia tomar conta deles. Afinal, era a me dos dois, e ele sempre confiara nela. Mas agora, com os trs ausentes, 
era incrvel a falta que sentia dos filhos. Quando voltava,  noite, para o apartamento vazio, o que sentia era quase uma dor fsica. Deu frias para Aggie por todo 
o resto do vero e contratou um servio de limpeza que fazia a faxina no apartamento uma vez por semana. A casa em Purchase estava fechada, e Andy ficara com seu 
pai. Era uma companhia para ele. Certo domingo, Oliver foi de trem visitar George e encontrou-o cuidando carinhosamente do jardim de Phyllis. George detestava jardinagem, 
mas agora era importante conservar as rosas que ela tanto amava.
       - Voc est bem, papai?
       - Muito bem. Tudo est muito quieto por aqui, especialmente sem voc e as crianas. Uma vez ou outra, Margaret e eu jantamos fora, mas tenho sempre muito 
que fazer, cuidando dos bens da sua me.
       O inventrio para registro do esplio tomava quase todo o tempo dele e estava tratando tambm de transferir algumas aes para os filhos de Oliver.
       Oliver passou a tarde com ele e voltou de trem para Nova York, triste e pensativo. Seu carro estava na oficina, e era estranho voltar para casa de trem. Sentou-se 
no carro-salo para ler, e s muitas paradas depois o lugar ao seu lado foi ocupado por uma jovem, de cabelos longos e escuros e a pele bastante bronzeada de sol.
       - Desculpe - disse ela, quando sua bolsa bateu no brao de Oliver.
       Ela carregava um equipamento completo para frias, e uma raquete de tnis, com o cabo dentro de uma sacola, ficou batendo na perna de Oliver, at ela perceber.
       - Desculpe toda esta tralha.
       Oliver tranqilizou-a com um gesto e voltou ao seu livro.
       Ela tirou da bolsa o que parecia um manuscrito e comeou a fazer anotaes. Mais uma vez Oliver percebeu que ela o observava. Finalmente, ele ergueu os olhos 
e sorriu. 
       Viu ento que era uma mulher muito atraente. Olhos azuis e uma constelao de sardas no rosto que no demonstrava mais de 25 anos. O cabelo estava penteado 
para trs, e ela no usava maquiagem.
       - Est gostando do livro? - perguntou ela, quando o trem parou numa estao.
       - No  ruim. - Era o sucesso da temporada, e Oliver estava gostando, embora raramente lesse fico. Fora presente de Daphne, e ela garantiu que Oliver ia 
gostar. 
       - Est trabalhando num manuscrito? - perguntou, curioso.
       Ela riu, balanando a cabea, e por um momento pareceu mais velha. Na verdade tinha trinta anos, mas a aparncia geral o fazia lembrar as amigas de Mel. Sua 
voz era suave e agradvel e os olhos inteligentes. Explicou o que estava lendo e por qu.
       - Sou editora, e publicamos o livro que voc est lendo. Por isso perguntei se estava gostando. Voc mora aqui. Parecia extrovertida, franca e natural. Oliver 
notou os braos e ombros muito bonitos.
       - Eu morei no campo. Agora estou na cidade. A maior parte do tempo, pelo menos.
       Ah, pensou ela, um pai de fins de semana. - Visitando seus filhos?
       Oliver balanou a cabea, achando graa nas perguntas diretas que ela fazia.
       - No, meu pai.
       - Eu tambm. - Ela sorriu. - A mulher dele acaba de ter um beb. - Explicou ento que o pai tinha 63 anos e era casado pela terceira vez. Sua me tinha se 
casado tambm e morava em Londres.
       - Parece uma famlia interessante.
       - Somos mesmo. - Deu um largo sorriso. - A mulher dele  quatro anos mais moa do que eu. Papai nunca foi homem de perder tempo.
       No disse que a me era casada com lorde Bronson e que o casal era famoso em toda a Europa, com seus castelos, casas de campo e festas sofisticadas. Para 
fugir de tudo isso, ela foi trabalhar em Nova York, como fazia o resto do mundo. No gostava muito da vida no jet-set.
       - E voc, faz o qu?
       Oliver riu. Era uma mulher engraada. Engraada e franca, simptica e muito atraente.
       - Trabalho em publicidade.
       Ela gostaria de saber se era casado, mas no perguntou. - Meu pai tambm. - Isso, aparentemente, a divertia. - Robert Towsend, talvez voc conhea.
       Ento ela era filha de Towsend, um dos homens mais importantes em publicidade.
       - J o encontrei. No posso dizer que o conheo. - Ento, resolveu se apresentar. - Oliver Watson.
       Trocaram um aperto de mos, o dela firme e decidido. - Megan Towsend.
       Ela guardou o manuscrito e conversaram durante o resto da viagem. Oliver gostou da companhia, e quando chegaram na Estao Grande Central ofereceu-lhe uma 
carona.
       Megan morava na Park com a Rua 69, a 15 quarteires do apartamento de Oliver. Depois de deix-la na porta do prdio, Oliver dispensou o txi e foi a p para 
casa. 
       Era uma noite quente, e ele gostava de Nova York no vero. A cidade estava quase deserta, a no ser por aqueles que realmente a amavam, os que no estavam 
de frias, como Oliver e alguns turistas.
       Quando entrou em casa, o telefone estava tocando. Deve ser Daphne, pensou. Ningum telefonava, agora que as crianas no estavam, a no ser o pai, uma vez 
ou outra. 
       Mas, quando atendeu, ouviu a voz da mulher que acabava de deixar em casa, Megan Towsend.
       - Oi, tive uma idia. Quer vir tomar um drinque e comer uma salada? No sou grande cozinheira, mas me arranjo. Eu pensei... - De repente, sentiu-se insegura. 
E se ele fosse casado? Homens daquela idade, em geral, eram. Mas se ela estivesse batendo na porta errada, sem dvida ele ia dizer. Parecia um homem sincero.
       - Seria timo. - Era uma experincia nova para ele, ser paquerado e convidado para um jantar de domingo. Nem tinha pensado em pedir o telefone dela. Daphne 
tinha razo, estava extremamente destreinado. - Quer que eu leve alguma coisa?
       - No, tenho tudo. Que tal oito horas?
       - timo. Foi muito bom voc ter telefonado.
       - Acho que no fiz a coisa certa - disse ela, rindo, perfeitamente  vontade com o que acabava de fazer, e Oliver imaginou se fazia sempre isso -, mas a vida 
 muito curta. Gostei de conversar com voc, no trem.
       - Eu tambm gostei da sua companhia.
       Ento ela resolveu perguntar, antes de perder muito tempo. Homens casados no eram seu forte, a no ser para um jantar uma vez ou outra.
       - A propsito, voc  casado?
       - Eu... - Oliver hesitou. Era casado, mas no de um modo que seu casamento importasse agora. Resolveu dizer a verdade. - Sou... mas estamos separados h sete 
meses. 
       Resposta satisfatria.
       - Quando o vi, hoje, achei que tinha ido visitar seus filhos.
       - Eles esto passando o vero na Europa. Dois deles, pelo menos. O outro est trabalhando em Port Chester. Mas no disse que Benjamin tinha 18 anos e havia 
deixado a escola para morar com uma moa enquanto esperavam o nascimento do seu primeiro filho.
       - Ento, s oito.
       Ela desligou, com um sorriso satisfeito. Meia hora depois, Oliver caminhava pela Park Avenue, tambm sorrindo satisfeito.
       O apartamento dela era de cobertura e tinha um bonito jardinzinho. o prdio era pequeno e exclusivo, e Oliver sups - corretamente - que pertencia a ela. 
Megan no era exatamente o tipo comum da mulher que trabalha, e ele sabia que Robert Towsend no era apenas uma figura importante no mundo da publicidade, mas pertencia 
tambm a uma famlia proeminente de Boston. Tudo isso estava claramente estampado em Megan, dos cabelos aos sapatos, na voz educada, na camisa cara de seda branca 
que ela estava usando com cala jeans. O cabelo estava solto, e Oliver gostou do modo como ele descia pelas costas e sobre os ombros. Megan era uma mulher muito 
bonita e de muita presena. Estava maquilada agora e levou-o para a sala de estar, toda em cromo e branco, com cho de mrmore branco e dois tapetes pele de zebra 
sob a enorme mesa de vidro. Uma parede espelhada refletia a vista, e a mesinha de vidro, na pequena sala de jantar, estava arrumada para dois. Mesmo de cala jeans 
e a camisa simples, de seda, envolvia-a uma aura de sofisticao.
       - Grande lugar este! - Oliver encantou-se com a vista Foram para o terrao e ela serviu-lhe gim-tnica.
       -  o nico luxo extra que me permito.
       Seu pai havia se oferecido para comprar uma casa de dois andares na cidade quando ela completou trinta anos, mas Megan no aceitou. O apartamento tinha todo 
o espao necessrio, e ela gostava dele. Oliver, naturalmente, compreendeu por qu.
       - Passo grande parte do meu tempo aqui. Quase todos os fins de semana trabalho em casa, lendo manuscritos - disse ela, rindo.
       - Posso imaginar destinos piores. - Oliver sorriu, disposto a fazer o jogo dela. Queria saber muita coisa sobre Megan Towsend. - Voc  casada? Divorciada? 
Tem doze filhos? - Mas esta ltima suposio parecia pouco provvel. Tudo nela indicava uma pessoa solteira e sem maiores responsabilidades.
       - Nunca me casei. No tenho filhos. Nem gatos, ces ou passarinhos. E no momento nenhum amante casado. Eles riram, e ento Oliver disse, em tom de zombaria: 
- Acho que isso me deixa fora da competio. Sentaram-se nas espreguiadeiras Brown Jordan, na varanda, e ela perguntou:
       - Voc vai voltar para sua mulher? 
       - No, no vou.
       Seus olhos se encontraram, e ele no disse que at bem pouco tempo gostaria de poder voltar.
       - Nossas vidas seguiram rumos diferentes. Ela agora est fazendo o mestrado em Harvard e preparando-se para ser escritora.
       - Isso parece admirvel.
       - Na verdade, no . - Havia ainda um vestgio de amargura em sua voz, quando falava de Sarah para estranhos. - Ela me abandonou e aos nossos trs filhos 
para chegar l. 
       - Parece que foi uma barra-pesada.
       - Foi.
       - E ainda ? - Megan percebia as coisas com rapidez e estava realmente interessada em conhec-lo.
       - s vezes. Mas muito menos ultimamente. No se pode viver de raiva para sempre - sorriu tristemente - como tentei fazer durante muito tempo. Ela insistia 
em dizer que ia voltar, mas acho que tudo isso j passou. E meus filhos esto se adaptando... e eu tambm... - Deu uma risada. - Porm, devo confessar que este  
o primeiro encontro que tenho com uma mulher nos ltimos vinte anos. Com certeza vai notar que estou um pouco enferrujado.
       - No saiu com ningum, desde que ela se foi? - Megan estava impressionada. A mulher dele devia ser muito especial. Ela jamais havia passado mais de um ms 
sem um homem e no queria passar. Seu ltimo caso tinha terminado havia trs semanas, depois de seis meses muito agradveis, durante os quais ele ia diariamente 
da sua casa na cidade para a cobertura dela e vice-versa. Megan freqentava um ambiente sofisticado, mas Oliver a intrigava, com seu rosto bonito, seu encanto e 
algo parecia dizer que ele estava muito s.
       - Est falando srio?
       Ento, Oliver lembrou-se da mulher que gostava de luta livre e riu.
       - No, eu menti... h alguns meses sa com uma mulher e foi um desastre. Quase me curou completamente.
       - Meu Deus, Oliver. - Ela riu e ps o copo de gim-tnica na mesa. - Voc  praticamente virgem.
       - Sim, acho que pode dizer isso. - Oliver riu, imaginando se dessa vez tinha passado da conta. Havia sete meses que no fazia amor e de repente surpreendeu-se 
perguntando o que aconteceria se tentasse. Talvez nada. Durante sete meses ele s havia desejado Sarah. E antes disso tinha dormido s com ela por vinte anos seguidos. 
Nunca enganou Sarah, e aquela mulher parecia do tipo que conseguia qualquer homem que desejasse. De repente, o garoto que havia nele pensou em fugir para casa o 
mais depressa possvel e quando se levantou para admirar a vista, mais uma vez, sentiu-se como se fosse Sam. Ela entrou para preparar a salada prometida.
       - Quero avisar que no sei cozinhar. Salada Cesar e caparccio so os limites das minhas habilidades culinrias. Fora isso,  s pizza e comida chinesa para 
viagem.
       - Mal posso esperar. Gosto de tudo isso. - E gostava dela tambm, embora Megan o assustasse um pouco. Enquanto jantavam, falaram sobre suas profisses, e 
ele comeou a se sentir mais  vontade outra vez. Finalmente, ela perguntou sobre seus filhos, e Oliver tentou descrev-los. - Ficaram muito abalados com a partida 
da me, eu tambm. Mas acho que esto se recuperando agora. - Todos, menos Benjamin e seu desastre com Sandra.
       - E voc? Como se sente agora?
       Depois do bom vinho branco francs, estavam mais  vontade. Era mais fcil conversar agora, e eles continuaram a falar sobre suas vidas.
       - No sei. J no penso tanto. Procuro me manter ocupado, no trabalho e com as crianas. H algum tempo no paro para pensar no que estou sentindo. Talvez 
seja um bom sinal.
       - Ainda sente falta dela?
       -  claro. Mas, depois de vinte e dois anos, eu seria louco se no sentisse. Fomos casados por dezoito anos e namoramos dois anos antes disso.  um longo 
tempo na vida de qualquer pessoa. No meu caso  a metade da minha vida.
       - Voc tem quarenta e quatro anos? - Ela sorriu, e Oliver fez um gesto afirmativo. - Eu calculei uns trinta e nove. - Eu pensei que voc tivesse vinte e cinco.
       - Tenho trinta. Os dois riram.
       - E que tal ter trinta anos?  to apavorante quanto dizem? Sarah detestou fazer trinta anos, como se toda sua vida j tivesse passado. Mas no foi nada comparado 
com os trinta e nove... e quarenta... e quarenta e um... Acho que foi a causa de tudo. Entrou em pnico, pensando que no ia fazer nada de importante antes de ficar 
velha demais, por isso fugiu. O pior de tudo  que ela j havia realizado muita coisa, pelo menos na minha opinio, mas Sarah no queria reconhecer. - Acho que no 
entendo muito dessas coisas, talvez porque nunca me casei e nunca me senti presa por causa de filhos. Sempre fiz exatamente o que quero. Pode-se dizer que fui completamente 
mimada e estragada. - Ela falou com um sorriso satisfeito.
       Oliver, olhando para a sala luxuosa e sofisticada, concordou, rindo tambm.
       - O que  importante para voc? Quero dizer, com o que voc se importa de verdade?
       Megan quase disse "comigo mesma", mas resolveu no ser to franca.
       - Meu trabalho, eu acho. Minha liberdade. Ser dona da minha vida para fazer tudo que quero. No sei compartilhar, e no me preocupo em corresponder s expectativas 
dos outros a meu respeito. Ns todos jogamos seguindo nossas prprias regras, e tenho as minhas. No sei por que algum tem de fazer alguma coisa, casar, ter filhos, 
conformar-se com certas regras. Fao tudo a meu modo e gosto disso.
       - Voc  mimada - disse ele, com ar despreocupado, mas naquele momento no estava muito interessado nisso. 
       - Minha me sempre me disse para no obedecer s normas de ningum e eu segui o conselho. Sempre consigo ver muito alm. s vezes isso  uma fora, outras 
vezes uma fraqueza terrvel. E outras vezes ainda  uma desvantagem, pois no consigo compreender por que as pessoas complicam tanto a vida. Voc tem de fazer o 
que voc quer, s isso importa. 
       - E se magoar as pessoas no processo?
       Ela estava andando sobre um terreno muito delicado, mas era inteligente e sabia disso.
       - s vezes  o preo que temos de pagar. Precisamos viver com isso, mas temos de viver com nossa prpria pessoa tambm e isso s vezes  mais importante.
       - Acho que Sarah pensou assim. Mas eu no concordo. s vezes devemos mais a outras pessoas do que a ns mesmos e precisamos ter fora suficiente para fazer 
o que  certo para elas, mesmo que nos custe muito.
       Era a diferena bsica entre ele e Sarah e possivelmente a diferena entre ele e Megan.
       - A nica pessoa a quem devo alguma coisa  a mim mesma e para mim isso est timo. Por isso no tenho filhos e no sinto vontade de me casar, embora esteja 
com trinta anos. Acho que  disso que estamos falando. De certo modo, concordo com voc. Se voc tem filhos, deve muito a eles, e no apenas a voc mesmo. Se no 
quer reconhecer isso e agir de acordo, no deve t-los. No quero toda essa responsabilidade. Mas sua mulher teve filhos. Acho que o erro bsico que ela cometeu 
foi casar e ter filhos.
       Ela era inteligente e tinha acertado em cheio quando definiu a filosofia de Sarah, pensou Oliver, atnito.
       - A culpa foi minha, eu acho. Eu a convenci a fazer tudo isso. E ento... vinte anos depois, ela voltou a ser o que era antes de nos conhecermos... e fugiu...
       - No pode se culpar por isso. Foi responsabilidade dela tambm. Voc no a obrigou a se casar apontando uma arma para ela. Estava fazendo o que voc acreditava 
ser certo, pa ra voc. No podemos ser responsveis pelo comportamento de outras pessoas. - Megan era uma mulher totalmente independente, sem nenhum elo emocional, 
mas pelo menos era sincera a esse respeito.
       - O que a sua famlia acha do seu modo de vida? - Oliver queria realmente saber.
       Megan ficou pensativa por um momento.
       - Oh, acho que no gostam. Mas j desistiram de mim. Meu pai est sempre casando e descasando e tendo filhos. Teve dois com minha me, quatro com a segunda 
mulher e acaba de ter o stimo. Minha me s se casa, mas se esquece de ter filhos, o que  uma felicidade, porque na verdade ela no os quer. Minha irm e eu passamos 
grande parte da nossa vida em colgios internos muito caros, desde os sete anos. Eles nos teriam mandado antes, mas as escolas no aceitavam.
       - Isso  horrvel. - Oliver no podia nem imaginar mandar os filhos para longe. Aos sete anos, Sam era quase um beb. - No teve um efeito negativo? - Mas, 
nem bem acabou de falar, compreendeu que era uma pergunta tola. Evidentemente por isso Megan no tinha nenhuma ligao emocional com coisas nem pessoas.
       - Acho que sim. No sou muito boa para fazer o que os ingleses chamam de "ligaes duradouras". As pessoas vm e vo. Sempre foi assim na minha vida, e estou 
acostumada... com poucas excees. - De repente sua expresso mudou e ela comeou a tirar os pratos da mesa.
       - Voc e sua irm so amigas?
       Ela ficou imvel e olhou para ele com uma expresso estranha.
       - ramos. Muito amigas. Ela era a nica pessoa com quem sempre contei na vida. ramos gmeas idnticas, imagine s. Problema dobrado, pode-se dizer. S que 
ela era tudo que nunca fui. Boa, delicada, bem-comportada, decente, jogava sempre de acordo com as regras e acreditava em tudo que lhe diziam. Apaixonou-se por um 
homem casado quando tinha vinte e um anos. E cometeu suicdio quando ele no quis abandonar a mulher.
       Oliver viu nos olhos dela que tudo tinha mudado para Megan depois disso.
       - Uma coisa terrvel.
       - Sim. Nunca tive outra amiga como minha irm. Foi como perder metade de mim mesma. A melhor metade. Ela era tudo que  bom, todas as coisas boas que nunca 
fui e nunca serei.
       - Est sendo muito severa consigo mesma. - A suavidade da voz dele fazia aquilo mais doloroso para ela.
       - No, no estou. Estou sendo sincera. Se fosse comigo, eu teria matado o filho da me e a mulher dele tambm. No teria cometido suicdio. - E com um olhar 
angustiado, acrescentou: - A autpsia revelou que ela estava grvida de quatro meses. Ela no me contou. Eu estava na escola aqui e ela em Londres, com minha me. 
- Voltou para ele o rosto agora inexpressivo: - Quer caf?
       - Sim, por favor.
       Uma histria espantosa. Era incrvel pensar nas coisas que aconteciam s pessoas, as tragdias, a dor, os milagres, os momentos que mudavam uma vida para 
sempre. 
       Provavelmente Megan era muito diferente antes da morte da irm, mas Oliver jamais saberia.
       Foram os dois para a cozinha, e ela ergueu os olhos para ele com um sorriso.
       - Voc  um homem bom, Oliver Watson. No costumo contar a histria da minha vida, pelo menos no logo que conheo uma pessoa.
       - Fico muito honrado com isso. Explicava muita coisa sobre ela.
       Voltaram para o terrao para tomar o caf feito na mquina de caf expresso e Megan sentou-se bem perto dele. Oliver sentiu que no estava ainda preparado 
para dar o que ela queria. Era cedo demais para ele e ainda tinha medo de procurar uma mulher que no fosse Sarah.
       - Quer almoar comigo esta semana?
       - Eu gostaria muito - disse Megan, com um sorriso. Ele era to doce e inocente e ao mesmo tempo to forte, to correto e to bom. Tudo que ela sempre havia 
temido e nunca desejado. - Gostaria de passar a noite aqui, comigo?
       A pergunta direta pegou-o de surpresa. Oliver ps a xcara na mesa e olhou para ela com um sorriso que o fazia parecer muito bonito e jovem.
       - Se eu disser que no, vai compreender que no a estou rejeitando? No gosto de me precipitar. Voc merece mais do que isso. Ns dois merecemos.
       - No quero nada mais do que isso. - Estava sendo sincera com ele. Era uma das suas poucas virtudes.
       - Pois eu quero. E voc devia querer. Passamos a noite juntos, nos divertimos um pouco, nos separamos, e depois? O que recebemos com isso? Mesmo que passemos 
s uma noite juntos, ser melhor para ns dois se significar alguma coisa. - No d tanta importncia a tudo isso.
       - Seria mais simples se eu dissesse que no estou preparado ainda? Ou isso me faz parecer um perdedor?
       - Lembra-se do que eu disse, Oliver? Voc deve jogar de acordo com as suas regras. Essas so as suas. Eu tenho as minhas. Contento-me com o almoo, se meu 
oferecimento o deixa to chocado.
       Oliver riu, mais  vontade agora. Para ela, qualquer coisa parecia aceitvel. Megan era flexvel, pouco exigente e to sensual que parecia cretinice dele 
no aceitar a oferta ali e naquele momento, antes que ela mudasse de idia.
       - Telefono amanh. - Oliver levantou-se. Precisava ir agora, antes de fazer alguma coisa de que se arrependesse mais tarde. - Obrigado pelo maravilhoso jantar.
       - Sempre s ordens. - Ela o acompanhou at a porta e ergueu os olhos com uma expresso que poucos homens haviam visto. Embora tivesse dormido com muitos, 
poucos a conheciam.
       - Oliver... obrigada... por tudo...
       - No fiz nada alm de comer e falar e de sentir prazer com sua presena. No precisa me agradecer.
       - Obrigada por ser quem voc ... mesmo que nunca mais me procure.
       Estava acostumada com isso, quase sempre depois de uma noite de paixo desenfreada. Como tinha dito, as pessoas em sua vida iam e vinham. Mas se Oliver no 
a procurasse, ia sentir falta dele.
       - Vou telefonar.
       Oliver tomou-a nos braos e a beijou. Era a primeira vez que beijava uma mulher depois da partida de Sarah. Os lbios de Megan eram convidativos e mornos, 
e seu corpo forte e sedutor. Oliver desejou ardentemente fazer amor com ela, mas sabia que precisava ir. Queria pensar. Megan era uma mulher muito forte para ser 
tratada com leviandade.
       - Boa noite - murmurou ela.
       Ele entrou no elevador, sorriu, seus olhos se encontraram e as portas se fecharam. Megan ficou ali parada por um longo tempo, depois voltou com passos lentos 
para o aparta mento e fechou a porta. Sentou-se na varanda, pensando nele... e na irm, na qual havia anos ela no falava. E sem saber por que, nem por qual dos 
dois, ela comeou a chorar em silncio.
       
Captulo 15
       
       Na manh seguinte ele telefonou, como havia prometido, e a convidou para almoar no Four Seasons, naquele mesmo dia. Na noite anterior, Oliver, acordado na 
cama, durante muito tempo, pensou nela e censurou-se por no ter aceito seu oferecimento. Tinha recusado o que ela oferecia numa bandeja de prata. Sentiu-se como 
um idiota completo e tinha certeza de que Megan tambm pensava assim.
       Encontraram-se no Four Seasons ao meio-dia. Megan estava com um vestido vermelho de seda brilhante e sandlias pretas de salto alto. Oliver pensou que era 
a mulher mais sensual que j tinha visto em toda sua vida. Logo que se sentaram, ele disse que se sentia um tolo por ter fugido dela. A fonte, no meio do restaurante, 
espalhava no ar uma garoa fina e delicada. O restaurante estava cheio de pessoas do ramo de publicidade e das editoras. No era um lugar discreto para os dois, mas 
no tinham motivo nenhum para se esconder.
       Ela falou sobre o novo livro que pretendia publicar e ele sobre um dos seus novos clientes. s trs horas, olharam em volta e verificaram que estavam a ss 
no restaurante. 
       Megan riu, e Oliver ficou um pouco embaraado.
       - Que tal jantar amanh? - perguntou ele, quando saam.
       - Voc sabe cozinhar?
       - No. - Oliver riu. - Mas posso fingir. O que voc vai querer? Pizza? Comida chinesa? Sanduche de pastrami? Cheesburger do Hamburger Heaven?
       - E se eu comprar alguma coisa na minha delicatessen favorita? Podemos misturar tudo junto.
       - Seria timo. - Oliver gostou da idia, da implicao de intimidade e em especial da expectativa de estar com ela outra vez.
       - Voc gosta de moussaka? - Adoro.
       Mas estava mais interessado nela do que no jantar. Beijou-a no rosto antes de ela entrar no txi e voltou para o escritrio. - Cliente nova? - perguntou Daphne, 
s quatro horas, entrando no escritrio dele com algumas provas.
       - Quem?
       - Aquele avio com quem voc estava almoando. - Daphne sorriu satisfeita, do outro lado da mesa, e Oliver, corando, fingiu estudar as provas do comercial 
trazidas por ela. - O que voc est fazendo, me vigiando?
       - Ser que sinto cheiro de primavera no ar? Ou  s o perfume dela?
       - Trate de sua vida. Provavelmente  cheiro de inseticida. Encontrei uma barata debaixo da minha mesa, esta manh. - Uma boa histria. Nem as plantas de plstico 
conseguem respirar neste lugar, quanto mais uma bela e saudvel barata. Ela  linda. Quem ?
       - S uma mulher que conheci h poucos dias. - Isso  timo.  srio?
       Oliver a amou por aquele interesse fraterno.
       - Ainda no. Provavelmente nunca. Ela  uma dessas grandes mulheres independentes como a minha ex-mulher, acredita em carreiras e liberdade e em no se prender 
a ningum. - Era a primeira vez que chamava Sarah de "ex", o que sem dvida significava um passo na direo certa.
       - Para mim parece encrenca da grossa. Trate de aproveitar antes que ela faa seu corao em pedaos.
       - Estou chegando l. - Parabns.
       - Obrigado. Agora, se importa de voltarmos ao trabalho, ou prefere dar conselhos aos namorados?
       - No seja to sensvel.
       Mas naquela noite dispensaram o jantar e os dois trabalharam at tarde. Quando chegou em casa, Oliver telefonou para Megan. Ela no estava, e ele deixou recado 
na secretria eletrnica. Disse que estava telefonando s para dizer al e confirmou o encontro para a noite seguinte.
       Ela chegou com as compras e os dois foram para a cozinha.
       -  um bonito apartamento - disse ela, delicadamente. Mas nem se comparava ao dela e conservava ainda a impersonalidade de uma casa alheia. S os quartos 
das crianas tinham as marcas deles, mas Oliver no fizera nada no resto e, com a ausncia de Aggie, no havia nem flores. Oliver lembrou-se disso muito tarde, depois 
que chegou em casa e estava abrindo uma garrafa de vinho para o jantar.
       - Como foi o seu dia? - Nada mau. E o seu?
       Megan parecia calma e feliz. Estava com uma saia de seda branca, aberta do lado e uma blusa turquesa que acentuava o bronzeado da pele.
       Oliver descreveu o que havia feito durante o dia. Era agradvel ter algum para contar, enquanto comiam o moussaka na mesa da cozinha.
       - Voc deve se sentir muito s aqui, sem seus filhos. Oliver sorriu, pensando se era um convite para irem ao apartamento dela.
       - Sim, mas tenho trabalhado at tarde todas as noites. De repente, Oliver sentiu que no ia mais fazer isso durante algum tempo.
       Falaram sobre vrios assuntos: plo, beisebol, os pais dela e do quanto ela detestava os ingleses. Oliver sups que era por causa do homem que havia provocado 
o suicdio da irm. Megan tinha opinio formada sobre quase tudo. Quando estavam lavando os pratos, ele notou a abertura na saia dela e foi dominado por um desejo 
irresistvel.
       Sentaram-se na sala de estar, tomando vinho e conversando. De repente, sem que ele pudesse explicar como tinha acontecido, estavam se beijando, deitados no 
sof, e Oliver desejava desesperadamente fazer amor com ela. A saia de Megan estava erguida at a cintura. Acariciando a pele macia, Oliver notou que ela no usava 
nada sob a saia e gemeu de desejo. Seus dedos encontraram o que procuravam, e ela gemeu baixinho. O peso dos anos foi tirado dos ombros dele e Oliver era jovem outra 
vez, jovem e apaixonado e dominado pelo desejo. Megan tirou a saia, enquanto ele se encarregava da blusa e ali estava ela, nua e esplndida sob suas mos, bela de 
tirar o flego.
       - Meu Deus, Megan... meu Deus...
       E ento, tentadora e sensualmente, ela o despiu e fizeram amor, como Oliver jamais havia feito antes. Megan provocava sensaes que ele jamais tinha experimentado 
e um desejo to forte que ele a penetrou quase com violncia e se satisfez como um terremoto dentro dela. Depois continuou deitado em cima dela, sentindo o tremor 
do corpo sob o seu. Megan comeou a se mover outra vez, lentamente, e Oliver no podia acreditar que ela quisesse mais, mas ela guiou as mos dele, depois empurrou 
sua cabea para baixo e Oliver a acariciou com a lngua. Ela gemia, gritava e estremecia, e logo ele a penetrou de novo e ficaram fazendo amor durante horas e horas. 
       Megan o puxou para o cho e depois Oliver a levou para o quarto. Finalmente, quando estavam exaustos, com sua risada rouca e sensual, Megan o puxou para ela 
outra vez. - Meu Deus, mulher, voc vai me matar.
       - Mas que modo maravilhoso de morrer!
       Eles riram e mais tarde Megan preparou um banho e fizeram amor na banheira. Foi uma noite inesquecvel para os dois, e quando o sol nasceu, estavam felizes, 
mergulhados no banho quente. Oliver jamais tinha conhecido ningum como Megan, completamente dominada pelo desejo e provocando o mesmo nele. Nunca pensou que fosse 
capaz de fazer o que fizera naquela noite, e era fantstico.
       - Sabe que fizemos amor durante dez horas seguidas? So sete da manh. - Oliver estava surpreso e satisfeito com o desempenho dos dois. Nem se comparava com 
o que fazia com Sarah, e ele sempre pensou que o que tinham era perfeito.
       - Depois de sete meses, no acha que voc merecia? - disse ela, sorrindo.
       - Eu no estava pensando nisso - respondeu Oliver, retribuindo o sorriso. - Acho que devemos tentar outra vez. Ele estava brincando, mas ela no. Megan sentou-se 
sobre ele na banheira e rolaram e saltaram como dois golfinhos dentro d'gua. Finalmente, Oliver a prendeu contra um dos lados da banheira e a penetrou, enquanto 
Megan gemia descontrolada, pedindo a ele para no parar e depois gritando, quando os dois explodiram dentro da gua morna.
       - Oh, Megan... o que voc me faz sentir!... - disse Oliver, com voz baixa e rouca, beijando-a no pescoo. Ela abriu os olhos e acariciou os cabelos louros 
de Oliver, despenteados. - Jamais conheci algum igual a voc.
       - Nunca me senti assim tambm. - Era a primeira vez que ela dizia isso, e estava sendo sincera. - Voc  notvel, Oliver.
       - Voc tambm  fantstica.
       Oliver vestiu-se com dificuldade e quando estavam prontos para sair ela comeou a acarici-lo e excit-lo.
       - No acredito... Megan... nunca vamos sair daqui. - Oliver comeava a pensar que no deviam sair.
       - Acho que devemos telefonar e dizer que estamos doentes - murmurou ela, puxando-o para o cho, mordiscando-lhe o pescoo, o rosto, provocando-o.
       Oliver a tomou outra vez com mpeto, com muito mais fora do que pensou ter ainda, depois de quase 12 horas fazendo amor com Megan Towsend.
       No fim, fizeram exatamente o que ela havia sugerido. Telefonaram para seus escritrios, disseram que estavam doentes e passaram o dia na cama e no cho, no 
sof e na banheira. Fizeram amor at encostados na parede da cozinha, quando, finalmente, resolveram esquentar o moussaka da vspera. Estavam dominados por uma espcie 
de loucura e naquela noite, na cama, ele a abraou, enquanto Megan punha em sua boca biscoitos de chocolate.
       - Acha que devemos chamar um mdico? - perguntou ele, feliz. - Talvez seja uma doena... ou fomos drogados...
       - Talvez sejam os biscoitos de chocolate. - Ummm... timo... quero mais.
       Era difcil imaginar viverem separados, ou vestidos. E ento ele se lembrou de uma coisa que devia ter perguntado na vspera: se ela no tinha medo de engravidar.
       - Nada disso - riu ela, tranqila. - Liguei as trompas h nove anos.
       - Com vinte e um anos? - Oliver ficou chocado e ento lembrou. Exatamente quando a irm morreu, grvida de quatro meses.
       - Eu sabia que nunca ia querer filhos e no ia deixar que algum babaca fizesse comigo o que fizeram com Priscilla. - E nunca se arrependeu? E se quiser filhos, 
algum dia? - No vou querer. Mas posso adotar. Porm, duvido que chegue a fazer isso. No quero esse tipo de problema. Por qu? Voc quer mais filhos?
       - Eu queria. Mas Sarah no. Ela tambm ligou as trompas quando Sam nasceu. Sempre senti que ela tivesse feito isso, mas Sarah no.
       - Voc gostaria de ter mais filhos, agora? - Megan no estava preocupada, apenas curiosa. No podia imaginar querer mais filhos, ou um filho, s para ter.
       - No tenho certeza.  um pouco tarde agora. Mas acho que no me importaria se acontecesse.
       - Pois no conte comigo - disse ela, com um grande sorriso, recostando nos travesseiros.
       Ento, sentindo-se  vontade com ela, falou de Benjamin. - Meu filho de dezoito anos vai ser pai em setembro.  uma droga de confuso. Ele est trabalhando 
como ajudante de garom e sustentando a moa. Os dois deixaram o ginsio, quando ele podia ter ido para Harvard.
       - Talvez ele v, algum dia. - Mas Megan sentiu pena de Ollie. Era evidente que ele se preocupava demais com o filho. - Eles vo ficar com o beb?
       -  o que querem. J fiz o possvel para convenc-los do contrrio. Pelo menos no vo se casar, graas a Deus. - Oliver era grato a Sandra por sua persistncia 
contra o casamento.
       - Talvez eles abram os olhos quando carem na real. Bebs s so interessantes nos anncios de fraldas. O resto do tempo so uns monstrinhos.
       - E quantos bebs j conheceu, Srta. Towsend?
       - O menor nmero possvel, muito obrigada. - Ela girou o corpo, segurou o seu membro favorito e o acariciou com a ponta da lngua. - Pessoalmente, prefiro 
os papais...
       - Sorte minha. - Oliver sorriu, fechou os olhos e depois a puxou para ele e retribuiu a carcia.
       Mas naquela noite, finalmente, eles adormeceram exaustos logo depois da meia-noite. Oliver jamais esqueceria aquela maratona. O milagre de Megan Towsend.
       
Captulo 16
       
       O romance crepitou durante o ms mais quente do ano. Uma paixo trrida como aquele ms de agosto. Alternavam os encontros entre um apartamento e o outro, 
e chegaram a passar uma noite fazendo amor na varanda. Felizmente, estavam na cobertura.
       Oliver quase no tinha tempo para estar com Daphne, mas ela sabia o que estava acontecendo e sentia-se feliz por ele. Oliver tinha agora um olhar distante, 
vago e distrado, e ela esperava que, para seu bem, ele estivesse recuperando o tempo perdido.
       Certo dia foram a Purchase. Oliver deixou Megan na casa do pai, enquanto ia visitar Benjamin, e a apanhou na volta. Mas no foram at a casa dele. Oliver 
no queria ir l com Megan. Estava ainda repleta de lembranas de Sarah.
       Mas quase no pensava mais em Sarah. Estava obcecado com Megan, com o sexo, com o corpo dela. Naquela tarde de domingo, quando estavam os dois nus, no apartamento 
de Oliver, o telefone tocou. Provavelmente era Daphne, embora ela raramente ligasse para no incomod-los.
       Oliver atendeu, ouviu os estalidos caractersticos da ligao internacional e mais nada. O telefone tocou outra vez, e a telefonista internacional informou 
que era uma chamada de San Remo, a cobrar. Oliver no estava ouvindo nada e sorriu para Megan, nua, na sua frente. Por um momento foi invadido por uma grande tristeza, 
pensando nas mudanas que teriam de fazer quando os filhos voltassem, na semana seguinte.
       - Al? - Ouvia um som distante que parecia choro, mas sabia que era s esttica. - Al? - gritou ele e ento ouviu Mel, chorando e repetindo.
       - Papai... papai.
       - Melissa? Melissa! Fale comigo!
       O som quase desapareceu, depois voltou, com um mas um pouco mais claro.
       - O que foi? O que aconteceu? - ...um acidente...
       Oh, meu Deus!... no... no Sam... nem Sarah...
       - Meu bem, no estou ouvindo! Fale mais alto! - Oliver esperou, com os olhos cheios de lgrimas.
       Megan o observava, completamente esquecida por ele. Oliver s queria entender o que a filha estava dizendo.
       - ...um acidente... matou... mame... Meu Deus!... foi Sarah...
       Oliver ficou de p, como se isso pudesse melhorar a ligao, gritando ao telefone. Na Itlia era meia-noite.
       - O que aconteceu com sua me? - ...um carro... dirigindo... estamos Jean-Pierre...
       - Melissa, sua me est ferida?
       Megan, observando-o, compreendeu que ele ainda a amava. Mas, depois de vinte anos, quem podia culp-lo por isso? Sentiu-se paralisada de medo tambm, lembrando 
o telefonema - quase dez anos atrs - de sua me... Querida... oh, querida...  Priscilla...
       - Mame est bem...
       As lgrimas desceram pelo rosto de Oliver. - Sam? Como est Sam?
       - ...Sam quebrou o brao... papai, foi horrvel... - Ela comeou a chorar outra vez, e Oliver no conseguia entender nem uma palavra.
       Mas, se Sam estava vivo... ele estava vivo, no estava?... e Sarah... e Melissa estava ao telefone...
       - Um carro bateu no nosso... em cheio... o homem que estava dirigindo morreu... e duas crianas... e Jean-Pierre... em San Remo... Jean-Pierre morreu instantaneamente... 
oh, papai... foi horrvel...
       Meu Deus! Pobre homem... mas ao menos as crianas estavam vivas. Os seus filhos, no as outras duas. Era terrvel, egosta, mas Oliver dava graas a Deus.
       - Meu amor, voc est bem... est ferida? - ...estou bem...
       - Onde est sua me?
       - No hospital... mandou telefonar para voc... temos de voltar para a Frana para o enterro... Estaremos em casa na sexta-feira.
       - Mas voc est bem? Tem certeza? Mame est muito ferida?
       - ...um olho preto... muitos cortes... mas ela est bem... Era como se estivessem brincando de telgrafo, mas estavam todos vivos, mesmo machucados e Sam 
com o brao quebrado. E tinham visto o amante da me morrer, o outro homem e duas crianas. Oliver estremeceu.
       - Quer que eu v at a?
       - ... acho que no... vamos ficar... na casa dos pais de Jean-Pierre... voltamos esta noite... mame disse que voc tem o telefone.
       - Sim, tenho. Eu telefono. E, meu bem... - Oliver comeou a chorar, segurando o fone com a mo trmula - eu amo voc... diga a Sam que eu o amo tambm... 
e diga  sua me que sinto muito.
       Mel estava chorando outra vez. Finalmente, a ligao ficou pssima e tiveram de desligar. Profundamente chocado, Oliver olhou para Megan. Havia se esquecido 
completamente dela, enquanto falava com a filha.
       - Eles esto bem? - perguntou Megan, bela e nua, estendendo um copo de conhaque para ele.
       - Acho que sim. Uma ligao horrvel. Houve um acidente... vrias pessoas morreram, pelo que consegui entender. O amigo da minha mulher morreu na hora. Ele 
estava dirigindo. Em San Remo.
       - Meu Deus! Isso  terrvel. - Sentou-se ao lado dele e tomou um gole do conhaque que Oliver no havia tocado. - As crianas esto feridas?
       - Sam quebrou o brao. Acho que Melissa est bem. Sarah sofreu algumas contuses, mas acho que esto todos bem. Deve ter sido impressionante. - E ento, trmulo 
ainda, olhou para ela. - Quando Mel comeou a falar eu pensei... pensei que Sam... ou talvez at mesmo Sarah...  horrvel dizer isso, sabendo que outras pessoas 
morreram, mas estou feliz por no ter sido nenhum deles.
       - Eu sei - disse ela, abraando-o.
       Ficaram ali sentados por um longo tempo. Passaram a noite no apartamento de Oliver, para o caso de Melissa ligar outra vez e pela primeira vez, em trinta 
dias, no fizeram amor. Oliver s pensava nos filhos. E, lentamente, o choque os fez voltar  realidade. Aquele idlio ardente ia mudar quando as crianas voltassem 
para casa. 
       Ele no podia mais passar as noites fora e ela no podia ficar no apartamento dele. Teriam de ser mais discretos na frente das crianas. Por um lado, isso 
os fazia querer aproveitar o mximo enquanto podiam, mas, por outro, a idia do que logo ia acontecer j mudava tudo.
       Na tera-feira, ambos estavam nervosos e deprimidos. Passaram a noite toda fazendo amor e conversando, desejando que as coisas fossem diferentes.
       - Podemos nos casar, algum dia - disse ele, meio de brincadeira.
       - No seja tolo - disse Meg, com uma expresso zombeteira de horror. -  um tanto extremo, no acha?
       - Seria mesmo? - Oliver no conhecia ningum igual a ela e no momento estava completamente enfeitiado.
       - Seria para mim, Oliver. No posso me casar com ningum. No sou o tipo, e voc sabe disso.
       - Voc sabe requentar um moussaka muito bem. - Ento case com o cara da delicatessen.
       - No pode ser to engraadinho quanto voc, embora eu no o conhea.
       - Fale srio. O que eu ia fazer com um marido e trs filhos?
       Oliver fingiu pensar no assunto e depois deu uma risada. - Posso sugerir uma ou duas coisas...
       - Felizmente, no precisamos estar casados para isso.
       Fora um ms glorioso, mas ela estava falando como se tudo estivesse acabado.
       - No quero nada alm disto - disse ela. - Talvez queira, algum dia.
       - Nesse caso, voc ser o primeiro a saber. Eu prometo. - Fala srio?
       - Tanto quanto  possvel, tratando-se desse assunto. Como eu j disse, casamento no  para mim. E voc no precisa de outra mulher fugindo aos berros porta 
a fora. Precisa de uma mulher maravilhosa, inteligente e bonita que o ame desesperadamente, tome conta dos seus filhos e lhe d mais quatorze bebs.
       - Que idia. Acho que est me confundindo com seu pai.
       - No exatamente. Mas no sou o que o mdico recomendaria para voc. Sei o que sou, e em alguns dias est tudo bem, em outros no. De certo modo, provavelmente 
estou to perdida quanto sua ex-mulher e isso  exatamente o que voc no precisa na vida. Seja sincero.
       Oliver perguntou a si mesmo se ela no estaria certa, se acabava de encontrar uma verso mais nova e mais ousada de Sarah. Era uma idia deprimente, mas possvel.
       - O que acontece agora?
       - Aproveitamos o que temos, o maior tempo possvel e quando ficar muito complicado para um de ns, dizemos adeus com um beijo, um abrao e um "muito obrigado". 
- To simples, assim?
       - To simples assim.
       - No acredito. As pessoas apegam-se umas s outras. No acha que depois de um ms juntos o tempo todo, estamos unidos de algum modo?
       - Certo. Mas no confunda sexo com o verdadeiro amor. Os dois nem sempre andam juntos. Gosto de voc, o quero bem, talvez at o ame. Mas tudo vai ser diferente 
quando seus filhos voltarem. Talvez diferente demais para ns dois, e nesse caso teremos de aceitar e seguir nossas vidas. No podemos nos matar por coisas como 
essa. No vale a pena. - Megan falava descontrada, calma, exatamente como quando se conheceram no trem e quando o convidou para jantar.
       Enquanto fosse divertido, tudo bem, quando acabava o divertimento, adeus. Ela estava certa. Oliver dizia a si mesmo que estava se apaixonando. Mas talvez 
Megan tivesse razo nisso tambm. O que ele amava era seu corpo.
       - Voc pode estar certa. Eu no sei.
       Fizeram amor naquela noite, mas foi diferente. Na manh seguinte ela voltou para seu apartamento, levando todos os vestgios da sua presena na casa de Oliver. 
Os artigos de toalete, os comprimidos para dor de cabea, o perfume, presente de Oliver, os frisadores eltricos para o cabelo, o Tampax e os poucos vestidos que 
estavam no armrio. S de olhar para aquele espao vazio o fez sentir-se s outra vez, e Oliver lembrou-se da dor de quando perdera Sarah. Por que tudo tinha de 
acabar? Por que tudo mudava e seguia seu caminho? Oliver queria que tudo permanecesse inalterado, para sempre.
       Mas se convenceu de que aquele era o caminho certo quando viu os filhos descendo do avio, acompanhados por Sarah. A expresso de choque e de dor no rosto 
dela era algo que Oliver jamais vira antes. Era algo muito mais profundo do que qualquer coisa que ela podia ter sentido por ele. Sarah estava com olheiras profundas 
e um curativo no queixo que cobria 14 pontos. Sam, assustado ainda, no largava a mo da me. Um dos seus braos estava engessado at o ombro. Melissa comeou a 
chorar logo que viu o pai. Atirou-se nos braos dele, soluando, incoerente e logo depois Sam fez o mesmo, tentando abra-lo com um brao s.
       Ento Oliver olhou para a mulher que fora sua, e compreendeu com um choque o quanto ela havia amado o garoto morto em San Remo.
       - Sinto muito, Sarrie... sinto muito mesmo... - V-la assim to abatida era como perder uma parte dele mesmo. - Posso fazer alguma coisa?
       Dirigiram-se lentamente para a rea de bagagem. Sarah balanou a cabea, e Melissa falou sobre o enterro. Jean-Pierre era filho nico, e foi horrvel.
       Oliver procurou consol-los, depois olhou para Sarah. - Voc quer ficar na casa, em Purchase? Podemos ficar na cidade, at o feriado do Dia do Trabalho.
       Mas ela balanou a cabea, com um sorriso. Parecia mais calada, no mais velha, mais experiente.
       - Minhas aulas comeam na segunda-feira. Quero voltar. Tenho muito que fazer. - No contou que naquele vero tinha comeado a escrever seu livro. - Muito 
obrigada, assim mesmo. As crianas vo me visitar dentro de algumas semanas; e tudo vai ficar bem.
       Mas Sarah temia voltar para o apartamento em Cambridge, onde estavam as coisas de Jean-Pierre. De certo modo, podia compreender melhor o que Oliver havia 
sofrido.
       Era como se tivesse morrido um pouco. Amara Jean-Pierre como um filho e um amigo, um amante e um pai, dando a ele tudo que havia negado a Oliver nos ltimos 
anos, porque Jean-Pierre no exigia nada dela. Aprendeu com ele muita coisa sobre dar e amar... e morrer...
       Sarah tomou um avio para Boston, e Oliver e os filhos foram de txi para a cidade. Eles estavam quietos e abatidos. Oliver perguntou a Sam se estava sentindo 
dor no brao. J havia marcado hora no mdico para o dia seguinte, e o ortopedista garantira que haviam feito um bom trabalho em San Remo. Mel estava mais alta, 
mais loura e mais bonita, apesar do choque.
       Era to bom estar com eles outra vez! Oliver lembrou-se ento do quanto havia sentido a falta dos filhos. Pensou tambm na loucura do seu caso com Megan. 
Iam passar o fim de semana em Purchase, e ele convidou Megan para visit-los no domingo e conhecer seus filhos. Aggie ia voltar na segunda-feira. At l teriam de 
se arranjar sozinhos. Quando chegaram ao apartamento, Oliver fez ovos mexidos com torrada para todos. Aos poucos, Mel e Sam falaram sobre as frias. Tinham se divertido 
muito, at o acidente. Ouvindo-os, Oliver percebia o quanto Sarah estava longe dele agora. No tinha certeza de que ainda a amava.
       Sam adormeceu sentado  mesa da cozinha, e ele e Mel foram logo para a cama. Estavam exaustos, sob o efeito do fuso horrio.
       Oliver ajeitou Sam na cama, com o brao engessado sobre um travesseiro, como o mdico havia recomendado, depois foi ver Melissa. Ela estava olhando intrigada 
para um misterioso objeto que tinha na mo.
       - O que  isso?
       Era uma blusa de mulher, com o suti enrolado nela e quando Melissa a ergueu, Oliver sentiu o perfume de Megan. Tinham esquecido a noite em que ela fugiu 
para o quarto de Mel e ele a alcanou, quase rasgando-lhe a roupa, depois voltaram para o quarto dele e acabaram fazendo amor na banheira.
       - No sei... - Oliver no sabia o que dizer. No podia explicar aquele ltimo ms para a filha de 16 anos. - No  seu? - Melissa, na sua juventude, quase 
acreditou no ar inocente do pai.
       - No, no  - disse ela, com o tom acusador de uma esposa.
       Ento Oliver bateu com a mo na testa, sentindo-se como um idiota de comdia de televiso.
       - J sei de quem . Daphne ficou aqui no ltimo fim de semana, quando vim a Purchase. Estavam pintando o apartamento dela.
       Melissa ficou aliviada, Oliver a beijou no rosto e foi para seu quarto, como um condenado que acabava de receber o perdo.
       Mais tarde, naquela noite, telefonou para Megan e disse que sentia muito sua falta, que mal podia esperar at o domingo. No dia seguinte, os trs foram para 
Purchase. 
       Abriram a casa, que cheirava a mofo e umidade, ligaram o ar-condicionado, fizeram compras e depois do almoo foram apanhar Andy na casa de George. Oliver 
encontrou o pai muito bem-disposto, cuidando do jardim, mas dessa vez com a ajuda da vizinha, Margaret Porter. O cabelo dela estava com um corte diferente, e George 
vestia um blazer de linho azul-claro. Quando Oliver chegou com as crianas, os dois estavam rindo. Era bom ver o pai feliz outra vez, pensou Oliver, com alvio. 
Toda vez que o via agora, lembrava-se dele acariciando e beijando a mo da mulher morta e sentia o corao apertado. Mas nesse dia, depois de trs meses, George 
estava muito melhor.
       - Bem-vindos de volta! - disse George para os netos, e Margaret foi apanhar limonada e biscoitos feitos em casa. Era quase como antes, mas Sam disse que os 
biscoitos eram melhores. Margaret sorriu e defendeu a amiga morta.
       - Sua av era a melhor cozinheira que conheci. Fazia a melhor torta de limo com merengue do mundo.
       George sorriu, lembrando, e Oliver pensou na sua infncia.
       - O que voc andou fazendo, papai? - perguntou Oliver, quando os dois se sentaram na sombra de uma rvore. George no tinha piscina em casa. Ele sempre dizia 
que se quisesse nadar podia visitar os netos, em Purchase.
       - Estivemos muito ocupados. O jardim toma muito tempo. E fomos a Nova York, na semana passada. Margaret tinha uns negcios para tratar e fomos ao teatro, 
na Broadway. 
       Na verdade, foi muito bom - disse isso com ar de surpresa, olhando para Margaret, e Oliver surpreendeu-se tambm. Seu pai detestava o teatro. Ento, George 
olhou para Sam: - Como voc fez isso, meu filho?
       Sam contou tudo sobre o acidente, e Melissa ajudou nos detalhes. George e Margaret ficaram horrorizados e, como Oliver, agradecidos porque Melissa e Sam estavam 
vivos.
       - Isso nos faz pensar no quanto a vida  preciosa - disse George para os netos. - E como  curta. Seu amigo tinha s vinte e cinco anos. Uma pena... terrvel...
       Oliver viu o pai segurar a mo de Margaret e imaginou o que aquilo podia significar. Logo depois, ela levou Sam e Mel para dentro, para que bebessem mais 
limonada e comessem mais biscoitos.
       - Voc est com tima aparncia, papai - disse Oliver, imaginando se havia uma razo para isso e lembrando d sua aventura com Megan. Talvez o pai estivesse 
namorando a vizinha. No havia nenhum mal nisso. Eram ambos solitrios, com setenta anos e tinham direito a uma companhia amiga uma vez ou outra, e ele sabia quanto 
o pai sentia a falta de Phyllis.
       - Tenho passado muito bem, meu filho. Margaret sabe cuidar de mim. Ela foi enfermeira, voc sabe. E o marido era mdico.
       - Sim, eu me lembro.
       - Gostaramos que fosse jantar fora conosco um dia destes. Talvez na cidade. Margaret gosta de ir a Nova York uma vez ou outra. Ela diz que a mantm jovem. 
No sei se  por isso, mas a verdade  que ela tem muita energia para uma moa da sua idade.  uma moa formidvel.
       Oliver sorriu  idia de chamar de moa uma mulher de setenta e tantos anos, mas que importncia tinha isso? Ento ele quase caiu da cadeira quando o pai 
sorriu para ele com um olhar malicioso.
       - Vamos nos casar no prximo ms, Oliver. Sei que  difcil para voc compreender isso. Mas no somos jovens. No temos muito tempo. E no queremos desperdiar 
o que nos resta. Acho que sua me compreenderia.
       - Vocs vo fazer o qu? - Oliver olhou para o pai. - Mame morreu h trs meses, e voc vai se casar com a vizinha? - Ser que ele estava louco? Senil? O 
que estava acontecendo com ele? Como podia sequer pensar numa coisa daquelas? Era revoltante. - No pode estar falando srio. - Oliver estava furioso.
       - Estou falando srio. Tenho direito a mais alguma coisa do que ficar sentado sozinho, no acha? Ou ser que ofende voc pensar que pessoas da nossa idade 
possam estar "envolvi das", como vocs, os jovens, costumam dizer? Podamos ter um caso, mas acho que devo a ela a decncia de um casamento. - Voc deve  mame 
a decncia de respeitar sua memria. Ela nem esfriou no tmulo! - Oliver levantou-se e comeou a andar de um lado para o outro.
       George o observava calmamente, e Margaret fazia o mesmo da janela da cozinha, com ar preocupado. Tinha avisado a George que ia ser assim, e ele respondeu 
que tinham direito s suas prprias vidas. No estavam mortos ainda, mas logo estariam, e ele no queria desperdiar o tempo que lhe restava. E embora fosse diferente 
do que sentia por Phyllis, ele a amava.
       - Tenho o maior respeito por sua me, Oliver. Mas tambm tenho direito  minha vida. Como voc. E algum dia voc provavelmente vai se casar de novo tambm. 
No pode passar o resto da vida chorando por Sarah.
       - Muito obrigado pelo conselho. - Era incrvel. At algumas semanas atrs, ele estava vivendo em casto celibato, e seu pai estava tendo um caso com a vizinha. 
- Acho que voc deve pensar muito antes de fazer qualquer coisa.
       - J pensei. Vamos nos casar no dia 14 e gostaramos que voc viesse com as crianas, se quiser.
       - No venho coisa nenhuma. E quero que voc tome juzo.
       Nesse momento Margaret aproximou-se com o chapu de palha de George, um copo de refrigerante e o remdio que ele `;tomava para o corao, e Oliver notou o 
olhar carinhoso que eles trocaram.
       Mas continuou implacvel e rgido at o fim da visita. Fez as crianas entrarem apressadamente no carro, agradeceu com delicadeza a Margaret, e quando estavam 
na metade do caminho, perceberam que tinham esquecido Andy. Oliver telefonou para o pai e disse que apanharia o cachorro no prximo fim de semana.
       - Est bem. Ns gostamos de t-lo conosco. Desculpe se eu o aborreci, Oliver. Sei o que deve estar sentindo. Mas ' procure entender meu ponto de vista tambm. 
E ela  uma mulher maravilhosa.
       - Estou feliz por voc, papai - disse Oliver, com os dentes cerrados. - Mas ainda acho que est sendo precipitado. - Talvez. Porm, temos de fazer o que achamos 
que  certo. Na nossa idade, no temos muito tempo. No muito tempo aproveitvel, pelo menos. Nunca se sabe o que nos espera amanh.
       - Mais uma razo para no apressar as coisas.
       - Depende de como voc v o assunto. Diga isso quanto tiver a minha idade.
       Oliver desligou o telefone e de repente compreendeu que o revoltava a idia de o pai fazer amor com Margaret Porter. Disse isso a Megan naquela noite, por 
telefone.
       - No seja ridculo. Pensa que seu impulso sexual vai morrer antes de voc? Eu espero que no. Ele est certo e est agindo com inteligncia. Por que ficar 
sozinho? 
       Voc tem a sua vida, seus filhos tambm. Ele tem o direito de fazer mais do que passar o resto da vida sozinho, lembrando da sua me.  isso que voc quer 
que ele faa?
       No era, mas ao mesmo tempo se mostrava indeciso, e ficou aborrecido com o modo de Megan ver o problema. - Voc  to ruim quanto ele. Acho que vocs dois 
so insaciveis. - Contou ento como Mel havia encontrado a blusa, e Megan riu.
       - Lembro-me muito bem daquela noite - disse ela, em tom malicioso.
       - Eu tambm. Como sinto falta de voc. Praticamente estou com os sintomas de privao.
       - Amanh na piscina vamos pr isso em dia.
       Oliver estremeceu, s de pensar nisso, na frente dos filhos. Sim, as coisas iam ser diferentes agora.
       - Acho que temos de esperar at segunda-feira. - No conte com isso. Descobriremos um jeito. Oliver desligou, sorrindo, pensando se ela no estaria certa 
sobre seu pai. Mas no queria nem pensar nisso. Imagine o pai se casar naquela idade! S a idia j era revoltante.
       
Captulo 17
       
       Oliver foi apanhar Megan na estao. Ela vestia short e um pequeno busti branco com pintas pretas e tudo que ele queria era arrancar aquela roupa e fazer 
amor com ela no carro, mas se controlou. Megan percebeu, riu e comeou a acarici-lo, por cima da cala.
       - Pare com isso... Megan Towsend... est me deixando louco!
       - Meu caro,  exatamente isso que quero. - E ento, como quem muda a marcha, ela comeou a falar sobre o leilo de livros da sexta-feira...
       Os meninos estavam na piscina quando eles chegaram, o brao de Sam protegido por um grande saco de plstico. Mel estava deitada tomando sol com um biquni 
mnimo compra do no sul da Frana. Os dois ergueram os olhos, interessados, quando viram o pai se aproximando com Megan. Oliver apresentou todo mundo e levou Megan 
para dentro para trocar de roupa, e quando chegaram ao pequeno vestirio, ela o puxou para dentro e comeou a acarici-lo, at Oliver dizer com um gemido.
       - Megan... pare... as crianas... - Quieto... eles nem vo notar.
       Megan sentira tanta falta de Oliver quanto ele dela. Depois de um ms de orgasmo quase constante, tinham passado trs semanas sem nada. Num instante, ela 
trancou a porta, abaixou a cala dele e comeou a lamber, chupar e beijar, enquanto Oliver tirava o busti branco e com pintas pretas dela e o short. Como de hbito, 
Megan no tinha nada sob as duas peas. Ento ela ajoelhou, beijando-o e Oliver a fez deitar-se e fizeram amor freneticamente no cho. Quando Megan, estremecendo 
e gemendo, atingiu o orgasmo com um prazer animal, Oliver ouviu Sam chamando-o e procurando-o pela casa toda e, finalmente, batendo com fora na porta do vestirio. 
Oliver, apavorado, ergueu-se. Levou um dedo aos lbios pedindo a ela para se controlar. Megan ria baixinho.
       - Papai! Voc est a?
       O quarto era pequeno, e Oliver tinha certeza que Sam podia ouvir sua respirao. Balanou a cabea, para que Megan dissesse que ele no estava.
       - No, ele no est. Eu j vou sair. - Megan estava deitada no cho, com Oliver sobre ela, arregalado e apavorado. - Tudo bem. Voc sabe onde ele est?
       - No sei. Ele disse que ia apanhar alguma coisa. - Tudo bem.
       Ouviram Sam abrindo e fechando portas, e Oliver levantou-se de um salto, lavou o rosto com gua fria, vestiu a cala e passou os dedos no cabelo, enquanto 
Megan ria. - Eu disse que amos dar um jeito.
       - Megan, voc  louca! - murmurou Oliver, certo de que o filho sabia o que estava acontecendo, mas ela no estava assustada.
       - Fique calmo. Ele tem dez anos, no tem idia do que o pai anda fazendo.
       - No aposte nisso. - Ele a beijou rapidamente, enquanto Megan tirava o biquni da bolsa. - Vejo voc na piscina.
       Oliver esperava que Megan se comportasse, do contrrio Mel ia ficar escandalizada. Mas, pensando bem, ela havia passado o vero com a me e seu amante de 
25 anos. 
       Ele tinha direito  sua vida tambm, no tinha? E ento ouviu o eco da voz do pai... mas isto era diferente. Ou no era?
       Sam o esperava na cozinha. Queria uma Coca-Cola e no sabia onde estava.
       - Onde voc estava, papai?
       - Na garagem, procurando uma chave inglesa. - Para qu?
       Oh, meu Deus, deixe-me em paz, no sei... era to simples quando eles estavam longe e agora tudo parecia uma loucura.
       Deu a Coca-Cola para Sam e voltou para a piscina. Megan estava entrando vagarosamente na gua com um biquni vermelho minsculo. O cabelo longo e escuro estava 
preso no alto da cabea, e Mel a observava com expresso crtica.
       As duas no conversaram, e Oliver sentia-se como um enorme filhote de co, rodeando a piscina, observando as duas, prestando ateno em Sam e incrivelmente 
nervoso.
       - Gosto do seu biquni - disse Megan.
       Era cor-de-rosa e muito discreto, comparado com o de Megan, que no passava de dois pedacinhos de pano sobre os seios e uma tanga. Mas ficava bem nela. Megan 
tinha um corpo incrvel.
       - Comprei na Frana.
       - Voc se divertiu na viagem?
       - Foi boa. - Mel no queria mais falar sobre o acidente, e pensava que Megan no sabia de nada. Oliver dissera que ela era apenas uma amiga que ele no via 
havia tempos. - Chegamos h dois dias.
       Megan passou por ela nadando com braadas longas e perfeitas, e logo depois Mel deixou o colcho e saiu da gua para dar um mergulho espetacular. Era como 
se estivessem competindo, e a tenso durou a tarde toda, especialmente entre as duas mulheres.
       Almoaram cachorro-quente, e Megan comeou a falar sobre o tempo que tinha morado na Inglaterra, quando era pequena. Mas, evidentemente, Mel no estava interessada. 
       Megan no fez nenhum esforo para agrad-la, nem a Sam. Oliver os observava, tenso, e foi quase com alvio que a deixou na frente do seu prdio, naquela noite, 
na cidade. O olhar de Megan para Oliver valia por um beijo e quando ela desapareceu, Mel deu um suspiro de alvio, e Sam fungou com desprezo.
       - Ela  simptica, no ? - perguntou Oliver, arrependendo-se da pergunta antes mesmo de terminar a frase.
       Mel voltou-se para ele como uma cobra, furiosa. - Ela parece uma prostituta.
       - Melissa!
       - Voc viu aquele biquni?
       - Se vi! - disse Sam, com um largo sorriso, depois ficou srio vendo o olhar furioso da irm.
       - Ela  uma moa muito boa - defendeu Oliver.
       - Acho que ela no gosta muito de crianas - disse Sam. 
       - Por que diz isso?
       - No sei. - Ele deu de ombros. - Ela no falou muito, mas  uma beleza, no , papai?
       -  inteligente tambm. Trabalha numa grande editora. - E da? Ela s quer ficar exibindo aquele corpo. - Mel considerou Megan vulgar e a detestou, ao contrrio 
do pai e do irmo que no tiraram os olhos dela a tarde toda.
       Oliver no disse mais nada e naquela noite, depois que Sam foi se deitar, Mel saiu do quarto com a testa franzida. - Acho que voc pode dar isto a ela. - 
Entregou para o pai a blusa e o suti. - So dela, no so, papai?
       - Por que diz isso? - Era como se tivesse sido apanhado em flagrante, como se tivesse profanado seu lar, o que na verdade tinha acontecido. Mas era um homem 
adulto e tinha direito de fazer o que quisesse com sua vida, no tinha? - Eu disse que so de Daphne.
       - No so. Daphne tem muito mais busto do que isto. So de Megan.
       O tom de Mel era acusador e Oliver corou.
       - Escute Mel, certas coisas que os adultos fazem no interessam s crianas, e  melhor no falar nelas.
       - Ela  uma vagabunda. - Mel olhou para ele, furiosa, mas agora Oliver estava zangado tambm.
       - No diga isso! Voc nem a conhece.
       - Nem quero conhecer. E ela no d a mnima para ns. S est com a lngua de fora por voc, como um cachorro, ou coisa assim. Eu a detesto.
       Era estranho aquela rivalidade entre duas mulheres por causa dele, e Oliver perguntou a si mesmo por que Mel odiava Megan. Na verdade, ela no havia feito 
nada para ganhar a simpatia dos seus filhos. Falou quase s com ele e apenas ocasionalmente com Sam e Mel. Nada tinha sado como ele queria.
       - Ela  s uma amiga.
       Ouvir isso foi um alvio para Mel. -  verdade?
       - O qu?
       - Voc no est apaixonado por ela? 
       - No sei. Eu gosto dela.
       - Pois ela no gosta tanto de voc. Gosta muito mais dela mesma.
       Talvez Mel estivesse certa, pensou ele, e talvez com cimes, e era muito perspicaz.
       - No se preocupe com isso.
       Quando Mel saiu do seu quarto, Oliver pensou outra vez no pai. Estaria sendo um filho ciumento como Mel, ou estava certo opondo-se ao casamento com Margaret 
Porter? Que direito tinha de interferir? Estava disposto a fazer companhia ao pai todas as noites e nos fins de semana? Estaria l para lhe dar o remdio na hora 
certa? Oliver queria ter sua prpria vida, e o pai tinha o direito de tambm ser feliz, mesmo que isso fizesse Oliver sentir mais saudade da me. Resolveu telefonar 
para George, e Margaret atendeu. Oliver sobressaltou-se ouvindo a voz dela, mas logo se acalmou e pediu para falar com o pai.
       - Oi, papai... eu s queria dizer que... - No sabia como dizer. - Eu o amo muito, s isso. Faa o que for direito para voc e esquea o resto. J tem idade 
para saber o que quer e do que precisa. E se ela o faz feliz - seus olhos se encheram de lgrimas -, v em frente! Tem a minha bno. Ouviu um soluo abafado, e 
ento George Watson pigarreou e agradeceu.
       - Ela  uma boa mulher, meu filho... no como sua me, de modo algum. - Esperava que Margaret no o ouvisse, mas devia isso ao filho. Phyllis era a me dele. 
- Mas  uma boa pessoa, e eu a amo.
       - Boa sorte para vocs dois. 
       - Voc vem ao casamento? 
       - Pode apostar que sim.
       - Quatorze de setembro. No v esquecer.
       Oliver riu. O pai parecia jovem outra vez, e isso o fazia feliz. Que droga, ele tinha direito. Era maravilhoso para ele ter encontrado uma mulher que amava 
e com quem podia ser feliz.
       Telefonou depois para Megan, mas ela no estava. Com um aperto no corao, deixou recado na secretria e deitou-se na cama agora outra vez vazia. Imaginou 
se no fora tudo um sonho louco e se Mel tinha razo. Mas Megan nunca procurou parecer o que no era. Queria se divertir, sem magoar ningum. Nada mais do que isso... 
no queria nada que a prendesse... nem maridos... nem um lar... ou filhos... e Oliver, ali deitado, pensando nela, perguntava-se se seu romance de vero tinha chegado 
ao fim. Foi timo e no ia ser fcil agora. Megan no ia ficar esperando por ele. Alm disso, as crianas no gostavam dela. s vezes, a vida no era nem um pouco 
fcil.
       
Captulo 18
       
       O fim de semana do Dia do Trabalho foi uma agradvel volta a casa para todos eles. Fizeram um churrasco ao lado da piscina, como de costume, e as crianas 
convidaram os amigos, e George compareceu com Margaret'. Eles levaram doces e balas, po feito em casa e Andy tambm. Dessa vez Oliver deu os parabns aos dois e 
deixou que o pai comunicasse seu casamento aos netos. A princpio ficaram um tanto espantados, mas depois, vendo a atitude do pai, acharam que, se ele achava certo, 
estava tudo bem. Daphne tambm compareceu e concordou em passar com eles o fim de semana. S Megan no aceitou o convite. Ela foi para East Hampton. Oliver no gostou 
da idia, mas no conseguiu convenc-la do contrrio. Megan disse que no era exatamente seu ambiente, crianas, cachorros e churrascos e no queria interferir na 
vida deles. Mas na realidade tudo isso a aborrecia. No tinham se encontrado durante toda a semana, e Oliver estava ficando quase louco. Ela estava trabalhando at 
tarde, e ele tambm. As crianas estavam em casa, e ele esperava que se adaptassem outra vez, o que para ela no parecia importante.
       Benjamin e Sandra tambm estavam l e agora ela parecia simplesmente pattica. Seu rosto estava inchado, mal podia andar de to volumosa estava a sua barriga, 
e era difcil acreditar que fora bonita algum dia. Benjamin estava magro e plido, sentindo o peso dos dois empregos. Sandra passava o tempo todo se lamentando, 
e s vezes ele pensava que ia enlouquecer. Mel levou Sandra para dentro, para se deitar um pouco, e Oliver deu uma cerveja ao filho, olhando atentamente para ele, 
imaginando se Benjamin ia aceitar ajuda ou ia deixar que ela o matasse.
       - Como vo as coisas, filho?
       - Bem, eu acho. Logo vou ter de arranjar outro emprego. Vo fechar o posto de gasolina, e s trabalho mais algumas semanas. O restaurante paga pouco. Mas 
tenho alguma coisa em vista, e Sandra disse que, depois que o beb nascer, vai voltar a trabalhar.
       Benjamin procurava parecer esperanoso, mas era evidente para Oliver que o filho comeava a se desencorajar, o que era mais do que normal naquela condio. 
Com 18 anos, prestes a ser pai, sustentando uma pseudo-esposa de 17 anos, com dois empregos, no era exatamente a idia de uma vida feliz, especialmente para Oliver.
       - Vai deixar que eu o ajude antes que tudo isso acabe com vocs dois, ou vai continuar com sua teimosia? Benjamin sorriu, parecendo muito mais velho e mais 
experiente.
       Tinha aprendido muito naqueles ltimos meses, e o corao de Oliver se apertou.
       - Vamos ver, papai. O beb deve chegar dentro de trs semanas, e depois disso tudo vai ficar bem.
       - No  fcil cuidar de um beb.
       - , sei disso. Estamos tendo aulas na ACM para aprender, com o mtodo Lamaze e tudo o mais. Quero assistir ao parto, para ajudar Sandra.
       Oliver tinha de admirar o filho, embora isso no diminusse sua preocupao. Benjamin estava cumprindo  risca o compromisso assumido.
       - Voc me procura, se precisar de ajuda para qualquer coisa?
       -  claro. - Promete?
       Benjamin sorriu outra vez, e por uma frao de segundo Oliver viu o garoto de alguns meses atrs.
       -  claro, eu o procuro, papai.
       Depois disso, juntaram-se aos outros e comentaram o casamento de George. Benjamin prometeu comparecer, e Oliver ofereceu-se para entregar a noiva. Daphne 
estava feliz por eles e mais tarde, quando tudo estava mais quieto, perguntou a Oliver sobre Megan. Ele deu de ombros, com expresso de desgosto e disse que no momento 
no sabia.
       - No ltimo fim de semana ela esteve aqui, para conhecer as crianas, e no foi exatamente um sucesso. Esse tipo de coisa no  para ela, e no momento estou 
muito ocupado. Era diferente quando eles no estavam aqui. Mas agora, no sei, Daphne.
       - Ela no me parece do tipo maternal e carinhoso, mas talvez no seja o que voc est procurando especialmente. Oliver sorriu para a amiga, depois deu uma 
risada. 
       - Sim, pode dizer isso.
       - Bem, pelo menos o tirou de dentro da concha. Sem dvida. Ele sorriu outra vez.
       - Acho timo o casamento do seu pai.
       - Parece uma loucura, no acha, Daph? Benjamin vai ser pai, meu pai vai se casar, e eu continuo sozinho.
       - Isso vai mudar qualquer dia.
       Mas Oliver no estava com pressa. Se seu caso com Megan terminasse, no seria o fim do mundo. No estava nem mesmo divorciado ainda e nem queria pensar em 
se casar de novo. Tinha uma vida ocupada, com os filhos e o trabalho. O resto podia esperar, por enquanto.
       Nadaram na piscina tarde da noite, as crianas cantaram, seu pai voltou para casa, e Benjamin foi para o trabalho. Daphne ajudou Oliver a arrumar as coisas, 
e Aggie estava de volta depois de umas frias repousantes. Tinham vencido um longo caminho desde o comeo do vero. E com uma leve sensao de mgoa, Oliver lembrou 
o ano anterior, quando Sarah estava em casa e a vida era to simples e normal. Nada mais era simples agora. E nada era seguro. Mas a vida era boa, e Oliver agradecia 
tudo que tinha. Mesmo que jamais tivesse nada alm daquilo.
       Quando voltaram para Nova York, Oliver foi ao apartamento de Megan. Fizeram amor durante horas e depois conversaram. Megan confessou que tinha ido a East 
Hampton com um antigo amante. Embora j suspeitasse disso, Oliver no gostou.
       - Est acabado, no est?
       - No realmente. - Deitada languidamente na cama, Megan olhou para ele. - Terei prazer em v-lo a qualquer hora. Mas no vou bancar a mame para seus filhos, 
se  isso que voc quer. E agora voc no tem mais tanto tempo para mim, como antes. As coisas so assim, s vezes, Oliver. Mas nada mudou entre ns.
       Megan falava com tanta naturalidade. Para ela, tudo era fcil, sem compromissos, puramente sexual.
       Oliver amou isso nela, quando a conheceu, mas agora no parecia suficiente. No queria compartilhar Megan com ningum, no queria viver longe dos filhos. 
Mas era difcil estar com algum que no se importava com eles e de quem eles no gostavam. Oliver sabia agora que Megan no tinha nenhum interesse em conquistar 
a simpatia das crianas. Na verdade, ela no queria. Era parte do seu esforo constante para no se apegar a ningum. No fim, ela ganhou. Mas era um jogo onde s 
havia perdedores.
       -  uma pena que as coisas sejam assim - disse ele, vestindo-se. E dessa vez ela no tentou fazer com que ele tirasse a roupa novamente. As coisas tinham 
mudado para Megan tambm, quer ela admitisse ou no.
       - S podiam ser assim, Oliver, eu disse logo no comeo. Voc no precisa de uma mulher como eu. Merece coisa melhor. Sempre mereceu algum melhor do que Sarah. 
No se contente com pouco, desta vez, meu amigo. Do contrrio sempre vai sair ferido, e voc no merece.
       - Por que voc no quer mais do que isso? - Por qu? Por que eram to diferentes?
       - Acho que no fui feita desse modo. Priscilla foi... mas no eu. Acho que  doloroso demais. No estou disposta a enfrentar os riscos, empenhar meu corao, 
arriscar minha vida. Tudo que quero  me divertir, Oliver. Nada mais.  simples.
       E tinha sido exatamente isso. Bons momentos. Momentos maravilhosos. Momentos de sublime loucura, e ele podia continuar assim para sempre. S que o moussaka 
ia azedar. As pessoas precisam mais do que isso. Pelo menos ele precisava.
       - O que devo dizer quando sair? - perguntou ele tristemente, no hall, sabendo que no ia voltar. - Muito obrigado? - Voc diz "at logo", "a gente se v", 
"obrigado pelos bons momentos".
       - Obrigado por mais do que isso... obrigado por algo muito especial. Voc  muito especial. No se esquea disso. E talvez algum dia destes voc toma coragem.
       - No conte com isso. - Ela o beijou levemente nos lbios e apertou o boto do elevador.
       Quando a porta se fechou, ele a viu pela ltima vez com um quimono de cetim branco, sorrindo, o cabelo negro emoldurando o rosto cor de marfim.
       Sabia que ia sentir falta dela. A caminho de casa, Oliver teve pena de Megan. Pena por tudo que ela jamais teria, por tudo que ela no queria, por tudo que 
ela tinha medo de ter. E l de cima, da varanda, ela ergueu o brao num adeus silencioso. Voltou para a sala e ligou o som. Terminou 'o conhaque deixado por ele 
e sentou-se no sof, sozinha, lembrando a sensao do corpo de Oliver.
       - Voc teria gostado muito dele - murmurou Megan para a lembrana da sua irm gmea. Oliver seria perfeito para ela, e Megan teria zombado da irm por escolher 
um homem to decente, to quadrado, to bom. Sorriu, pensando nos dois juntos e caminhou lentamente para o quarto. Tinha muito trabalho para fazer e um leilo de 
ttulos no dia seguinte. No adiantava pensar no passado. Tirou os dois do seu corao, como peas de mveis para as quais no se tem mais lugar, tomou um banho 
de chuveiro, escovou os dentes, apagou a luz e foi para a cama, sabendo que tinha sido muito bom com Oliver Watson, mas estava terminado. Megan no chorou, no se 
lamentou. Estava acostumada com essas situaes e forou-se a pensar em outra coisa quando o sono chegou. Seu momento com Oliver estava acabado.
       
Captulo 19
       
       O casamento de George Watson e Margaret Porter foi tudo que devia ser, terno, suave e simples, e os olhos de Daphne encheram-se de lgrimas quando os noivos 
receberam a bno final. Ela sempre chorava em casamentos, talvez por nunca ter-se casado. Mas esse era especial, de pessoas maravilhosas.
       A noiva estava com um vestido simples de renda bege e levava um buqu de pequeninas orqudeas bege. O chapu era pequeno e elegante. Oliver a entregou ao 
noivo, como havia prometido, depois ficou ao lado dos filhos com os olhos midos, enquanto o rgo tocava.
       A cerimnia foi breve, e depois foram todos  recepo oferecida por Oliver em sua casa. Convidou apenas os amigos mais chegados. Muitos deles ficaram chocados, 
a princpio, mas depois, como Oliver, compreenderam. Era difcil negar a alegria do novo casal, uma alegria que ambos mereciam.
       Era uma tarde ensolarada de setembro, e os noivos saram de carro, s cinco horas. Iam passar a noite no Hotel Plaza, depois tomariam um avio para San Francisco, 
onde ficariam duas semanas. Margaret tinha parentes l e, alm disso, pretendiam ir  pera. Passariam alguns dias em Carmel e depois, San Francisco, e o avio de 
volta. Era uma viagem ideal para eles, e embora Margaret no tivesse dito a ningum, no queria ficar "longe da civilizao". George tinha problemas cardacos, e 
ela preferia estar sempre onde pudesse contar com assistncia mdica imediata. Mas ele no parecia precisar de nada disso quando saram para a cidade, acenando e 
sorrindo para os convidados, que atiravam flores.
       - Foi perfeito, absolutamente perfeito! - comentou Daphne feliz, na sala de estar de Oliver, mais tarde. - Talvez eu me case quando tiver a idade deles.
       Oliver balanou a cabea, com um largo sorriso. - Voc  bem capaz. Eu a acompanho, se fizer. Tinha contado a ela o fim do romance com Megan. Daphne no ficou 
surpresa, embora sentisse por ele. Foi uma boa distrao durante dois meses e agora estava acabado, e Oliver outra vez com aquele ar solitrio, embora afirmando 
que se sentia muito feliz.
       - Voc tem de comear tudo de novo.
       - Que chateao. - A idia de comear a sair com outra mulher o deixava desesperado. Mas reconhecia que a escapada com Megan fora mais do que exaustiva e 
sem dvida fora do comum. Qualquer pessoa que seguisse normas de vida mais simples seria mais fcil agora.
       Daphne insistiu em voltar para a cidade e,  noite, ele a levou at a estao. Ela disse que tinha um almoo no dia seguinte e, como a mulher do seu amigo 
estava fora da cidade, ia passar a noite com ele. Os dois nunca saam juntos. Ele era muito cuidadoso. E Daphne aceitava isso, como tudo que vinha dele.
       - Ele  um filho da me de muita sorte. - Oliver costumava dizer, e Daphne ria. No queria nada mais alm do que compartilhava com ele. Ela o amava completamente 
e aceitava todas as restries daquele modo de vida. Oliver havia muito tempo desistira de convenc-la a procurar outra pessoa. Mais tarde, ele estava na sala, conversando 
com Mel sobre o casamento, quando o telefone tocou e ela atendeu, certa de que era uma das suas amigas. No era, e Mel estendeu o fone para o pai, com um olhar surpreso. 
Benjamin queria falar com Oliver. Mel beijou o pai, antes de subir para seu quarto.
       - Boa noite, papai.
       - Vejo voc de manh, minha querida. Durma bem. - E voltou a ateno para o telefone. - O que h, Benjamin?
       Tinham estado juntos naquela tarde, no casamento. Benjamin tirou o dia de folga e foi sozinho. Sandra no estava bem. Estava com gripe, explicou Benjamin, 
o que era uma pe na, na sua condio. O beb devia nascer dentro de uns dez dias, e Benjamin estava visivelmente nervoso.
       - Oi, papai - sua voz estava tensa. - Ela est em trabalho de parto. Estamos no hospital desde as oito horas. - Est tudo bem? - Oliver lembrou-se do nascimento 
dos filhos, da sua excitao, mas Benjamin parecia mais assustado do que excitado.
       - No muito. Ela no est fazendo nenhum progresso... e papai... ela est sofrendo tanto. Eles deram alguma coisa para a dor, mas no est adiantando nada.
       - E o seu Lamaze?
       - Ela no quer fazer. E... papai... eles acham que o beb est tendo problemas.
       Oh, meu Deus, um beb doente ou anormal. - Voc quer que eu v ao hospital?
       -  isso... eu... desculpe. Sei que  tarde. Voc vem? - Claro que vou.
       Benjamin disse o nome do hospital. - J estou indo.
       Oliver saiu apressado, apanhando as chaves do carro na mesa, satisfeito por Benjamin ter telefonado. Pelo menos estava pedindo ajuda do pai, e agora talvez 
pudesse fazer alguma coisa por ele. Infelizmente no podia ajudar Sandra, e sentia pena dela, sem me, sem famlia, sem ningum para segurar-lhe a mo. Mas pelo 
menos podia estar ao lado de Benjamin, e os mdicos se encarregariam de Sandra.
       Benjamin, de pijama verde, robe branco e um engraado gorro verde na cabea, andava nervosamente no corredor. Oliver sorriu, lembrando-se da festa do dia 
das bruxas em que ele tinha se fantasiado de mdico. Benjamin tinha quatro anos naquele tempo e agora no parecia ter muito mais.
       - Voc parece o Dr. Kildare. Como est ela?
       - Pssima. No pra de gritar. Eles me pediram para sair, para um exame mais completo e ela no queria que eu deixasse a sala de parto... No sei o que posso 
fazer por ela, papai.
       - Acalme-se, meu filho. Tudo vai sair bem. Quer um caf?
       Benjamin balanou a cabea, mas Oliver foi apanhar caf. Tinha tomado muito vinho no casamento e no queria adormecer agora que Benjamin precisava dele. Quando 
voltou com a xcara escaldante, Benjamin estava conversando com dois mdicos. Oliver parou a certa distncia dos trs e viu Benjamin fechar os olhos e balanar a 
cabea afirmativamente.
       - Querem fazer uma cesrea. O beb est com problemas agora. Sei que Sandra no queria isso, mas os mdicos disseram que no temos escolha. - Tirou o gorro 
de plstico da cabea. - No me deixam ficar l dentro com ela. Vo dar anestesia geral.
       - Ela vai ficar bem. Pode ter certeza. - Com a mo no ombro do filho, levou-o at uma cadeira na sala de espera. - E se o beb no for normal? - perguntou 
Benjamin, sentindo-se pssimo.
       - Resolvemos isso quando chegar o momento, mas aposto que vai ser um belo beb. - Queria falar sobre a adoo, mas compreendeu que no era o momento adequado.
       Esperaram durante horas. Os ponteiros do relgio na parede pareciam se arrastar. J passava da uma da manh. Ento apareceu uma enfermeira  procura do Sr. 
Watson. 
       Os dois ficaram de p e depois Oliver, sentindo-se tolo, voltou a sentar-se. Evidentemente estavam procurando por Benjamin. O rapaz correu para a porta.
       - Sr. Watson? - Sim?
       - Tem algum aqui que quer conhec-lo.
       E sem dizer mais nada, ali no corredor, entregaram para o rapaz de pijama verde e roupo branco um beb enrolado num cobertor, que deu um grito estridente 
quando Benjamin o pegou e o aconchegou carinhosamente contra o peito. Ficou olhando para o filho, completamente extasiado, com as lgrimas descendo dos olhos. Ento, 
com um largo sorriso, voltou-se para Oliver, segurando o beb nos braos.
       -  um menino, papai!  um menino!
       Quando Oliver viu a criana seu corao deu um salto. Estava olhando para Benjamin quando ele nasceu. A mesma criana, o mesmo rosto, o mesmo cabelo vermelho 
e os olhos surpresos, e com tanta coisa de Sarah. Ento Oliver lembrou-se de algo em que no tinha pensado ainda. 
       No era apenas o filho de Sandra e Benjamin, era seu neto tambm. Era parte dele e de todos que tinham vindo antes... seu pai... sua me... e os pais deles. 
Era parte de todos eles, ningum podia negar. Com lgrimas nos olhos, Oliver tocou gentilmente na criana que pertencia a todos eles agora.
       - Como est Sandra?
       S ento Benjamin lembrou-se dela e voltou-se para a enfermeira, com expresso de culpa.
       - Ela est bem?
       - Est. Vai ficar na sala de recuperao por algum tempo. Agora, quer vir ao berrio por alguns minutos? Pode segurar o beb enquanto o registramos.
       - Ele est bem?
       - Tudo est timo. Pesa quatro quilos e cinqenta, e seus Apgars foram perfeitos. Isso significa que  um menino alerta e saudvel. - Tirou o beb dos braos 
de Benjamin, e foram para o berrio.
       Oliver ficou na sala de espera. Era um momento fantstico em sua vida. Com 45 anos, de repente virava av. Estava ainda atnito com a semelhana do beb com 
Benjamin. 
       Precisava compartilhar com algum. Foi at um telefone pblico e fez uma ligao a cobrar no seu telefone.
       Quando ela atendeu, Oliver sorriu e com voz rouca e suave disse:
       - Al, vov.
       - Quem est falando? - Sarah pensou que era um trote e ia desligar.
       - Voc tem um neto, Sarah. - Oliver estava com os olhos cheios de lgrimas, lembrando-se dos filhos que os dois haviam tido.
       - Oh, meu Deus, ele est bem?
       -  perfeito. Quatro quilos e cinqenta, e  igualzinho a Benjamin quando nasceu.
       - Como est Sandra?
       - No muito bem, eu acho. Tiveram de fazer cesrea. Mas vai ficar boa. O beb  um encanto, Sarrie... voc vai ver.
       - Ento, vo ficar com ele? - Sarah estava completamente acordada agora.
       - Vo - disse ele, em voz baixa, sentindo de repente algo por aquela criana que tinha pensado nunca mais poder sentir na vida, quase como se fosse seu filho. 
- Acho que vo ficar com ele. - Era impossvel no concordar com Benjamin, agora que tinha visto seu neto.
       - Como Benjamin est se portando?
       - Estava muito nervoso, mas agora parece um papai orgulhoso. Oh, Sarah, voc precisava ver. - Oliver estava orgulhoso do filho e ao mesmo tempo triste por 
ele.
       - Voc  um sentimental, Oliver Watson. Devia providenciar para ter mais filhos.
       Era estranho, vindo dela, mas estavam vivendo em mundos diferentes agora.
       - Foi o que me disseram. E voc, como vai? - Estou bem.
       - Seus olhos?
       - Ainda um pouco coloridos, mas bem melhores. D meu amor ao Benjamin. Telefono para ele amanh.
       - Cuide-se bem, Sarah. - Sua voz estava triste outra vez. Era difcil ainda falar com ela, mas estava feliz por ter ligado. Era neto dela tambm. E ele quis 
ser o primeiro a contar.
       - Meus parabns - disse ela, sorrindo. - Vov.
       - O mesmo para voc. Faz a gente se sentir muito velho, no acha?
       - No sei. Acho que gosto.
       Oliver desligou e esperou que Benjamin voltasse do berrio. Levou-o para casa, em Purchase, e pela primeira vez em seis meses, ele dormiu no seu antigo quarto. 
       Tinha partido com um desafio e voltava pai. Mundo estranho, pensou Oliver, pensando no beb nascido naquela noite. Desejava a ele uma vida fcil, um bero 
feliz, e um caminho para a idade adulta mais fcil do que a do seu pai. Benjamin, na sua cama, dormiu finalmente, sorrindo, pensando no beb.
       
Captulo 20
       
       Oliver os levou do hospital para o tristonho apartamento em Port Chester. No conseguiu convenc-los a ir para Purchase. Tinha quase certeza de que Sandra 
aceitaria de bom grado, mas Benjamin insistiu em dizer que podiam se arranjar sozinhos. Ele ia tomar conta de Sandra e do beb. Pediu duas semanas de folga no trabalho, 
e logo tudo estaria sob controle. Mas, depois disso, sempre que Oliver telefonava, o beb estava berrando e quando os visitou, na semana seguinte, Sandra estava 
pssima, plida, com olheiras e sentindo dores. Benjamin parecia descontrolado, e o apartamento estava em desordem.
       Quatro dias depois, o telefone tocou no meio da noite, no apartamento de Nova York. Era Benjamin. Sandra estava no hospital, com uma infeco da cesariana 
e ele sozinho com o beb. Estava chorando. Oliver foi at Port Chester, apanhou todas as coisas do beb e levou os dois para casa.
       - Agnes pode tomar conta de Alex e voc pode dormir um pouco.
       Dessa vez no ia discutir com ele. Benjamin nunca estivera to mal. Ficou aliviado por se livrar daquelas obrigaes e no dia seguinte, quando Oliver voltou 
do escritrio, pai e filho tiveram uma longa conversa. O beb chorava o tempo todo, e Sandra se queixava amargamente. Ele no tinha arranjado outro emprego e mal 
tinham para viver. 
       De repente tudo comeava a desmoronar sobre sua cabea, e ele estava quase em pnico. Por mais encantador que fosse o beb, Benjamin arrependia-se de ter 
tido aquele filho.
       - Meu filho, voc tem de pensar nisso com muito cuidado.  realmente o que quer fazer da sua vida? Acha que pode ficar com o beb? E o mais importante, o 
que voc vai fazer? Quer trabalhar como auxiliar de garom pelo resto da vida? E Sandra?
       Essas eram as perguntas que havia meses atormentavam Benjamin e agora sentia-se arrasado. Disse ao pai que no amava mais Sandra, que talvez nunca a tivesse 
amado, pelo me nos no a amava havia muito tempo. No podia suportar a idia de passar a vida com ela. Mas o que complicava tudo era que ele amava o beb.
       - Ele  meu filho, papai, no posso abandon-lo. No podia fazer isso para ele, nem para mim mesmo. Mas no acredito que possa ficar com Sandra por mais tempo... 
porm, se eu a deixar, tenho de deixar Alex com ela.
       Benjamin duvidava que Sandra fosse capaz de cuidar do filho. Ela no parecia ter nenhum instinto materno. S pensava em si prpria, como antes, e nunca no 
beb.
       - Por que no d a ela a chance de se refazer? Talvez voc tenha de pensar ento s em sustent-la. No precisa ficar com ela.
       E como ele ia fazer isso? Lavando pratos? Vendendo gasolina?
       - Farei o possvel para ajud-lo - continuou Oliver. - Por que no descansa por alguns dias para pensar no assunto?
       Mas quando Benjamin comeou a pensar, sentiu-se responsvel outra vez. Sandra saiu do hospital, e com pena dela, ele voltou. Aggie ficou inconsolvel por 
ele ter levado o beb, e Oliver tambm, vendo o filho voltar para o que ele achava que era certo. Benjamin no queria deixar de cumprir o que julgava ser sua obrigao, 
e Oliver sofria s de pensar nos trs naquele apartamento tristonho. Insistiu em dar cinco mil dlares para os dois, e Benjamin fez tudo para devolver o dinheiro.
       - Tudo bem, ento considere um emprstimo. No vou deixar que vocs passem fome. Que droga, tenha juzo.
       Finalmente Benjamin cedeu, prometendo pagar logo que pudesse.
       Duas semanas depois, as coisas complicaram-se mais ainda. Oliver recebeu um pedido surpreendente do chefe da sua firma. O diretor do escritrio de Los Angeles 
estava doente, com cncer. Ia deixar a firma na prxima semana, com licena sade permanente, e algum tinha de ocupar o cargo. Alm disso, queriam ampliar aquela 
filial, elevando-a  importncia do escritrio de Nova York. Pretendiam criar um "equilbrio entre os dois litorais", aproximando-se mais da indstria da televiso, 
que era muito importante para a firma, e conseguir clientes maiores e melhores na costa oeste. O diretor-presidente considerou Oliver o homem ideal para o cargo.
       - Meu Deus... mas no posso... tenho dois filhos na escola, aqui, uma casa, uma vida... No posso simplesmente arrancar essas razes e levar tudo para milhares 
de quilmetros de distncia.
       E agora havia o problema de Benjamin e o beb. No podia abandon-lo como Sarah havia feito com todos eles. - Tenho de pensar um pouco.
       Mas seria loucura recusar o salrio, os termos do novo contrato e a participao nos lucros que a firma oferecia. - Ora, Oliver, seja sensato. Aceite! Nunca 
mais vai ter uma oferta como essa e algum dia voc ser diretor-presidente - disse Daphne, naquela noite, no escritrio, muito tempo depois de todos terem sado.
       - Mas, e meus filhos? Minha casa? Meu pai?
       - No seja ridculo. Seu pai tem a vida dele e uma mulher que o ama. E Benjamin tambm tem a vida dele. Mais cedo ou mais tarde as coisas vo melhorar para 
ele, quer voc esteja aqui ou no. Benjamin  capaz disso. Exatamente como voc. E Mel e Sam vo adorar Los Angeles. Voc viu como se adaptaram logo  vida na cidade.
       - Mas Daphne, isto  diferente. Nova York fica a cinqenta quilmetros de Purchase. Estamos falando de cinco mil quilmetros de distncia.
       - No se voc instalar sua casa l. E Melissa, dentro de dois anos vai para a universidade. No use seus filhos como desculpa. V em frente!  uma oferta 
fantstica.
       Mas Los Angeles? Califrnia? Nova York era seu lar. - No sei. Tenho de pensar. Vou falar com as crianas para ver o que acham.
       Os dois ficaram chocados, mas no apavorados, como Oliver pensou que ficariam. Depois de pensar um pouco, comearam a achar a idia agradvel. No gostavam 
de deixar os amigos, e Sam preocupava-se, pensando que no poderia ver Sarah com tanta freqncia, mas Oliver garantiu que poderiam ir a Boston quantas vezes quisessem, 
e podiam tambm passar as frias com ela. Mas para Oliver era ainda uma idia maluca e assustadora. Especialmente porque a firma queria que ele estivesse instalado 
em Los Angeles no mximo dentro de um ms.
       - Muito bem, pessoal - disse Oliver, depois de os filhos terem conversado muito sobre o assunto. Ele precisava dar a resposta at o fim da semana. - O que 
vocs resolvem? Vamos para a Califrnia, ou ficamos aqui?
       Mel e Sam trocaram um olhar longo e cauteloso, e Oliver torceu para que dissessem no.
       - Acho que devemos ir - disse Mel, surpreendendo-o. Sam recostou-se na cadeira, com um largo sorriso.
       - Isso mesmo, papai, vamos. Podemos ir  Disneylndia todos os domingos.
       Oliver estava realmente surpreso com aquela deciso. - Falam srio?
       Os dois balanaram a cabea afirmativamente e no dia seguinte, com a impresso de estar vivendo num sonho, Oliver disse ao seu chefe que aceitava. Naquele 
domingo tomou um avio para Los Angeles, procurou uma casa para alugar, passou trs dias visitando escolas, outra semana conhecendo o pessoal do escritrio e voltou 
a Nova York para os preparativos finais.
       A fiel Aggie concordou em ir com eles, e Oliver resolveu no vender a casa em Purchase, mas conserv-la, at ter certeza de que estavam bem na costa oeste. 
O mais difcil foi dizer a Benjamin, mas chegaram a um acordo que tirou um peso da conscincia de Oliver. Benjamin e Sandra concordaram em morar em Purchase. Oliver 
disse que eles podiam tomar conta da casa para ele e que ficaria muito mais tranqilo se quisessem "ajud-lo".
       - Tem certeza, papai? No est querendo nos fazer um favor?
       - No, no estou, Ben. H outra alternativa. - Oliver prendeu a respirao. - Pode deixar Sandra e Alex no apartamento e ir para a costa oeste conosco.
       Mas Benjamin balanou a cabea, tristemente. No ia abandonar Sandra e o filho. Sandra no era capaz de fazer nada sozinha, e Alex era seu filho.
       - Ficaremos muito bem aqui. - Tinha arranjado outro emprego e agora no precisaria pagar aluguel.
       Tudo aconteceu como um furaco. Fizeram as malas e partiram. Choraram, acenaram. E uma semana antes do dia de Ao de Graas voaram para Los Angeles, para 
comear nova vida na Califrnia.
       Quando o avio pousou no aeroporto de Los Angeles, Oliver olhou para Mel e Sam e perguntou a si mesmo o que tinha feito.
       - Prontos? - Sorriu nervosamente, esperando que gostassem da casa que tinha alugado em Bel Air.
       Era uma construo incrvel, com deck, sauna, Jacuzzi em todos os banheiros e uma piscina duas vezes maior que a de Purchase. Pertencia a um ator falido que 
resolveu alug-la por um tempo, at conseguir vender.
       Apanharam Andy na rea de bagagem, na grande jaula em que ele havia viajado, e Aggie sorriu, endireitando o chapu. Uma limusine os esperava. As crianas 
arregalaram os olhos, e Andy latiu, abanando a cauda. Pela centsima vez, Oliver imaginou se no estava fazendo uma loucura. Mas, se estava, ningum parecia se importar. 
Pelo menos, ainda no. Sentou-se no banco traseiro da limusine e segurou as mos dos filhos, um de cada lado dele.
       - Espero que vocs gostem da casa.
       - Vamos gostar. - Sam sorriu, olhando para fora, e Mel, de repente, parecia muito adulta.
       Seguiram no meio do trfego de Los Angeles para a casa que o pai havia escolhido, em Bel Air. Para os dois era um mundo completamente novo, uma nova vida, 
mas pareciam satisfeitos. Olhando tambm pela janela do carro, Oliver era o nico apavorado com as conseqncias do que estavam fazendo.
       
Captulo 21
       
       A casa era exatamente o que as crianas esperavam. Era perfeita para eles, e Oliver ficou satisfeito. Dentro de poucas semanas os trs estavam instalados 
e muito felizes. At Agnes estava extasiada com sua nova casa. Depois de percorrer as lojas locais, verificou que tinham tudo de que ela precisava.
       Mel adorou a escola, e Sam convidou dois novos amigos para nadar na piscina, no fim de semana do dia de Ao de Graas. Porm o feriado parecia estranho sem 
Benjamin, sem o av e to longe de Sarah. Iam passar as frias de Natal com ela. Quando arrumaram as malas para a viagem, parecia incrvel que estivessem s um ms 
em Los Angeles.
       Oliver os levou ao aeroporto e, embora sabendo que sentiria falta deles, estava satisfeito por poder trabalhar at mais tarde nesses dias. Precisava de tempo 
para estudar todos os projetos que havia encontrado. A pessoa de quem realmente sentia falta era Daphne, da sua viso, sua mente brilhante, o julgamento preciso, 
as solues criativas para os problemas do trabalho. Mais de uma vez tinha telefonado pedindo a opinio dela, e enviava planos e projetos para novas campanhas, bem 
como apresentaes para novos clientes para sua apreciao. Gostaria que a tivessem mandado para Los Angeles tambm, mas estava certo de que ela no iria. Seu relacionamento 
com o homem de Nova York era muito importante. Daphne teria preferido desistir do emprego a ter de deixar o homem ao qual dedicara quase 13 anos da sua vida.
       As semanas passaram voando, e o Natal chegou. Sam e Mel decoraram a rvore antes de partir para Boston e trocaram presentes com o pai. No dia em que eles 
partiram, quando Oliver chegou em casa  noite, deu-se conta de que era a primeira vez que passava o Natal sozinho, o primeiro sem os filhos e sem Sarah. Seria mais 
fcil no pensar nisso e mergulhar no trabalho. Tinha muita coisa para fazer enquanto os filhos estivessem em Boston. Na tarde seguinte ficou surpreso quando uma 
funcionria da firma bateu insistentemente na porta do seu escritrio.
       - Sr. Watson, Harry Branston achou que o senhor ia querer ver isto. - A jovem ps um convite sobre sua mesa. Oliver apenas olhou rapidamente para o papel. 
Estava muito ocupado e s viu do que se tratava algumas horas depois. Era um convite para a festa de Natal que uma grande rede de televiso oferecia todos os anos 
aos seus atores, ao pessoal, amigos e principais agentes de publicidade. A rede pertencia a um dos maiores clientes da sua agncia. Oliver achou que seria boa poltica 
aceitar o convite, mas no tinha muito tempo e nem muita disposio. Resolveu deixar a deciso para mais tarde, dependendo do que pudesse resolver at o fim do dia. 
Quatro dias depois, na sexta-feira, o dia da festa, ele encontrou o convite sob uma pilha de papis. Nem pensou em comparecer. No conhecia ningum e no iam notar 
sua ausncia. Mas de repente teve a impresso de ouvir a voz de Daphne insistindo para que ele fosse. Era exatamente o tipo de coisa que ela aconselharia, para o 
bem da agncia e para se apresentar como o novo diretor do escritrio de Los Angeles.
       - Tudo bem... tudo bem... - resmungou ele. - Eu vou. E sorriu, lembrando-se de Daphne, sentindo sua falta e dos seus jantares de espaguete. Realmente foi 
a parte mais difcil da sua ida para Los Angeles. No tinha amigos na cidade e, certamente, ningum como Daphne.
       Chamou a limusine da firma, que raramente usava, mas que era til para ocasies como essa. O motorista ia saber onde ele estava, e Oliver no tinha de se 
preocupar com o estacionamento do carro.
       A festa era num set do estdio. Quando chegaram, um guarda, na porta, procurou o nome dele na lista e depois fez sinal para que entrasse. Para Oliver tudo 
era ainda como um sonho, ou como se estivesse trabalhando num filme que no conhecia.
       Duas jovens o receberam e mostraram o caminho, e num instante Oliver estava no meio de centenas de pessoas vestidas com roupas de cores vivas, tomando champanhe, 
num set que parecia um imenso saguo de hotel. Uma rvore de Natal gigantesca erguia-se no centro, e os executivos da rede de televiso estavam recebendo os convidados. 
       Oliver sentiu-se como um garoto numa escola nova, mas ningum parecia not-lo. Apresentou-se a algumas pessoas e ficou impressionado vendo os atores conhecidos, 
estrelas de programas de sucesso, enfeitados com lantejoulas e paets. As mulheres eram belssimas e os homens bonitos. Oliver desejou que Mel estivesse com ele. 
       Na certa ia ficar maravilhada e ia adorar. Viu at o ator favorito de Sam, um garoto sardento cujas piadas Sam vivia repetindo.
       Recuou para dar passagem a um grupo de pessoas e pisou no p de algum, atrs dele. Saltou para o lado desculpando-se, olhou para trs. L estava a mulher 
mais bonita que Oliver j havia visto em toda sua vida. O rosto era perfeito, os olhos verdes, o cabelo cor de cobre polido.
       - Desculpe... eu no a vi... - Percebeu que j vira aquele rosto antes, mas no sabia onde.
       Ela sorriu, revelando os dentes perfeitos. Toda aquela beleza estava simplesmente vestida com uma cala de couro vermelho e suter. Tinha um sorriso de menina, 
no de estrela do cinema. Era pequena, e tudo nela parecia pequeno e perfeito.
       - Peo desculpas - repetiu ele.
       Ela apenas sorriu, continuando a observar a multido que os rodeava.
       - Uma loucura, no ? Venho todos os anos e sempre me pergunto por qu.  como se eles telefonassem para a central de elenco, dizendo: "Tudo bem, Joe, mande 
um monte de gente para uma festa." Ento, enfiam uma taa de champanhe nas mos deles e do ordem para que todos se divirtam. - Ela riu, observando o movimento, 
depois olhou para Oliver.
       Para ele, ela pertencia a uma raa diferente, com o rosto perfeito e o cabelo bem penteado. Em Los Angeles todos pareciam to "artificiais", to maquilados, 
todos vestidos para chamar ateno. A aparncia era seu modo de vida, mas essa jovem parecia diferente.
       - Sei que no devia perguntar, eu devia saber a resposta, mas voc trabalha aqui?
       - Pode dizer que sim. Mas voc no, certo?
       Se trabalhasse, saberia quem ela era, mas isso no a preocupava. De certo modo, era muito mais interessante assim. - Trabalho para uma agncia de publicidade. 
- No disse que era o diretor da agncia. - Cheguei de Nova York h poucas semanas. Isto  muito diferente, mas eu gosto.      
       - Espere mais algum tempo. As coisas aqui so muito loucas. Estou em Los Angeles h dez anos e ainda me sinto como Alice no pas das maravilhas.
       Era uma sensao que Oliver comeava a conhecer muito bem e imediatamente imaginou como ela seria sem o penteado e a maquiagem impecveis.
       - De onde voc ?
       - Nebraska. - Ela riu. - D para acreditar? Vim para c para estudar na Universidade de Los Angeles e ser uma "estrela". Meus pais ainda acham que sou louca 
por ficar aqui. s vezes eu concordo, mas depois de algum tempo, a gente fica presa. Adoro o meu trabalho.
       Oliver gostou da expresso de entusiasmo nos olhos dela. Era uma mulher cheia de vida e de alegria, e no parecia estar tomando nada daquilo a srio. Ento, 
algum se aproximou dela e pediu um autgrafo. Ela assinou com naturalidade, sorriu, agradeceu e voltou-se outra vez para Oliver, que no conseguia disfarar seu 
embarao, percebendo agora que devia saber quem ela era.
       - Tudo bem. Amanh vou ficar envergonhado. Vou descobrir quem voc  e me sentir um perfeito idiota. Por que no me diz de uma vez para que eu possa me sentir 
como um ignorante idiota agora, e o assunto fica liquidado? - Ele sorriu. - Quem  voc?
       - Chapeuzinho Vermelho - brincou ela. - Para ser franca, estava gostando do fato de no me conhecer.  uma pena estragar isso.
       - Prometo esquecer assim que me disser.
       - timo. - Estendeu a mo para ele, num gesto formal. - Nesse caso, sou Charlotte Sampson.
       A estrela de um dos principais programas da rede de televiso, um teatro semanal apresentado no horrio nobre. Tinha um ator coadjuvante e uma audincia de 
quase oito milhes de espectadores.
       - Oh, meu Deus... - Sentiu-se realmente como um idiota, e Mel ia morrer quando soubesse disso. - No acredito. - Agora, que isso est resolvido, quem  voc? 
Oliver tinha apertado a mo dela, mas esqueceu de dizer seu nome. Era incrvel que no a tivesse reconhecido. Porm nunca imaginara que ela fosse to pequena, to 
jovem, to bonita e to cheia de vida. No seu programa aparecia sempre muito sria e com um penteado diferente. Sentindo-se cada vez mais idiota, ele se apresentou.
       - Desculpe. Na verdade, voc me apanhou de surpresa. Sou Oliver Watson. Tudo isto  muito Hollywood para ns l do leste. No estou acostumado a conhecer 
estrelas todos os dias, muito menos pisar no seu p.
       - No se preocupe. Na ltima vez que meu pai veio me visitar, ele disse para Joan Collins que ela se parecia muito com uma professora da escola dominical 
que ele conheceu em Nebraska. Foi a primeira vez que a vi perder a fala. Meu pai deu umas pancadinhas amistosas nas costas dela e seguiu seu caminho.
       - Talvez eu deva fazer o mesmo. Mas voc no se parece com nenhuma professora de escola dominical.
       Parecia mais a garota da casa vizinha. Mas extremamente bela. Era uma mulher encantadora, e Oliver notou que, pela cor da pele, o vermelho do cabelo devia 
ser natural.
       - Voc no parece publicitrio. Parece um dos caras do nosso programa - disse ela, rindo.
       Oliver achou que ela devia rir com freqncia. Era uma mulher extrovertida, sem os maneirismos e afetaes de uma estrela importante.
       - Desculpe, mas no concordo.
       - A propsito, por que veio para Los Angeles?
       As pessoas passavam e acenavam para ela, jogavam beijos, faziam sinais, mas Charlotte parecia contente em ficar ali, conversando com Oliver.
       - Por causa da agncia. Vim substituir uma pessoa que ficou doente. Foi tudo muito em cima da hora, mas deu certo. - De repente, Oliver sentiu-se extremamente 
culpado. 
       - Srta. Sampson, no estou monopolizando sua companhia? Imagino que devia estar falando com pessoas muito mais importantes do que um agente de publicidade.
       - J cumpri meu dever. Cheguei cedo, tomei um copo de champanhe e beijei o diretor da rede. O que mais eles podem querer? Um pouco de sapateado? J fiz isso 
no escritrio. Agora  minha hora de folga. E gosto de conversar com voc.  muito mais fcil do que falar com um bando de astros e estrelas nervosos, cujos programas 
esto caindo de audincia. - O dela no estava. Fora indicada para o Emmy daquele ano, mas no ganhou. O que o fazia sentir-se muito mais idiota por no reconhec-la 
logo. 
       - Oliver, o que tem feito em Los Angeles, desde que chegou?
       - Trabalhado... trabalhado mais um pouco... mais trabalho... me instalar... para dizer a verdade, ainda no vi coisa alguma alm da minha casa e o escritrio.
       - No parece muito divertido. J jantou em algum lugar?
       - No, s uma vez com meus filhos. Fomos ao Hard Rock Caf, e eles adoraram. Eu me senti como se tivesse quatrocentos anos e pensei que ia ficar surdo.
       Ela riu. Gostava do Hard Rock, mas tambm se sentia assim, s porque a conversa era quase impossvel. Mas a decorao era fabulosa e ela gostava de ver o 
velho carro de Elvis Presley que parecia atravessar o teto do restaurante. Voltava a ser criana toda vez que o via.
       - J foi ao Spago? - No.
       - Precisamos ir algum dia.
       Soava como a verso de Los Angeles do "vamos almoar algum dia destes", e Oliver no considerou aquilo como um convite. Ela perguntou, parecendo realmente 
interessada:
       - Que idade tm seus filhos?
       - Tenho uma filha de dezesseis, um filho de dez e outro filho, que ficou no leste, com dezoito.
       - Parece timo. - Ela sorriu com uma leve expresso de pesar. Gostava dele. - Que idade tem sua mulher? - Seus olhos se encontraram.
       Oliver riu da pergunta direta.
       - Quarenta e dois, e somos divorciados.
       Ou quase. O divrcio seria homologado dentro de oito semanas, mas no seu corao, onde realmente importava, tudo que os ligava havia desaparecido, finalmente.
       - Puxa, que boa notcia! Eu comeava a me preocupar - disse Charlotte Sampson, com um largo sorriso.
       Oliver ficou lisonjeado com toda aquela ateno. Sinceramente, achava que no merecia. Talvez ela fosse tmida e no gostasse de festas to badaladas.
       - Seus filhos esto em Los Angeles agora?
       - No, foram passar o Natal com a me, em Boston. - Pensei que voc disse que morava em Nova York - disse ela, intrigada. - E por que no passam o Natal com 
voc?
       - Porque moram comigo. E ns morvamos em Nova York. Mas ela mora em Boston. Foi para l h um ano, para estudar e... - Olhou para ela. Hollywood ou no, 
ia contar a verdade, mesmo sem saber se ela se interessava. Mas Charlotte parecia querer saber e parecia ser uma boa pessoa. - Ela nos deixou... a mim e aos filhos... 
por isso eles moram comigo agora.
       Olhou para ele, muito sria e afastou o longo cabelo dos ombros.
       - Parece uma histria longa e dolorosa.
       - Sim, foi. Por algum tempo. Agora  uma histria muito curta. Ela est feliz. Ns estamos bem. A gente se adapta s coisas, quando  preciso.
       - As crianas tambm? Ele fez um gesto afirmativo.
       - Eles esto muito bem. A esta altura, acho que so capazes de enfrentar qualquer coisa. So muito bons.
       - E voc parece ser um bom pai.
       - Muito obrigado, senhora - disse Oliver, com uma reverncia.
       Os dois riram. Um dos diretores da rede aproximou-se deles. Beijou Charlotte nos dois lados do rosto, apertou a mo de Oliver e disse que o estava observando 
havia uma hora.
       - Quero apresent-lo a alguns dos nossos amigos, mas vejo que j conhece minha dama favorita.
       - Pisei no p dela logo que cheguei, mas ela foi generosa e no mandou me expulsar da festa. Provavelmente ela nem pode andar direito, por isso ficamos aqui 
parados, batendo papo, enquanto eu a aborreo com histrias dos meus filhos.
       - Gostei de conversar com voc, Oliver. - Parecia ofendida, e o outro homem riu. Voltou-se para ele, quase com um muxoxo: - Suponho que agora vai lev-lo 
embora.
       - Preciso. Eu o trago de volta num minuto, se quiser. - Voltou-se para Oliver. - Cuidado com ela. Detesta astros do cinema, adora crianas e ces e nunca 
esquece suas falas. No confio em mulheres assim, e voc? O pior  que ela  muito bonita. Devia v-la s quatro da manh, deixa qualquer um doente, sem maquiagem 
e com um rosto de anjo.
       - Ora, vamos, Howie, pare com isso! Voc l sabe como eu sou s quatro da manh? - Ela ria, bem-humorada, e Oliver pensou que gostaria de v-la s quatro 
da manh, com ou sem maquiagem. - Tudo mentira dele, detesto crianas e cachorros.
       Mas no parecia quando estavam falando dos filhos dele. - Tudo bem, Charlie, v se divertir, enquanto apresento Oliver aos outros. Eu o trago de volta logo.
       Mas quando a deixaram, para desaponto de Oliver, "Howie" o apresentou a todos os seres humanos importantes do set, e s uma hora depois ele voltou para onde 
tinham estado.  claro que no a encontrou. No esperava encontr-la... no mesmo... mas teria ficado muito feliz se isso ocorresse. Saiu e foi procurar sua limusine. 
Ento, para seu espanto, ele a viu, ao longe, entrando num Mercedes vermelho. Estava com o cabelo em duas tranas e sem maquiagem, com um velho casaco de couro. 
Oliver acenou, ela respondeu e hesitou, como que esperando que ele se aproximasse. Oliver caminhou para ela, para dizer o quanto tinha apreciado a conversa, e ela 
sorriu quando ele chegou perto.
       - Est indo para casa? - perguntou ele.
       Charlotte fez um gesto afirmativo e sorriu para ele. Parecia uma menina. Uma menina muito bonita.
       - Tenho duas semanas de folga at o fim das festas. O programa no vai ser apresentado durante esse tempo. E voc? J cumpriu sua obrigao por hoje? - perguntou 
com um sorriso.
       Oliver queria convid-la para sair, mas no tinha coragem. Ento, pensou, que droga, tudo que ela pode dizer  "no", mesmo sendo Charlotte Sampson.
       - Voc j jantou?
       Ela balanou a cabea e sorriu.
       - Quer comer uma pizza no Spago? No sei se vamos conseguir um lugar, mas podemos tentar. Est sempre muito cheio. Cheio era pouco para descrever a quantidade 
de pessoas que se comprimiam, dispostas a esperar a vida inteira para saborear as especialidades de Wolfgang Puck e ver, nem que fosse de relance, os astros e estrelas 
que freqentavam o restaurante. - Eu gostaria muito. - Oliver olhou para a sua limusine. - Quer uma carona? Ou prefere que eu a siga?
       - Por que no vem comigo?
       - Voc no se importa? - Sem dvida seria mais simples.
       Ela sorriu. Gostava dele, do jeito dele, do que ele dizia. Gostava daquele ar descontrado e da impresso de calma e confiana. Parecia uma pessoa com quem 
se podia contar. -  claro que no.
       Oliver dispensou o motorista rapidamente, temendo que ela mudasse de idia e entrou no Mercedes. Charlotte virou-se de repente para ele.
       - Tenho uma idia melhor. O Spago s vezes  muito barulhento. Conheo outro restaurante italiano em Melrose. Chama-se Chianti.  escuro, e no seremos vistos. 
Podemos telefonar e reservar uma mesa. - Apontou para o pequeno telefone vermelho no painel do carro e digitou os nmeros com uma das mos, enquanto ligava o motor. 
Oliver observava, sorrindo. - Alguma coisa errada?
       - No. S estou impressionado.
       -  isso ai - disse ela, com um largo sorriso. - Um longo caminho at Lincoln, Nebraska.
       Atenderam ao primeiro toque e disseram que teriam muito prazer em reservar uma mesa para a Srta. Sampson. Foi uma escolha ideal. O restaurante era pequeno, 
escuro e acolhedor, sem nada nouvelle na decorao. Parecia exatamente um restaurante italiano, e os pratos oferecidos no cardpio eram deliciosos. O chefe dos garons 
anotou o pedido rapidamente, e eles sentaram-se lado a lado na banqueta, enquanto Oliver procurava se compenetrar de toda a situao. Ia jantar com a Charlotte Sampson. 
Mas aquilo era Hollywood, no era? E por um segundo ele pensou em Megan, em Nova York. Tudo ali era diferente. Nova York era sofisticada e um pouco decadente e ali 
era to simples. E Charlotte parecia extremamente real.
       - Foi uma grande idia - disse ele.
       Estavam famintos e atacaram os pezinhos em forma de palito.
       - E formidvel no precisar ir para o trabalho s quatro horas da manh. Esse horrio s vezes atrapalha demais nossa vida social. Quase sempre estou cansada 
demais para sair  noite. S quero ir para casa. Tomo um banho e vou para a cama com o script do dia seguinte, e s nove horas estou dormindo e com as luzes apagadas.
       - E as famosas festas de Hollywood?
       - So para os idiotas. A no ser as obrigatrias, como esta noite.  perigoso no comparecer. Algum pode ficar muito zangado no set. Mas o resto, no interessa.
       - Foi o que me disseram. O ambiente  mesmo to tenso?
       - s vezes, quando a audincia no  grande coisa.  uma droga de profisso. - Ela riu. - Mas eu adoro. Adoro a excitao, o trabalho rduo, o desafio dos 
scripts mais difceis. Existem outras coisas que eu preferia estar fazendo, mas tem sido uma experincia fantstica.
       Charlotte fazia o programa havia dois anos. - O que preferia fazer?
       - Profissionalmente? - Uma pergunta interessante. - Shakespeare, talvez. Fiz muito repertrio na faculdade e depois, no teatro de vero, quando no conseguia 
outro trabalho. Gosto do teatro ao vivo. Da presso. Da obrigao de saber perfeitamente todas as falas, sem nenhum erro, noite aps noite. Acho que para mim o mximo 
seria trabalhar numa pea na Broadway.
       Oliver compreendia. Era o pinculo daquela forma de arte, mas o que ela fazia tambm tinha valor e ele admirava muito seu trabalho. Era mais duro do que parecia.
       - Voc fez algum filme?
       - Um. - Ela riu. - Foi um desastre. A nica pessoa que viu e gostou foi minha av, em Nebraska.
       O jantar foi servido, e os dois continuaram conversando sobre trabalho, os filhos dele, as presses das suas carreiras e como ele se sentia, dirigindo o escritrio 
de Los Angeles.
       - Publicidade deve ser difcil. Voc comete um erro e perde o cliente. - Charlotte tinha ouvido verdadeiras histrias de horror a respeito.
       Oliver, contudo, parecia muito calmo, considerando a presso sob a qual trabalhava.
       - No  muito diferente do que voc faz. Eles tambm no lhe do grande margem de erro. Por isso precisamos de algo mais e na verdade no acho que meu trabalho 
seja tudo. Tem de haver alguma coisa mais importante na nossa vida. - Por exemplo?
       Charlotte no hesitou.
       - Um marido, casamento, filhos. Pessoas para amar, outra coisa para fazer, porque chega o dia em que os programas, os autgrafos, o sucesso desaparecem e 
precisamos ter cuidado para no desaparecer com eles.
       Era um modo inteligente de encarar o assunto, e Oliver a respeitou por isso. Mas havia algo mais nas palavras dela. - Voc est me escondendo alguma coisa, 
Srta. Sampson? Seu marido vai entrar por aquela porta e dar um murro no meu nariz?
       Ela riu e balanou a cabea, lembrando o passado.
       - No tem perigo. Fui casada uma vez, h muito tempo, quando tinha vinte e um anos. Durou cerca de dez minutos, quando sa da faculdade.
       - O que aconteceu?
       - Muito simples. Ele era ator de teatro. Morte instantnea. E nunca mais encontrei ningum com quem quisesse me casar. Na minha profisso no conhecemos muitos 
homens com quem se possa passar o resto da vida.
       Saiu com um produtor, durante alguns anos, mas acabou em nada. Depois disso, passou muito tempo sozinha, ou saa com pessoas que nada tinham a ver com sua 
profisso.
       - Acho que sou muito exigente - continuou ela. - Minha me diz que j passei da idade. - Olhou para ele sria, mas com expresso maliciosa. - Fao trinta 
e quatro no ms que vem. Um pouco madura demais para me casar, eu acho. Oliver riu. Ela parecia ter vinte anos.
       - Eu no diria exatamente isso, ou ser que  assim que vocs vem as coisas por aqui?
       - Se voc tem mais de vinte e cinco, est morto. Aos trinta, faz a primeira plstica. Aos trinta e cinco j fez a segunda e j consertou os olhos pelo menos 
uma vez. Talvez duas. Aos quarenta, acaba tudo. V o que quero dizer? Precisamos de algo mais em nossa vida.
       Ela parecia estar falando srio e Oliver prestou ateno. - E se no for um marido e filhos, o que ento?
       - Alguma coisa para ocupar nossa mente. Eu costumava fazer muito trabalho voluntrio com crianas carentes. Mas ultimamente no tenho tido muito tempo para 
isso.
       - Posso emprestar meus filhos. - Como so eles?
       Ela parecia interessada. Era difcil acreditar que estava falando com uma atriz famosa, de sucesso. Era to real, to simples, e Oliver achou isso maravilhoso. 
Gostava de tudo que tinha visto at aquele momento. Quase esquecia a beleza dela que, de repente, parecia sem importncia. Charlotte tinha beleza interior, o que 
era muito melhor. Pensando nisso, respondeu  pergunta sobre seus filhos.
       - Mel  inteligente e responsvel e quer desesperadamente ser atriz. Pelo menos  o que ela pensa agora. S Deus sabe o que vai querer mais tarde. Mas quer 
se formar em arte dramtica. Est terminando o ginsio.  alta, loura e uma boa menina. Acho que voc vai gostar dela. - Falou como se estivesse certo de que iam 
se conhecer. Mas ento Oliver perguntou-se se no estava presumindo demais. Porm Charlotte ficou impassvel. - E Sam  um garotinho interessante, tem dez anos e 
 muito esperto. Todo mundo gosta dele. - Ento ele falou de Benjamin e do beb.
       - Parece uma viagem pesada e deve ser duro para ele. - Sim, . Benjamin est resolvido a fazer a coisa certa, nem que tenha de morrer por isso. Acho que no 
ama mais a moa, mas  louco pelo filho.
       - Ento, voc  av - disse ela, com uma expresso maliciosa nos olhos verdes. - No me disse isso quando nos conhecemos.
       Oliver riu.
       - Isso faz muita diferena?
       - Uma diferena tremenda. Espere at eu contar aos meus pais que sa com um av. Vo ficar imaginando o que estou arranjando.
       Ela parecia muito carinhosa com os pais, e Oliver falou ento de George e Margaret.
       - Eles devem vir em janeiro visitar os netos. Ela  a melhor coisa que podia ter acontecido para meu pai, embora eu no tenha pensado assim, a princpio. 
Foi um grande choque quando ele disse que ia se casar, logo depois da morte da minha me.
       -  engraado, no importa a nossa idade, para nossos pais somos sempre crianas. No acha?
       - Sim, acho. No comeo me ressenti muito contra ela. Mas papai tem direito  felicidade no fim da vida.
       - Ele pode viver muito mais. - Ela sorriu. - Espero que sim.
       - E espero ter oportunidade de conhec-los - disse Charlotte, com voz suave.
       Terminaram de jantar, conversaram mais um pouco enquanto tomavam caf, depois voltaram para o carro, e no caminho duas pessoas se aproximaram dela para pedir 
autgrafo.
       Charlotte aparentemente no se incomodava. Tratou-as com simpatia e delicadeza e parecia quase agradecida. Oliver comentou isso, e voltando para ele os grandes 
olhos verdes, ela disse, sria:
       - Na minha profisso, jamais devemos esquecer que so essas pessoas que fazem de ns o que somos. Sem elas, nada somos. Nunca me esqueo disso.
       O sucesso no a deslumbrava. Charlotte era extremamente modesta, quase humilde.
       - Muito obrigado por jantar comigo.
       - Eu gostei muito, Oliver. - Parecia sincera. Quando chegaram na casa de Oliver, em Bel Air, ele hesitou, sem saber se a convidava ou no para entrar. Finalmente 
resolveu, mas ela disse que estava realmente cansada. E ento, de repente, lembrou.
       - O que voc vai fazer nos feriados, sem os filhos? - No muita coisa. Tinha pensado em pr em dia o trabalho, no escritrio. Este vai ser meu primeiro Natal 
sem eles. - Eu em geral tambm vou para casa. Mas este ano no d. Gravarei um comercial na semana que vem, e quero estudar meus outros scripts. Temos um novo escritor. 
Gostaria de fazer alguma coisa no domingo?
       Domingo era vspera de Natal, e Oliver estava procurando no pensar muito nisso, mas o oferecimento era tentador demais para ser recusado.
       - Eu gostaria muito. Podemos jantar aqui.
       Agnes estava em casa, mesmo sem as crianas, mas Charlotte teve outra idia.
       - Que tal eu preparar um peru? De verdade? O que voc acha?
       - Acho timo.
       - Depois, podemos ir  igreja. E costumo visitar uns amigos no dia de Natal. Gostaria de ir comigo?
       - Charlotte, acho que seria muito bom. Mas tem certeza de que no prefere ir sozinha? No quero atrapalhar. Vou ficar bem. - Bem, mas muito s.
       - Mas eu no - disse ela, com um sorriso carinhoso. - Vou ficar muito desapontada se voc no for. O Natal  muito importante para mim e gosto de passar com 
pessoas que significam alguma coisa. No sou muito amiga de rvores falsas com enfeites prateados e toda essa bobagem, o tpico Natal de Hollywood.
       - Ento estarei l. A que horas?
       - Chegue s cinco. Podemos comer s sete e ir  igreja  meia-noite. - Escreveu o endereo para ele.
       Quando Oliver saiu do carro, ainda sem poder acreditar em tudo aquilo, ela agradeceu, acenou e partiu. Oliver ficou parado, vendo o carro vermelho descer 
a ladeira e desaparecer, perguntando a si mesmo se tinha acontecido. Tudo parecia um sonho. Mas o Natal com ela foi um sonho maravilhoso. Charlotte o esperava com 
um vestido branco longo. A casa estava esplendidamente decorada. Ficava em Hollywood Hills, na Spring Oak Drive, e parecia uma velha fazenda. Rindo, Charlotte disse 
que a fazia lembrar de Nebraska. O assoalho era rstico, o teto com vigas de madeira e as lareiras enormes, uma em cada extremidade da sala, e na frente delas, poltronas 
confortveis. 
       A cozinha era quase to grande quanto a sala, com outra lareira e uma mesinha posta para dois. A rvore de Natal cintilava num canto. No segundo andar ficavam 
dois belos quartos, um obviamente dela, todo em chintz rosa e estampado com flores. O outro era o quarto de hspedes, em amarelo vivo, onde ficavam os pais quando 
a visitavam, o que, segundo Charlotte, era muito raro. No chegava nem perto da sofisticao do apartamento de Megan, em Nova York, mas era muito mais acolhedor, 
e Oliver gostou muito. O vinho branco estava no gelo e o peru no forno. Charlotte tinha feito pur de castanha, batata-inglesa e batata-doce, ervilhas, gelia de 
arando e vrios recheios. Foi um verdadeiro banquete real, e Oliver lembrou-se dos Natais passados com Sarah e, antes disso, com os pais. Estava contando com um 
sanduche de pastrami e caf, no escritrio, ou uma parada no Hamburger Hamlet, a caminho de casa. Nunca poderia ter imaginado aquilo, nem estar com Charlotte Sampson. 
Era como se ela tivesse cado nos seus braos como uma ddiva dos cus. Quando se sentaram, Oliver ps um pequeno presente para ela sobre a mesa. Queria retribuir 
a gentileza do convite. Na vspera, havia passado pela Cartier e comprou uma pequena pulseira de ouro. Charlotte ficou profundamente comovida e embaraada por no 
ter comprado nada para ele. - Este  o meu presente, tolinha. Um jantar de Natal de contos de fadas.
       Charlotte ficou feliz por ele dar tanto valor ao jantar e conversaram e riram, e mais tarde, usando seu carto de crdito, Oliver telefonou para os filhos, 
na casa de Sarah. Era estranho falar com eles de to longe, no Natal, mas os dois pareciam satisfeitos. Oliver ouviu muito riso, muita alegria e o telefone passava 
de um para o outro e foi fcil at mesmo falar com Sarah. Oliver desejou felicidades a ela e desligou. Telefonou para George tambm. H muito tempo ele no parecia 
to feliz. Comentou isso com Charlotte. Era fcil falar com ela. A sobremesa foi torta de ma com creme e molho doce.
       - Ainda sente falta dela, Oliver? - perguntou Charlotte, quando terminavam o jantar, olhando a paisagem.
       Oliver balanou a cabea e disse com sinceridade:
       - No.  estranho at lembrar meu casamento com ela. Sarah parece uma estranha agora, e acho que  mesmo. Mas no comeo foi brutal. Pensei que no ia sobreviver. 
       Mas precisava, pelos meus filhos. Acho que resisti s por causa deles. Charlotte fez um gesto afirmativo, compreendendo e pensando que ele tinha sorte por 
ter os filhos.
       - Acho que jamais quisemos as mesmas coisas - continuou Oliver. - E tentei ignorar isso durante todos aqueles anos. Mas ela nunca esqueceu do que realmente 
desejava.
       -  engraado, mas esse tipo de persistncia s vezes  uma virtude, outras, um pecado, no  mesmo?
       - No caso dela, acho que o grande erro foi se casar, mas estou feliz por ter casado com ela, do contrrio no teramos esses filhos.
       - Eles so tudo para voc, no so, Oliver?
       - Sim, so - confessou ele -, talvez at demais. Neste ltimo ano no fiz muita coisa alm de cuidar deles. - Com exceo de Megan e aquilo foi uma aberrao 
momentnea, um ms de loucura completa, total e deliciosa.
       - Talvez voc precisasse de tempo para pensar, descobrir o que quer agora.
       - Acho que  isso. Creio que ainda no tenho a resposta, mas talvez no precise descobrir por enquanto. - Sorriu para ela.
       Charlotte serviu o caf delicioso e quente. Oliver pensou que ia explodir de tanto que tinha comido, mas essa era a finalidade dos jantares de Natal. Estava 
feliz, satisfeito e sentia- muito bem com aquela mulher. Charlotte parecia feita para ele, exceto pelo fato de ser Charlotte Sampson.
       - E voc? Sabe o que est procurando, Charlotte? 
       - Sabe, gostaria que me chamasse de Charlie - disse ela, com um largo sorriso. -  como todos meus amigos me chamam.
       Era maravilhoso ser considerado um amigo, e Oliver gostou da idia.
       - Sempre penso nisso no ltimo dia do ano... para onde estou indo, o que gostaria de estar fazendo. A mesma coisa, eu acho, desde que tudo funcione bem. - 
Os dois sabiam que ela falava do seu trabalho. - Quanto ao resto, o que vier, o que for mais certo. Tenho meus sonhos, como todo mundo, e muitos deles j se realizaram. 
       - Parecia contente com a vida que levava. No estava procurando, nem lutando, nem desejando muito mais do que tinha agora. - Eu gostaria de me casar e ter 
filhos algum dia, mas se no estiver nas cartas, tudo bem. No podemos lutar como loucos por coisas desse tipo, e elas s acontecem quando esto destinadas a acontecer. 
- Charlotte tinha uma estranha filosofia de vida e era maravilhosamente relaxante.
       Lavaram os pratos e s dez horas tomaram outra xcara de caf. Pouco antes da meia-noite ele a levou a Beverly Hills,  Igreja do Bom Pastor e assistiram 
 cerimnia da meia-noite, sentados muito juntos. Foi uma bela cerimnia, e no fim, com as luzes, as rvores e o incenso, todos cantaram canes de Natal. Era uma 
e meia quando saram da igreja, e ele a levou de volta a casa, dirigindo lentamente, sentindo-se feliz, aquecido e completo. Tanto que quase no sentiu falta dos 
filhos.
       Oliver ia apenas deix-la em casa, mas quando chegaram, Charlotte voltou-se para ele com um olhar estranho.
       - Sei que pode parecer esquisito, Oliver, mas  to triste entrar em casa sozinha na vspera de Natal. No quer passar a noite no meu quarto de hspedes?
       Conheciam-se h dois dias, haviam feito juntos a ceia de Natal, e agora ela o convidava para sua casa, como um hspede, no com o desejo ardente de Megan, 
mas com bondade, calor humano e respeito e, de repente, Oliver desejou aceitar o convite, mais do que tudo no mundo. Queria estar com ela, naquela noite, por uma 
semana, por um ano, talvez por uma vida inteira.
       - Eu gostaria muito, Charlie.
       Oliver a beijou, casta e delicadamente, e entraram na casa de mos dadas. Charlotte o levou at o quarto de hspedes. Tinha um banheiro s para ele, e Charlotte 
tinha roupas de dormir para os amigos. Ela providenciou tudo cuidadosamente, como uma me atenciosa, depois saiu com um sorriso e um "Feliz Natal". Oliver deitou-se 
e ficou acordado durante muito tempo, pensando nela, desejando estar com ela. Mas no era justo tirar vantagem da sua hospitalidade, e ele ficou ali deitado, como 
um garotinho que quer ir para a cama da me, mas no tem coragem.
       Oliver acordou sentindo o cheiro de panquecas e caf. Usou a escova de dentes nova que ela havia deixado, fez a barba e desceu, de roupo, curioso para ver 
o que ela estava fazendo.
       - Feliz Natal, Oliver! - disse Charlotte, quando ele entrou na cozinha.
       Dois minutos depois estava servido um lauto caf da manh, com todas as coisas, cujo cheiro ele havia sentido, mais bacon, ovos, suco de laranja feito na 
hora e caf.
       - Feliz Natal, Charlie. Se continuar me alimentando desse jeito, nunca mais vou sair daqui. Voc dirige um hotel, no uma casa.
       Ela riu.
       - Fico feliz por ter gostado, senhor.
       Ento, sem nenhum aviso, ele inclinou-se e beijou-a. Mas dessa vez foi um beijo muito mais ardente que o da noite anterior. E quando finalmente se separaram, 
os dois estavam sem flego.
       - Nossa, Oliver, um grande bom-dia!
       -  para combinar com o nvel da refeio matinal. Oliver comeu um pouco dos ovos e abraou-a outra vez, incapaz de ficar longe dela. Charlotte era boa demais 
para ser verdade, e Oliver temia que ela desaparecesse de repente se no a segurasse o tempo todo.
       - Seja um bom menino, Oliver - disse ela com um sorriso -, e tome o seu caf.
       - No sei o que quero mais. - Oliver sorriu como um garoto numa loja de brinquedos, no Natal. - Se este esplndido caf da manh, ou voc. No momento, voc 
est ganhando.
       - Comporte-se ou no vai ganhar nada de Papai Noel. Coma.
       - Sim, senhora.
       Na verdade, Oliver estava certo de que ela era seu presente de Papai Noel, e o chefe do estdio estava certo; sem maquiagem, o cabelo penteado para trs, 
o rosto lavado, Charlotte era encantadora.
       Quando acabaram de comer, ela saiu da cozinha e voltou com uma caixinha de veludo azul, que entregou a ele. Charlotte havia lembrado na noite anterior, quando 
saram da igreja, e agora observava Oliver enquanto ele abria o presente. Era um belo relgio de bolso antigo com as horas em algarismos romanos. Oliver ficou atnito.
       - Pertenceu ao meu av, Ollie... voc gosta?
       -  claro que gosto! Mas voc no pode me dar isto! Ela mal o conhecia. E se ele fosse um aventureiro, um patife, ou se ela nunca mais o visse? No parecia 
direito. 
       Oliver quis devolv-lo, mas Charlotte no aceitou.
       - Quero que fique com ele. Voc  um homem muito especial e este foi um Natal muito especial para mim. Como eu disse, costumo ir para casa todos os anos e 
este ano no pude. Eu no passaria o Natal com nenhuma das muitas pessoas que conheo, a no ser com voc... isso significa muito... portanto, isso  para voc... 
guarde sempre... e lembre-se deste Natal.
       Oliver sentiu que as lgrimas surgiam nos seus olhos e em vez de agradecer, puxou-a para ele e a beijou ternamente. Os lbios dela tinham sabor de suco de 
laranja, panqueca e salsicha, e ela cheirava a violeta e lavanda, e Oliver queria abra-la pelo resto da vida.
       - Estou louco por voc, Charlie - murmurou ele. - Acha que faz sentido, depois de trs dias?... perdo, quatro hoje. - Tinham-se conhecido na quinta-feira 
e estavam na segunda.
       - No - disse ela, suavemente - e me deixa morta de medo... mas sinto o mesmo e acho timo.
       - O que vamos fazer, agir como dois garotos doidos? Mal a conheo e estou me apaixonando por voc. E voc  uma estrela famosa de televiso. O que vai fazer 
comigo? O que est acontecendo?
       - No sei - disse ela, pensativa, quase triste -, mas trabalhar na televiso no tem nada a ver com isto. Tenho certeza. Acho que somos apenas duas pessoas 
que se conheceram na hora certa. Tivemos muita sorte.
       - Acha que  isso?
       Ou seria mais? Destino? Desejo ou solido? Independente do que fosse, achavam maravilhoso e pelo menos podiam falar a respeito, como seu pequeno segredo.
       - Quer ir at a minha casa, para eu trocar de roupa? - perguntou ele, com um sorriso.
       Charlotte concordou, feliz. Era dia de Natal, e mais tarde ia lev-lo para conhecer seus amigos. Depois ela faria o jantar para os dois. Queria que aquilo 
no acabasse nunca, nem mudasse. Oliver s queria estar com ela. Charlotte se vestiu e foram para a casa em Bel Air. Agnes estava de folga naquele fim de semana. 
Oliver mostrou a casa, os quartos dos filhos, milhares de fotografias trazidas de Nova York e durante horas, como duas crianas, eles viram todas, enquanto ele explicava 
quem eram e onde estavam.
       - Eles so muito bonitos, Oliver.
       - Voc tambm - murmurou ele, beijando-a. No sabia at quando ia se controlar. Desejava-a tanto, ela era to maravilhosa ali sentada ao seu lado, no sof. 
 Quer ir at a piscina?
       O dia estava lindo, quente e ensolarado, e talvez ele no a atacasse se fossem para fora. Oliver queria esperar at que ambos estivessem certos do que queriam. 
Deitaram-se  beira da piscina e conversaram por um longo tempo. Tinham tanto para dizer, tanto para saber, para explicar e para compreender!
       Naquela tarde, ele telefonou para Benjamin, e Charlotte o ouviu falar com o filho, com um sorriso terno. O beb estava bem. Sandra tinha sado. A casa estava 
em ordem. E eles tambm esperavam v-lo em breve e no havia nada errado.
       - Voc  louco por ele, no ? - comentou Charlotte quando ele desligou.
       - Sim, sou. - Oliver sorriu com tristeza. - S queria que ele se livrasse dessa encrenca e viesse morar aqui para eu tomar conta dele. E fazer com que ele 
volte a estudar. Est desperdiando a vida com aquela moa e, na sua idade, isso  um crime.
       - D-lhe uma chance. Com o tempo, ele mesmo resolve tudo.  o que sempre acontece. - E ento, como se s agora tivesse pensado nisso: - Voc acha que eles 
vo se casar?
       - Acho que no. - Ele a abraou, com um suspiro. Foram visitar os amigos de Charlotte. Eram ambos diretores, haviam feito trabalhos interessantes e tinham 
amigos muito simpticos. Havia gente muito conhecida, mas tambm muitos annimos, e todos simples e descontrados; ningum pareceu estranhar ao ver Charlotte com 
Oliver. 
       Ele sentiu-se muito  vontade e se divertiu muito. Ficaram mais tempo do que haviam planejado, e s nove horas, quando voltaram para Bel Air, resolveram entrar 
na piscina. No tinham jantado, mas no sentiam fome, depois do caf da manh reforado, o almoo e os salgadinhos da casa dos amigos de Charlotte. Oliver emprestou-lhe 
um biquni de Mel e entrou para vestir seu calo. Quando voltou, ela j estava na piscina nadando com braadas graciosas.
       - Voc nada muito bem. Tem alguma coisa que no sabe fazer?
       - Uma poro - disse ela, sorrindo. - Eu nado muito,  bom para manter a forma.
       Sem dvida, pensou Oliver. O corpo que ele viu quando ela subiu na prancha para um mergulho o surpreendeu. Era perfeito. Charlotte era uma mulher incrivelmente 
bela, na gua ou fora dela, de manh ou  noite, a qualquer hora do dia, em qualquer tempo, em qualquer lugar, e ele a queria agora, ali, na piscina, mas sabia que 
no podia fazer isso. Acabavam de se conhecer e, em muitas coisas, ela era do tipo antigo. Charlotte mergulhou e subiu  tona perto dele.
       - Quer apostar uma corrida?
       Charlotte queria brincar, e Oliver sorriu. Cem anos atrs, ele fora capito do time de natao na universidade, e ela no era preo para ele. Oliver venceu 
com facilidade, depois ergueu-a para a borda da piscina e a beijou.
       - Voc tambm no  nada mau.
       - A qual habilidade est se referindo, minha cara? - perguntou ele, brincando.
       - Para ser franca, s duas. - Ela mergulhou atrs dele e nadou por baixo d'gua, at o outro lado da piscina, como um peixinho.
       Oliver sentiu ento que no podia mais se controlar. Mergulhou tambm, segurou-a pela cintura e subiram juntos para respirar. Oliver a abraou e beijou outra 
vez.
       - Se quer saber a verdade, acho que no consigo me controlar mais. - Queria ser honesto com ela, desde o comeo. - Acho que no quero que se controle, Oliver. 
- Ento ela o beijou apaixonadamente.
       Oliver, dominado pelo desejo, despiu-a e passou as mos pela carne macia. Logo estavam respirando e se movendo em unssono. Charlotte abaixou o calo dele 
e o segurou com as duas mos.
       - Oh, meu bem... - gemeu Oliver. - Charlotte... eu a amo. - Logo ficou embaraado por ter dito isso, mas era verdade. Amava o modo que ela pensava, o que 
ela sentia e a sensao do seu corpo. Seus dedos penetraram nela e depois nadaram lentamente at os degraus da piscina, famintos de desejo. Ele a fez deitar, e enquanto 
Charlotte o beijava, Oliver a penetrou e ela arqueou as costas e comeou a se mover com ele, rodeados pela gua morna. Aquilo pareceu durar uma eternidade, suave, 
belo, como dois corpos unidos pelo tempo e pelo espao, suspensos. Finalmente Oliver estremeceu e explodiram juntos no auge do prazer. Charlotte abriu os olhos, 
beijou-o outra vez, e disse tudo que ele queria ouvir desde o momento em que se conheceram, e por mais louco que parecesse, ele sabia que era verdade para os dois.
       - Ollie - murmurou ela, no ar da noite -, eu amo voc. Ele a enrolou carinhosamente na toalha, e a levou para o quarto. E deitados na cama dele, murmurando 
noite adentro, rindo como duas crianas, compartilharam segredos e sonhos. E quando fizeram amor outra vez, convenceram-se de que era a coisa certa. Pela primeira 
vez em suas vidas estavam ambos onde queriam estar, com a pessoa certa, na hora certa, exatamente no modo certo.
       -  como um sonho, no acha? - murmurou ela, antes de adormecerem como duas crianas felizes.
       - Feliz Natal, Charlie - murmurou ele, com o brao envolvendo-a pela cintura, e beijou de leve seu pescoo. Era o nico Natal para eles, o nico que queriam 
e sempre iam querer. Se era um sonho, Oliver no desejava acordar nunca mais.
       
Captulo 22
       
       Mel e Sam voltaram depois de duas semanas em Boston, e Oliver foi apanh-los no aeroporto, sentindo-se feliz e relaxado, aquecido por seu amor por Charlotte. 
Sentira falta deles, como sempre sentia, mas agora tinha sua prpria vida, e os dias voaram, como num passe de mgica. Mas se sentia tambm nervoso, imaginando se 
eles iam gostar de Charlotte. J tinha experimentado o fim de um romance, porque Megan no procurou cativ-los. No gostava nem de pensar no dia em que apresentara 
Megan aos dois. Mas seu caso com Charlotte era completamente diferente. Ela era gentil, tinha muito calor humano, era boa e uma tima companhia. Importava-se com 
o que ele sentia e, ao contrrio de Megan, estava ansiosa para conhecer seus filhos e fazer amizade com eles. Sam pulou nos braos dele, logo que desceu do avio, 
e Mel vinha logo atrs, com um largo sorriso e o rosto bronzeado de sol da montanha. Tinham esquiado em New Hampshire no fim de semana do Ano-Novo.
       - Puxa, vocs esto formidveis!
       Tinham-se divertido muito e no carro, a caminho de casa, Melissa disse que a me estava se refazendo lentamente da perda de Jean-Pierre. Sarah estava trabalhando 
assiduamente no seu livro que pretendia dedicar a Jean-Pierre. Oliver no perguntou se havia outra pessoa na vida dela. No queria saber. Isso agora era problema 
de Sarah, no dele.
       - Ento, papai - disse Sam, encostando-se carinhosamente em Oliver. - Sentiu muito a nossa falta?
       - Est brincando, campeo? A casa parecia um tmulo sem vocs dois.
       Mas nem sempre, pensou, com um sorriso, s vezes Charlotte estava l.
       - Fica muito solitrio sem vocs. - Sorriu para Mel, por cima da cabea de Sam, e notou o quanto ela estava crescida. Nos ltimos meses, Melissa havia adquirido 
certa pose, e depois de duas semanas sem v-la, Oliver notava outras mudanas.
       - Como vai o Andy? - perguntou Sam.
       - Desordeiro como sempre - disse Oliver, sorrindo. - Ele andou em cima do sof branco, depois de nadar na piscina. Aggie foi para cima dele com uma vassoura, 
e no sei quem venceu. Depois disso, ele mastigou as cortinas dela. - Eles riram, e Oliver disse, procurando falar com naturalidade: - Convidei uma amiga para jantar 
hoje, s uma conhecida. - Sabia que no estava enganando ningum. Seus filhos eram espertos. - Achei que vocs iam gostar de conhec-la.
       - Algum especial, papai? - perguntou Mel, com um sorriso curioso e uma sobrancelha erguida.
       Isso era tambm uma coisa nova. Seis meses atrs ela estaria preparada para odiar qualquer mulher que estivesse interessada no pai. Mas as coisas tinham mudado 
de repente. Mel estava crescendo, ia fazer 17 anos. Estava interessada num garoto da escola e, depois do vero passado com a me e Jean-Pierre, compreendeu que os 
pais jamais voltariam a viver juntos. Para Sam era um pouco mais difcil aceitar isso, mas ele era ainda inocente e no percebeu a tenso na voz do pai. - S uma 
amiga.
       Mel insistiu.
       - Quem  ela?
       - O nome dela  Charlie... Charlotte, na verdade, e ela  de Nebraska.
       No sabia o que mais podia dizer e no quis dar a impresso de estar se promovendo, contando que ela era uma famosa atriz da televiso. De qualquer modo, 
eles iam descobrir. Como Aggie tinha descoberto. Seu queixo caiu de espanto quando ela viu Charlotte. Mas as duas logo fizeram amizade e, a pedido de Aggie, Charlie 
deu a ela fotografias autografadas para suas amigas e pequenas lembranas do programa. Quando as crianas voltaram, Charlie tinha a completa aprovao de Aggie.
       Oliver parou o carro na frente da casa, onde Aggie os esperava para abra-los e oferecer os biscoitos que tinha feito. Andy ficou doido quando os viu. S 
iam jantar dentro de duas horas, e Sam insistiu em tomar um banho de piscina antes. Estava ansioso para chegar  Califrnia e entrar na piscina, depois de duas semanas 
no leste gelado. Disse que nunca havia sentido tanto frio na vida quanto naquelas duas semanas em Boston.
       Mel, antes mesmo de desfazer as malas, foi para o telefone, a fim de saber o que as amigas tinham feito e o que ela havia perdido. Era evidente que estavam 
felizes por voltar para casa, e Oliver ficou satisfeito. Sentia apenas que no tivessem oportunidade de ver Benjamin, que voltara a trabalhar em dois empregos, e 
ele e Sandra estavam muito ocupados com o beb. No carro, Oliver perguntou a Mel e ela disse que Benjamin parecia muito deprimido, ao telefone, mas talvez estivesse 
apenas cansado. 
       Era mais de meia-noite, Sandra no estava em casa e Benjamin estava tomando conta do filho nas duas vezes que ela falou com ele.
       s sete horas em ponto, Oliver, que esperava nervosamente na sala, ouvindo os sons familiares dos filhos, viu o Mercedes vermelho parar na frente da casa. 
Com o corao disparado, teve vontade de correr para Charlie e beij-la. Mas se controlou e a viu descer do carro. S ento foi abrir a porta, procurando aparentar 
calma, imaginando se os filhos estavam observando os dois.
       - Oi, amor - murmurou ele, beijando-a rapidamente no pescoo, depois no rosto. - Senti falta de voc.
       Era como se no se vissem h dias, quando na verdade tinham estado juntos naquela manh.
       - Tambm senti saudades - murmurou ela, como uma conspiradora. - Como esto eles?
       - timos. Divertiram-se muito, mas parecem satisfeitos por estar em casa. Falei a seu respeito na volta do aeroporto e, por enquanto, tudo bem.
       Era pior do que apresentar uma namorada  prpria me, mas ele sabia como crianas podiam ser crticas, especialmente seus filhos. Charlotte tambm estava 
nervosa. Pareciam dois garotos desajeitados quando entraram e sentaram-se um em cada extremidade da sala. Mas no enganavam ningum. O olhar que trocaram era de 
pura adorao. Nas ltimas duas semanas haviam descoberto uma coisa rara e preciosa, e ambos sabiam disso. Charlotte sabia tambm que era algo que devia ser compartilhado.
       Ento Oliver se levantou e subiu para chamar os filhos, enquanto Charlotte andava pela sala, tocando nas coisas, olhando sem ver para os quadros e para o 
espao vazio. E se eles a detestassem, se a menina fosse uma peste, e seu amado Sam um monstrinho? Mas antes que ela tivesse tempo de dar meia-volta e fugir, o cachorro 
entrou na sala, acompanhado por Sam, depois Mel e Oliver. Foi um ataque em massa, e de repente a sala se encheu de barulho, de conversa e de riso. Quando a viram, 
ficaram quietos.
       Oliver adiantou-se e fez as apresentaes. Mel apertou a mo dela com olhar avaliador e aparentemente aprovou o que viu. Na verdade, ficou impressionada. 
Sam a observava com os olhos semicerrados, como quem procura se lembrar de alguma coisa, mas no tem certeza do qu. Sim, ela era bonita. Charlotte tinha escolhido 
uma saia azul-marinho discreta, meias azul-escuro e sapatos baixos azul-marinho, uma suter branca de gola alta e um blazer. Estava menos maquilada do que Mel, o 
que no era quase nada, e o cabelo num rabo-de-cavalo. A primeira coisa que Mel notou foi a cor do cabelo dela, exatamente igual ao de Benjamin.
       -  um prazer conhecer vocs dois - disse ela, com um sorriso. - Seu pai me falou muito de vocs.
       - Foi mesmo? O que, por exemplo - perguntou Sam, com um sorriso largo e simptico. Ela era engraadinha e ele resolveu que ia gostar. - Contou a minha experincia 
de cincias? - Ele se orgulhava muito desse trabalho, e Mel gemeu, s de lembrar.
       - No, por favor, voc no vai contar isso. - Ela adivinhou exatamente o que ia acontecer.
       - Voc quer ver? - Sam sorriu feliz, e antes que Charlotte pudesse dizer qualquer coisa, Mel ergueu a mo.
       - Oua o meu conselho e diga que no. Ele fez uma criao de vermes.  simplesmente nojento.
       Ela e Aggie obrigaram Sara a deixar a experincia na garagem, e ele estava ansioso tanto para se mostrar quanto para testar a amiga do pai.
       - Fiz isso uma vez - disse Charlotte -, mas minha me jogou fora. Eu tinha cobras, ratos brancos... e... uma cobaia. Voc j teve uma cobaia, Sam?
       Ele balanou a cabea, realmente impressionado. Ela era mesmo das boas.
       - Elas so fantsticas - continuou Charlotte. - A minha tinha plo comprido. Parecia uma mistura de cachorro com coelho.
       - Puxa, devia ser formidvel - voltou-se para Oliver, com os olhos muito abertos. - Papai, posso ter uma?
       - Acho melhor perguntar para Aggie primeiro. Provavelmente ela  quem vai ter de tratar da sua cobaia. Agnes avisou que o jantar estava servido. Sentaram-se 
 mesa, e Charlotte estendeu o guardanapo no colo, com um gesto elegante, sentindo o olhar de Mel no seu cabelo e nas suas unhas perfeitamente manicuradas.
       Comeram hambrgueres e batatas fritas, a refeio favorita de Sam, alm de uma grande salada verde e pezinhos feitos em casa. Oliver lembrou-se das refeies 
simples que ha viam preparado na cozinha de Charlotte. Compreendeu que ia sentir falta daqueles momentos a ss com ela, e prometeu a si mesmo que passariam juntos 
todo o tempo que fosse possvel, mesmo com as crianas em casa. Tinha direito a isso, e eles teriam de se acostumar. Ento, de repente, no meio do jantar, Sam deu 
um grito e olhou para Charlotte. Com a boca muito aberta e os olhos arregalados, ele balanou a cabea... no podia ser... no era ela... ou era...
       - Voc ... alguma vez voc... - Ele no sabia como perguntar, e Charlotte riu.
       Tinha imaginado que eles iam reconhec-la, mas pensou que seria Mel, no Sam.
       - Acho que sou, Sam - disse ela, com um sorriso divertido -, se est querendo saber o que penso que .
       - Voc trabalha na televiso! Puxa!...  voc, no ? Quero dizer...
       - Sim, isso mesmo. - Charlotte olhou para os dois, um tanto constrangida e com ar de quem se desculpa.
       - Por que no disse? - Sam parecia quase ofendido, e Mel estava confusa. Ela tinha a impresso de conhecer Charlotte, mas no sabia de onde e no queria perguntar. 
       Devia saber, e no sabia. Sentia-se uma tola.
       - No me pareceu muito importante, Sam. - E a beleza de tudo aquilo era o fato de estar sendo sincera.
       - Voc disse que teve uma cobaia! Por que no disse que tem um programa na televiso?
       Todos riram da sua lgica. Charlotte balanou a cabea. - No  exatamente a mesma coisa.
       E ento, Mel se lembrou e arregalou os olhos. - Oh, meu Deus! Voc  Charlotte Sampson!
       - Sim, eu sou - disse ela, enquanto Aggie passava mais pezinhos deliciosos, olhando para ela com orgulho. Era como se ela e Charlie fossem velhas amigas. 
Charlotte olhou para Aggie e murmurou, tirando um pozinho da cesta: - Obrigada, Aggie.
       - Por que no nos contou? - Foi a vez de Mel perguntar.
       Charlotte olhou sria para ela.
       - Iam gostar mais de mim por isso? No deviam, voc sabe.  uma coisa agradvel, mas no to importante.
       - Eu sei, mas... - Imagine quando contasse s amigas que tinha jantado com Charlotte Sampson. Muitas delas conheciam atores famosos, em Los Angeles, algumas 
eram at parentes deles, mas para Melissa era a primeira vez, e ela olhou para Charlotte, achando que ela era fantstica.
       Oliver tambm achava. Via com satisfao o modo com que ela estava tratando seus filhos, e amava tudo que ela dizia, seu rosto, os valores que faziam dela 
pelo que ela era, no apenas uma atriz famosa.
       - Puxa!  formidvel conhecer voc - disse Mel, com sinceridade.
       Charlotte riu. Para ela, era um elogio muito valioso, porque vinha da filha de Oliver.
       - Muito obrigada, Mel.  formidvel conhecer vocs tambm. Eu estava to nervosa! Acho que troquei de roupa umas dez vezes!
       Oliver ficou comovido, e Mel atnita.
       - Voc? Nervosa porque ia nos conhecer! Isso  fantstico! Como  trabalhar na televiso?
       Depois disso, fizeram centenas de perguntas, quem ela conhecia, quem ela j havia visto, com quem ela trabalhava, como era aparecer na televiso, decorar 
os papis, se ela ficava com medo, se gostava desse trabalho.
       - Ei, pessoal, calma. - Oliver finalmente resolveu intervir. - Deixem Charlie jantar, pelo menos.
       No tinham dado trgua desde que descobriram quem ela era, e, no silncio que se seguiu, Mel perguntou:
       - Como foi que voc conheceu nosso pai? - Estava curiosa, no mais crtica, e Charlie sorriu com ternura.
       - Apenas sorte minha, eu acho. H algumas semanas, numa festa de Natal da emissora.
       Ento Oliver achou que estava na hora de contar a verdade, ou pelo menos uma parte dela. Os dois estavam prontos para ouvir.
       - Charlie fez a gentileza de me convidar para jantar na vspera de Natal.
       No contou que tinha passado a noite na casa dela, nem que tinham feito amor na piscina no dia de Natal, nem que ficara loucamente apaixonado por ela logo 
que se conhece ram, mas Mel sentia, e at Sam suspeitava que era algo srio. Eles se olhavam de modo esquisito, mais do que mame e Jean-Pierre. Mas para ele, tudo 
bem, pensou, Charlotte Sampson era fantstica.
       Quando terminaram a sobremesa, Sam a convidou outra vez para ver sua experincia na garagem e, para horror de Mel, ela foi. Voltou dizendo que era muito melhor 
do que a sua. Sam disse, com orgulho, que havia ganho o prmio de cincias. Mel disse outra vez que era nojento.
       s nove horas, Sam foi para a cama, e Mel ficou conversando sobre scripts, agentes e a arte de representar. Charlotte disse que sempre desejou representar 
na Broadway. 
       Finalmente, consultou o relgio e, com pena, disse que tinha de estar no estdio s quatro da manh no dia seguinte para fazer uma cena difcil que ainda 
precisava rever quando chegasse em casa. -  um trabalho muito rduo, Mel, quando se pretende fazer carreira no teatro. Mas confesso que adoro.
       - Ser que posso ir ver voc no set, algum dia? - perguntou Mel, espantada com a prpria coragem. Mas Charlie deixava todos to  vontade que era quase como 
pedir a uma velha amiga. Charlotte fez um gesto afirmativo.
       - Claro, se seu pai no se importar. Duas semanas atrs ele me viu fazer um comercial e foi divertido. - Sorriu timidamente para Oliver.
       Ele tocou-lhe a mo que Mel no podia ver. Mel estava muito impressionada para perceber a eletricidade entre os dois. - Puxa, papai, como foi?
       - Interessante. Exaustivo. - Olhou para Charlie. - Quantas tomadas eles fizeram ao todo?
       - Trinta e duas, eu acho. Talvez mais, no me lembro. - O ator estava sempre errando as falas e tiveram de fazer vrias tomadas - explicou Oliver para a filha. 
-  Mas assim mesmo gostei de assistir.  incrvel o nmero de pessoas envolvidas.
       - Deviam ver o que acontece quando fazemos o programa, e por falar nisso...
       Charlotte caminhou lentamente para a porta e acenou um boa-noite para Mel, que subiu correndo a fim de telefonar para as amigas. Oliver acompanhou-a at o 
carro, com um olhar de extrema admirao.
       - Voc  mesmo incrvel, sabia? Criao de vermes, paciente com meninas adolescentes, h mais alguma coisa a seu respeito que devo saber?
       - Sim, h. - Ergueu os olhos para ele, com uma expresso feliz. Foi uma noite maravilhosa e todos seus temores desapareceram. Esperava que Mel e Sam tivessem 
gostado dela. - Eu o amo muito, Oliver Watson.
       - Eu tambm a amo, Charlie - murmurou ele, beijando-a.
       Na janela do quarto, Sam viu a cena, espantado, e voltou-se para Aggie, que estava abrindo as cobertas da sua cama. - Puxa, Aggie! Papai acaba de beijar Charlotte 
Sampson!
       Era mesmo formidvel, mas Aggie apenas riu.
       - Trate da sua vida, garoto, e v escovar os dentes! 
       - Voc acha que ela gosta mesmo dele?
       - Desconfio que sim. Seu pai  um bom homem, quem no ia gostar?
       - Mas ela  uma estrela de cinema, Aggie... ou da televiso, ou... voc sabe...
       - Que diferena faz?
       Quando ele foi escovar os dentes, balanando a cabea, Aggie pensou que os dois tinham muita sorte, e os filhos dele tambm.
       
Captulo 23
       
       Naquele fim de semana, Charlotte estacionou o carro na frente da casa em Bel Air e tocou a campainha, com ar solene. Quando Sam abriu a porta, satisfeito 
por v-la outra vez, ela lhe entregou uma gaiola coberta com um cobertor azul-claro. Do interior da gaiola vinham rudos estranhos e agudos e um cheiro forte que 
no o incomodou. 
       Sam tirou a coberta da gaiola e soltou um grito de satisfao. Era uma cobaia de plo longo. Charlotte tinha razo, parecia uma mistura de cachorro com coelho.
       - Puxa! Puxa!... veja isto, papai. - Oliver descia a escada, barbeado e de banho tomado. - Posso ficar com ela? - Olhou para Oliver e para Charlotte com ar 
suplicante.
       - Acho que pode. - Oliver sorriu carinhosamente para ela. Charlotte fazia tudo para v-los felizes.
       - Posso guardar no meu quarto? - Se voc agentar o cheiro, pode.
       Oliver e Charlotte riram, e Sam, tirando a gaiola das mos dela, subiu correndo a escada, antes que um deles mudasse de idia.
       Naquela tarde foram  praia de Malibu, e  noite, ao cinema ver um filme de horror, escolhido por Mel. Charlie disse que o filme a fazia lembrar alguns dos 
seus primeiros trabalhos. Depois do cinema foram ao Hard Rock Caf e ningum se incomodou com o barulho. Na semana seguinte foram  Disneylndia. Com ela, a vida 
era uma festa constante.
       Charlotte inventava coisas, descobria programas interessantes e at preparou um jantar em sua casa para eles. Sam admitiu que Agnes cozinhava melhor, mas 
que, em tudo mais, ele preferia Charlie. A cobaia chamava-se Charles, e o apelido era Charlie, em homenagem a ela. Mel j havia contado para todo mundo que seu pai 
estava saindo com Charlotte Sampson.
       Os dois gostavam dela e no faziam nenhuma objeo quando o pai saa  noite, durante a semana, o que era raro porque Charlotte trabalhava muito e precisava 
sempre estar cedo no set. Duas vezes ela dormiu no quarto de hspedes da casa em Bel Air. Fazia questo de um comportamento discreto e decoroso na frente das crianas. 
       Assim, nenhum dos dois sabia que tarde da noite, seu pai, atravessando o corredor, p ante p, tinha entrado no quarto dela e deitado ao seu lado, enquanto 
Charlotte, rindo, pedia para ele no fazer barulho.
       Era um arranjo perfeito para todos George e Margaret visitaram-nos, um ms depois da chegada de Sam e Mel de Boston, e tambm gostaram dela. A princpio ficaram 
muito impressionados por conhec-la pessoalmente. Mas logo esqueceram que ela era famosa. Charlotte era to simples, to discreta, to cheia de calor, to boa que 
as pessoas se apaixonavam pela mulher e no pela estrela de televiso. Como ela havia dito para Mel, seu sucesso era agradvel, mas no representava a coisa mais 
importante em sua vida. O que realmente importava eram as pessoas que ela amava.
       Mas no podiam esquecer que ela era famosa porque, em todo lugar, as pessoas pediam autgrafos, ou aproximavam-se nos momentos mais imprprios, perguntando 
se era ela mesmo... dizendo o quanto gostavam do seu programa... perguntando quem eram Mel e Sam... Isso s vezes os aborrecia, e Oliver tentava no pensar muito 
no assunto. 
       Mas Charlie era sempre delicada com seus fs, paciente, compreensiva, dando a impresso de que esperava por eles para uma longa conversa e que estava feliz 
com sua presena. s vezes Mel perguntava como ela podia suportar aquilo sem perder a pacincia.
       - Faz parte do trabalho. Aceitamos isso quando entramos para a profisso, do contrrio, nunca se consegue muita coisa. Fazemos isto tanto para ns quanto 
para o pblico. E no dia que deixamos de nos importar com ele, nosso desempenho deixa de ter valor.
       George, especialmente, a achou encantadora, a mulher mais bonita que j havia visto e torcia para que o filho se casasse com ela. Antes de partir, ele perguntou 
se Oliver j a havia pedido em casamento.
       - Ora, papai. Ns nos conhecemos h menos de dois meses. No me apresse. Alm disso, ela tem de pensar na carreira. No sei se quer se prender a um simples 
mortal com um bando de filhos.
       Charlotte j havia dito que queria, mas Oliver tinha medo de falar em casamento.
       - Acho que ela quer. Seus valores so honestos e decentes.
       - Eu sei, mas Charlotte pode ter quem ela quiser em Hollywood. D-nos mais algum tempo. - Oliver ainda no podia acreditar na sua boa sorte, nem Charlie.
       Certa noite, depois que George e Margaret voltaram para Nova York, Benjamin telefonou. Ele chorava tanto que Oliver mal podia entender o que dizia.
       - Calma, meu filho, fale devagar... isso... respire fundo. - Olhou para Charlie, preocupado, temendo um acidente. Fazia semanas que no tinha notcias do 
filho, e ningum atendia quando telefonava. Havia pedido a George para ir at Purchase a fim de ver se tudo estava bem. - Benjamin, fale comigo, o que h? - Tudo 
que ouvia era o choro do filho.
       - Eu no agento mais, papai... no agento mais... eu a odeio...
       - O que aconteceu?
       - Nada. S estou cansado... no fao outra coisa seno trabalhar para ela e para o beb... Sandra deixou o emprego e pensou que engravidara outra vez, mas 
no estava. 
       - E dessa vez, o filho no seria dele. Havia dois meses que Benjamin nem tocava nela. - Ela est saindo com Billy Webb e Johnny Pierson... eu no sei, papai... 
ela nunca est em casa. s vezes tenho de levar o beb comigo para o trabalho. Eu amo Alex. No quero deix-lo... mas no posso... - Comeou a chorar outra vez - 
...no posso continuar assim... simplesmente no posso. Na semana passada pensei em me matar. Fiquei sentado na garagem durante uma hora, tomando coragem para ligar 
o motor do carro, mas no consegui. Eu s pensava em Alex e no que aconteceria com ele se ficasse com Sandra. Ela no se importa a mnima com ele, papai. s vezes 
esquece de aliment-lo o dia inteiro, e quando chego em casa, ele est chorando desesperadamente de fome. No outro dia, ele quase caiu na piscina quando o deixei 
com ela por alguns minutos. Papai... me ajude, por favor... livre-me disto.
       Os soluos pareciam nunca mais acabar, mas quando Oliver sugeriu que ele fosse para a Califrnia o mais depressa possvel, Benjamin disse que no podia deixar 
o filho. Ele o amava muito e sabia que Sandra no ia tomar conta dele.
       - Por que no traz Alex tambm?
       - Ela diz que no vai permitir. Eu disse que ia lev-lo comigo, e ela ameaou chamar a polcia. Diz que no tenho nenhum direito, que ela  a me. Se eu o 
tirar, todos vo pensar que ela fez alguma coisa errada e no fica bem para ela. Mas tambm no quer tomar conta dele.
       - E a me de Sandra? Acha que ela poderia ajudar? - No sei. O namorado abandonou-a, e ela est morando em Bakersfield agora.
       - Tem o telefone dela?
       - Tenho. Sandra anotou-o na parede da cozinha. - Benjamin no estava mais chorando. Tinha 18 anos e cambaleava sob um peso enorme e injusto. - Sabe, desde 
ontem de manh que ela no vem para casa. Logo depois que Alex nasceu, ela comeou a transar com todo mundo. - Alex estava agora com cinco meses e meio. - Papai, 
tentei fazer com que isto desse certo, tentei mesmo, mas no posso mais... - e ento, falou, meio envergonhado: - Eu a odeio.
       Oliver no o culpava por isso e pensou que, no lugar de Benjamin, talvez a tivesse matado, ou pelo menos a abandonado, logo no incio. Mas Benjamin estava 
to resolvido a fazer a coisa certa, por ela e pelo filho. Ainda bem que no estavam casados. Pelo menos isso simplificava as coisas. - Procure se acalmar. Por que 
no passa o fim de semana na casa do seu av?
       - O que vou fazer com Alex? - De repente, Benjamin parecia uma criana confusa e desamparada. Depois de trabalhar em dois empregos e sustentar uma mulher 
com quem no era casado, por quase um ano, e de tomar conta de uma criana durante seis meses, ele estava exausto e mal conseguia pensar.
       - Leve-o com voc. Margaret pode ajud-lo, ela foi enfermeira. Arrume suas coisas e saia da. Vou telefonar para eles, avisando. Agora, d-me o nmero do 
telefone da me de Sandra.
       Benjamin deu o nmero e desligou, depois de prometer que ia para a casa do av, naquela mesma noite, com Alex. Oliver telefonou para George e explicou a situao. 
       Enquanto ele falava, o pai repetia suas palavras para Margaret e garantiu que iam fazer o possvel para ajudar o neto.
       - Voc tem de tir-lo dessa situao, Oliver.
       - Vou fazer o possvel. - No contou que Benjamin tinha pensado em suicdio. Estava ainda chocado com a idia. Mas contou para Charlotte, e ela ficou horrorizada.
       - Oh, meu Deus, Ollie, tire seu filho de l imediatamente. Por que no toma um avio e vai busc-los?
       - Quero falar primeiro com a me da moa, para ver se ela concorda em ficar com Sandra e com o beb. Ligou para Bakersfield, e a mulher atendeu ao primeiro 
toque. 
       Parecia bbada e mais do que burra, mas sabia quem estava falando e tambm sobre Sandra, Benjamin e o beb. Oliver explicou pacientemente que ele e Benjamin 
achavam que estava na hora de pensar em outros planos. Perguntou se ela estaria disposta a ficar com Sandra e o beb. Depois de alguns rodeios, ela finalmente perguntou 
a nica coisa que a interessava.
       - Voc pagaria o sustento da criana? E de Sandra tambm?
       - Talvez. - Oliver estava disposto a tudo para tirar Sandra da vida de Benjamin, mas no disse isso, para que ela no fizesse maiores exigncias. - Depende 
de quanto estamos falando. E naturalmente Sandra ter de se sustentar tambm, a no ser que volte a estudar,  claro. Mas a mulher no parecia interessada nos estudos 
da filha. - De que quantia estamos falando?
       - Digamos, quinhentos por ms para ela e para a criana. - No era uma fortuna, mas o suficiente, se ela estivesse morando com a me.
       - Acho que est bem. - Ela queria garantir o dinheiro, antes que ele mudasse de idia. No iam precisar de muito dinheiro para o beb, pensou. Ele no comia 
tanto assim, e ela e Sandra podiam aproveitar bem o resto.
       - Estaria disposta a assinar um acordo, aceitando essa quantia?
       -  claro que sim.
       - Quando acha que pode receber os dois?
       - No sei. No momento no estou trabalhando. Acho que posso ajudar com o beb... - Sua voz pareceu se esvair no outro lado da linha. No a agradava muito 
a idia de to mar conta de uma criana, nem de se responsabilizar por Sandra outra vez, porm o dinheiro era muito tentador, e talvez pudesse fazer coisa melhor. 
- Pensando bem, que tal setecentos dlares?
       - Seiscentos - disse Oliver, enojado. Detestava estar fazendo aquele tipo de acordo com ela e estremecia s em pensar que Benjamin estava vivendo com a filha 
daquela mulher. - Tudo bem, eu aceito.
       - Sandra e o beb tomaro um avio para Bakersfield amanh mesmo.
       Depois disso, ele telefonou para Margaret e perguntou se ela podia ir a Purchase para ajudar Sandra a arrumar as malas e tomar o avio, com o beb, e se eles 
ficariam com Benjamin naquele fim de semana. Queria que ele se acalmasse um pouco e no precisasse viajar no mesmo avio para Los Angeles.
       Margaret foi um anjo de misericrdia para ele e concordou imediatamente. No parecia nervosa, nem confusa, mas perfeitamente calma e ansiosa para ajudar na 
medida do possvel, sem perturbar o marido. Oliver agradeceu do fundo do corao, e Margaret ofereceu-se para fechar a casa em Purchase, depois que Benjamin fosse 
embora, ligar o alarme e tomar conta de tudo. Oliver no queria vender a casa enquanto no tivesse certeza de que iam ficar na Califrnia. Era a sua retaguarda, 
por isso tinha apenas alugado a casa em Bel Air.
       Ento, telefonou para Benjamin que, aparentemente, estava esperando, ao lado do telefone.
       - Tudo est providenciado, meu filho. Falei com a me de Sandra e ela concordou em ficar com eles. - Tentou parecer mais otimista do que se sentia e explicou 
que eles se encarregariam do sustento de Alex, portanto ele no precisava se preocupar com isso. - Amanh uma passagem paga os espera no aeroporto, e Margaret vai 
a Purchase para ajudar Sandra a fazer as malas e levar voc para a casa do seu av. Achei que voc podia passar uns dois dias com eles e depois vir para c.
       E ento, Benjamin estaria em casa. Depois de todo aquele tempo, de volta a casa para comear uma nova vida ou continuar com a que havia interrompido. Oliver 
sabia que nunca mais ia ser o mesmo para ele, no podia apagar o que tinha acontecido, nem esquecer o filho, mas tinha o direito de seguir em frente e no se enterrar 
vivo com uma mulher que no amava e um filho que na verdade nunca havia desejado. J tinha sido nobre demais e agora abria uma nova porta, e Oliver ia tir-lo daquela 
confuso o mais depressa possvel, antes que ele mudasse de idia. A princpio, Benjamin no queria deixar que Sandra ficasse com o beb. Mas estava cansado e deprimido 
demais para lutar. Alm disso, o pai garantia que a me de Sandra ia cuidar de Alex. Benjamin concordou com tudo como se estivesse num transe e, depois de alguns 
momentos de silncio, agradeceu com voz triste.
       - Vou sentir muita falta de Alex. Ele est to engraadinho agora, papai. J est engatinhando. Eu no sei... - Hesitou outra vez. - Talvez esta no seja 
a melhor soluo. - Mas uma parte dele queria se livrar das responsabilidades. Os ltimos meses haviam sido um verdadeiro pesadelo.
       - Voc est fazendo a coisa certa - garantiu Oliver -, e pode visitar Alex em Bakersfield. Fica a duas horas daqui.  a melhor coisa que podia acontecer para 
vocs trs. No pode continuar essa luta. Fez um belo trabalho at agora, e me orgulho de voc. Mas tem de pensar na sua vida tambm. Na sua idade, sem um diploma 
de ginsio pelo menos, no pode oferecer muita coisa para seu filho.
       - Eu sei. - E ento, em tom preocupado: - A me de Sandra disse mesmo que vai ajudar a tomar conta de Alex? No confio nela.
       - Disse que vai e que no est trabalhando. Agora, procure dormir um pouco. - Oliver ouviu o choro do beb no outro lado da linha. Benjamin ia esperar que 
Sandra voltasse para casa, e Margaret estaria l na manh seguinte. - Falo com voc amanh  noite, na casa do seu av.
       Quando Oliver telefonou, no dia seguinte, Margaret disse que Benjamin estava dormindo. Ele ficou inconsolvel quando Sandra partiu com o beb. Insistiu em 
limpar a casa de Purchase e quando chegou na casa do av, estava exausto, fsica e emocionalmente. A separao dos dois fora amarga e ruidosa. Margaret o levou para 
a cama, como se fosse uma criana, antes mesmo do jantar. Ela disse que ele poderia ficar mais alguns dias, mas Oliver queria que ele fosse para a Califrnia logo 
que estivesse bem para viajar. Benjamin precisava sair de Nova York e pr muitos quilmetros entre ele e o pesadelo daquele ltimo ano.
       - Ele  um bom menino, Oliver. Deve se orgulhar do seu filho. Foi um homem at o fim. E ficou inconsolvel por ter de se separar do filho.
       - Eu sei. - No esperava que Benjamin amasse tanto o filho, e isso podia complicar um pouco as coisas, mas com o tempo tudo podia mudar. Talvez esse amor 
no fosse to intenso, ou talvez Sandra resolvesse abrir mo dos seus direitos e permitir que Benjamin adotasse Alex. Oliver tinha consultado um advogado e sabia 
que sem o consentimento da me, e no momento ela no queria, no podiam tirar o filho dela. Tinham feito a coisa certa, e agora o que tinham a fazer era garantir 
a Benjamin o direito de visita. - Mais uma vez obrigado por se encarregar de tudo, Margaret. Desculpe-me por lhe dar tanto trabalho. Eu no sabia a quem pedir. - 
Tinha pensado em telefonar para Daphne, mas ela estava muito longe, e sempre muito ocupada. Margaret fora uma ddiva do cu, e Oliver sentia-se profundamente agradecido 
a ela. George tinha razo. Era uma mulher e tanto.
       - Seu pai diz que Benjamin se parece muito com voc na idade dele. Forte, bondoso e obstinado. - Era estranho ouvir isso. Oliver sempre achou que Benjamin 
se parecia mais com Sarah. - Ele vai achar o caminho certo outra vez, no se preocupe e, amanh ou depois, eu o ponho no avio para voc.
       Oliver agradeceu outra vez e desligou. Telefonou ento para a me de Sandra, em Bakersfield, para saber se Sandra e o beb tinham chegado bem. Ela disse que 
estava tudo em ordem e perguntou quando ele ia mandar o primeiro cheque. - Foi posto no correio ontem, Sra. Carter - disse Oliver, com desprezo. - O beb est bem?
       -  um garotinho muito bonito - disse ela, mais para agradar Oliver do que por entusiasmo pelo neto. Finalmente Oliver relaxou e deitou-se no sof, ao lado 
de Charlotte, que havia acompanhado quase todo o movimento com ele. O pesadelo estava quase no fim.
       - Foi um ano de inferno para Benjamin, Charlie - disse, acariciando o cabelo dela, com um sorriso cansado. - Graas a Deus ele est livre agora. - Porm Oliver 
no podia deixar de sentir pena do pequeno Alex. Estava muito mais distante deles.
       - Deve ter sido duro para ele dar aquele telefonema. Voc tem de dar crdito a Benjamin por ter jogado a toalha antes que fosse tarde demais.
       - Eu dou. Tenho um grande respeito por ele. S sinto que tivesse de passar por tudo isso.
       Nessa noite, os dois jantaram tranqilamente depois que Mel e Sam foram para seus quartos. Benjamin j havia telefonado, e todos sabiam que ele ia chegar 
no dia seguinte. Oliver avisou que ele havia passado por uma fase muito difcil da sua vida, e Mel prometeu fazer o possvel para facilitar as coisas para ele. Estavam 
curiosos para saber se ele ia continuar a estudar.
       Oliver levou Charlotte para casa bem tarde, naquela noite, e s entrou para um drinque rpido. Tudo que fizeram foi falar sobre Benjamin e se beijar por alguns 
minutos, na cozinha. Sem dvida era muito diferente da sua louca aventura com Megan. Antes de sair, Oliver sorriu tristemente e pediu desculpas por toda aquela confuso.
       - Meu amor, infelizmente quando se trata de filhos nem sempre as coisas saem como esperamos. Acho que j me acostumei, mas para voc no deve ser muito divertido. 
No fui boa companhia nestes ltimos dias.
       - Voc esteve timo, e eu no queria que fosse diferente. - Ento, Charlotte pensou que gostava de estar com ele e com seus filhos, e que seu corao estava 
todo com aquele que no conhecia ainda. - Quer que eu v com voc ao aeroporto amanh  noite, ou prefere ficar sozinho com ele? - Charlotte procurava sempre respeitar 
o tempo de que ele precisava para os filhos, e Oliver apreciava isso tambm. Ela parecia compreender tudo e estava sempre pronta para ajudar.
       - Teremos muito tempo para conversar quando chegarmos em casa. Quero que v comigo, Charlie. - Beijou-a outra vez, com um sorriso, e logo depois voltou para 
casa, exausto.
       Oliver podia imaginar o que Benjamin estava sentindo depois de todo aquele sofrimento, mas no estava preparado para o garoto plido, emaciado e angustiado 
que apanhou no aeroporto. Tudo que pde fazer foi abra-lo, enquanto Benjamin chorava. Charlotte esperou a uma certa distncia. Finalmente, Benjamin enxugou os 
olhos e olhou para o pai como quem v um amigo h muito tempo perdido. Charlotte virou o rosto para que no vissem suas lgrimas.
       - Charlotte, quero que conhea meu filho, Benjamin - disse Oliver em voz baixa.
       Era uma noite sombria para eles, mas o rapaz fez o possvel para disfarar a angstia e sorriu, apertando a mo dela. - Minha irm me falou muito a seu respeito, 
e vi seu programa muitas vezes. Sam me contou da cobaia. Realmente conquistou minha famlia, Srta. Sampson.
       Lisonjeada com o pequeno discurso, ela o beijou no rosto, e Oliver notou como os dois se pareciam. Qualquer pessoa pensaria que eram parentes, os dois com 
cabelos ruivos e brilhantes, pele macia e as sardas.
       - Estou lisonjeada, Benjamin. Mas ficaria mais feliz se me chamasse de Charlie. Como foi a viagem?
       - Muito boa, eu acho. Dormi quase o tempo todo. - Estava ainda fsica e emocionalmente abalado e exausto. Dormira at o meio-dia, e Margaret o havia levado 
de carro ao aeroporto. Voltou-se para o pai e perguntou, em voz baixa: - Voc falou com Sandra ontem  noite? Alex est bem?
       - Esto bem.
       Foram para a rea da bagagem, Oliver vendo com tristeza a preocupao de Benjamin com Sandra e o filho. Alex significava muito para ele, e era doloroso ver 
o quanto sentia falta do beb. Quando foram levar as malas de Benjamin para o quarto dele, Oliver comentou isso com Charlotte.
       - Ele no vai esquecer o filho, Ollie.
       - Sei disso. Mas est na hora de pensar um pouco na prpria vida.
       - Vai pensar. D tempo a ele. Est ainda em estado de choque, depois de tanto sofrimento.
       Desceram para se juntar aos outros. Estavam todos na cozinha, inclusive Benjamin. Quando Oliver chegou, com Charlotte, ele comia um sanduche e biscoitos 
de chocolate feitos por Aggie. Mel falava sem parar, e Sam empurrava a cobaia para cima do irmo para que ele visse como era bonita. Benjamin ouvia, sorrindo. Era 
bom estar em casa, melhor do que eles podiam imaginar. Era como ter passado um ano em outro planeta.
       - Que tal a escola, Mel?
       - tima. Voc vai adorar. - Ento, ela desejou ter engolido a lngua. Seu pai tinha avisado para no pressionar o assunto de estudos.
       - No se preocupe, no estou to tenso assim - disse Benjamin ao perceber. - Mas ainda no resolvi o que vou fazer. Quero ir at Bakersfield para ver como 
est Alex, de pois vou ver se fao um teste de equivalncia na escola. Acho que posso tentar a universidade de Los Angeles, se me aceitarem. - L se ia o sonho de 
Princeton e Yale. A universidade de Los Angeles era boa, e ele queria ficar perto de casa por uns tempos. Agora, era tudo que desejava.
       Quando os irmos subiram, ele disse a mesma coisa para o pai. Charlie disse que estudara l e ofereceu-se para dar uma carta de recomendao, se ajudasse.
       - Seria timo - agradeceu Benjamin, procurando no olhar para ela com muita insistncia. Mas estava impressionado com a delicadeza de Charlotte, sua beleza 
e com o amor que demonstrava por seu pai.
       Ela insistiu em ir sozinha para casa a fim de que os dois pudessem ficar a ss. Depois que ela saiu, Benjamin a elogiou sinceramente, e isso deixou Oliver 
muito feliz.
       - Parece que voc tirou a sorte grande, papai. Ela  fantstica.
       - Tambm acho - disse Oliver, com um sorriso. Depois, olhou para o filho, preocupado, como se estivesse  procura de cicatrizes. Mas no havia nenhuma visvel, 
a no ser nos olhos, que pareciam ter cem anos. - Voc est bem? Quero dizer, bem de verdade?
       - D para o gasto. Papai, pode me emprestar o carro amanh? Vou a Bakersfield para ver Alex.
       - Acha que deve? Quero dizer, to cedo? Pode ser difcil para Sandra. Talvez seja melhor dar um tempo para vocs dois.
       Com um suspiro, Benjamin recostou na poltrona confortvel, esticando as pernas.
       - Voc  louco por ele, no ? - Era exatamente o que Oliver sentia pelos filhos, mas pensou que este caso seria diferente; estava vendo que no.
       - Ele  meu filho, papai. No queria que eu sentisse algo diferente, certo? - Parecia surpreso. Para ele, legtimo ou no, era seu filho, e ele o amava.
       - Acho que no. Foi o que senti por voc quando nasceu. - Oliver teria morrido se tivesse abandonado o filho ou se o deixasse com uma pessoa em quem no pudesse 
confiar. E de repente, compreendeu o que Benjamin estava sentindo. - Pode levar a perua, se quiser. Avise Aggie, porque ela pode precisar para fazer compras ou para 
apanhar Sam.
       - Obrigado. Prometo acertar minha situao na escola, logo que tiver resolvido isto. Como sei que vou esperar bastante para entrar na universidade de Los 
Angeles, pretendo arranjar um emprego. Quero agradecer tudo que fez por mim, papai.
       Com os olhos cheios de lgrimas, Oliver bateu de leve no joelho dele e levantou-se, cansado e satisfeito por ter o filho de volta a casa finalmente.
       - Procure construir uma boa vida para voc, Benjamin. Ter tudo que deseja, algum dia. Uma boa mulher, todos os filhos que desejar, na hora certa, com a mulher 
certa, se tiver sorte.
       Benjamin sorriu e perguntou, curioso:
       - Vai se casar com ela, papai? Estou falando de Charlie.
       - Percebi de quem voc est falando. - Oliver sorriu e foi sincero, de homem para homem. Benjamin no era mais criana. - Eu gostaria, mas no temos tido 
muito tempo para falar no assunto.
       Oliver vinha evitando falar nisso com Charlotte. Sabia o quanto a carreira era importante para ela e tinha medo de ser rejeitado. No queria estragar tudo, 
propondo casamento cedo demais, mas sabia que era a coisa certa desde a primeira noite. Agora, era s uma questo de tempo. Era uma situao diferente em sua vida 
e tinha por ela sentimentos que jamais tivera por Sarah. Sempre fora difcil com ela, compreendia agora,, uma pessoa completamente fora do seu ambiente. Mas Charlotte 
adaptava-se perfeitamente. Era tudo com que ele sempre havia sonhado.
       - Charlotte  formidvel. Eu gosto dela.
       - Eu tambm. - Oliver sorriu e acompanhou Benjamin at seu quarto. Estava feliz por ter o filho sob o mesmo teto outra vez. Suas trs crianas, que estavam 
crescendo to depressa. Sam nunca mais dormiu na cama do pai. Ficava muito satisfeito no prprio quarto, com Charlie.
       
Captulo 24
       
       No dia seguinte Benjamin foi a Bakersfield e no ficou satisfeito com o que viu, mas Alex estava bem, Sandra em casa e a me parecia controlar a situao, 
o que era o melhor que ele podia esperar. Mas a casa era muito velha e malcuidada, o condicionador de ar no funcionava, e Alex dormia na sala de estar com a televiso 
aos berros ao lado do bero. Quando acordou e viu Benjamin, ele gritou de alegria e foi difcil ter de deix-lo outra vez, mas se sentia feliz por estar livre de 
Sandra.
       Voltou para Bel. Air um pouco mais descansado. Nas semanas seguintes, passou nos testes de equivalncia na escola e fez inscrio na universidade de Los Angeles. 
Foi aceito quatro semanas depois. Tinha um emprego de meio expediente na livraria do campus, que pretendia manter para mandar o dinheiro para Alex.
       Foi outra vez a Bakersfield e tudo parecia na mesma, embora Sandra no estivesse em casa. Mas a me estava, tomando cerveja, e Alex parecia bem. Benjamin 
brincou com ele durante uma hora e voltou para casa. No mencionou essa visita ao pai. Oliver achava que ele estava ainda muito envolvido com o filho, mas Benjamin 
sabia que era uma coisa que tinha de fazer, independente de quantos filhos tivesse no futuro. Alex sempre seria o primeiro e uma parte importante da sua vida. Benjamin 
pretendia no perder contato. A me de Sandra aparentemente no se importava. Estava satisfeita com os cheques que chegavam pontualmente todos os meses. Alex era 
a melhor coisa que j tinha acontecido em sua vida. Sem dvida Sandra sabia o que estava fazendo quando se envolveu com Benjamin Watson. Os Watson podiam no ser 
ricos, mas tinham o suficiente, e depois de uma sindicncia no leste, ela ficou sabendo que o pai de Benjamin vivia muito bem. Ento, algumas semanas mais tarde, 
ela leu um item na coluna social que a intrigou. O pai de Benjamin estava saindo com Charlotte Sampson. Isso no significava muito agora mas, algum dia, se ele parasse 
de mandar o dinheiro, uma pequena chantagem podia resolver tudo.
       Mas no se tratava de uma aventura para Oliver. Seu romance desabrochava, e eles passavam cada vez mais tempo juntos, para alegria dos filhos. Finalmente, 
no fim de abril, ele encheu-se de coragem. 
       Estavam jantando tranqilamente no Chiante, como faziam sempre. Oliver no a surpreendeu com um anel, nem fez o pedido romanticamente ajoelhado. Quando terminaram 
o jantar, olhou nervoso para ela. Charlotte riu. No tinha certeza, mas pensava que sabia o que ia acontecer.
       - Como foi seu dia no escritrio, hoje? - perguntou ela, e Oliver quase gemeu.
       - No faa isso comigo... Eu queria falar de uma coisa sria h algum tempo, mas no tenho certeza do que voc sente a respeito... com sua carreira e tudo 
o mais...
       - Quer me oferecer um emprego? - disse ela com um sorriso inocente.
       - Ora, cale a boca. Na verdade, agora que mencionou isso... sim. Pode chamar de emprego. Uma posio permanente, com pssimo salrio, comparado ao que voc 
ganha. 
       Um compromisso para toda a vida, com trs grandes obstculos, algum divertimento e, no fim, uma penso.
       - No se atreva a chamar seus filhos de obstculos, Oliver Watson! Acontece que eu os amo! - Charlotte parecia realmente ofendida.
       Oliver segurou-lhe a mo com fora e levou-a aos lbios.
       - Eu tambm os amo. Mas acontece que amo voc tambm. O que acha de nos casarmos um dia destes? - perguntou ele, com o corao disparado. No se surpreenderia 
se ela recusasse.
       Charlotte, porm, apenas o beijou e depois de algum tempo, disse:
       -  a coisa mais bonita que j me disseram.
       Mas no estava respondendo ainda, e a espera era uma verdadeira tortura.
       - E ento?
       - Acho que devemos pensar nisso seriamente. Voc, mais do que eu. Sei o que estou ganhando e amo vocs todos, mas voc nunca teve uma mulher com uma carreira, 
especialmente uma igual  minha. No teremos nunca muita privacidade. Por mais que tentarmos, as pessoas sempre vo me notar e procurar falar comigo e saber da minha 
vida, pelo menos enquanto eu estiver nesse programa. E isso, s vezes, pode ser muito desagradvel.
       Oliver sabia o que eram aqueles pedidos constantes de autgrafos, a imprensa, os intrusos bem-intencionados. Mas isso no o preocupava e orgulhava-se dela. 
No se importava de ficar em segundo plano, deixando que ela fosse a estrela. - Nada disso me incomoda.
       - Tem certeza? Pretendo deixar tudo algum dia, mas para ser franca, Ollie, no agora. No estou pronta ainda. Trabalhei muito, e durante um longo tempo, para 
abandonar tu do agora, antes de tirar toda a satisfao a que tenho direito. - Eu compreendo. No esperava que abandonasse sua carreira. Acho que seria um grande 
erro.
       - Concordo. Por mais que eu o ame, creio que eu ia me ressentir. Qual ser a opinio dos seus filhos?
       Isso tambm a preocupava. Os trs significavam muito para ela e para ele, e Charlotte queria a aprovao deles tambm.
       - Eles disseram que iam se divorciar de mim se eu no a pedisse em casamento - disse Oliver, com um largo sorriso. - Acho que se voc no me aceitar, provavelmente 
procuraro outro pai.
       - Seriam muito tolos se fizessem isso. No podiam encontrar um melhor, por mais que procurassem.
       - No  verdade. Cometo muitos erros.
       - Sim,  verdade, e ainda no o vi cometer erro algum. Voc faz um belo trabalho com eles.
       Benjamin estava de volta ao caminho certo. Mel ia muito bem na escola, e Sam nunca fora to feliz. As coisas iam bem para todos. Ento, Charlotte disse, com 
um sorriso tmido:
       - Eu gostaria de ter filhos tambm, algum dia. Um ou dois, pelo menos, ou talvez trs, se no comear muito tarde. O que voc pensa disso? Teria uma casa 
cheia, alm das cobaias, ratos brancos, criao de vermes e tudo o mais.
       Eles riram, mas o assunto era srio e ela estava certa em falar nisso agora. Oliver franziu a testa. Nunca tinha realmente imaginado ter mais filhos. Aos 
45 anos, era uma idia interessante. Pelo menos, pensou Charlotte, ele no tinha sado aos berros, porta afora, ainda.
       - No sei. Acho que estou um pouco velho para comear tudo de novo. Criar filhos no  to fcil como voc pensa.
       Tinha visto isso naquele ltimo ano, mas sabia tambm como eram grandes as recompensas e no queria priv-la dessa satisfao. Ele a amava demais. E Charlotte 
tinha muito para oferecer aos prprios filhos, bem como aos dele. Valia a pena pensar no assunto, se isso a ajudasse a dar uma resposta afirmativa.
       - Acho que eu podia ser convencido, pelo menos uma vez - disse ele, com um sorriso. - Talvez duas. Mas no abuse. J sou av, voc sabe.
       - Isso no conta - ela queria dizer que ele era muito jovem ainda.
       - Para Benjamin, conta - retrucou Oliver, com ar tristonho.
       - Eu s quis dizer que voc no tem idade para ser chamado de av.
       - Mas s vezes sinto que tenho. Exceto quando estou com voc. Acho que podemos fazer coisas maravilhosas, Charlie. H tanta coisa que quero fazer com voc. 
Viajar, nos divertir, ajud-la em sua carreira. Pela primeira vez na minha vida, sei que estou certo, do fundo da alma. No tenho a menor dvida a nosso respeito 
- disse ele, invadido por uma sensao maravilhosa de paz.
       - O mais engraado  que tambm no tenho. Sei o quanto o amo, Oliver. S quero que voc tenha certeza. - Ela o beijou outra vez e murmurou suavemente no 
ouvido dele: - Nesse caso, voc foi aceito. Mas quero esperar um ano, a contar do dia em que nos conhecemos, e quero que tudo seja certo. Que tal o Natal?
       - Fala srio? - Era espantoso, pensou ele. Seu divrcio fora homologado havia um ms, Sarah havia partido h mais de um ano, e ele amava esta mulher de todo 
corao, e agora iam se casar.
       Charlotte balanou a cabea afirmativamente e riu, to feliz quanto ele.
       - Claro que sim. Voc se importa de esperar at o Natal?
       - Um pouco. Mas gosto da idia de um noivado longo,  moda antiga.
       - Em junho o programa sai do ar por algum tempo. Podemos viajar por um ou dois meses, no vero. Fui convidada para fazer um filme, mas  de segunda categoria. 
Prefiro viajar com voc e as crianas, a no ser que Sarah queira lev-los a algum lugar.
       - Sim, ela quer, mas s em agosto.
       Fizeram planos durante algumas horas. Depois foram para a casa dela e fizeram amor, para comemorar o noivado.
       
Captulo 25
       
       No dia seguinte contaram para os filhos, e os trs ficaram extasiados. Sam perguntou se podia ir com eles na lua-de-mel, e Oliver gemeu. Charlotte perguntou 
a Mel se gostaria de ser dama de honra. Faltavam ainda oito meses, mas pareciam todos crianas, combinando uma brincadeira.
       Oliver apanhou-a no estdio, e quando Charlotte entrou no carro viu uma caixinha quadrada sobre o banco, embrulhada em papel turquesa com uma fita de cetim 
branco. 
       Ela desembrulhou com mos trmulas e soltou uma exclamao abafada quando viu o anel brilhando na caixa de suede negro. Era um brilhante com finssima lapidao 
de esmeralda, e seus olhos se encheram de lgrimas quando Oliver o colocou no seu dedo. - Oh, Ollie...  to bonito.
       - Voc tambm. - Ele a abraou e beijou, e Charlotte aconchegou-se bem perto dele.
       Alguns dias depois a imprensa tomou conhecimento da novidade, e os produtores do programa procuraram tirar o maior partido do fato. A equipe de relaes pblicas 
do estdio praticamente caiu em cima deles, querendo fotografar Charlotte com Oliver e com os filhos. Telefonaram da revista People e da US, e a notcia do noivado 
apareceu na Newsweek e na Time e, de repente, at os filhos de Oliver passaram a ser assediados pelo pblico e pela imprensa. Charlotte ficou furiosa, e Oliver tambm 
quando descobriu os paparazzi na frente da sua casa vrias vezes.
       - Como voc agenta isso? - perguntou para Charlotte, mais de uma vez, e, como resultado, resolveram passar o vero com as crianas na villa, emprestada por 
amigos, em Trancas.
       Durante algumas semanas, a barra foi pesada, depois comeou a acalmar. Sarah telefonou para dar os parabns. Soube da notcia por meio de Sam, mas havia tambm 
lido nos jornais.
       - Os meninos parecem loucos por ela, Ollie. Estou feliz por voc.
       - Eu tambm estou, mas a imprensa  uma chateao. - Voc acaba se acostumando. Isso  Hollywood! - brincou ela, mas parecia realmente satisfeita.
       George e Margaret tambm ficaram satisfeitos. Foi um tempo feliz, e Oliver e Charlie tinham muito que fazer antes de partirem para as frias em Trancas.
       Finalmente, Charlotte terminou as ltimas gravaes da temporada, as aulas terminaram e Oliver deixou o escritrio para umas frias de quatro semanas em Trancas. 
       Passaram um ms maravilhoso na praia, e depois Mel e Sam foram visitar a me no leste.
       Charlie ia fazer alguns comerciais, Oliver tinha de voltar ao trabalho, e'Benjamin preparava-se para comear as aulas na universidade, no fim de agosto.
       Pouco antes de agosto, Benjamin recebeu um telefonema, no fim da tarde, quando chegou em casa para trocar de roupa e jantar com Oliver e Charlie. Pensou que 
fosse o pai, ligando do escritrio, mas com surpresa ouviu a voz da me de Sandra. Seu corao quase parou.
       - Aconteceu alguma coisa, Sra. Carter?... Alex... - Ele est bem, eu acho. - A voz dela estava esquisita. Antes de telefonar ela havia pensado durante algum 
tempo, procurando um meio de tirar vantagem da situao, mas depois resolveu apenas contar a ele. Benjamin tinha direito de saber. Ele era uma boa pessoa e parecia 
louco pelo filho. Talvez fosse melhor fazer um favor a eles. Pelo menos essa era sua inteno quando telefonou.
       - Sandra deixou o beb no abrigo ontem de manh. Vai d-lo para adoo. Achei que voc devia saber.
       - Ela fez o qu? - O corao de Benjamin disparou. - Sandra no pode fazer isso. Ele  meu filho tambm. Onde ele est? No vou permitir que ela faa isso, 
Sra. Carter. Posso tomar conta dele sozinho. Falei isso a ela quando estvamos ainda em Purchase.
       - Achei que voc ia querer, por isso estou telefonando. Eu disse a Sandra que telefonasse para voc, mas ela largou o menino e fugiu. Foi para o Hava esta 
manh.
       - Obrigado... obrigado... avise que vou apanh-lo imediatamente... eu... pode deixar... eu mesmo telefono.
       Mas quando telefonou para o abrigo foi informado que Alexander Carter, como o chamavam, estava agora sob custdia do juizado de menores. Benjamin teria de 
provar sua paternidade, fazer o requerimento para a custdia e para anulao dos direitos de Sandra. Tudo isso agora dependia da justia. Benjamin telefonou para 
o pai e o tirou de uma reunio com um cliente. A essa altura, ele estava histrico, e Oliver mandou que se acalmasse e explicasse tudo devagar.
       - Tudo bem, tudo bem... compreendi agora. Vou telefonar para meu advogado. Agora, procure se acalmar, Benjamin. Mas, antes de fazer qualquer coisa, preciso 
ter certeza de que voc realmente quer a custdia total do seu filho. Quem resolve  voc, agora.
       Era a oportunidade de conseguir o que ele queria e, por mais doloroso que fosse, Oliver estava disposto a ajud-lo. Benjamin sabia que s havia uma escolha. 
Queria o filho de volta, e mesmo que isso significasse nunca mais voltar a estudar, e trabalhar em qualquer emprego que encontrasse, ele ia criar o filho, independente 
do que isso custasse. Era o tipo de sentimento contra o qual no se podia argumentar, e Oliver compreendia. Mandou Benjamin ficar calmo e esperar seu telefonema. 
       Meia hora depois, Oliver telefonou e combinaram um encontro nos escritrios de Loeb e Loeb, em Century City, s quatro horas.
       Benjamin chegou meia horas antes. O advogado que os atendeu era um homem bondoso, que s aceitava casos muito mais importantes, mas trabalhavam para a firma 
de Oliver e estavam dispostos a ajud-lo.
       - Se  isso o que voc realmente quer, meu jovem, no  to complicado como parece. Hoje falei com todas as partes envolvidas e com as autoridades e tudo 
est muito claro. Sua paternidade no est sendo contestada. 
       A me j assinou os papis declarando que quer se desfazer do beb. Se ela confirmar isso, por escrito, para ns... e ainda no tivemos oportunidade de nos 
comunicar com ela... ento voc ter custdia total e, depois de algum tempo, os direitos dela sero anulados.  uma responsabilidade muito grande, Benjamin, e deve 
pensar seriamente, antes de se decidir.
       - J decidi, senhor. Sei exatamente o que quero. Eu o amo. - Com os olhos cheios de lgrimas, o cabelo ruivo e as sardas, Benjamin parecia uma criana.
       Oliver conteve-se para no chorar tambm. Estava resolvido a fazer o possvel para ajudar o filho.
       - A Sra. Carter disse que est disposta a assinar uma declarao confirmando seus cuidados com a criana e sua atitude responsvel. Isso  tudo de que precisamos. 
       Ela sugeriu que est disposta tambm a aceitar um "presente" seu, ou do seu pai, mas precisamos ter muito cuidado com isso. Expliquei a ela que venda de criana, 
ou qualquer coisa parecida,  crime neste estado. Ficou desapontada, mas no voltou atrs quanto  declarao que preparamos. Temos audincia marcada no tribunal 
de Bakersfield na prxima semana e, se tudo correr bem, pode ter seu filho de volta no mesmo dia.
       - E at l? - Benjamin ficou nervoso outra vez.
       - No podemos fazer nada. Ele est em boa mos, e est seguro.
       Benjamin no gostou, mas no podiam fazer nada a respeito, portanto concordou com a audincia na semana seguinte, esperando que eles conseguissem se comunicar 
com Sandra, em Maui, para que ela assinasse os papis que entregariam Alex definitivamente a ele.
       
Captulo 26
       
       Oliver no foi trabalhar naquele dia, para acompanhar o filho a Bakersfield. Os dois estavam tensos, pensando em Alex e no que ele representava para eles... 
Para Oliver, era o smbolo de uma nova vida e um novo comeo, e lembrou-se de Charlie dizendo que queria ter filhos com ele. Significava recordar o que era ter um 
beb em casa, e uma parte dele entusiasmava-se com a idia, enquanto que outra parte temia o caos e a confuso. Mas Benjamin tinha prometido se encarregar pessoalmente 
de tudo, com alguma ajuda de Agnes.
       Tentou conversar durante a viagem na Rodovia 5, mas Benjamin estava muito nervoso. Ele e Aggie tinham instalado um bero no quarto dele e tinham comprado 
seis caixas de fraldas. Ele queria passar na casa da Sra. Carter para apanhar as roupas de Alex, mas Oliver achou melhor fazer isso na volta. Temia ainda que acontecesse 
alguma coisa e que no entregassem Alex. No tinham conseguido encontrar Sandra em Maui, mas o advogado garantiu que, mesmo assim, era quase certo ele conseguir 
o que queria, porque ela havia assinado os papis, entregando-o para adoo, antes de viajar.
       O tribunal de Bakersfield ficava na avenida Truxton. Deixaram o carro no estacionamento e entraram. Era a ltima semana de agosto, e fazia muito calor.
       O advogado esperava-os. Benjamin parecia assustado quando entraram na sala do tribunal. Estava com palet azul-marinho e cala cqui, camisa social azul e 
a gravata azul marinho da escola. Parecia um aluno de Harvard. O cabelo estava cuidadosamente penteado. Oliver sorriu para ele quando o funcionrio da corte os mandou 
ficar de p.
       - Vai dar tudo certo, meu filho. - Oliver apertou a mo dele, e Benjamin sorriu, nervoso.
       - Obrigado, papai.
       Mas sabiam que nada era certo ainda, e o advogado havia avisado que podia surgir algum problema. Num tribunal nunca se pode ter certeza.
       O assunto foi apresentado  corte, foi lida a declarao da Sra. Carter e os dois Watson ficaram aliviados por ela no estar presente. Os papis assinados 
por Sandra foram introduzidos como prova, e um relatrio explicava as condies em que a criana ia viver. Ia morar na casa alugada pela famlia Watson, em Bel Air, 
com o pai de Benjamin, irm e irmo mais novo, uma governanta para ajudar a tomar conta dele, enquanto o pai estudava na universidade. Ele ia comear o curso de 
vero na semana seguinte e tinha ainda o emprego na livraria. O juiz aparentemente ficou intrigado e pediu que o advogado se aproximasse da ctedra. Conversaram 
em voz baixa durante alguns minutos. Ento o juiz, balanando a cabea afirmativamente, fez sinal a Benjamin para se aproximar tambm. Ordenou que ele fosse para 
o banco das testemunhas e prestasse juramento para responder algumas perguntas. Com as pernas trmulas, Benjamin subiu os dois degraus e sentou-se, olhando para 
o pai.
       - Sr. Watson, deve compreender que esta no  uma audincia formal, mas estamos tratando de um assunto muito srio e a vida de uma criana est em jogo. O 
senhor compreende isso?
       - Sim, senhor, eu compreendo - respondeu Benjamin, muito plido, mas calmo.
       - A criana em questo, Alexander William Carter,  seu filho? O senhor reconhece esse fato?
       - Sim, senhor, eu reconheo.
       - O senhor mora com a me da criana? 
       - No, senhor, no moro.
       - J morou com ela? 
       - Sim, durante um ano.
       - No se casaram? 
       - No, senhor.
       - O senhor alguma vez sustentou a criana ou a me? 
       - Sim, senhor. Durante quatro meses, antes de Alex nascer e depois, at nos separarmos, em maro. E desde ento eu tenho... meu pai e eu temos enviado dinheiro 
todos os meses. Seiscentos dlares.
       O juiz fez um gesto afirmativo e continuou:
       - O senhor tem conhecimento dos cuidados de que necessita uma criana desta idade?
       - Sim, senhor, tomei conta dele at maro. Sandra estava... bem, ela saa muito e no sabia cuidar do beb.
       - E o senhor sabia? - O juiz parecia ctico, mas Benjamin estava agora no controle da situao.
       - No, eu no sabia. Mas tive de aprender. Tomava conta dele  noite, depois do trabalho, e s vezes o levava comigo. Eu tinha dois empregos ento, para pagar... 
bem, tudo... Sandra deixou de trabalhar depois que Alex nasceu.
       - Mas o senhor levava o beb para o trabalho?
       - s vezes, quando ela saa. No tinha ningum com quem deix-lo e no podia pagar uma bab.
       O juiz continuava impassvel e, independente do resultado, Oliver nunca sentira tanto orgulho do filho. Benjamin era um homem decente, no era mais um menino 
e um timo pai. Merecia ter a custdia do filho. Oliver esperava que o juiz tambm pensasse assim.
       - E agora, o senhor e o beb vo morar com seu pai? 
       - Sim, senhor.
       - Seu pai concorda?
       Oliver anuiu com a cabea, e Benjamin disse que sim, que o pai concordava.
       - E o que acontecer se o senhor resolver sair da casa do seu pai, se, por exemplo, deixar a escola outra vez, ou se encontrar outra namorada?
       - Levo Alex comigo. Ele  mais importante para mim do que qualquer coisa. E se eu deixar os estudos, arranjo um emprego para sustent-lo, como fiz antes.
       - Pode descer, Sr. Watson. Faremos um breve recesso.
       Voltaremos dentro de quinze minutos. - Bateu com o martelo e saiu da sala.
       Benjamin desceu do banco das testemunhas, aparentemente calmo, mas encharcado de suor.
       - Voc se saiu muito bem - murmurou o advogado. - Continue assim.
       - Por que esse recesso? - perguntou Oliver.
       - Provavelmente ele quer reler os documentos para certificar-se de que tudo est em ordem. Mas Benjamin foi timo. Se ele quisesse, eu lhe daria at meus 
filhos. 
       - Sorriu, procurando tranqiliz-los.
       Caminharam nervosos pelo corredor durante 15 minutos, depois voltaram, e o juiz entrou na sala.
       Ele olhou para Oliver, para o advogado, depois diretamente para Benjamin, quando bateu com o martelo para dar incio  sesso.
       - A corte est em sesso. Por favor, no se levantem, permaneam sentados. - Ento, com os olhos fixos em Benjamin, continuou: - Meu jovem, o que est tentando 
conseguir  um peso enorme. Uma responsabilidade da qual jamais poder se libertar. No pode tirar folga do emprego de pai. No pode abandonar, nem mudar de idia, 
nem resolver desaparecer. Durante dezoito anos a partir de agora, seno mais, esse beb ser sua responsabilidade, e de ningum mais, se a lei lhe conceder a custdia 
total. Entretanto, tudo indica que o senhor tem aceito essa responsabilidade de modo admirvel at agora. Sendo assim, eu o aconselho a pensar seriamente naquilo 
a que est se comprometendo e a lembrar, a cada dia da sua vida, e da vida do seu filho, no esquecendo, nem por um momento, o que o senhor deve a ele.
       "Esta corte declara Benjamin Oliver Watson o nico guardio de Alexander William Carter. A partir deste dia, vinte e nove de agosto, o senhor tem a custdia 
plena da criana. A anulao dos direitos de me foi aprovada por esta corte e ser homologada dentro do perodo prescrito pela lei. Pode mudar o sobrenome da criana 
a partir de hoje, ou a qualquer tempo. - Olhou para Benjamin, com um sorriso. O menino  seu, Sr. Watson.
       A um sinal do juiz, o funcionrio da corte abriu uma por ta. Uma assistente social entrou carregando Alex, que parecia satisfeito e um pouco assustado com 
o ambiente desconhecido. Os olhos de Benjamin, de Oliver e do advogado encheram-se de lgrimas.
       - Pode levar Alexander para casa - disse o juiz.
       A assistente social aproximou-se de Benjamin e entregou Alex para ele. Alex riu satisfeito quando o viu. Entregaram ao advogado uma caixa de papelo com um 
pijama, uma jardineira e o urso que Benjamin havia comprado quando ele nasceu. Estavam todos rindo e chorando, e Benjamin ergueu os olhos para o juiz.
       - Muito obrigado, senhor... oh, muito, muito obrigado, senhor!
       O juiz levantou-se e saiu da sala. O advogado saiu com eles, Benjamin com Alex no colo. Oliver bateu de leve nas costas do filho, depois apertou a mo do 
advogado e agradeceu. Antes de pr Alex na cadeirinha, no banco traseiro do carro, Benjamin o abraou com carinho.
       Resolveram no passar na casa de Alice Carter para apanhar as roupas de Alex. De repente, Benjamin no a queria ver nunca mais. S queria levar o filho para 
casa e ficar com ele para sempre. Detestou at a idia de ir  escola no dia seguinte. No queria se afastar de Alex nem por um momento. Voltaram para casa devagar, 
pela Rodovia 99, e Benjamin falou o tempo todo, enquanto o beb balbuciava. Ele falou sobre o juiz, o tribunal, e, finalmente, sobre Sandra. A assistente social 
informou os advogados de que Sandra fora bastante clara e decisiva. Sabia que no era capaz de cuidar do beb e no queria tentar. Sem Benjamin para tomar conta 
do filho, tudo que ela queria era fugir dele. O perodo de espera era mera formalidade. Ningum esperava problemas, e tudo que Benjamin tinha de fazer agora era 
preencher o formulrio para trocar o sobrenome de Alex. Loeb e Loeb tratariam disso para ele, em Los Angeles.
       - Muito bem, senhor, o que voc acha de tudo isso - perguntou ele a Alex. - Acha que vai gostar de morar com o vov, com Mel e com Sam?
       Alex balbuciou feliz e apontou para um caminho que passava. Oliver sorriu, orgulhoso.
       - Se ele no gostar pode ficar na garagem com aquela cobaia barulhenta de Sam - disse o av, franzindo a testa, fingindo zanga. Mas era evidente o quanto 
ele amava o neto.
       Mel, Sam e Aggie estavam na cozinha. Tinham esperado, tensos, durante toda a tarde. Mel viu primeiro o pai sozinho dirigindo o carro e pensou que alguma coisa 
tinha sado errada. Ento Benjamin saiu, carregando o beb, e ela correu para ele com uma exclamao de alegria. Alex arregalou os olhos.
       - Cuidado... no o assuste... tudo isto  novidade para ele - disse Benjamin, com um olhar protetor.
       Alex comeou a chorar. Mas Aggie tinha um biscoito para ele, e Sam ergueu a cobaia para que ele visse. O beb comeou a rir, tentando pegar o nariz do animalzinho.
       Aggie conseguira uma cadeira alta para Alex. Oliver abriu uma garrafa de champanhe para o filho, e deixou que Sam experimentasse um gole.
       - A Alexander Watson - brindou ele, com um largo sorriso, sentindo que haviam tirado um grande peso dos seus ombros. - Que ele tenha uma vida longa e feliz 
com o melhor pai do mundo.
       - Oh, no - protestou Benjamin. - Voc  o melhor. - Vocs dois so os melhores - brindou Mel, com um sorriso, e todos olharam para Alex, rindo e com os olhos 
midos.
       
Captulo 27
       
       No dia seguinte comearam as aulas de Benjamin, mas ele foi em casa duas vezes para ver Alex, embora Aggie garantisse que no precisava da sua ajuda. Mas 
era como se Benjamin no pudesse mais ficar longe dele. No fim do dia, quando ele chegou, Alex estava na cadeira alta, comendo o que Aggie havia preparado para ele.
       Quando Charlotte apareceu, naquela noite, ela insistiu em cantar para ele, embalando-o e depois ajudou Benjamin a ajeit-lo no bero. Mel, Aggie e Oliver 
assistiram ao ritual, como fadas protetoras, e Sam ps seu urso de pelcia no bero de Alex. O presente de Sarah, na primeira vez que eles a visitaram.
       Quando todos saram do quarto, Alex comeou a chorar, mas logo ficou quieto.
       - Dentro de uma semana ele ser a criana mais mimada do mundo - disse Oliver, fingindo desaprovar toda aquela ateno, mas Charlotte no tinha dvidas de 
que Ollie ia ser o maior bajulador do neto.
       - Que tal ter um beb em casa outra vez?
       -  bom para treinar. Ele nos acordou s seis horas da manh. Mas tenho de admitir que Benjamin sabe como tratar dele.  melhor at do que Aggie - disse, 
baixinho.
       - Voc tambm parece ter muita prtica. Sempre me senti to desajeitada com bebs.
       Oliver a abraou com carinho. Naquele fim de semana, levaram Alex ao zoolgico. S Oliver e Charlotte. Os dois acharam maravilhoso, e ningum os perturbou, 
nem a assediou com pedidos de autgrafos. Vrias pessoas olhavam para eles, mas resolviam que no podia ser Charlotte Sampson. Era apenas um casal feliz, levando 
o filho para passear num domingo em setembro. S o grande brilhante na mo esquerda dela sugeria que deviam ser pessoas ricas e importantes, mas ningum notou.
       Foi um descanso para ela, porque a imprensa a atormentava desde a indicao para o prmio Emmy, em agosto. Era a segunda vez que ela e o programa eram indicados. 
       A entrega dos prmios ia ser na semana seguinte, e todos queriam preparar artigos sobre os vencedores. Mas Charlotte queria que a deixassem em paz. Tinha 
medo que a publicidade exagerada, antes do prmio, desse azar. Estava trabalhando outra vez, levantando s quatro horas da manh e chegando no estdio s cinco para 
o cabeleireiro e o maquilador. Oliver a apanhava no estdio,  noite, e iam jantar num restaurante tranqilo ou na casa dele. Estavam todos entusiasmados com os 
planos do casamento em dezembro, e ainda no haviam resolvido onde passariam a lua-de-mel, se no Hava, em Bora Bora ou talvez esquiando. Sam achava que, independente 
da escolha, ele devia ir tambm, mas por enquanto Oliver no concordava. Nada de cobaias, nada de crianas, nada de bebs na sua lua-de-mel. J tinham muito disso 
tudo todos os dias, sem precisar dessa companhia na sua viagem de npcias, por mais que ele amasse os filhos.
       O grande momento se aproximava, e Charlotte no podia mais evitar a imprensa que a esperava fora do estdio quase todos os dias. Chegaram a acompanh-la at 
Giorgio, quando foi comprar o vestido para a cerimnia, um modelo de Bob Mackie, negro com lantejoulas. Depois ela voltou para comprar o vestido de Mel, um belo 
Oscar de Ia Renta de cetim rosa. Oliver resmungou que ela estava deixando Mel mal acostumada, mas Charlotte o mandou cuidar da prpria vida. As duas divertiram-se 
muito experimentando os vestidos, enquanto Charlotte escolhia outros para ela, e Mel brincava com os chapus e os acessrios.
       Finalmente chegou o grande dia. Charlotte, Oliver, Mel e Benjamin saram de casa numa longa limusine, enquanto Sam e Aggie se acomodavam na frente da televiso 
para ver a cerimnia. Alex ainda estava acordado quando eles saram, alegremente lambuzando de biscoito de chocolate o sof e seu pijama. Na vspera ele havia feito 
um ano e dado os primeiros passos.
       Chegaram ao Pasadena Civic Auditorium. Aparentando muita calma, Charlotte desceu do carro e segurou o brao de Oliver. Mel e Benjamin seguiram atrs. Os dois 
estavam extasiados, e Oliver sentia tambm a tenso. Charlotte estava com as mos midas e quando os paparazzi a atacaram, Oliver sentiu o tremor do seu corpo. Quando 
se sentaram no auditrio, as cmeras no se cansavam de focaliz-los. Dezenas de atores e atrizes foram cumpriment-los. Finalmente, comeou a cerimnia com a entrega 
dos prmios menores. Quando chegaram aos mais importantes, Sam, em casa, estava bocejando e quase dormindo na frente da televiso, e Alex dormia no colo de Aggie. 
       Mas em Pasadena o ar estava carregado de eletricidade e de tenso. Anunciaram os nomes dos indicados para o prmio de melhor programa, e Mel e Benjamin gritaram 
de alegria quando o de Charlotte foi o vencedor. Os produtores correram pela passagem para receber o prmio, enquanto suas mulheres choravam de emoo e Charlotte, 
com um largo sorriso, apertou com fora o brao de Oliver. Estava feliz pelos produtores e tentava se convencer de que para ela bastava estar no programa vencedor. 
       Foi anunciado ento o prmio de melhor ator.
       Um amigo de Charlotte, que trabalhava em outro programa, ganhou o prmio, e ela ficou feliz por ele. Chegou ento o grande momento. Sua vez, afinal. A tenso 
era quase insuportvel. Durante toda a vida, Charlotte dizia que a fama no era importante, mas era. Tinha trabalhado arduamente e, quer ganhasse ou no o prmio, 
no ntimo sabia que o merecia.
       As cmeras a focalizaram com insistncia outra vez, e Charlotte apertou a mo de Oliver, que, em silncio, rezava por ela. Foram anunciados os nomes das atrizes 
indicadas, e depois silncio. Algum pediu: "O envelope, por favor", e ento, como que atingida por um raio, ela ouviu o prprio nome. Charlotte olhou para Oliver, 
tampou a boca com a mo, sem poder acreditar. Ele a fez levantar-se, e ento Charlotte caminhava apressada para o palco, com o cabelo ruivo e brilhante penteado 
para cima com cachos compridos e o lindo vestido moldando seu corpo perfeito. "Eu no acredito!", disse ela, antes de se levantar. 
       Agora, segurando seu Emmy com uma das mos, aproximou-se do microfone e, comovida e sorridente, agradeceu.
       - Eu... no sei o que dizer. - Ela riu. - No preparei nada porque nunca pensei que ia ganhar... quero agradecer aos produtores, aos diretores, os autores 
do script, os atores, os cameramen e toda essa gente mgica que tornou isto possvel... meu instrutor de cena, John Drum, por ser bastante louco para me conseguir 
o papel... minha agente, por me convencer a aceit-lo... Annie, voc estava certa!... e o mais importante... - olhou diretamente para Oliver - ...minha famlia... 
meu futuro marido, Oliver, que me agenta com tanto amor... e nossos filhos, Benjamin, Melissa e Sam. - Havia lgrimas nos olhos dela e nos de Oliver. Sam, em casa, 
estava mesmerizado. - Eu amo vocs todos e espero fazer muito melhor no prximo ano. - Acenou para amigos e colegas e desceu do palco, voltando apressadamente para 
seu lugar.
       A entrega dos prmios terminou, mas o pessoal da imprensa quase a amassou, na cadeira, enquanto Oliver servia de escudo, beijando-a. Charlotte beijou os trs 
e apertou as mos deles. Foi uma noite maravilhosa e agitada. Levaram Mel e Benjamin para casa, tomaram uma garrafa de champanhe com eles, e com Sam e Aggie. Depois, 
Charlotte e Oliver saram para as festas de comemorao. Charlotte jamais esqueceria essa noite. Tinha conseguido.
       Antes deles sarem, George e Margaret telefonaram para dar os parabns. Enquanto Aggie chorava de alegria, Charlie telefonou para os pais, em Nebraska. Eles 
tambm estavam chorando de emoo. Foi uma noite mgica, e ela ainda no podia acreditar. Benjamin fez um brinde, e eles conversaram e riram e viram a cerimnia 
no videoteipe antes de sair.
       - Nunca imaginei que pudesse ganhar - repetia ela para Oliver, a caminho de Beverly Hills.
       - Eu sabia que voc ia vencer. - Estava to orgulhoso dela e era extraordinrio compartilhar essa vitria com Charlie.
       Voltaram para a casa dela s quatro horas da manh e deitaram-se na cama larga, com o Emmy olhando para eles do alto da penteadeira.
       - Ele  bem engraadinho - disse Oliver, com um sorriso, cansado demais at para tirar a gravata.
       - No tanto quanto voc. - Ainda com o vestido de lantejoulas, ela virou na cama e olhou para ele. - Para mim, voc  muito mais bonito. - Charlotte estava 
um pouco "alta" e ainda sob o efeito da grande emoo.
       - Voc  doida, sabia? E a maior estrela de Hollywood, e o que est fazendo comigo?
       - Amando voc. Vamos engravidar esta noite.
       - Comporte-se. Logo vai ser me de trs filhos. - Trs filhos extremamente orgulhosos dela, como seu pai. - E um neto! - Riram os dois da idia de Charlotte 
ser av.
       Ela estava feliz. Foi uma noite inesquecvel. Para todos eles.
       Ele a beijou, e cinco minutos depois Charlotte estava dormindo nos braos dele, vestida ainda, com o Emmy olhando para eles em toda a sua glria. Ela parecia 
uma criana, e Oliver no podia acreditar que aquela mulher maravilhosa fosse quase sua. Deixou-a s seis horas da manh. Quando chegou em casa todos dormiam ainda, 
e a noite anterior parecia envolta numa aura de irrealidade. Mas tinha acontecido. Era verdade. Charlotte ganhara o prmio e dentro de trs meses seria sua mulher. 
       Era incrvel, Oliver mal podia esperar. Trs meses pareciam muito tempo agora... No chuveiro, Oliver sorriu, imaginando... trs meses... e ento, ele e Charlie 
estariam casados.
       
Captulo 28
       
       A semana seguinte foi uma loucura, com a imprensa cercando-a por todos os lados. Charlotte recebeu um grande bnus do programa, e eles aumentaram o valor 
do seu contrato para o ano seguinte. Recebeu dezenas de outras ofertas. Para especiais e minissries, filmes para a televiso, trs filmes para cinema, e, ento, 
a oferta que ela havia esperado durante toda a vida. Sua agente telefonou para o estdio, e Charlotte no sabia o que dizer. Queria aceitar, mais do que tudo no 
mundo, mas disse que precisava falar primeiro com Oliver. Ele tinha direito a uma opinio. Era uma deciso importante para ela, e implicava vrias coisas. Como, 
por exemplo, pedir a resciso do novo contrato para o programa que lhe dera o Emmy. Ou at, talvez, quebrar o contrato, se fosse preciso.
       Estava nervosa quando Oliver a apanhou no estdio naquela noite. Tinham combinado uma noite tranqila na casa dela, para planejar a viagem de npcias. Oliver 
insistia em Bora Bora. Mas, antes mesmo de apanhar os folhetos da agncia de viagens, ele percebeu que havia alguma coisa errada. - Charlie, o que h? - Ele a conhecia 
bem, e no era comum v-la to tensa em sua companhia.
       Charlotte foi direto ao assunto. Haviam-lhe oferecido um papel numa pea na Broadway, uma pea sria, do tipo que ela sempre desejou fazer, e essa oportunidade 
podia nunca mais se repetir. Os ensaios comeariam em dezembro. Significava que ela teria de ficar pelo menos um ano em Nova York, mas, se a pea ficasse muito tempo 
em cartaz, talvez dois anos, pelo menos.
       Oliver ficou atnito, no acreditando no que ouvia, nem na expresso do rosto dela. Charlotte estava realmente indecisa, e seu corao quase parou.
       - E o programa na televiso? - perguntou ele, querendo gritar, "e eu"?
       - Tenho de rescindir meu contrato. Minha agente acha que, se fizermos as coisas direito, eles permitiro.
       -  isso que voc quer?
       - No sei. Sempre foi meu sonho. Para mim, a Broadway sempre representou o pinculo, a eptome, o mximo da carreira de ator. - Estava sendo franca, como 
sempre.
       "Estou dizendo exatamente o que sei. No resolvi ainda. Disse  minha agente que precisava falar com voc primeiro. Mas... Ollie... eu sempre quis fazer um 
papel na Broadway, especialmente um como este.
       - O que isso significa para ns? E o que vou fazer durante esses dois anos? Esperar sentado? No posso deixar o escritrio aqui, estou s h um ano em Los 
Angeles, e  um lugar importante para mim, provavelmente por um longo tempo, se no for para o resto da vida. Meus filhos esto estudando aqui. No posso abandon-los, 
nem mudar toda sua vida outra vez. J passaram por isso duas vezes num ano. No posso, Charlie. No posso largar tudo e ir embora, por mais que fique feliz vendo 
voc alcanar o que sempre desejou. - Tinha de pensar em sua carreira e em sua famlia.
       Mas Charlotte parecia realmente angustiada. No queria desistir, nem mesmo por ele.
       - Eu podia vir sempre a Los Angeles.
       Foi como se Oliver tivesse levado um choque eltrico. Levantou-se e comeou a andar pela sala, em silncio.
       - No venha com essa, Charlie - disse, afinal. - J passei por isso com uma mulher que eu amava. Ela nem comeou a ir para casa nos fins de semana. Mas, mesmo 
que voc consiga, quanto tempo acha que vai durar? Tomando os ltimos avies, de um lado para o outro, passando um dia juntos por semana.  ridculo. No funciona. 
No solidificamos ainda nosso relacionamento, e voc quer acrescentar essa tenso. Prefiro terminar tudo agora. Ser menos doloroso para ns dois do que esperar 
mais um ano para terminar. Esquea. No quero ouvir falar em visitas de fim de semana. - Procurou se acalmar e pensar nela. - Escute, Charlie, deve fazer o que  
direito para voc. - Ele a amava o bastante para deixar que se fosse. No tinha direito de ficar no caminho dela. Se fizesse isso, no fim ambos sairiam perdendo. 
Oliver tinha aprendido essa lio do modo mais difcil tambm. - Pense no assunto, faa o que voc quer fazer. - Fechou os olhos por um instante, de dor quase insuportvel. 
Mas tinha vivido antes com essa dor, com essa perda, com esse desespero. 
       Sobreviveria uma vez mais. E estava disposto ao sacrifcio, por ela. - Acho que voc provavelmente vai aceitar. Ia se arrepender pelo resto da vida se no 
o fizesse, e ns pagaramos o preo, de qualquer modo. V em frente, meu bem... realize seu sonho. Voc tem direito. Est no auge da sua carreira, agora. Essa oportunidade 
jamais se repetir. Mas no espere que eu v visit-la nos fins de semana... nem que acredite que podemos ter tudo. No podemos. s vezes temos de fazer uma escolha 
na vida. Faa a que for certo para voc.  tudo que desejo. - Virou o rosto para que ela no visse suas lgrimas.
       - Est dizendo que, se eu for, est tudo acabado entre ns? - Ela estava atordoada e desolada.
       - Sim, estou. Mas no porque eu queira obrig-la a ficar. S estou dizendo que j passei por isso antes e no quero passar outra vez. No funciona. No fim, 
ns dois perderemos. E eu no suportaria a repetio. Prefiro lhe desejar boa sorte e me despedir com um beijo e com lgrimas no meu corao. Mas  melhor agora 
do que daqui a um ano, e talvez com um filho nosso. De qualquer modo, acho que meus filhos no suportariam outra perda. Tenho de pensar neles tambm. Eu a amo, Charlie. 
O bastante para deix-la fazer o que quer. Vou para casa agora. Pense no assunto. E telefone quando chegar a uma deciso. Vou compreender... de verdade. - Seus olhos 
estavam midos.
       Charlotte tambm chorava. Acreditava nele e o compreendia.
       - S no deixe que eu saiba pelos jornais. - Sem olhar para trs, Oliver saiu e foi para casa.
       Sam estava brincando com a cobaia na cozinha quando Oliver chegou, como se tivesse sido atropelado na rodovia de Santa Mnica.
       - Oi, papai. - Ergueu os olhos, com um largo sorriso e ficou parado, esquecendo a cobaia por um instante. - O que aconteceu?
       - Nada. Tive um dia terrvel no escritrio. Vou para a cama. - Passou a mo na cabea de Sam e foi direto para o quarto.
       Sam correu para o quarto da irm, apavorado.
       - Aconteceu alguma coisa com o papai! - informou ele. - Acaba de chegar em casa, e ele est verde.
       - Talvez esteja doente. Voc perguntou o que houve? - Ele disse que teve um dia ruim no escritrio.
       - Talvez seja isso. Por que voc no se acalma e o deixa em paz? Provavelmente amanh ele estar bom.
       Mas no estava. Todos notaram. Muito plido, Oliver no disse uma palavra. Desceu tarde e nem tocou nos ovos preparados por Aggie. Sam trocou olhares com 
a irm.
       - Est doente, papai? - Mel procurou ser casual. Ento Sam acertou em cheio, e Oliver quase se encolheu quando o filho perguntou:
       - Voc brigou com Charlie ontem  noite? - No,  claro que no.
       Mas ela no tinha telefonado quando ele chegou, e Oliver passou a noite em claro. O terror de perd-la era mais do que ele podia suportar. E a que preo. 
Amava-a demais para tentar agarrar-se a uma coisa que no podia ter, exatamente como havia descoberto que jamais tivera Sarah.
       Foi para o escritrio sentindo-se como um zumbi e quase estremeceu quando sua secretria disse que Charlotte estava na sala de espera. De repente, Oliver 
teve medo de mand-la entrar, de v-la, de ouvir o que ela ia dizer. Quando a secretria, completamente encantada, abriu a porta para Charlotte, ele sentiu-se encurralado 
e no se levantou porque no tinha fora nas pernas.
       - Voc est bem? - Charlie olhou para ele, preocupada, e aproximou-se da mesa, muito plida, mas no mais do que Oliver.
       - Voc j resolveu, certo?
       Ela fez um gesto afirmativo, deixando-se cair na cadeira, na frente da mesa.
       - Tive de vir agora. Vai dar no noticirio das seis. Os produtores da pea fizeram um acordo com a rede de televiso e concordaram em me tirar do programa 
no Natal. 
       - Natal... o dia do seu casamento... ou quase.
       - E voc vai fazer a pea? - As palavras saam com dificuldade.
       Ela balanou a cabea afirmativamente, muito tensa. - Acho que sim. - Inclinando-se para a frente, segurou as duas mos dele e pediu: - No podemos chegar 
a um acordo? 
       No podemos pelo menos tentar? Eu o amo. Nada mudou. - Parecia desesperada, mas Oliver tinha mais experincia.
       - Talvez agora no. Ainda no. Mas, com o tempo, vai ser demais. Seremos dois estranhos. Voc, morando em Nova York, com sua vida, sua pea. Eu aqui, com 
meu trabalho e meus filhos. Que tipo de vida ser essa?
       - Difcil, um desafio, mas que vale a pena. Outras pessoas fizeram isso e sobreviveram. Ollie, eu juro, ficam por minha conta as viagens sempre que eu tiver 
folga.
       - Como? Voc tem dois dias. Um voando para c, outro para voltar. Ns ficamos com o qu? Uma noite, no aeroporto? Quanto tempo voc acha que isso vai durar? 
- Finalmente ele levantou-se da cadeira e ficou na frente dela. - Voc fez a escolha certa.  uma mulher talentosa, Charlotte. Tem direito ao melhor.
       - Mas eu o amo.
       - Eu tambm a amo. Mas no posso fazer dar certo uma coisa impossvel. J aprendi essa lio antes. Do modo mais difcil. - As cicatrizes eram muito profundas, 
a dor grande demais, e, olhando para a mulher que ele amava, Oliver sabia que acabava de perd-la.
       - O que acontece agora? - Ela estava arrasada, mas no contestou.
       - Sofremos por algum tempo. Crescemos. Continuamos. Voc tem seu trabalho. Eu tenho meus filhos. Procuramos nos consolar com isso e, um dia, a dor desaparece. 
- Como tinha acontecido com Sarah. Apenas um ano de agonia constante. S isso. E de certo modo, perder Charlotte parecia pior. Tinham tantas esperanas, tantos planos, 
tanto amor, e agora estava tudo acabado.
       - Voc faz parecer muito simples, Ollie. - Ergueu para ele os olhos magoados, e Oliver segurou a mo dela com carinho.
       - Este  o nico problema. No  simples.
       Depois de alguns minutos, ela saiu do escritrio, chorando, e Oliver, antes de ir para casa, tomou uma dose dupla de usque no bar. Ao lado de Sam, Aggie 
via o noticirio, enquanto dava comida para Alex. O apresentador dizia para toda Los Angeles que se comentava que Charlotte Sampson ia deixar o programa na televiso 
para atuar numa pea na Broadway.
       Sam riu, e Aggie deu um biscoito para Alex.
       - Que bobagem, no , papai? Charlie no vai para Nova York. Ela vai ficar aqui e vamos nos casar. - Olhou para o pai e o sorriso gelou nos seus lbios.
       Oliver olhou para a televiso, depois para o filho, e balanou a cabea como se estivesse num transe.
       - No. Acho que no, meu filho. Ela teve uma boa oferta para atuar numa pea importante. Significa muito para a carreira dela, Sam.
       Aggie e Sam olharam estupefatos para ele. Benjamin entrou nesse momento e percebeu a tenso. Alex, com um grito de alegria, estendeu os braos para o pai, 
mas, pela primeira vez, ningum o ouviu.
       - Vamos voltar para Nova York, papai? - Sam parecia assustado e esperanoso ao mesmo tempo.
       Oliver balanou a cabea, sentindo que tinha envelhecido cem anos naquele dia.
       - No podemos, Sam. Vocs esto na escola. E eu preciso dirigir o escritrio. No posso levantar acampamento e me mudar uma vez por ano.
       - Mas voc no quer ir? - Sam no compreendia o que estava acontecendo. Na verdade, nem Oliver compreendia ainda.
       - Sim, eu quero. Mas tambm no pretendo interferir na vida de outra pessoa. Ela tem sua vida e ns temos a nossa. Um momento de silncio e ento, com um 
gesto afirmativo, Sam enxugou uma lgrima. Oliver e Benjamin olhavam para ele.
       - Mais ou menos como mame, no ? - Mais ou menos.
       Sam saiu da cozinha, Benjamin tocou o brao do pai levemente, e Aggie tirou Alex da cadeira e foi ver o que Sam ia fazer. Dava para perceber que os tempos 
difceis tinham voltado, e Sam ia sofrer. Ele adorava Charlotte. Mas, afinal, Oliver tambm a adorava.
       - Posso fazer alguma coisa, papai? - perguntou Benjamin, comovido com a dor que via nos olhos de Oliver. Ele balanou a cabea, apertou o brao do filho e 
subiu para o quarto. Passou a noite toda pensando nela, e de manh sentia-se como se tivesse levado uma surra.
       No era justo que acontecesse a ele outra vez. No era justo que a perdesse. Queria odi-la, mas no podia. Amava-a demais, e a ironia de tudo aquilo o assaltou 
com mais fora de manh, depois da noite insone, quando jogou fora os folhetos sobre Bora Bora. Tinha o talento de se apaixonar por mulheres que queriam mais da 
vida do que um simples casamento. No podia nem imaginar a possibilidade de amar outra vez. Olhando pela janela e pensando em Charlotte, no conseguiu conter as 
lgrimas. Ele a desejava desesperadamente, mas sabia que no podia dar certo. Tinha de deix-la partir, por mais dolorosa que fosse a separao.
       Durante o dia inteiro pensou em telefonar para ela, mas no conseguiu. O nome dela apareceu em todos os jornais, por vrios dias, mas Charlotte no telefonou. 
S no feriado de Ao de Graas Oliver comeou a ouvir o nome dela sem estremecer. Queria que ela fosse logo para Nova York a fim de no ser tentado a passar de 
carro por sua casa, ou pelo estdio, para v-la. Ento ela estaria longe, para viver outra vida, separada da dele. Para sempre.
       
       
       
Captulo 29
       
       Na vspera do dia de Ao de Graas, Sarah chegou para levar Mel e Sam a San Francisco, onde ela ia visitar uns amigos. Concordou em levar Aggie e Alex tambm. 
Benjamin ia esquiar em Squaw Valley. Sarah havia terminado seu livro na semana anterior, e Oliver achou-a muito bem. O mais estranho para ele foi que, quando a beijou 
no rosto, foi como se beijasse uma estranha. No a desejava mais, e seu perfume no parecia familiar. A mulher que vivia nos seus sonhos era Charlie. Seu corao 
se apertava cada vez que pensava nela ou via seu nome nos jornais.
       - Quando vocs vo se casar, Ollie? - perguntou Sarah, com Alex no colo, de manh, pouco antes de sarem para San Francisco.
       Oliver sobressaltou-se.
       - Pensei que as crianas tinham contado - disse ele, em voz baixa e tensa.
       - Contado o qu? - perguntou Sarah, surpresa, com Alex babando na sua blusa limpa. Estava na cozinha, esperando que Aggie acabasse de arrumar as coisas de 
Mel, Sam e Alex.
       - Charlotte vai fazer uma pea na Broadway. Na verdade, deve partir logo. Ento, bem... resolvemos que isso era melhor para ela do que o casamento. - Ele 
sorriu, mas no enganou Sarah. Ela o conhecia muito bem. E sentiu profundamente por ele. No era igual ao que tinha sofrido com a morte de Jean-Pierre, mas qualquer 
perda era dolorosa. - Acho que tenho o dom de me apaixonar por esse tipo de mulher. Inteligente e ambiciosa.
       - Algum dia voc vai encontrar a pessoa certa, Ollie. Voc merece. - Sarah falava com sinceridade.
       - No estou muito certo de que terei tempo para ela, se encontrar. - Sorriu, procurando disfarar a dor, e olhou para Alex. - Este garoto nos mantm ocupados 
o tempo todo.
       Benjamin tirou Alex do colo de Sarah e o levou para a cadeirinha na perua Pontiac, alugada por Sarah. No gostava da idia de ficar longe do filho, mas Oliver 
o convenceu de que ia lhe fazer bem esquiar um pouco. Era bom Sarah levar as crianas naquele momento. O golpe da separao deixara Oliver muito abatido.
       Sarah partiu com os filhos, o neto e Aggie, e logo depois os amigos de Benjamin apareceram para apanh-lo. Oliver ficou sozinho, examinando a correspondncia. 
O silncio pare cia estranho e, recostando-se na cadeira, perguntou a si mesmo se gostava ou no daquele intervalo de sossego. Logo comeou a pensar em Charlie e 
em Sarah. Imaginou se as coisas podiam ter sido diferentes, com uma ou outra, mas sabia que no. Talvez, se tivessem feito as coisas de outro modo, no princpio, 
Sarah no teria se rebelado mais tarde. No, isso era tolice, concluiu ele, voltando  correspondncia e s contas. Ela teria agido da mesma forma, de qualquer modo. 
Sarah nasceu para ser livre, para viver sozinha, para escrever seus livros, pensou ele. Como Charlie, com sua pea na Broadway, Megan, na sua cobertura, em Nova 
York e at Daphne, com o homem de Greenwich que jamais deixaria a mulher.
       A diferena era que Charlie parecia dar tanta importncia ao casamento, a filhos,  "vida real", e, no fim, acabou fazendo a mesma escolha que as outras. 
Independncia. Sua pea. Nova York. Com uma promessa de visitas regulares, que jamais seria cumprida, por melhores que fossem suas intenes.
       A tarde ia caindo quando ele deixou a mesa de trabalho e foi preparar um sanduche. Ento ele a viu l fora, parada perto do carro, hesitante. Era Charlie, 
com camiseta e jeans, com o rabo-de-cavalo que a fazia parecer uma das amigas de Mel e no a mulher que tinha partido seu corao e desfeito o noivado. Ela ficou 
l parada durante longo tempo, olhando para ele, do outro lado da janela, e Oliver sem saber se abria ou no a porta. Se ela estava ali para se despedir, era uma 
crueldade. Finalmente, cedendo  grande atrao que ainda sentia, foi at a porta e abriu-a. Charlotte caminhou para ele, visivelmente nervosa.
       - Eu no sabia se voc estava em casa ou no... ia deixar um bilhete. - O papel estava na mo dela, mas Oliver no queria ler. - Acho que eu devia ter telefonado 
antes.
       - O correio seria muito mais simples. - No tinha nada para dizer a ela agora. Tudo fora dito. E j tinha chorado muitas vezes.
       Ela olhou para dentro, como se esperasse ver as crianas na cozinha, mas a casa estava vazia e silenciosa.
       - Como vo todos?
       Seus olhos se encontraram, e ele fez um gesto afirmativo, procurando ainda descobrir o motivo da visita.
       - Bem.
       - Ainda sinto falta deles - confessou ela, tristemente e com ar de culpa. No havia procurado explicar nada aos filhos dele. Teria sido doloroso demais.
       - Eles tambm sentem falta de voc. - Como vai Alex?
       - Muito bem. - Ollie sorriu. - Benjamin  formidvel com ele.
       - Onde esto?
       - Vo passar fora os feriados de Ao de Graas. - Por um momento, pensou em convid-la para entrar, mas isso no ia resolver nada, s podia aumentar o sofrimento. 
       Mas ento, dando de ombros, ele recuou um passo. - Quer entrar um pouco?
       Com um gesto afirmativo ela entrou com ele na cozinha, pensando no quanto Oliver era bonito e no quanto o amava. Olhou em volta e guardou o bilhete no bolso.
       - Quando vai para Nova York?
       Charlotte hesitou, como se no soubesse o que dizer. Sabia o quanto ele estava magoado, e ela no podia reparar isso. Agora, teria de explicar muita coisa. 
No sabia por onde comear, ou mesmo se devia comear.
       -  uma longa histria.
       - Voc deve estar satisfeita. - Oliver tentou falar com naturalidade, mas no conseguiu. Havia em sua voz raiva e dor e mgoa e o amor que sentia por ela 
e que no o deixava, por mais que ele tentasse livrar-se dele.
       - Aconteceu muita coisa. - Ela comeou a explicar. Charlotte no disse que as ltimas semanas tinham sido um inferno para ela. Via nos olhos dele que era 
tarde demais. 
       Era tolice estar ali.
       - Quer um caf? - ofereceu ele.
       Uma parte dele queria que ela fosse embora, para ficar sozinho com seu sofrimento, mas a outra queria que ela ficasse. Para sempre.
       A expresso dos olhos dela dizia que, apesar do rabo-de-cavalo, Charlotte era uma mulher, no uma menina. Eram olhos de quem havia pagado o preo do que tinha 
escolhido. 
       Ento, ela disse, suavemente:
       - No vou para a Broadway, Ollie.
       - No vai? - Ele ficou atnito. De que ela estava falando? Ela mesma tinha contado. Depois, ele viu na televiso e leu nos jornais. O que tinha mudado? Quando 
e por qu?
       - No, no vou, vou continuar com o programa, aqui. - Eles no rescindiram seu contrato?
       - Estavam dispostos a isso, mas...
       Ele esperou, atordoado, o fim da histria. - Eu resolvi que no era a coisa certa. - Para sua carreira? - murmurou ele.
       - Para ns. Mas acho que  tarde demais. Mas compreendi que no era a coisa certa. Comecei a pensar no que o casamento e a famlia significavam para mim e 
que eu estava me preparando para jogar tudo isso fora, por mais doloroso que fosse para mim, para voc, para seus filhos. "No era a coisa certa. Era um preo muito 
alto, desistir do homem que amo, por mais que eu quisesse ir para a Broadway. Era errado, e recusei o papel. Mesmo que eu no recupere nenhum de vocs, esta  a 
coisa certa. - Sorriu com amargura. - Eu me senti melhor logo que desisti.
       Oliver olhava para ela, espantado, depois deu um largo sorriso.
       - Eles devem ter ficado furiosos.
       - Ficaram. - Charlotte sorriu tambm. - Acho que esse  o fim da Broadway. Mas a televiso me ama ainda. - Fez uma pausa e continuou: - Fiquei com medo de 
telefonar para voc, Ollie.
       - Por qu?
       - Porque o feri profundamente. Num momento eu o abandono dizendo que vou para Nova York. No outro, volto e digo que est tudo bem. Eu no podia fazer isso 
com voc.
        o que digo no bilhete. Preferi contar, antes que voc lesse em algum lugar, e achei que, se quisesse se comunicar comigo, me procuraria. - Parecia no esperar 
mais nada dele, mas ia se arrepender do que tinha feito, pelo resto da sua vida. Ento, para aliviar a tenso, enquanto Oliver absorvia o que ela acabava de dizer, 
Charlotte procurou a gaiola de Charlie.
       - A propsito, como vai a minha xar?
       Ollie olhou para ela com um largo sorriso, sentindo que acabavam de tirar mil toneladas dos seus ombros.
       - Aquele filho da me barulhento foi relegado para a garagem, enquanto Sam estiver fora. J tenho bastante dificuldade para dormir, sem precisar ouvir suas 
brincadeiras.
       - Tambm no tenho dormido muito bem - disse Charlotte, como quem pede desculpas. - Arranjei mesmo uma encrenca daquelas, no  verdade, Ollie? - Falou em 
tom suave e triste.
       Oliver fez um gesto afirmativo.
       - Pode ser. - Sorriu para ela. - Talvez... talvez no. O que conta na vida  aquilo que voc faz por ltimo. Ns todos tropeamos no caminho.
       Estavam ainda de p no meio da cozinha, constrangidos, suas vidas em jogo, os olhos repletos de medo, dor e tenso. Tinham tanto a perder... e tanto a ganhar, 
dependendo do que ele fizesse agora.
       - Senti falta de voc, Ollie. Vou sentir sua falta durante um longo tempo, se no me perdoar. - Ela o amava bastante para voltar e pedir perdo. - Todos os 
dias eu tinha vontade de telefonar... pedir para voc vir para mim... dizer que eu sentia muito... que fui uma tola... pensando que a pea na Broadway era mais importante 
do que voc. Foi uma deciso idiota, mesmo reconhecendo meu erro, no fim.
       - Mas foi sincera - disse ele, defendendo-a. - Era o que voc sempre desejava. Tinha direito a fazer isso, Charlie. - Eu queria voc muito mais. Mas s tive 
certeza quando o perdi. E ento, era muito tarde.
       Os olhos dele diziam que era tarde demais, e Charlotte arrependeu-se de ter ido procur-lo. Mas Oliver aproximou-se dela com uma expresso estranha.
       - Quem disse isso? - murmurou Oliver, puxando-a carinhosamente para ele. - Quem disse que era muito tarde? E quem disse que voc estava errada e eu estava 
certo? 
       Disse a mim mesmo, milhares de vezes, que eu podia voltar para Nova York com voc, que podamos morar na casa em Purchase. Que direito eu tinha de ficar no 
seu caminho?
       - Tinha todo direito... voc tinha de pensar nos seus filhos tambm. Eu s estava pensando em mim.
       - E agora? - Oliver mal conseguia falar, sentindo-a to perto. Amava-a demais. Era at dolorosa aquela proximidade. - Ollie, eu o amo tanto - murmurou Charlotte. 
       Ento ele a beijou. Era tudo que queria ouvir, tudo que realmente importava, tudo pelo qual ele estava vivendo desde a separao.
       - Eu tambm a amo... nunca vai saber quanto senti sua falta. Pensei que ia ficar louco...
       - Eu tambm. - Agora ela estava sorrindo. Oliver ergueu-a do cho e atravessou a cozinha.
       - Aonde vai me levar? - quis saber Charlotte, rindo. De repente ela estava feliz outra vez. Encontrava-se nos braos do homem que amava. Ele no a odiava, 
e tinha sofrido tambm. Foi tudo uma tolice, mas graas a Deus no fora para a Broadway.
       - O que voc est fazendo?
       Oliver subiu a escada com passos solenes.
       - Vou lev-la para o meu quarto, que  o seu lugar, at voc aprender a se comportar... droga de atriz famosa... nunca mais crie uma confuso igual a essa! 
- Entrou com ela no quarto que parecia familiar, aconchegante e maravilhoso.
       - Ollie, eu sinto tanto...
       Ele ainda a segurava no colo, como se no fosse larg-la nunca mais.
       - No sinta - disse, com um sorriso. - Fui to tolo quanto voc.
       - E agora? - Ergueu os olhos, quando ele a colocou na cama.
       - Acho que somos dois tolos e que um merece o outro. Ela sorriu e ergueu os braos para ele. Foi um fim de semana mgico, passado quase todo na cama dele. 
Quando Sarah deixou as crianas em casa, a caminho do aeroporto para tomar o avio para Boston, Charlotte estava na cozinha, de jeans, com uma camiseta de Oliver 
e descala. 
       Sarah entrou para se despedir e ficou surpresa quando viu Charlotte despenteada e feliz.
       - Essa  quem eu estou pensando? - murmurou Sarah, com um sorriso, quando Oliver a acompanhou at o carro. Oliver tentou apresentar as duas, mas Mel e Sam 
fizeram tanto estardalhao que era impossvel ouvir qualquer coisa, e Charlotte ficou embaraada por estar descala na cozinha de Oliver.
       - Sim, .
       - Isso significa que voc vai voltar para Nova York? - perguntou Sarah, com um sorriso irnico, e feliz por ele, entrando no carro. Ela e as crianas tinham 
se divertido muito.
       - No, no vou para Nova York. - Oliver tentou disfarar a satisfao. - Ela vai ficar - disse ele, afinal.
       - Vai? - Sarah ficou impressionada.
       - Acho que tive sorte - disse ele. - Desta vez.
       - No, Ollie. - Sorriu para ele, o passado no representando mais uma lembrana dolorosa. - Ela  uma mulher muito inteligente. Parabns aos dois, ou estou 
sendo precipitada?
       - Um pouco. - Ele sorriu, e ento os dois riram. - Boa sorte, ento. - Sarah acenou um adeus e saiu com o carro.
       Oliver voltou  cozinha e olhou, incrdulo ainda, para Charlotte que, com um brao em volta da cintura de Sam, segurava Alex no outro, enquanto falava animadamente 
com Mel, e Aggie preparava chocolate quente no meio da confuso.
       - Nem posso acreditar na minha boa sorte - murmurou ela para Oliver quando se sentaram  mesa da cozinha. - Quem tem sorte sou eu.
       - Ns dois. - Charlotte lembrou-se do anel que tinha devolvido, imaginando o que teria acontecido com ele. Ergueu os olhos e viu que Oliver estava rindo.
       - Qual  a graa?
       - Voc  engraada. E em resposta  sua pergunta, eu o joguei fora. - Na verdade, Oliver no teve coragem de devolver a jia que estava no cofre do seu quarto.
       - Como adivinhou o que eu estava pensando?
       - Porque estou mais esperto do que antes, e porque a amo.
       Trocaram um sorriso longo e terno, por cima da cabea de Alex, e Oliver teve a impresso de que acabava de acontecer um milagre. Um milagre que a trazia de 
volta para ele, quer a merecesse ou no.
       - Quer trocar o diamante por uma aliana simples de ouro? - Oliver queria segur-la antes que ela mudasse de idia, ou que lhe oferecessem outro papel no 
teatro, ou num filme com um belo ator. No estava certo de poder esperar mais quatro semanas at o Natal.
       Charlotte balanou a cabea, dizendo que sim. E seus olhos confirmavam tudo que Oliver precisava saber. Estava ali para ficar e teria tudo, a vida com ele 
e a carreira, enquanto ela quisesse. Dessa vez, sabiam que era possvel. Charlotte fez sua escolha. E essa escolha era ficar com ele e com os filhos dele.
       Mas tinha o programa tambm. E o Emmy, e uma cobaia e o homem que ela amava, trs filhos maravilhosos, e at um neto. E teria filhos seus, se quisesse. Oliver 
estava disposto a dar tudo a ela. Naquelas semanas tinha aprendido muito.
       - Quando?
       Oliver tirou Alex do colo dela e o entregou a Aggie que, puxando Sam pela mo, os deixou a ss para resolver seu futuro.
       - Amanh? Na semana que vem? - respondeu Charlotte, rindo.
       - No mais tarde do que isso. - Oliver franziu a testa, puxou-a para ele e a beijou, no momento em que Benjamin apareceu na porta com a mochila de esqui nas 
costas.
       - Desculpe, papai - disse ele, sorrindo satisfeito quando viu Charlotte.
       Oliver, sem se voltar, sacudiu um brao no ar, e Benjamin saiu da cozinha, com um largo sorriso. Beijaram-se outra vez, depois comearam a rir.
       - No prximo fim de semana? - perguntou ele, feliz, mas desesperado.
       - Amanh. - Ela sorriu suavemente, marcando a data do casamento que eles quase haviam perdido.
       - Eu amo voc - murmurou Oliver, sentindo o corao dela bater quase to forte quanto o dele.
       - Eu tambm o amo - disse ela, no mesmo tom, e  distncia ouviam as crianas subindo a escada de forma barulhenta.
       Eles riam, comentavam a boa notcia, que, at o fim da semana, estaria em todos os jornais. Mas ento Charlotte Sampson e Oliver Watson j estavam casados 
e no Hava, onde iam passar uma semana, com a permisso do produtor do programa. Quando voltaram, os paparazzi estavam  sua espera e tiraram dezenas de fotografias 
no aeroporto.
       Benjamin e Alex os esperavam, o primeiro com um largo sorriso, o segundo dormindo profundamente nos braos do pai.
       - Espero que o nosso seja to bonito quanto ele - murmurou Charlotte para Oliver, acompanhando Benjamin  rea de bagagem.
       Oliver passou o brao pela cintura da sua mulher e sorriu. Isso no o preocupava. Agora tinha tudo, a vida que desejava e uma mulher que a fazia valer a pena 
ser vivida. Sabia, sem sombra de dvida, que era o homem mais feliz da terra. - Tudo pronto? - perguntou, enquanto Benjamin o ajudava a carregar as malas.
       Quando saam do aeroporto, uma mulher correu para eles, com um grito de alegria.
       - Voc no ... voc no  Charlotte Sampson?
       - No. - Charlie balanou a cabea, amavelmente. - O nome  Watson.
       - Oh! - A mulher pediu desculpas e desapareceu. Os trs riram, Alex dormia, e Oliver e Charlotte foram para casa e para seus filhos.
       
       
       

http://groups-beta.google.com/group/Viciados_em_Livros
http://groups-beta.google.com/group/digitalsource
